Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 27 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 26

 

3 DE ABRIL

Ardie costumava pensar que era uma fase. Aquele desejo de se fechar em si

mesma, de se esconder na própria pele como um caramujo em sua concha.

Sempre tinha sido assim. No ensino médio, ela chegava cedo à sala de aula e

esperava junto à porta até que o professor a convidasse a entrar. Quando seus

colegas de turma começavam a chegar, ela fingia ler um livro ou, pior, fazia com

que seus olhos ficassem estranhamente fora de foco, como se estivesse sonhando

acordada, apenas para evitar qualquer conversa. Isso não acontecia o tempo

todo, mas esse estado de espírito e esse desejo a invadiam inesperadamente,

como um vírus gastrointestinal, e ela era forçada a atender seu chamado. Na

faculdade, decidiu que esse distúrbio em particular não era uma fase, mas uma

doença transmitida pelo pai. Algo apenas semidebilitante, mas sem cura nem

esperança de melhora significativa.

Então, quando Ardie entrou no elevador vazio e momentos depois ouviu

passos e viu alguém estendendo a mão para evitar que as portas se fechassem, a

frustração a invadiu. Havia muito tempo que desistira de esperar que o botão de

“fechar” fizesse qualquer coisa além de oferecer conforto psicológico.

Ames entrou no elevador e a viu parada lá. Os olhares gêmeos de decepção

deviam ser a única coisa que os dois tinham em comum. Ele fez menção de abrir

a boca, soltou um suspiro como forma de cumprimento e, em seguida, de

maneira quase imperceptível, balançou a cabeça enquanto se virava para as

portas que se fechavam. Ardie imaginou uma daquelas luzes negras da polícia

que mostravam respingos de sangue e pensou que, se houvesse algo similar que

mostrasse desprezo mútuo, o elevador ficaria totalmente iluminado.

Ardie olhou para a nuca de Ames Garrett. Ele tirou a mão do bolso direito.

Por um momento, seu indicador pairou sobre o botão de emergência. Em

seguida, foi até um número menor. Hesitação. Então voltou a colocar a mão no

bolso. Outro suspiro.

A agitação emanava dele em ondas. As mãos estavam fora dos bolsos agora. Cabeça baixa, segurando o pulso esquerdo. Deslocando o peso de um pé para o

outro. Ele esperava no centro do elevador, tão perto das portas que as pontas dos

sapatos quase a tocavam. Ardie olhou para o canto superior do elevador. A

câmera observava.

Um pequeno fato sobre Ames: ele passou a disfarçar melhor o temperamento.

Antes de Grace ou Sloane começarem a trabalhar na Truviv, Ardie havia

testemunhado quando ele atirou um grampeador na parede depois de uma

ligação a respeito de um acordo de compra, e mais tarde ouviu um advogado

mais novo relatar esse caso em tom reverente e impressionado, a moral da

história tendo se transformado em algo sobre como Ames levava seu trabalho a

sério.

Agora, no entanto, conseguia detectar essa agressividade sob a superfície,

como se segurasse a palma da mão sobre a água prestes a ferver. O elevador

descia rapidamente, e nenhum dos dois disse nada. Na última hora, ele apertou o

botão do oitavo andar e esperou que as portas se abrissem.

— Vocês são todas malucas, sabia? — disse, logo antes de as portas

estremecerem e se fecharem novamente.

 

* * *

 

Quinze minutos depois, Ardie voltou à cozinha do escritório com um sanduíche

e encontrou Katherine procurando uma garrafa de água com gás. Katherine se

assustou ao ouvir o som da porta.

— Nossa, desculpa. — Ardie andou mais devagar. — Não quis assustar você.

Katherine soltou o ar, a mão no peito.

— Está tudo bem?

Ardie semicerrou os olhos, examinando-a.

Katherine encostou uma das latas frias na nuca, depois nas bochechas,

parecendo chateada e nervosa.

— Estou bem — disse ela com a voz rouca. — Só achei que talvez fosse…