Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 58 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 57

 

18 DE MAIO

— Graças a Deus vocês estão aqui!

Sloane colocou a bolsa pesada na cadeira vazia.

Aquele restaurante tinha uma peculiaridade, e essa peculiaridade eram as

plantas. Vinhas caíam em cascata de vasos de terracota; suculentas cobriam

prateleiras de madeira de demolição; orquídeas brancas em miniatura brotavam

de canecas de cerâmica feitas à mão no centro das mesas. Era onde o Pinterest ia

para vomitar, oferecendo o tipo de ideia que parecia tão simples e natural que

tinha que ser possível, só que definitivamente não era, e Sloane adorava isso.

— Parece que não nos vemos há séculos. — Ela se inclinou para abraçar Ardie

e Grace, uma de cada vez, antes de se deixar cair em uma cadeira wishbone

artesanal. — Estou sofrendo de abstinência. Física. Olhem só para minhas mãos.

— Sloane estendeu a mão, que tremia ligeiramente, embora pudesse ser por

causa do baixo teor de açúcar no sangue.

— Só foram quatro dias. — Ardie desviou o olhar de um menu conciso que

consistia em uma folha de papel pregada em um tablete de madeira.

— O que é o período mais longo desde… — Sloane acenou com o braço.

— Desde minha licença-maternidade — sugeriu Grace.

— Exatamente. — Sloane assentiu, solene, pegando seu menu na tábua e

examinando a carta de vinhos. Algo gelado, branco e fresco parecia adequado. —

E todas nós sabemos que eu mal sobrevivi a isso. — Sloane chamou a garçonete,

uma mulher toda vestida de branco com suspensórios verdes. — Vou querer uma

taça do chardonnay Starmont, por favor. Alguém mais?

— O mesmo para mim, por favor — disse Grace.

— Para mim também.

Sloane ergueu as sobrancelhas. Tinha uma consulta com seu dermatologista

para consertar isso na próxima semana, mas por enquanto…

— Uma rodada, então. Obrigada. — Sloane tomou um gole da água em

temperatura ambiente servida em um vidro de geleia. — Gracie, olhe só para você. Conseguiu libertar os mamilos, afinal?

Grace usava um vestido floral com a gola elegantemente vincada.

— Se querem mesmo saber, libertei. — Bem, claro que Sloane sempre queria

saber. — Estou até deixando a Emma Kate usar chupeta.

— Que escândalo! — Ardie passou o dedo pela lista de aperitivos.

— Ei. — Grace colocou um guardanapo branco no colo. — Foi uma decisão

difícil.

— Claro que foi. — Sloane se inclinou para guardar os óculos de sol enormes

na bolsa. — Então. Conta pra gente. — Ela se apoiou em um dos cotovelos. —

Ela ainda estava lá quando você voltou para pegar o resto das suas coisas?

— Não tenho certeza. — Grace olhou rapidamente para a cozinha aberta,

depois de volta. — Para ser sincera, não tive coragem de ir checar.

Nenhuma delas tinha falado com Katherine desde então. Sloane poderia

pensar que ela nunca tinha existido, de tão completamente que tinha sido

extirpada de suas vidas, não fosse o fato de tudo ter começado a mudar no

momento em que ela chegou. Três dias antes, Sloane ligara para Grace e Ardie

para dar a notícia de que a morte de Ames havia sido oficialmente considerada

um suicídio. Aparentemente não havia provas suficientes de que houvera um

crime. A própria detetive Martin tinha ligado para ela. Aquela era a notícia que

Sloane esperava, mas ainda assim carregava um peso, porque sempre haveria

quem concordaria com Cosette, acreditando que elas tinham ido longe demais.

Que tinham sido injustas. Que eram, pelo menos em parte, responsáveis pela

morte de Ames. Isso apesar do acordo e do cheque de uma quantia vultosa que

naquele momento se encaminhava para as entranhas do escritório de advocacia

de Helen Yeh, que, a propósito, agora estava bem feliz por receber seus 40%.

