O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 29 de 83

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O Historiador

Capítulo 26

Barley estava furioso. Não podia culpá-lo, mas aquela era uma alteração extremamente inconveniente aos meus projetos e também fiquei um pouco furiosa. A raiva era ainda maior porque, à primeira pontada de irritação, seguiu-se uma onda secreta de alívio; antes de o ver, não me apercebera de como me sentia absolutamente sozinha naquele comboio, rumando para o desconhecido, talvez para a solidão ainda maior de não ser capaz de encontrar o meu pai, ou para a solidão galáctica de o perder para sempre. B arley fora um estranho para mim até há poucos dias, e agora o seu rosto era o que eu tinha de mais familiar.

Naquele momento, contudo, o rosto dele ainda estava zangado.

— Onde diabo pensa que vai? Obrigou-me a fazer uma bela perseguição! Afinal, o que é que está a tramar?

Deixei para mais tarde a resposta à última pergunta.

— N ão era minha intenção preocupá-lo, B arley. P ensei que se tivesse ido embora no ferry e que nunca saberia de nada.

— Sim, e voltaria a correr para o reitor J ames dizendo-lhe que estava sã e salva em Amsterdã e depois recebia a notícia de que você tinha desaparecido. Ah, realmente, a minha cotação junto dele teria subido muito. — Atirou-se para a poltrona ao meu lado, cruzou os braços e as pernas compridas. T razia a sua pequena mala e a parte da frente dos seus cabelos cor de palha estava em pé. — O que é que lhe deu?

— Por que é que estava a espiar-me? — rebati

— O ferry atrasou-se esta manhã, para reparações. — Agora, parecia não conseguir evitar um leve sorriso. — E u estava com uma fome de leão e voltei atrás alguns quarteirões para comprar chá e uns pãezinhos, e foi aí que a vi a escapulir-se na direção contrária, lá longe na rua, mas não tinha certeza de que fosse mesmo você. P ensei que podia estar a imaginar coisas, sabe, por isso fiquei e tomei o pequeno-almoço. M as a minha consciência falou mais alto, porque, se fosse mesmo você, eu estaria em maus lençóis. E ntão, corri naquela direção e vi a estação, vi-a a subir para o comboio e achei que me ia dar um ataque de coração. — Fulminou-me com os olhos outra vez. Deu-me uma trabalheira esta manhã. T ive de ir a correr comprar um bilhete e por pouco não tinha florins suficientes, ainda por cima — e revirar o comboio inteiro à sua procura. E agora já está a andar há tanto tempo que não podemos descer aqui. — Os seus olhos brilhantes e estreitos voltaram-se para a janela e depois para a pilha de envelopes no meu colo. — I mporta-se de me explicar por que está no expresso de Paris e não na aula de História? O que podia eu fazer?

— Desculpe, B arley — disse humildemente. — N ão queria, nem por um minuto, envolvê-lo nesta história. Realmente, pensei que se tivesse ido embora há muito tempo, e voltasse para falar com o reitor J ames com a consciência limpa. N ão estava a procurar causar-lhe qualquer problema.

— Ah, não? — E ra evidente que ainda esperava mais esclarecimentos. — Quer dizer

que muito simplesmente teve vontade de ir a Paris em vez de assistir à aula de História?

— N ão — comecei, a tentar ganhar tempo —, é que o meu pai mandou-me um

telegrama a dizer que estava bem e que eu devia ir ter com ele a Paris.

Barley ficou calado por um momento.

— Desculpe, minha cara, mas isso não explica tudo. Se tivesse recebido um telegrama,

provavelmente teria chegado ontem à noite, e eu teria sabido. E há alguma dúvida de que o seu pai não esteja "bem"? P ensei que estivesse fora em negócios. O que é isso que está a ler?

— É uma longa história — disse eu devagar — e sei que me acha estranha... — Terrivelmente estranha — interrompeu-me B arley, aborrecido. — M as é melhor

contar-me o que está a tramar. Temos tempo, antes de descermos em B ruxelas e apanharmos o próximo comboio para Amsterdã.

— N ão! — N ão pretendera gritar daquela maneira. A senhora à nossa frente mexeu-se

no seu sono leve e eu baixei o tom de voz. — Tenho de ir a P aris. E stou bem. V ocê pode descer em Bruxelas, se quiser, e voltar para Londres esta noite.

— "V ocê pode descer em B ruxelas", hem? Quer dizer que você não vai descer lá? Até

onde é que vai este comboio?

— Não, ele pára mesmo em Paris...

