Rede de Sussurros
Capítulo 7
21 DE MARÇO
Era hora do almoço e Sloane estava quase atrasada para a sessão com a personal
trainer, Oksana, no andar de baixo. Ela deu um pulo na sala para pegar as roupas
de ginástica e os arquivos que passara a manhã inteira querendo entregar a
Katherine. No bar, a garota parecera ávida, como se não conseguisse pensar em
praticamente mais nada além do trabalho. Ela queria examinar nos menores
detalhes as negociações nas quais Sloane havia trabalhado, como Sloane
começara a carreira, a configuração da estrutura jurídica da empresa. Katherine
fez as mesmas perguntas a Ames, e ele se deleitou com a chance de contar relatos
de guerra de transações arriscadas concluídas no último minuto.
Eu quero ser como você. Será que Katherine tinha realmente dito isso,
enquanto Sloane pegava um punhado de balas de menta do balcão da
recepcionista na saída? Eles tinham tomado dois, talvez três drinques. Por que
havia concordado em beber tanto? Ames fazia isso com ela. Então o rosto de
Katherine estava próximo do seu, cheio de expectativa. Sloane deve ter ouvido
errado; não queria pedir que ela repetisse o elogio. E, bem…
A sala de Katherine estava vazia agora, e a cabeça de Sloane doía.
Ela parou em frente à parede de vidro da sala de Grace. O vidro, do qual os
escritórios dos cantos estavam convenientemente livres, tinha o objetivo
expresso de fazer com que o prédio parecesse conceitualmente mais aberto, mas
na verdade era destinado a reduzir a privacidade. A porta de Grace ficava a
apenas alguns passos da de Katherine.
Sloane bateu na porta.
— Você viu a Katherine? — perguntou ela.
Grace ergueu o olhar.
— Ah…
A pele de Grace parecia um pouco acinzentada desde que ela havia retornado
da licença-maternidade, como se estivesse doente ou tivesse passado um tempo
vivendo em um bunker. Não que Sloane fosse mencionar isso. Ela uma vez tivera que explicar a Derek que dizer a uma mulher que ela parecia “cansada” era a
mesma coisa que dizer que ela estava horrorosa. Simplesmente melhor não fazer.
— Ela está na sala do Ames. — Grace voltou a digitar. — Como está a Abigail?
Sloane olhou para o fim do corredor, para a porta fechada da sala de Ames,
Katherine atrás dela.
Fazendo o quê? Ela balançou a cabeça, frustrada. Aquilo não era nada de
mais. Ames era chefe delas. Deles. De todos os advogados do departamento
jurídico. Mas Sloane também sabia o que podia acontecer com Ames por trás de
portas fechadas.
Ela voltou a enfiar a cabeça pelo vão da porta do escritório de Grace.
— Desculpe, o que foi que você disse?
— Eu perguntei como está a Abigail.
Sloane andava ligeiramente reservada a respeito de Abigail. Bem, Grace, se
imaginou dizendo, ela revirou os olhos para mim pela primeira vez hoje de
manhã. Por causa de uma tigela de mingau de aveia. Para mim, dá para
acreditar? Sua mãe superlegal e divertida. E Grace riria, bem-humorada, e diria:
Ah, caramba, como eles crescem rápido, não é? Mas isso não era verdade, porque
Abigail não estava crescendo rápido. Ela estava crescendo devagar. Às vezes,
dolorosamente devagar. Só andou com um ano e meio. Aos dez, ainda gostava de
ver Disney Channel e fazer descansos de panela coloridos em um pequeno tear.
Tinha tendência a sonhar acordada e gostava de se agachar no chão e cutucar
insetos com um graveto. E Sloane deveria simplesmente acreditar que aquela
nova e mal-humorada Abigail tinha escolhido emergir logo depois do incidente
na escola, aquelas mensagens de texto horríveis e desagradáveis, por — o quê? —
coincidência?
Ela estava exagerando, era o que as pessoas diriam. Talvez estivesse mesmo.