— O Derek voltou — anunciou Sloane quando o vinho chegou, para evitar

que sua mente revivesse lembranças que queria esquecer.

— Das montanhas? — Ardie colocou o cardápio sobre o prato.

— Dos Apalaches. Deixou a barba crescer.

— E? — perguntou Grace.

— E, após uma semana fazendo milhas e comendo feijão em lata, tenho até

medo de falar para não estragar, mas ele disse que está pronto para seguir em

frente.

Ela realmente esperava que ele estivesse falando sério. Sentia pena de Derek.

Desde que tinham encerrado o processo com um acordo e a história de Rosalita

tinha saído nos jornais, houvera pedidos de entrevistas, talk shows, podcasts, até

mesmo alguns agentes literários sondando. As pessoas amavam seus adjetivos agora: angustiante, heroico, doloroso, corajoso. E lá estava Derek, tentando ficar

chateado com sua esposa infiel em paz.

— Ah… — disse ela, acabando de lembrar. — A Abigail fez uma amiga na

escola. Lottie Silverman. Ela foi brincar lá em casa exatamente três vezes, então

tenho quase certeza de que é sério. Até o nome dela é legal. Lottie. Ela me lembra

você, na verdade — disse Sloane a Ardie.

Ela estava toda vestida de preto, o que não combinava nada com a decoração

fresca, mas aquilo era exatamente a cara de Ardie.

— Não vou nem perguntar o que isso significa. — Ardie se ajeitou na cadeira.

— Ah, eu sei. — Grace tomou um longo gole do vinho.

Era uma delícia. Sloane sabia escolher vinhos.

— Bem, meninas. — Sloane ergueu a própria taça. — Um brinde. Ao nosso

primeiro almoço oficial de trabalho. — Elas brindaram, até mesmo Ardie, que

detestava brindes. — Antes de mais nada. Que tipo de escritório devemos ter? A

decoração vai ser southern chic? Mid-century? Ainda está na moda?

Ardie tirou um pequeno calendário da bolsa. Isso fez Sloane se sentir segura e

inteligente, ter uma sócia que andava por aí com pequenos calendários de bolso

com capa de couro.

— Dei uma olhada nas salas que o corretor de imóveis enviou em Uptown —

disse Ardie. — Eu gostei, mas a gente tem certeza de que quer ficar em Uptown?

— Sloane abriu a boca, mas Ardie apontou a extremidade da caneta para ela. —

Não comece a cantar “Uptown Girl”.

Então, sério, qual era a graça?

— Bem. Oferecemos um emprego para a Rosalita? Não sei qual é a etiqueta

apropriada. Nem se ela aceitaria um emprego. Ou…

— Sim. — Ardie endireitou os talheres na mesa. — Vamos oferecer um

emprego a ela. Não necessariamente como faxineira. Mas alguma coisa. Seu

palpite é tão bom quanto o meu no que diz respeito a ela aceitar ou não.

O dinheiro do acordo seria dividido por quatro, não três. Rosalita era a única

que ainda trabalhava na Truviv. Ela queria ver o dinheiro na conta antes de

pensar em abandonar o barco. Desde o começo, Sloane insistira para si mesma

que estava fazendo tudo aquilo — a lista, o processo contra a Truviv — para que

pudesse ter um futuro lá. Mas, depois de tudo, ela descobriu que não queria

trabalhar para uma empresa que tinha tentado arruiná-la com uma alegação de

morte indevida, que tinha tentado destruir todas elas.

Grace mordeu o lábio. O polegar e o indicador giravam a haste da taça.

— Tudo bem, o que foi? — perguntou Sloane. — Por que está tão quieta? Você odeia mid-century, né?

Grace respirou fundo.

— Ok. — Ela cruzou as mãos no colo. Sloane sentiu um arrepio subir até a

nuca. — Não quero ser a estraga-prazeres aqui. Eu sei que todas estamos

empolgadas em abrir nosso escritório, mas é só que eu… Não sei se consigo. Pelo

menos não agora, de qualquer maneira.

