Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 8 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 7

 

21 DE MARÇO

Era hora do almoço e Sloane estava quase atrasada para a sessão com a personal

trainer, Oksana, no andar de baixo. Ela deu um pulo na sala para pegar as roupas

de ginástica e os arquivos que passara a manhã inteira querendo entregar a

Katherine. No bar, a garota parecera ávida, como se não conseguisse pensar em

praticamente mais nada além do trabalho. Ela queria examinar nos menores

detalhes as negociações nas quais Sloane havia trabalhado, como Sloane

começara a carreira, a configuração da estrutura jurídica da empresa. Katherine

fez as mesmas perguntas a Ames, e ele se deleitou com a chance de contar relatos

de guerra de transações arriscadas concluídas no último minuto.

Eu quero ser como você. Será que Katherine tinha realmente dito isso,

enquanto Sloane pegava um punhado de balas de menta do balcão da

recepcionista na saída? Eles tinham tomado dois, talvez três drinques. Por que

havia concordado em beber tanto? Ames fazia isso com ela. Então o rosto de

Katherine estava próximo do seu, cheio de expectativa. Sloane deve ter ouvido

errado; não queria pedir que ela repetisse o elogio. E, bem…

A sala de Katherine estava vazia agora, e a cabeça de Sloane doía.

Ela parou em frente à parede de vidro da sala de Grace. O vidro, do qual os

escritórios dos cantos estavam convenientemente livres, tinha o objetivo

expresso de fazer com que o prédio parecesse conceitualmente mais aberto, mas

na verdade era destinado a reduzir a privacidade. A porta de Grace ficava a

apenas alguns passos da de Katherine.

Sloane bateu na porta.

— Você viu a Katherine? — perguntou ela.

Grace ergueu o olhar.

— Ah…

A pele de Grace parecia um pouco acinzentada desde que ela havia retornado

da licença-maternidade, como se estivesse doente ou tivesse passado um tempo

vivendo em um bunker. Não que Sloane fosse mencionar isso. Ela uma vez tivera que explicar a Derek que dizer a uma mulher que ela parecia “cansada” era a

mesma coisa que dizer que ela estava horrorosa. Simplesmente melhor não fazer.

— Ela está na sala do Ames. — Grace voltou a digitar. — Como está a Abigail?

Sloane olhou para o fim do corredor, para a porta fechada da sala de Ames,

Katherine atrás dela.

Fazendo o quê? Ela balançou a cabeça, frustrada. Aquilo não era nada de

mais. Ames era chefe delas. Deles. De todos os advogados do departamento

jurídico. Mas Sloane também sabia o que podia acontecer com Ames por trás de

portas fechadas.

Ela voltou a enfiar a cabeça pelo vão da porta do escritório de Grace.

— Desculpe, o que foi que você disse?

— Eu perguntei como está a Abigail.

Sloane andava ligeiramente reservada a respeito de Abigail. Bem, Grace, se

imaginou dizendo, ela revirou os olhos para mim pela primeira vez hoje de

manhã. Por causa de uma tigela de mingau de aveia. Para mim, dá para

acreditar? Sua mãe superlegal e divertida. E Grace riria, bem-humorada, e diria:

Ah, caramba, como eles crescem rápido, não é? Mas isso não era verdade, porque

Abigail não estava crescendo rápido. Ela estava crescendo devagar. Às vezes,

dolorosamente devagar. Só andou com um ano e meio. Aos dez, ainda gostava de

ver Disney Channel e fazer descansos de panela coloridos em um pequeno tear.

Tinha tendência a sonhar acordada e gostava de se agachar no chão e cutucar

insetos com um graveto. E Sloane deveria simplesmente acreditar que aquela

nova e mal-humorada Abigail tinha escolhido emergir logo depois do incidente

na escola, aquelas mensagens de texto horríveis e desagradáveis, por — o quê? —

coincidência?

Ela estava exagerando, era o que as pessoas diriam. Talvez estivesse mesmo.