Esse era o problema de ter filhos, não era? Todas aquelas correntes de
pensamento flutuando no ar — Parem com o bullying! Seus filhos têm que estar
preparados para o bullying! Xarope de milho com alto teor de frutose vai matar
sua criança inocente enquanto ela dorme! —, e era esperado que você
simplesmente escolhesse uma delas e passasse a segui-la.
Ela poderia ter dito tudo aquilo a Grace, mas se conteve. Grace Stanton nunca
tinha sido alvo de zombarias. Ela ganhou concursos de beleza na escola. E,
embora fosse generosa, contar a ela, dentre todas as pessoas, sobre Abigail seria
como trair a filha. Ela não suportava a ideia de que, mesmo que pelo mais breve
momento, mesmo que apenas em sua mente, Grace menosprezasse Abigail.
— Ela está ótima. Vai tocar a Marcha em Ré Maior, de Bach, no recital de piano semana que vem. — Ou talvez fosse a Sonata em Sol Maior, de Beethoven.
— Enfim, tenho um compromisso. — Ela se virou para ir embora, mas hesitou.
— Ah, aliás, você recebeu a tal planilha?
Grace esfregou um dos olhos e piscou.
— Não chegou nada na minha caixa de entrada. — Ela bocejou. — Mas
esqueci de perguntar por aí.
— Também não recebi.
— Talvez não sejamos descoladas o suficiente. Talvez estejamos velhas demais.
— Pare com isso — disse Sloane. — Diga a Katherine que estou procurando
por ela, por favor? Os documentos estão na mesa. É para revisar com
comentários.
Grace apertou os lábios com força e fez uma saudação militar, mas até o braço
em riste parecia flácido. Sloane disse a si mesma que era seu dever como amiga
ver como Grace estava. Sloane era madrinha de Emma Kate, afinal. Deveria dizer
a Grace que não via a hora de sentir o cheirinho de Emma Kate novamente.
Antes que ela crescesse demais e nascessem os dentes. Ou que ela começasse a
revirar os olhos.
Mas Sloane sabia que tinha uma memória péssima para essas coisas. Sua vida
eram garrafas vazias de água mineral rolando pelo chão do carro caro. Envelopes
de correspondência fechados em cima da bancada da cozinha. Cartões de
agradecimento escritos, mas nunca enviados. No fundo de sua mente, ela já
estava seguindo adiante, acrescentando aquele lembrete mental à lista de tarefas
não concluídas que seria reciclada, transformando-se em um estresse secundário
e servindo como combustível para alimentar seus episódios irregulares e
inexplicados de insônia, espinhas no queixo e prisão de ventre.
* * *
A academia da Truviv, um espaço amplo com pista de corrida indoor, aparelhos
de última geração e tapetes com cores vibrantes, ficava no oitavo andar, de onde
zombava de nós quando passávamos por ela no elevador. Nós detestávamos a
academia. Amávamos a academia. Fugíamos para a academia. Evitávamos a
academia. Tínhamos uma relação complicada com nosso corpo, mas ao mesmo
tempo declarávamos nosso amor incondicional. Estávamos certas de que
tínhamos coisas melhores e mais importantes para fazer do que nos preocupar
com ele, mas o corpo esbelto das mães que faziam ioga, vestindo roupas da
Lululemon enquanto buscavam os filhos na escola, nos atormentava. Suas silhuetas sugeriam suco verde, clubes de tênis e tratamentos vaginais. Queríamos
ser como elas.
Então suávamos no transport e levantávamos pesos de quatro quilos, nos
aproximando lentamente do corpo que dizíamos a nós mesmas que éramos
evoluídas demais para desejar. Sabíamos que os homens nos olhavam quando
vestíamos nossas leggings, sabíamos que eles achavam que essa era a razão por
que usávamos leggings. Fingíamos não perceber seus olhares percorrendo nosso
corpo. Se ouvíssemos “você está em forma” de mais um colega de trabalho que
mexia em suas playlists por dez minutos entre cada série, bem, provavelmente
esmagaríamos a cabeça de alguém com um haltere.
Sloane passou o crachá no leitor eletrônico e a porta do vestiário se abriu.
Uma repetição interminável de reprises de Keeping Up with the Kardashians
passava na TV de tela plana acima das pias.