Ela pressionou delicadamente dois dedos entre as sobrancelhas.

— Como assim? — perguntou Ardie, arrastando a cadeira para trás, fazendo

um ruído alto no restaurante sereno. Senhorinhas que almoçavam nas mesas

próximas se viraram.

Grace ficou nervosa por uma fração de segundo, em seguida se acalmou.

— Quero continuar com vocês, de verdade, mas talvez em meio período? E

depois de algum tempo para descansar. — Ela tomou um gole de vinho. —

Entendo se decidirem seguir em frente sem um espaço para mim. É que comecei

a tomar um remédio novo e tenho algumas questões de saúde que preciso

resolver.

Grace falava rápido demais, gesticulando como um guarda de trânsito.

O queixo de Sloane caiu.

— Você está morrendo? É câncer de mama? — perguntou ela, se preparando

para a resposta. — É câncer de mama, né?

— Não, não, cruzes. Não é. Eu tenho… Eu tenho depressão pós-parto.

Ela disse isso baixinho, como se tivesse dito que tinha “lepra”.

— Ah, querida… — disse Sloane, trocando um olhar com Ardie. Ela não

costumava se dirigir às amigas com palavras afetuosas, mas talvez houvesse

momentos que demandassem isso, e aquele era um deles. — Por que não nos

contou? — perguntou Sloane, embora talvez já soubesse, lá no fundo. Se não

estivesse tão distraída…

— Simplesmente não era algo que parecesse coisa minha. Então achei que não

era. Na verdade, foi o Ames que sugeriu.

Ames. Aquilo a atingiu em cheio. O fato de que Sloane estivera muito

distraída, mas Ames Garrett tinha reparado.

— De qualquer forma, sinto muito. Eu só…

— Por favor — interrompeu Sloane. — Por favor, você vem quando estiver

pronta e nem um minuto antes.

Elas relaxaram. Sloane sentiu isso. A maneira como tudo ia aos poucos se

encaixando. Ela desprezava veementemente a ideia de que o universo poderia

estar querendo lhe dizer algo, que nada acontecia por acaso, como se o universo estivesse preocupado com as idas e vindas de mulheres loiras de meia-idade, mas

uma coisa ela podia dizer: tudo parecia bem.

— Já que estamos fazendo confissões… — Ardie mudou de posição na

cadeira.

Sloane levantou os olhos bruscamente.

— Você está saindo com alguém? Eu sabia. Deu para sentir.

Ardie semicerrou um olho.

— Não. O quê? Na verdade, tenho um encontro. Hoje à noite.

— Viu?

— Ah, ele é legal? — perguntou Grace.

— Eu não… Não sei. Eu o conheci on-line. Eu… Não, é outra coisa. — Ela

pareceu repentinamente nervosa, então, com a mesma rapidez, se recompôs.

Sloane tinha uma dezena de perguntas. Ainda assim, sabia que era melhor não

interrogar Ardie agora. — Preciso contar uma coisa a vocês, certo? — Grace e

Sloane esperavam, atentas. — Depois de tudo que passamos, acho que vocês duas

merecem saber que… Quer dizer, acho que vocês já tinham percebido que o

Ames e eu definitivamente não gostávamos um do outro, mas, sabem, na

verdade era mais do que isso. Ames abusou sexualmente de mim.

Ela se recostou na cadeira. Deixou que a informação fosse absorvida.

— Peraí. O quê? — Os belos olhos azuis de Grace se estreitaram.

— Ames Garrett abusou… Ele me estuprou. Estou envergonhada por ter

demorado tanto tempo para admitir, mas achei que vocês deveriam saber, então

é isso. E sinto muito, Sloane. Não sou muito boa em dizer isso. Eu deveria ter me

esforçado mais para alertá-la.