E le cruzara os braços e estava novamente à espera. E ra pior que o meu pai. Talvez pior

do que o professor Rossi jamais fora. T ive uma breve visão de B arley de pé na frente de uma sala de aula, os braços cruzados, os olhos passeando pelos pobres estudantes, a voz ríspida: "E o que foi afinal que levou M ilton à sua terrível conclusão sobre a queda de Satã? Ou será que ninguém leu o texto?"

Engoli em seco.

— É uma longa história — repeti, mais humilde ainda. — Temos tempo — disse Barley.

 

H elen e Turgut e eu entreolhamo-nos em volta da nossa pequena mesa de

restaurante, e senti um clima de companheirismo estabelecer-se entre nós. Talvez para ganhar tempo, Helen pegou na pedra azul redonda que Turgut colocara junto do seu prato e estendeu-ma.

— Isto é um símbolo antigo — explicou. — É um talismã contra o mau-olhado. P eguei na pedra, senti a sua pesada suavidade, aquecida pela mão dela, e voltei a pô-

la em cima da mesa.

Mas Turgut não se distraía tão facilmente.

— A senhora é romena?

Ela não respondeu.

— Se for verdade, deve ter muito cuidado por aqui. — B aixou um pouco a voz. — A polícia pode estar muito interessada em si. O nosso país não mantém relações amigáveis com a Romênia.

— Eu sei — disse ela friamente.

— M as como é que a cigana sabia? Turgut franziu a testa. — A senhora não falou com ela.

— Não sei — Helen levantou os ombros, resignada. Turgut balançou a cabeça.

— Algumas pessoas dizem que os ciganos têm o dom de uma visão especial. N unca acreditei nisso, mas... — interrompeu-se e limpou o bigode com o guardanapo — é muito estranho que ela tenha falado de vampiros.

— É? — retorquiu Helen. — Deve ser louca. Os ciganos são todos loucos.

— Talvez, talvez Turgut — calou-se. — N o entanto, é muito estranho o modo como ela falou, talvez porque essa seja a minha outra especialidade.

— Ciganos? — perguntei.

— N ão, caro senhor, vampiros. — H elen e eu fitamo-lo, com cuidado para não cruzarmos os nossos olhares. — Shakespeare é o meu trabalho, mas as lendas de vampiros são o meu passatempo. Temos uma antiga tradição de vampiros aqui.

— É... uma tradição turca? — perguntei, surpreendido.

— Ah, a lenda remonta ao E gito antigo, caros colegas. M as, aqui em I stambul, para começar, há uma história de que os mais sanguinários imperadores de B izâncio teriam sido vampiros, de que alguns deles interpretavam a comunhão cristã como um convite para sorver o sangue dos mortais. Mas eu não acredito. Creio que apareceu mais tarde.

— B em... — E u não queria demonstrar um interesse excessivo, mais por medo de que H elen me atingisse novamente o pé por baixo da mesa do que por estar convencido de que Turgut estava do lado dos poderes das trevas. M as H elen também estava a olhar para ele. — E a lenda de Drácula? Já ouviu falar dela?

— Ouvi falar? — resfolegou Turgut. Os seus olhos escuros brilharam e torceu o guardanapo num nó. — Sabiam que Drácula foi uma pessoa real, uma figura histórica? I nclusive era um seu patrício, minha senhora — e inclinou-se para H elen. — E ra um senhor, um voivoda, nos C árpatos ocidentais do século quinze. N ão era uma pessoa das mais admiráveis, sabe.

H elen e eu fazíamos que sim com a cabeça não conseguíamos evitar. P elo menos, eu não conseguia, e ela parecia estar demasiado concentrada nas palavras de Turgut para se controlar. E stava um pouco inclinada para a frente, a ouvir, e os seus olhos brilhavam com a mesma profunda escuridão dos dele. Um pouco de cor desabrochara por baixo da sua habitual palidez. E ra um dos muitos momentos, observei, mesmo no meio da minha própria excitação, em que a beleza subitamente tomava conta da sua fisionomia severa, iluminando-a de dentro para fora.

— B em... — Turgut ia-se entusiasmando com o assunto. — N ão tenho a intenção de os aborrecer, mas tenho uma teoria de que Drácula é uma figura muito importante na história de I stambul. Sabe-se que, quando era ainda um rapazinho, foi mantido em cativeiro pelo sultão M ehmed I I em G alípoli, e depois mais a leste, na Anatólia. Foi o seu próprio pai que o entregou ao pai de M ehmed, o sultão M urad I I , como refém por causa de um tratado, de 1442 a 1448, seis longos anos. O pai de Drácula também não era nenhum cavalheiro. — Turgut deu uma risadinha. — Os soldados que vigiavam o rapaz eram mestres na arte da tortura, e ele deve ter aprendido bastante enquanto os observava. M as, meus caros senhores — no seu fervor acadêmico, esquecera-se de que H elen pertencia a outro gênero, — tenho a minha própria teoria de que ele deixou a sua marca neles, também.