Sloane tirou a saia preta com detalhes de renda e a pendurou em um dos
armários da parte de cima. Derek tinha elogiado a saia naquela manhã, passando
as mãos por seus quadris enquanto Sloane escovava os dentes. Então fizeram o
bom e velho sexo entre pessoas casadas — rápido, satisfatório e objetivo —,
porque ambos estavam atentos a Abigail. Sloane gozou e deixou Abigail no
ensaio da banda, tudo isso antes das oito da manhã.
— Sloane!
Ela se virou.
A mulher de toalha e chinelos vindo na sua direção era a esposa de Ames,
Bobbi Garrett. Bobbi tinha a voz rouca e o autêntico sotaque sulista de alguém
que era de Oklahoma, não do Texas. Ela era dona de casa e mãe de gêmeos, dois
meninos, e preenchia seu tempo com eventos de caridade por meio dos quais
arrecadava quantias indiscutivelmente altas de dinheiro para causas nobres e
fazia com que pessoas como Sloane se sentissem péssimas por fazerem
comentários sarcásticos a respeito do espetáculo irritante que eram os eventos
sociais beneficentes. Bobbi Garrett era uma pessoa perfeitamente agradável de se
conviver para qualquer um que não fosse Sloane Glover.
— Vim almoçar com o Ames e ele me deixou dar uma passadinha na
academia antes. — A pele dela tinha o aspecto avermelhado e manchado de
alguém que tomou um rápido banho frio depois de treinar pesado. — Como está,
querida? — perguntou Bobbi, apertando delicadamente o braço dela.
— Ah, você sabe, levando. — Sloane parecia um robô. Um robô idiota. Mas
ela não sabia de que outra maneira falar com Bobbi; toda vez que a via, Sloane
era transportada de volta no tempo para uma imagem de Ames sem camisa em cima dela, quadril contra quadril. Era imediatamente tomada pela vergonha,
seguida de algo mais difuso. A sensação das mentiras amontoadas entre ela e
Bobbi lutando para sair.
— Meu marido anda tirando seu couro? — Bobbi olhava para Sloane com
preocupação. — Eu juro que vou falar com esse homem. Você tem marido e
filhos, pelo amor de Deus. Bem, você sabe como são os homens. Eles precisam de
um lembrete de vez em quando.
Havia outras mulheres no vestiário, andando descalças em torno delas, se
pesando, colocando brincos. Mas Bobbi não conhecia o protocolo tácito de
ambientes de trabalho compartilhados. Sloane agradeceu em silêncio às malditas
Kardashians falando sem parar ao fundo.
— Não, não, é só um período atribulado — disse Sloane, vestindo sua
bermuda de ginástica com a logo da Truviv. — Não é culpa dele, juro.
Nunca era culpa de Ames. Sempre que surgia um problema no trabalho,
Sloane era, de acordo com ele, “irracional”, “sensível demais”, “ridícula” e até,
certa vez, “dominada pelos hormônios”. Engraçado como essas palavras nunca
tinham sido mencionadas antes de ela ir para a cama com ele.
Bobbi tapou a boca com a mão. Suas unhas estavam feitas à perfeição,
pintadas de vermelho-cereja.
— Desmond — disse ela, segurando o antebraço de Sloane. Bobbi fechou os
olhos e balançou a cabeça, totalmente consternada. — Não consigo acreditar que
ele morreu. Você está bem?
— Estou, de verdade.
— Ótimo. Meu grupo de estudos bíblicos se reuniu ontem, por pura
coincidência, e nós rezamos pela pobre família desse homem.
Sloane estava tentando se agarrar à lembrança de Derek naquela manhã. O
cheiro de sândalo do creme de barbear ainda no rosto. Queria que Grace
estivesse ali. Grace era muito melhor do que ela naquelas situações. Para
começar, frequentava a igreja, enquanto Sloane só se dedicava ao ritual
dominical de sua família, que incluía bacon, ovos e ficar deitada vendo TV. De
tempos em tempos, porém, Sloane era confrontada com o vocabulário
característico das mulheres cristãs de classe média alta da cidade. As pessoas
estavam sempre “recebendo um chamado”, ou ouvindo coisas “em seu coração”,
ou estavam “rezando por” uma coisa ou outra. Sloane tinha aprendido anos antes
a incluir palavras do vocabulário profissional em seu vernáculo: ela “colaborava”
com alguém, ou “contatava” alguém, “detalhava” ou “resumia” um relatório.
