Rede de Sussurros
Capítulo 50
2 DE MAIO
Fracassar era um luxo que não podíamos nos permitir, acorrentadas umas às
outras daquele jeito, nosso destino trancado à chave. Um fracasso de bilheteria
de uma diretora e ninguém mais queria filmes de “menina”; uma queda
vertiginosa no mercado de ações de uma empresa com uma presidente, e
mulheres não sabiam liderar; uma acusação falsa e éramos mentirosas, todas.
Porque quando nós falhávamos, era por causa dos nossos cromossomos, e não
por causa de uma crise no mercado, uma campanha publicitária ineficaz ou
simples má sorte.
Bastava um passo em falso!, como diziam por aí.
Ardie estava deitada no sofá, uma miscelânea de embalagens de comida para
viagem abertas, tudo ao redor cheirando a fracasso enquanto ela assistia a um
episódio antigo de Community. “A Última Ceia”, era como ela estava chamando
aquele momento. A última noite em que poderia fazer um pedido no UberEats,
na verdade. A advogada tributária nela não conseguia deixar de fazer as contas.
Ah, como ela queria não fazer! Em um dia, estaria devendo um pouco mais de
1,6 milhão. Mesmo com um plano de pagamento de cinco anos, o valor a pagar
por ano seria muito maior do que seu salário anual. Ela tinha trezentos mil
dólares na poupança, o que quase daria para cobrir o primeiro ano de prestações.
Depois, teria que vender a casa. Isso resolveria parte do segundo ano, mas
Michael odiaria ficar preso em um apartamento enquanto Tony e Braylee tinham
uma linda casa com um quintal, balizas de futebol e piscina. Seria só uma
questão de tempo até ela se tornar uma obrigação. Sim, Michael, você tem que ir
ver sua mãe, diria Tony, e se sentiria uma boa pessoa por isso.
Ela teria que voltar a trabalhar em escritórios de advocacia. Isso era óbvio. Ela
detestava a vida naqueles lugares, as exigências de faturamento, a quantidade de
reuniões presenciais. Já estava muito velha para tentar se tornar sócia. No
terceiro ano, não conseguiria mais pagar. Atrasaria as parcelas, deveria juros,
chegaria pouco a pouco ao fundo do poço. Ela ignorou o abismo que se abria e tomou outro gole de Coca-Cola, com todas as suas calorias.
Seu celular tocou na mesa, debaixo de uma embalagem de hambúrguer.
Uma das piores mudanças depois de se tornar mãe solteira era a ansiedade
que o toque do telefone provocava. Se Tony ligava inesperadamente quando
eram casados, sua primeira reação era ficar feliz e se sentir um pouco especial.
Mas agora era diferente. Seu primeiro instinto era atender ao telefone com um
“O que houve?”. Não importava quem estivesse ligando. Se uma coisa podia dar
errado, tudo podia.
Mas era Rosalita. Ardie observou o telefone vibrar na palma da mão,
provavelmente um acidente. Ou talvez a outra estivesse ligando para comemorar
mais uma vez o fato de Salomon ter sido aceito na escola. Ardie não estava no
clima para celebrações. Mas então o telefone parou de chamar e, segundos
depois, recomeçou.
— Rosalita?
Ela pressionou com força os botões esponjosos do controle remoto da TV
para abaixar o volume.
— Ardie? Sra. Ardie? — Rosalita soava ofegante, como se tivesse acabado de
voltar de uma corrida. — Preciso que me ajude a preencher os formulários da
bolsa de estudos do Salomon. Por favor.
— Tudo bem, claro. Posso ajudar. — Ela se arrependeu de ter atendido. Não
estava com disposição. — Podemos nos encontrar na Barnes & Noble no fim de
semana.
Teria bastante tempo até lá.
— Não, agora! — O sotaque de Rosalita ficava ainda mais carregado ao
telefone. — Preciso que você venha agora. Não entendo o que aconteceu. Eu… o
prazo… eu me confundi. Achei que tinha mais tempo. Eu não sei.
Ardie esfregou o rosto. Já tinha tirado o sutiã e não tinha nem comido a
sobremesa ainda. Se não fosse pelo desespero na voz de Rosalita, teria negado.
Ou quem sabe fosse por seu próprio desespero mais silencioso, infiltrando-se nas
almofadas do sofá. Ela fechou um saco de papel com cookies quentinhos e
colocou na bolsa.
— Eu vou até aí — avisou Ardie. — Me passa o seu endereço.