Esse era o problema de ter filhos, não era? Todas aquelas correntes de

pensamento flutuando no ar — Parem com o bullying! Seus filhos têm que estar

preparados para o bullying! Xarope de milho com alto teor de frutose vai matar

sua criança inocente enquanto ela dorme! —, e era esperado que você

simplesmente escolhesse uma delas e passasse a segui-la.

Ela poderia ter dito tudo aquilo a Grace, mas se conteve. Grace Stanton nunca

tinha sido alvo de zombarias. Ela ganhou concursos de beleza na escola. E,

embora fosse generosa, contar a ela, dentre todas as pessoas, sobre Abigail seria

como trair a filha. Ela não suportava a ideia de que, mesmo que pelo mais breve

momento, mesmo que apenas em sua mente, Grace menosprezasse Abigail.

— Ela está ótima. Vai tocar a Marcha em Ré Maior, de Bach, no recital de piano semana que vem. — Ou talvez fosse a Sonata em Sol Maior, de Beethoven.

— Enfim, tenho um compromisso. — Ela se virou para ir embora, mas hesitou.

— Ah, aliás, você recebeu a tal planilha?

Grace esfregou um dos olhos e piscou.

— Não chegou nada na minha caixa de entrada. — Ela bocejou. — Mas

esqueci de perguntar por aí.

— Também não recebi.

— Talvez não sejamos descoladas o suficiente. Talvez estejamos velhas demais.

— Pare com isso — disse Sloane. — Diga a Katherine que estou procurando

por ela, por favor? Os documentos estão na mesa. É para revisar com

comentários.

Grace apertou os lábios com força e fez uma saudação militar, mas até o braço

em riste parecia flácido. Sloane disse a si mesma que era seu dever como amiga

ver como Grace estava. Sloane era madrinha de Emma Kate, afinal. Deveria dizer

a Grace que não via a hora de sentir o cheirinho de Emma Kate novamente.

Antes que ela crescesse demais e nascessem os dentes. Ou que ela começasse a

revirar os olhos.

Mas Sloane sabia que tinha uma memória péssima para essas coisas. Sua vida

eram garrafas vazias de água mineral rolando pelo chão do carro caro. Envelopes

de correspondência fechados em cima da bancada da cozinha. Cartões de

agradecimento escritos, mas nunca enviados. No fundo de sua mente, ela já

estava seguindo adiante, acrescentando aquele lembrete mental à lista de tarefas

não concluídas que seria reciclada, transformando-se em um estresse secundário

e servindo como combustível para alimentar seus episódios irregulares e

inexplicados de insônia, espinhas no queixo e prisão de ventre.

 

* * *

 

A academia da Truviv, um espaço amplo com pista de corrida indoor, aparelhos

de última geração e tapetes com cores vibrantes, ficava no oitavo andar, de onde

zombava de nós quando passávamos por ela no elevador. Nós detestávamos a

academia. Amávamos a academia. Fugíamos para a academia. Evitávamos a

academia. Tínhamos uma relação complicada com nosso corpo, mas ao mesmo

tempo declarávamos nosso amor incondicional. Estávamos certas de que

tínhamos coisas melhores e mais importantes para fazer do que nos preocupar

com ele, mas o corpo esbelto das mães que faziam ioga, vestindo roupas da

Lululemon enquanto buscavam os filhos na escola, nos atormentava. Suas silhuetas sugeriam suco verde, clubes de tênis e tratamentos vaginais. Queríamos

ser como elas.

Então suávamos no transport e levantávamos pesos de quatro quilos, nos

aproximando lentamente do corpo que dizíamos a nós mesmas que éramos

evoluídas demais para desejar. Sabíamos que os homens nos olhavam quando

vestíamos nossas leggings, sabíamos que eles achavam que essa era a razão por

que usávamos leggings. Fingíamos não perceber seus olhares percorrendo nosso

corpo. Se ouvíssemos “você está em forma” de mais um colega de trabalho que

mexia em suas playlists por dez minutos entre cada série, bem, provavelmente

esmagaríamos a cabeça de alguém com um haltere.

Sloane passou o crachá no leitor eletrônico e a porta do vestiário se abriu.

Uma repetição interminável de reprises de Keeping Up with the Kardashians

passava na TV de tela plana acima das pias.