Fácil. Mas nunca se tornara fluente na língua de Bobbi. Naquele momento se sentia em ligeira desvantagem.
— Eu queria perguntar… — continuou Bobbi. — Você sabe se as pessoas
estão se organizando para levar comida?
— Não sei, mas… Tenho certeza de que a família do Desmond ficaria muito
grata.
Bobbi ergueu a mão.
— Vou cuidar disso. Ouça. — Ela puxou Sloane para uma área menos
movimentada do vestiário, onde havia toalhas limpas e dobradas armazenadas
em nichos.
Bobbi aproximou o rosto do de Sloane, como se as duas estivessem
acostumadas a compartilhar segredos.
— Tenho certeza de que o Ames já lhe contou, provavelmente antes mesmo
de contar para mim. Sei como vocês dois são próximos no trabalho. — Ela se
imaginou contando isso para Ardie mais tarde, e já antevia a amiga soltando um
assovio, numa espécie de reconhecimento cruel. — Mas parece que o Ames está
sendo cotado como um dos potenciais substitutos do Desmond. Ele foi
informado pelo conselho ontem à noite. Tenho certeza de que ele seria um
presidente maravilhoso.
Ames. Presidente. Sloane sentiu a mente afundar na areia movediça;
concentrou toda a energia em não mudar de expressão, talento que havia
exercitado uma ou duas vezes quando, por exemplo, o homem com cuja esposa
ela estava falando no momento lhe lembrara que ela era melhor na cama do que
como advogada, apesar de ela ter fechado na época um negócio de vinte milhões
de dólares praticamente sozinha em um mês. Por seu desempenho naquele ano,
tinha recebido apenas um presunto congelado e um porta-copos de cristal com a
logo da empresa. Mais tarde, soube que Ames tinha se “esquecido” de enviar o
memorando de seu bônus de fim de ano. Quando confrontado, ele justificou que
Sloane o havia usado — palavras dele — para conseguir um cargo com salário
maior, e considerou a confusão com o bônus uma solução cármica que os
deixava quites.
Se ao menos tivesse parado por aí…
— Sinceramente — Bobbi dizia —, parece que tudo está se encaminhando
para isso. Mas se houver alguma coisa que nós, ou melhor, que ele deveria fazer
para aumentar as chances… Sei que ele valoriza seus conselhos, mesmo que seja
orgulhoso demais para pedir. Ele só está sob muita pressão.
— Certo, bem… — Sloane jogou o peso do corpo para trás, tentando criar
alguma distância entre elas. Seu rosto estava ficando quente. — Isso está um pouco além da minha alçada.
A expressão de Bobbi congelou ligeiramente.
— Mas é claro que vou falar com ele. — Sloane se apressou em acrescentar.
Ela viu a necessidade de um plano de fuga e o colocou em prática. — Bobbi,
tenho que… tenho que voltar logo para o escritório, então é melhor fazer minha
série.
Bobbi abriu seu grande sorriso clareado artificialmente.
— Claro, claro. Você está incrível, a propósito — disse ela, o que era uma
mentira deslavada. Sloane não estava incrível, nem chegava a estar bem.
Uma mentira para a conta de Bobbi, pensou Sloane. Mais umas mil e talvez
elas empatassem.
Sloane pegou a bolsa de ginástica e se trancou em um dos trocadores, o calor
subindo pelo pescoço como uma febre. Deslizou pela parede até ficar sentada,
ofegante, no chão. Ames, a porra do presidente da Truviv, como ela não tinha
previsto aquilo? Ela mordeu os nós dos dedos. Isso não deveria importar para ela,
deveria? Ela disse a si mesma que não deveria. Mas era muito injusto. Estava
parecendo uma criancinha: Isso não é justo! Mas… não era mesmo. Mau
comportamento recompensando, entre outras coisas. E de quem era a culpa?