— O que quer dizer com isso? — Eu começava a respirar com dificuldade. — Desde aquela época, mais ou menos, há registros de vampirismo em I stambul. A

minha idéia que ainda não foi publicada, ai de mim, e não posso prová-la é que os Turcos estavam entre as suas primeiras vítimas, talvez os guardas, que se tornaram seus amigos. A minha teoria é que ele deixou um foco de contaminação no nosso império, que depois deve ter sido levado para dentro de Constantinopla com o Conquistador.

Ficamos a olhar para ele, sem palavras. L embrei-me de que, de acordo com as lendas,

apenas os mortos se transformavam em vampiros. I sto significaria que Vlad Drácula fora realmente morto na Ásia M enor e tornara-se um morto-vivo ainda muito jovem, ou que o interesse por libações ímpias surgira muito precocemente na sua vida, e ele despertara o mesmo noutros? Arquivei esta pergunta para a fazer a Turgut, se um dia viesse a conhecê-lo suficientemente bem.

— Ah, este meu excêntrico passatempo, sabem como é... — Turgut voltou a fazer o seu

sorriso jovial. — B em, perdoem-me por ter tomado conta da conversa. A minha mulher diz que sou insuportável. — B rindou-nos com um gesto sutil e cortês antes de beber novamente um gole do seu pequenino copo. — M as tenho provas de uma coisa! Tenho provas de que os sultões o temiam como um vampiro! — e fez um gesto na direção do teto.

— Provas? — repeti.

— Sim! Descobri-as há alguns anos. O sultão tinha tanto interesse em Vlad Drácula

que, quando Drácula morreu na Valáquia, reuniu aqui alguns dos seus documentos e objetos pessoais. Drácula matou muitos soldados turcos no seu próprio país, e o nosso sultão odiava-o por isso, mas não foi por esse motivo que ele fundou o arquivo. N ão! O sultão chegou a escrever uma carta ao paxá da Valáquia, em 1478, pedindo-lhe todos os escritos que conhecesse sobre Vlad Drácula. P orquê? P orque, disse ele, estava a criar uma biblioteca para lutar contra o mal que Drácula tinha disseminado na sua cidade após a morte. Vejam bem: por que motivo teria ainda medo de Drácula, se Drácula estava morto, se não acreditasse que ele poderia voltar? E ncontrei uma cópia da carta que o paxá escreveu como resposta ao sultão. — B ateu com um punho na mesa e sorriu para nós. — E ncontrei, inclusivamente, a biblioteca que ele criou para combater o mal.

H elen e eu permanecemos imóveis. A coincidência era quase insuportavelmente estranha. Finalmente, arrisquei uma pergunta.

— P rofessor, por acaso essa biblioteca foi criada pelo sultão M ehmed I I ? — Desta vez, foi a vez de ele nos encarar.

— Meu Deus, o senhor é mesmo um grande historiador. Tem interesse por esse período da nossa História?

— Ah... muito — concordei. — Teríamos... — eu teria muito interesse em ver esse arquivo que encontrou.

— M as é claro — disse. — C om grande prazer. V ou mostrar-lho. A minha mulher vai ficar boquiaberta com o fato de alguém o querer ver — deu outra risadinha. — M as, ai de mim, o belo edifício que outrora o abrigava foi demolido para dar lugar a um serviço do M inistério das E stradas... há uns oito anos. E ra um pequeno edifício adorável próximo da Mesquita Azul. Uma pena.

Senti-me empalidecer. E ntão era essa a razão da dificuldade em localizar o arquivo de Rossi.

— Mas os documentos...?

— N ão se preocupe, meu caro senhor. E u mesmo me certifiquei de que passassem a fazer parte do acervo da B iblioteca N acional. M esmo que mais ninguém os adore tanto como eu, devem ser preservados. — Uma sombra passou-lhe no rosto pela primeira vez desde que enxotara a cigana. — Ainda há muito mal a combater na nossa cidade, como em toda a parte. — Olhou de um parao outro. — Se gostam de velhas curiosidades, amanhã levá-los-ei com muito prazer ao arquivo. C onheço bem o bibliotecário que os pode autorizar a examinar a coleção.

— M uito obrigado — não ousei olhar para H elen. — E como... como é que se interessou por este assunto tão pouco comum?

— Ah, é uma longa história — replicou Turgut, muito sério. — N ão me posso permitir aborrecê-los assim tanto.

— Não estamos aborrecidos, de maneira nenhuma — insisti.

— O senhor é muito amável. — Ficou em silêncio por alguns minutos, acariciando o garfo entre o polegar e o indicador.