Sloane tirou a saia preta com detalhes de renda e a pendurou em um dos

armários da parte de cima. Derek tinha elogiado a saia naquela manhã, passando

as mãos por seus quadris enquanto Sloane escovava os dentes. Então fizeram o

bom e velho sexo entre pessoas casadas — rápido, satisfatório e objetivo —,

porque ambos estavam atentos a Abigail. Sloane gozou e deixou Abigail no

ensaio da banda, tudo isso antes das oito da manhã.

— Sloane!

Ela se virou.

A mulher de toalha e chinelos vindo na sua direção era a esposa de Ames,

Bobbi Garrett. Bobbi tinha a voz rouca e o autêntico sotaque sulista de alguém

que era de Oklahoma, não do Texas. Ela era dona de casa e mãe de gêmeos, dois

meninos, e preenchia seu tempo com eventos de caridade por meio dos quais

arrecadava quantias indiscutivelmente altas de dinheiro para causas nobres e

fazia com que pessoas como Sloane se sentissem péssimas por fazerem

comentários sarcásticos a respeito do espetáculo irritante que eram os eventos

sociais beneficentes. Bobbi Garrett era uma pessoa perfeitamente agradável de se

conviver para qualquer um que não fosse Sloane Glover.

— Vim almoçar com o Ames e ele me deixou dar uma passadinha na

academia antes. — A pele dela tinha o aspecto avermelhado e manchado de

alguém que tomou um rápido banho frio depois de treinar pesado. — Como está,

querida? — perguntou Bobbi, apertando delicadamente o braço dela.

— Ah, você sabe, levando. — Sloane parecia um robô. Um robô idiota. Mas

ela não sabia de que outra maneira falar com Bobbi; toda vez que a via, Sloane

era transportada de volta no tempo para uma imagem de Ames sem camisa em cima dela, quadril contra quadril. Era imediatamente tomada pela vergonha,

seguida de algo mais difuso. A sensação das mentiras amontoadas entre ela e

Bobbi lutando para sair.

— Meu marido anda tirando seu couro? — Bobbi olhava para Sloane com

preocupação. — Eu juro que vou falar com esse homem. Você tem marido e

filhos, pelo amor de Deus. Bem, você sabe como são os homens. Eles precisam de

um lembrete de vez em quando.

Havia outras mulheres no vestiário, andando descalças em torno delas, se

pesando, colocando brincos. Mas Bobbi não conhecia o protocolo tácito de

ambientes de trabalho compartilhados. Sloane agradeceu em silêncio às malditas

Kardashians falando sem parar ao fundo.

— Não, não, é só um período atribulado — disse Sloane, vestindo sua

bermuda de ginástica com a logo da Truviv. — Não é culpa dele, juro.

Nunca era culpa de Ames. Sempre que surgia um problema no trabalho,

Sloane era, de acordo com ele, “irracional”, “sensível demais”, “ridícula” e até,

certa vez, “dominada pelos hormônios”. Engraçado como essas palavras nunca

tinham sido mencionadas antes de ela ir para a cama com ele.

Bobbi tapou a boca com a mão. Suas unhas estavam feitas à perfeição,

pintadas de vermelho-cereja.

— Desmond — disse ela, segurando o antebraço de Sloane. Bobbi fechou os

olhos e balançou a cabeça, totalmente consternada. — Não consigo acreditar que

ele morreu. Você está bem?

— Estou, de verdade.

— Ótimo. Meu grupo de estudos bíblicos se reuniu ontem, por pura

coincidência, e nós rezamos pela pobre família desse homem.

Sloane estava tentando se agarrar à lembrança de Derek naquela manhã. O

cheiro de sândalo do creme de barbear ainda no rosto. Queria que Grace

estivesse ali. Grace era muito melhor do que ela naquelas situações. Para

começar, frequentava a igreja, enquanto Sloane só se dedicava ao ritual

dominical de sua família, que incluía bacon, ovos e ficar deitada vendo TV. De

tempos em tempos, porém, Sloane era confrontada com o vocabulário

característico das mulheres cristãs de classe média alta da cidade. As pessoas

estavam sempre “recebendo um chamado”, ou ouvindo coisas “em seu coração”,

ou estavam “rezando por” uma coisa ou outra. Sloane tinha aprendido anos antes

a incluir palavras do vocabulário profissional em seu vernáculo: ela “colaborava”

com alguém, ou “contatava” alguém, “detalhava” ou “resumia” um relatório.