Dela, não era? Foi uma testemunha silenciosa a favor de Ames por anos. Tinha
tomado a decisão de deixar que ele ficasse impune por agir da maneira que
desejasse. Mas, de repente, lhe ocorreu o pensamento de que provavelmente não
era a única. Ela não era a única. Certamente. Definitivamente. Estava prestes a
ligar para o marido quando teve uma ideia melhor: ligou para Elizabeth Moretti,
que atendeu ao primeiro toque.
— O que você tem para me oferecer, Glover?
Quando trabalhava no Jaxon Brockwell, havia um dedo de Elizabeth em todas
as fofocas da firma, e Sloane logo aprendeu a moderar tudo o que contava a ela,
que não era nem de longe tão discreta quanto fingia ser.
Sloane fechou os olhos e respirou fundo.
— Nada pelo que eu possa cobrar, infelizmente. — Ela ficou de pé, de costas
para a porta trancada, e projetou os ombros para a frente, como se estivesse
protegendo o celular. — Elizabeth — começou, em voz baixa. — O que você sabe
sobre uma planilha?
— Não sei nada sobre planilhas além do fato de que fiz faculdade de direito
com o objetivo específico de ficar longe delas.
Sloane conseguia ouvir Elizabeth digitando do outro lado da linha.
— Alguma coisa sobre uma planilha de homens… homens canalhas… em Dallas. Isso…
O telefone de Sloane vibrou e ela o afastou da orelha para ler uma notificação
de que a bateria estava prestes a acabar. Merda.
— Ah. Sim. A lista de homens CILADA.
— Homens cilada?
— Homens de Comportamento Infame, Libertino e Amoral de Dallas e
Arredores. Homens CILADA! Talvez eu tenha visto essa planilha circulando por
aí.
— Quem mandou isso para você? — Sloane tocou a tela para ignorar a
mensagem que mais parecia uma reprimenda: Controle-se!
— Você sabe que eu nunca revelo minhas fontes.
Na verdade, Sloane não sabia.
Ela fechou um dos olhos, roendo a unha, que foi ganhando contornos
irregulares entre seus dentes. Ela só queria dar uma olhada, disse a si mesma.
Uma checada rápida. Então saberia.
Ela ouviu Elizabeth parar de mastigar alguma coisa do outro lado da linha e
imaginou os dentes de cavalo de sua antiga mentora estraçalhando sua porção de
pretzels da tarde.
— Sloane, quer que eu mande para você? Essa lista?
— Só se não der muito trabalho.
— Trabalho nenhum. Mas não diga a ninguém que conseguiu esse arquivo
comigo. — As duas ficaram em silêncio. Então Elizabeth começou a digitar outra
vez. — Ei — perguntou ela —, é verdade que o Bankole morreu no chuveiro?
* * *
Quando Sloane saiu do vestiário para encontrar a personal trainer, Ames estava
na entrada da academia, encostado na parede, com os braços cruzados por cima
da gravata, esperando pela esposa. Eles se encararam. Ames ergueu os cantos da
boca no que poderia ser considerado um sorriso de reconhecimento sem que na
verdade fosse um. E de novo, como no dia anterior, Sloane sentiu a velha fúria
surgindo ao dar de cara com ele, como uma garrafa de refrigerante sendo
sacudida com a tampa fechada.
Tudo começou com assentos em um camarote para assistir ao jogo dos
Mavericks. Ames tinha ganhado os ingressos do chefe porque, naquela época, ele
ainda não era exatamente o chefe que era agora. Os dois detestavam os bolinhos
de siri e os canapés que eram servidos nos camarotes e tinham descido até a área externa em meio a um debate acalorado sobre molhos apropriados para
cachorro-quente. Sloane deveria ter percebido naquele momento que estava
encrencada. As pessoas não discutiam questões tão mundanas quanto molhos a
menos que quisessem transar.
Lá embaixo, com a multidão, eles compraram a única comida que se deve
comer em um jogo de basquete e ficaram mais orgulhosos de si mesmos do que
deveriam. Naquela época, Ames era engraçado. Isso era algo que as pessoas
esqueciam. Também era bonito, do tipo que deixava Sloane com frio na barriga.
