Rede de Sussurros
Capítulo 26
3 DE ABRIL
Ardie costumava pensar que era uma fase. Aquele desejo de se fechar em si
mesma, de se esconder na própria pele como um caramujo em sua concha.
Sempre tinha sido assim. No ensino médio, ela chegava cedo à sala de aula e
esperava junto à porta até que o professor a convidasse a entrar. Quando seus
colegas de turma começavam a chegar, ela fingia ler um livro ou, pior, fazia com
que seus olhos ficassem estranhamente fora de foco, como se estivesse sonhando
acordada, apenas para evitar qualquer conversa. Isso não acontecia o tempo
todo, mas esse estado de espírito e esse desejo a invadiam inesperadamente,
como um vírus gastrointestinal, e ela era forçada a atender seu chamado. Na
faculdade, decidiu que esse distúrbio em particular não era uma fase, mas uma
doença transmitida pelo pai. Algo apenas semidebilitante, mas sem cura nem
esperança de melhora significativa.
Então, quando Ardie entrou no elevador vazio e momentos depois ouviu
passos e viu alguém estendendo a mão para evitar que as portas se fechassem, a
frustração a invadiu. Havia muito tempo que desistira de esperar que o botão de
“fechar” fizesse qualquer coisa além de oferecer conforto psicológico.
Ames entrou no elevador e a viu parada lá. Os olhares gêmeos de decepção
deviam ser a única coisa que os dois tinham em comum. Ele fez menção de abrir
a boca, soltou um suspiro como forma de cumprimento e, em seguida, de
maneira quase imperceptível, balançou a cabeça enquanto se virava para as
portas que se fechavam. Ardie imaginou uma daquelas luzes negras da polícia
que mostravam respingos de sangue e pensou que, se houvesse algo similar que
mostrasse desprezo mútuo, o elevador ficaria totalmente iluminado.
Ardie olhou para a nuca de Ames Garrett. Ele tirou a mão do bolso direito.
Por um momento, seu indicador pairou sobre o botão de emergência. Em
seguida, foi até um número menor. Hesitação. Então voltou a colocar a mão no
bolso. Outro suspiro.
A agitação emanava dele em ondas. As mãos estavam fora dos bolsos agora. Cabeça baixa, segurando o pulso esquerdo. Deslocando o peso de um pé para o
outro. Ele esperava no centro do elevador, tão perto das portas que as pontas dos
sapatos quase a tocavam. Ardie olhou para o canto superior do elevador. A
câmera observava.
Um pequeno fato sobre Ames: ele passou a disfarçar melhor o temperamento.
Antes de Grace ou Sloane começarem a trabalhar na Truviv, Ardie havia
testemunhado quando ele atirou um grampeador na parede depois de uma
ligação a respeito de um acordo de compra, e mais tarde ouviu um advogado
mais novo relatar esse caso em tom reverente e impressionado, a moral da
história tendo se transformado em algo sobre como Ames levava seu trabalho a
sério.
Agora, no entanto, conseguia detectar essa agressividade sob a superfície,
como se segurasse a palma da mão sobre a água prestes a ferver. O elevador
descia rapidamente, e nenhum dos dois disse nada. Na última hora, ele apertou o
botão do oitavo andar e esperou que as portas se abrissem.
— Vocês são todas malucas, sabia? — disse, logo antes de as portas
estremecerem e se fecharem novamente.
* * *
Quinze minutos depois, Ardie voltou à cozinha do escritório com um sanduíche
e encontrou Katherine procurando uma garrafa de água com gás. Katherine se
assustou ao ouvir o som da porta.
— Nossa, desculpa. — Ardie andou mais devagar. — Não quis assustar você.
Katherine soltou o ar, a mão no peito.
— Está tudo bem?
Ardie semicerrou os olhos, examinando-a.
Katherine encostou uma das latas frias na nuca, depois nas bochechas,
parecendo chateada e nervosa.
— Estou bem — disse ela com a voz rouca. — Só achei que talvez fosse…