Fácil. Mas nunca se tornara fluente na língua de Bobbi. Naquele momento se sentia em ligeira desvantagem.

— Eu queria perguntar… — continuou Bobbi. — Você sabe se as pessoas

estão se organizando para levar comida?

— Não sei, mas… Tenho certeza de que a família do Desmond ficaria muito

grata.

Bobbi ergueu a mão.

— Vou cuidar disso. Ouça. — Ela puxou Sloane para uma área menos

movimentada do vestiário, onde havia toalhas limpas e dobradas armazenadas

em nichos.

Bobbi aproximou o rosto do de Sloane, como se as duas estivessem

acostumadas a compartilhar segredos.

— Tenho certeza de que o Ames já lhe contou, provavelmente antes mesmo

de contar para mim. Sei como vocês dois são próximos no trabalho. — Ela se

imaginou contando isso para Ardie mais tarde, e já antevia a amiga soltando um

assovio, numa espécie de reconhecimento cruel. — Mas parece que o Ames está

sendo cotado como um dos potenciais substitutos do Desmond. Ele foi

informado pelo conselho ontem à noite. Tenho certeza de que ele seria um

presidente maravilhoso.

Ames. Presidente. Sloane sentiu a mente afundar na areia movediça;

concentrou toda a energia em não mudar de expressão, talento que havia

exercitado uma ou duas vezes quando, por exemplo, o homem com cuja esposa

ela estava falando no momento lhe lembrara que ela era melhor na cama do que

como advogada, apesar de ela ter fechado na época um negócio de vinte milhões

de dólares praticamente sozinha em um mês. Por seu desempenho naquele ano,

tinha recebido apenas um presunto congelado e um porta-copos de cristal com a

logo da empresa. Mais tarde, soube que Ames tinha se “esquecido” de enviar o

memorando de seu bônus de fim de ano. Quando confrontado, ele justificou que

Sloane o havia usado — palavras dele — para conseguir um cargo com salário

maior, e considerou a confusão com o bônus uma solução cármica que os

deixava quites.

Se ao menos tivesse parado por aí…

— Sinceramente — Bobbi dizia —, parece que tudo está se encaminhando

para isso. Mas se houver alguma coisa que nós, ou melhor, que ele deveria fazer

para aumentar as chances… Sei que ele valoriza seus conselhos, mesmo que seja

orgulhoso demais para pedir. Ele só está sob muita pressão.

— Certo, bem… — Sloane jogou o peso do corpo para trás, tentando criar

alguma distância entre elas. Seu rosto estava ficando quente. — Isso está um pouco além da minha alçada.

A expressão de Bobbi congelou ligeiramente.

— Mas é claro que vou falar com ele. — Sloane se apressou em acrescentar.

Ela viu a necessidade de um plano de fuga e o colocou em prática. — Bobbi,

tenho que… tenho que voltar logo para o escritório, então é melhor fazer minha

série.

Bobbi abriu seu grande sorriso clareado artificialmente.

— Claro, claro. Você está incrível, a propósito — disse ela, o que era uma

mentira deslavada. Sloane não estava incrível, nem chegava a estar bem.

Uma mentira para a conta de Bobbi, pensou Sloane. Mais umas mil e talvez

elas empatassem.

Sloane pegou a bolsa de ginástica e se trancou em um dos trocadores, o calor

subindo pelo pescoço como uma febre. Deslizou pela parede até ficar sentada,

ofegante, no chão. Ames, a porra do presidente da Truviv, como ela não tinha

previsto aquilo? Ela mordeu os nós dos dedos. Isso não deveria importar para ela,

deveria? Ela disse a si mesma que não deveria. Mas era muito injusto. Estava

parecendo uma criancinha: Isso não é justo! Mas… não era mesmo. Mau

comportamento recompensando, entre outras coisas. E de quem era a culpa?