Fora da nossa alcova de alvenaria, carros buzinavam, desviavam-se de bicicletas nas ruas cheias de gente e transeuntes iam e vinham como personagens a atravessar um palco mulheres com saias estampadas esvoaçantes, écharpes e brincos de pingentes de ouro, ou com vestidos pretos e cabelos avermelhados, homens de fato e gravata ocidentais e camisas brancas. O sopro de uma brisa suave, salgada, alcançou-nos na nossa mesa, e imaginei navios de toda a E urásia trazendo as suas riquezas para o coração de um império primeiro cristão, depois muçulmano — e aportando a uma cidade cujas muralhas se estendiam até ao mar. A fortaleza rodeada de florestas de Vlad Drácula, com os seus bárbaros rituais de violência, parecia realmente estar muito afastada daquele mundo antigo, cosmopolita. N ão era de admirar que ele e os Turcos se odiassem mutuamente, pensei. E , ainda assim, os turcos de I stambul, com os seus artefatos de ouro e latão e seda, os seus bazares e as suas livrarias e miríades de casas de oração, devem ter tido muito mais em comum com os bizantinos cristãos que conquistaram a sua terra do que com Vlad, que os desafiava da fronteira. V isto daquele centro de cultura, parecia mais um criminoso de periferia, um ogre provinciano, um rústico medieval. L embrei-me do retrato dele que vira numa enciclopédia uma xilogravura de um rosto elegante, de bigodes, emoldurado por trajes de corte. E ra um paradoxo.

Eu estava perdido nessas imagens quando Turgut falou novamente. — Digam-me, companheiros, o que os faz interessarem-se por este tema, por Drácula?

— E le tinha posto a bola do nosso lado, com um sorriso cavalheiresco — ou seria desconfiado?

Olhei para Helen de soslaio.

— B em, estou a estudar o século quinze na E uropa como pano de fundo para a minha

tese disse, — e fui imediatamente punido pela minha falta de sinceridade pela sensação de que esta mentira podia já ser verdade. Só Deus sabia quando é que eu voltaria a trabalhar na minha tese, pensei, e a última coisa de que precisava era de um assunto ainda mais amplo. — E o senhor — insisti novamente, — como foi que saltou de Shakespeare para os vampiros?

Turgut sorriu — tristemente, pareceu-me, e a sua honestidade discreta puniu-me

ainda mais.

— Ah, é uma coisa muito estranha, foi há muito tempo. O senhor vê, eu estava a

trabalhar no meu segundo livro sobre Shakespeare, as tragédias. Sentava-me para trabalhar todos os dias num pequeno... como se diz, compartimento? na nossa seção de I nglês na universidade. Um dia, encontrei um livro que nunca ali vira antes. — V irou-se para mim novamente com aquele sorriso triste. N esta altura, eu já estava gelado. — E sse livro não era igual a nenhum outro, um livro em branco, muito antigo, apenas com um dragão no meio e uma palavra DRÁC UL A. N unca tinha ouvido falar de Drácula antes. M as a imagem era muito estranha e muito forte. E ntão pensei, preciso de saber o que é isto. E tentei saber tudo sobre ele.

H elen tinha-se petrificado à minha frente, mas agora agitava-se, como se estivesse

ansiosa.

— Tudo? — repetiu suavemente.

 

B arley e eu estávamos quase a chegar a B ruxelas. E u levara muito tempo embora

tivesse a impressão de que tinham sido só alguns minutos — para contar a B arley, do modo mais simples e claro possível, o que o meu pai me contara sobre as suas experiências na faculdade. B arley olhava fixamente para além de mim, pela janela, para as pequenas casas e jardins belgas, que pareciam tristes sob uma cortina de nuvens. V íamos aqui e ali um feixe de luz do sol a destacar a espiral de uma igreja ou uma velha chaminé industrial à medida que nos aproximávamos de B ruxelas. A senhora holandesa ressonava baixinho, a revista no chão, aos seus pés.

E u estava prestes a iniciar uma descrição da recente inquietação do meu pai, da sua palidez malsã e do seu estranho comportamento, quando Barley se virou para mim.

— I sso é terrivelmente bizarro — disse. — N ão sei por que é que hei-de acreditar nessa história louca, mas acredito. Quero acreditar, pelo menos. — L embrei-me de que nunca o vira sério; apenas divertido ou, momentaneamente, irritado. Os seus olhos, azuis como lascas de céu, estreitaram-se ainda mais. — O engraçado é que isso tudo me lembra alguma coisa.

— O quê? — E u estava quase a desmaiar de alívio pelo fato de ele parecer aceitar a minha história

— B em, isso é que é estranho. N ão consigo lembrar-me. Tem alguma coisa a ver com o reitor James. Mas o que será?