— Qua... quando? Como assim? — Sloane sentiu uma cegueira tomar conta

de seus olhos, confusão e raiva procurando um lugar para se instalar. Mas aquele

lugar estava, infelizmente, morto.

— Eu estava bêbada — disse Ardie, em voz alta. — Muito bêbada. Você se

lembra de que eu tinha acabado de voltar de Los Angeles, um pouco antes de

você começar na Truviv? Depois de fechar aquele acordo infernal da Fiter do

qual todo mundo estava falando? Ficamos no mesmo hotel em que você e eu nos

hospedamos quando trabalhamos na Matrix Band há alguns anos.

— Aquele com a hera no teto?

— É, esse.

Sloane não gostou deste fato. Sentiu uma súbita onda de náusea. Como se o

restaurante estivesse girando.

— De qualquer forma, não consigo me lembrar de tudo. Eu só queria deixar isso para trás e esquecer que aconteceu. Meu pai costumava dizer que a melhor

maneira de manter um segredo é fingir que você não tem um, só que…

— Só que depois eu transei com ele? — Sloane praticamente gritou.

O olhar de Ardie percorreu a sala.

— Sloane. Eu sei. Eu…

— Mas… mas… Ardie, você deve ter me odiado.

Ao ouvir isso, Ardie soltou uma risada genuína.

— Eu tentei — admitiu.

— Não, sério. — As mãos de Sloane agarraram a borda da mesa e ela se

inclinou, rosnando para Ardie. — Você deve ter realmente me odiado.

Sloane sentiu o rosto corar, como se estivesse ficando doente. Ela precisava de

mais água do vidro de geleia. Ardie deslizou o dela para a amiga, que bebeu.

Uma vez saciada, Sloane se recostou pesadamente, sobrecarregada pelo

esforço gasto com aquelas palavras — as palavras de Ardie —, e sentiu uma

exaustão que ia até os ossos, apesar do fato de não serem palavras dela.

— Foi complicado — explicou Ardie. — Eu tinha esperança de que você o

odiasse logo de cara. Àquela altura, ele era tão detestável para mim que achei que

seria óbvio para todos os outros. Então, depois de alguns meses, achei que talvez

eu tivesse sido um caso isolado. Talvez tivesse sido um mal-entendido. E você

estava tão determinada a tentar ser minha amiga…

— Eu não estava. — Sloane limpou a boca no guardanapo, manchando-a

acidentalmente de rosa. — Tudo bem, eu estava. Isso é bem a minha cara. — Ela

sorriu, trêmula. — Por que você não disse nada depois? Como no caso com a

Katherine?

— Achei que era tarde demais. Como se fosse parecer conveniente mais do

que útil, eu acho. Entre outras coisas.

Ardie hesitou, as sobrancelhas se unindo.

— Grace, você está bem?

Ah, meu Deus. Pobre Grace. Ela estava chorando. Claro que estava. Aquilo

tinha sido demais para ela. Hormônios. Pós-parto. Ela não deveria estar ouvindo

aquilo. Não recomendado para menores de doze anos! Elas precisavam manter a

conversa com Grace dentro dessa classificação.

— Estou bem — assegurou Ardie. — De verdade. — Como Sloane ia saber se

isso era verdade ou não? — Por que está tão chateada?

— Porque ele fez isso com você. E porque me sinto muito culpada. E então me

sinto culpada por me sentir culpada. — Grace abafou um soluço. Parecia

fisicamente doloroso. — Ele morreu e, depois de ouvir isso, eu deveria estar satisfeita. Certo? — Ela pressionou os nós dos dedos no nariz. Das três, Grace

claramente foi a que teve mais dificuldade de se juntar a elas naquela coisa de

odiar Ames, acreditar em Katherine, mas a questão era que tinha feito isso. Tinha

escolhido acreditar nelas. Estava sendo muito dura consigo mesma. — A questão

é que… — Quando engoliu, pareceu que sua garganta doía. Ela fechou os olhos.

— Fui eu que matei o Ames.