Dela, não era? Foi uma testemunha silenciosa a favor de Ames por anos. Tinha

tomado a decisão de deixar que ele ficasse impune por agir da maneira que

desejasse. Mas, de repente, lhe ocorreu o pensamento de que provavelmente não

era a única. Ela não era a única. Certamente. Definitivamente. Estava prestes a

ligar para o marido quando teve uma ideia melhor: ligou para Elizabeth Moretti,

que atendeu ao primeiro toque.

— O que você tem para me oferecer, Glover?

Quando trabalhava no Jaxon Brockwell, havia um dedo de Elizabeth em todas

as fofocas da firma, e Sloane logo aprendeu a moderar tudo o que contava a ela,

que não era nem de longe tão discreta quanto fingia ser.

Sloane fechou os olhos e respirou fundo.

— Nada pelo que eu possa cobrar, infelizmente. — Ela ficou de pé, de costas

para a porta trancada, e projetou os ombros para a frente, como se estivesse

protegendo o celular. — Elizabeth — começou, em voz baixa. — O que você sabe

sobre uma planilha?

— Não sei nada sobre planilhas além do fato de que fiz faculdade de direito

com o objetivo específico de ficar longe delas.

Sloane conseguia ouvir Elizabeth digitando do outro lado da linha.

— Alguma coisa sobre uma planilha de homens… homens canalhas… em Dallas. Isso…

O telefone de Sloane vibrou e ela o afastou da orelha para ler uma notificação

de que a bateria estava prestes a acabar. Merda.

— Ah. Sim. A lista de homens CILADA.

— Homens cilada?

— Homens de Comportamento Infame, Libertino e Amoral de Dallas e

Arredores. Homens CILADA! Talvez eu tenha visto essa planilha circulando por

aí.

— Quem mandou isso para você? — Sloane tocou a tela para ignorar a

mensagem que mais parecia uma reprimenda: Controle-se!

— Você sabe que eu nunca revelo minhas fontes.

Na verdade, Sloane não sabia.

Ela fechou um dos olhos, roendo a unha, que foi ganhando contornos

irregulares entre seus dentes. Ela só queria dar uma olhada, disse a si mesma.

Uma checada rápida. Então saberia.

Ela ouviu Elizabeth parar de mastigar alguma coisa do outro lado da linha e

imaginou os dentes de cavalo de sua antiga mentora estraçalhando sua porção de

pretzels da tarde.

— Sloane, quer que eu mande para você? Essa lista?

— Só se não der muito trabalho.

— Trabalho nenhum. Mas não diga a ninguém que conseguiu esse arquivo

comigo. — As duas ficaram em silêncio. Então Elizabeth começou a digitar outra

vez. — Ei — perguntou ela —, é verdade que o Bankole morreu no chuveiro?

 

* * *

 

Quando Sloane saiu do vestiário para encontrar a personal trainer, Ames estava

na entrada da academia, encostado na parede, com os braços cruzados por cima

da gravata, esperando pela esposa. Eles se encararam. Ames ergueu os cantos da

boca no que poderia ser considerado um sorriso de reconhecimento sem que na

verdade fosse um. E de novo, como no dia anterior, Sloane sentiu a velha fúria

surgindo ao dar de cara com ele, como uma garrafa de refrigerante sendo

sacudida com a tampa fechada.

Tudo começou com assentos em um camarote para assistir ao jogo dos

Mavericks. Ames tinha ganhado os ingressos do chefe porque, naquela época, ele

ainda não era exatamente o chefe que era agora. Os dois detestavam os bolinhos

de siri e os canapés que eram servidos nos camarotes e tinham descido até a área externa em meio a um debate acalorado sobre molhos apropriados para

cachorro-quente. Sloane deveria ter percebido naquele momento que estava

encrencada. As pessoas não discutiam questões tão mundanas quanto molhos a

menos que quisessem transar.

Lá embaixo, com a multidão, eles compraram a única comida que se deve

comer em um jogo de basquete e ficaram mais orgulhosos de si mesmos do que

deveriam. Naquela época, Ames era engraçado. Isso era algo que as pessoas

esqueciam. Também era bonito, do tipo que deixava Sloane com frio na barriga.