Eles voltaram para o camarote, Ames segurando o gargalo de uma garrafa de
champanhe que os dois convenceram o bartender a lhes vender. O maxilar de
Sloane doía de tanto rir. Ela estava usando um reluzente anel de noivado,
presente de um homem que a amava, confiava nela e dependeria financeiramente
dela pelo resto da vida. Sentia-se poderosa. Ela queria se divertir.
Fez papel de idiota, é claro. Não tinha sido a primeira, como descobriu depois.
Houvera mulheres de cujos nomes ela não conseguiria se lembrar nem se
tentasse. Ela só fora esperta o suficiente para ficar de boca fechada. Na maior
parte do tempo, pelo menos. O estrago fora controlado e Sloane obedecera às
regras do jogo. Então ela pôde ficar. Ela pôde manter seu lugar à mesa.
Mas naquele momento era como se seu corpo estivesse revivendo uma década
de experiências com Ames, experiências que a levavam até a porta fechada que
havia testemunhado naquela tarde, com Katherine em algum lugar lá dentro.
Katherine, que queria ser igual a ela. Até então, quando Ames saía da linha,
Sloane podia colocá-lo de volta nos eixos com a sutil insinuação de que poderia,
se quisesse, falar com Desmond. Ela não faria isso, mas… podia fazer. Só que
agora não havia mais Desmond. E nada parecia justo. No entanto, Sloane achava
que, na verdade, merecia tudo aquilo: ver Ames ascendendo na empresa e, agora,
chegando ao topo, enquanto ela apenas observava. Em silêncio.
* * *
Nos quarenta e cinco minutos seguintes, Sloane canalizou todos os seus
sentimentos em agachamentos, levantamentos, flexões com saltos e avanços com
halteres até acabar o tempo e a personal trainer, Oksana, parabenizá-la por um de
seus melhores treinos.
Sloane de fato se sentia melhor. Mais vazia. Mais limpa, até. Era isso que
amávamos na prática de exercícios: como eram capazes de afastar tudo a não ser
a questão mais urgente e presente: a dor.
Foi apenas depois de beber uma garrafa de água, tomar banho e se vestir que
Sloane pegou o telefone na bolsa e checou os e-mails. Lá estava, no topo da caixa
de entrada, em letras garrafais, uma mensagem de Elizabeth Moretti. Corrente de
e-mails, cópia oculta.
Homens CILADA: Cuidado com babacas. Babacas, cuidado.
Depoimentos de funcionários da Truviv
13 DE ABRIL
Lucy Davies: É claro que começou com a planilha. Aquilo foi um desastre
desde o começo. Sinceramente, eu avisei todo mundo. Disse que era uma péssima ideia. Eu avisei! Fazer justiça com as próprias mãos e tudo o mais. Mas alguém me ouviu? Não. E agora vejam o que aconteceu!
Keith Tran: Não sei. Talvez. Se foi a planilha, então acho que a moral
da história é que o que aconteceu poderia ter acontecido com qualquer um de nós. E é isso que me assusta.
Angie Mann: Sim, estávamos cientes de que uma planilha estava circulando
e levamos a sério as alegações referentes às pessoas mencionadas. No entanto, devo acrescentar que encaramos com igual seriedade os direitos de nossos funcionários cujos nomes apareceram na lista. Toda moeda tem dois lados.
Sophia Ventura: Sim, todo mundo estava ficando meio maluco. Quem não
ficaria? Era, tipo, sei lá, aqui está o nome desse cara na lista e ele fez Deus sabe o que e, ah, espera aí, agora tenho que ficar sozinha com ele na sala e perguntar se ele quer que eu recolha seus papéis? Mas também, quer dizer, pense nas coisas da seguinte maneira: isso não estava acontecendo só no nosso escritório. Os nomes estavam surgindo por toda a cidade, mas aposto que não estão fazendo perguntas em todos os outros escritórios, certo?
Alexandra Souls: Acho que todo mundo precisa começar a assumir a
responsabilidade por seus atos e parar de culpar um arquivo de Excel por esse fiasco. Quer dizer, somos todos adultos aqui, não?