Eles voltaram para o camarote, Ames segurando o gargalo de uma garrafa de

champanhe que os dois convenceram o bartender a lhes vender. O maxilar de

Sloane doía de tanto rir. Ela estava usando um reluzente anel de noivado,

presente de um homem que a amava, confiava nela e dependeria financeiramente

dela pelo resto da vida. Sentia-se poderosa. Ela queria se divertir.

Fez papel de idiota, é claro. Não tinha sido a primeira, como descobriu depois.

Houvera mulheres de cujos nomes ela não conseguiria se lembrar nem se

tentasse. Ela só fora esperta o suficiente para ficar de boca fechada. Na maior

parte do tempo, pelo menos. O estrago fora controlado e Sloane obedecera às

regras do jogo. Então ela pôde ficar. Ela pôde manter seu lugar à mesa.

Mas naquele momento era como se seu corpo estivesse revivendo uma década

de experiências com Ames, experiências que a levavam até a porta fechada que

havia testemunhado naquela tarde, com Katherine em algum lugar lá dentro.

Katherine, que queria ser igual a ela. Até então, quando Ames saía da linha,

Sloane podia colocá-lo de volta nos eixos com a sutil insinuação de que poderia,

se quisesse, falar com Desmond. Ela não faria isso, mas… podia fazer. Só que

agora não havia mais Desmond. E nada parecia justo. No entanto, Sloane achava

que, na verdade, merecia tudo aquilo: ver Ames ascendendo na empresa e, agora,

chegando ao topo, enquanto ela apenas observava. Em silêncio.

 

* * *

 

Nos quarenta e cinco minutos seguintes, Sloane canalizou todos os seus

sentimentos em agachamentos, levantamentos, flexões com saltos e avanços com

halteres até acabar o tempo e a personal trainer, Oksana, parabenizá-la por um de

seus melhores treinos.

Sloane de fato se sentia melhor. Mais vazia. Mais limpa, até. Era isso que

amávamos na prática de exercícios: como eram capazes de afastar tudo a não ser

a questão mais urgente e presente: a dor.

Foi apenas depois de beber uma garrafa de água, tomar banho e se vestir que

Sloane pegou o telefone na bolsa e checou os e-mails. Lá estava, no topo da caixa

de entrada, em letras garrafais, uma mensagem de Elizabeth Moretti. Corrente de

e-mails, cópia oculta.

Homens CILADA: Cuidado com babacas. Babacas, cuidado.

Depoimentos de funcionários da Truviv

 

13 DE ABRIL

Lucy Davies: É claro que começou com a planilha. Aquilo foi um desastre

desde o começo. Sinceramente, eu avisei todo mundo. Disse que era uma péssima ideia. Eu avisei! Fazer justiça com as próprias mãos e tudo o mais. Mas alguém me ouviu? Não. E agora vejam o que aconteceu!

Keith Tran: Não sei. Talvez. Se foi a planilha, então acho que a moral

da história é que o que aconteceu poderia ter acontecido com qualquer um de nós. E é isso que me assusta.

Angie Mann: Sim, estávamos cientes de que uma planilha estava circulando

e levamos a sério as alegações referentes às pessoas mencionadas. No entanto, devo acrescentar que encaramos com igual seriedade os direitos de nossos funcionários cujos nomes apareceram na lista. Toda moeda tem dois lados.

Sophia Ventura: Sim, todo mundo estava ficando meio maluco. Quem não

ficaria? Era, tipo, sei lá, aqui está o nome desse cara na lista e ele fez Deus sabe o que e, ah, espera aí, agora tenho que ficar sozinha com ele na sala e perguntar se ele quer que eu recolha seus papéis? Mas também, quer dizer, pense nas coisas da seguinte maneira: isso não estava acontecendo só no nosso escritório. Os nomes estavam surgindo por toda a cidade, mas aposto que não estão fazendo perguntas em todos os outros escritórios, certo?

Alexandra Souls: Acho que todo mundo precisa começar a assumir a

responsabilidade por seus atos e parar de culpar um arquivo de Excel por esse fiasco. Quer dizer, somos todos adultos aqui, não?