Rede de Sussurros
Capítulo 45
27 DE ABRIL
Sloane raramente chegava em casa e encontrava tudo às escuras — um dos
pequenos luxos de ser a última a sair do trabalho —, mas naquela noite a casa
parecia sem vida, como se a família que morava ali tivesse saído de férias e
deixado apenas algumas poucas luzes acesas em pontos estratégicos para
despistar os ladrões.
— Abigail! — gritou ela.
— Aqui em cima — uma voz fraca gritou de volta.
Sloane ouviu o som da TV ligada. Ela olhou para cima, como se pudesse ver a
filha através do teto. Seu cérebro de mãe estava repleto de horrores nos quais
uma menina poderia começar a se envolver se fosse deixada sem supervisão.
Uma casa à prova de bebês é o de menos, Sloane gostaria era de ter uma casa à
prova de meninas pré-adolescentes. Ela sumiria com lâminas de barbear,
tesouras, qualquer coisa afiada, vasos sanitários e latas de lixo, revistas de
meninas adolescentes e aplicativos de mensagens instantâneas, celulares,
comprimidos, garrafas de bebida alcoólica e câmeras.
Sloane tirou o blazer e chutou os sapatos para baixo de um armário.
— O superintendente do distrito escolar ligou.
Ao ouvir a voz de Derek, ela se virou para a sala escura, sobressaltada, o
coração batendo acelerado como o de um coelho preso numa armadilha.
— Você me assustou — disse ela.
A silhueta do marido escurecia o sofá. As luzes da rua que entravam pelas
persianas iluminaram a borda externa de uma garrafa de cerveja verde-escura.
— Ele disse que ficou decepcionado ao receber nossa queixa.
— Eu nunca me referi a “nós” — garantiu Sloane, recostando o quadril na
bancada de granito.
— Você entendeu. — Derek tomou um gole da cerveja. Ele sempre soava mais
sulista depois de beber uma ou duas garrafas. — Ele disse que gostaria que não
tivéssemos ameaçado entrar com um processo e esperava que mudássemos de ideia. Mudássemos. Nós.
— Você não viu as mensagens de texto que a Abigail estava recebendo.
— Vi, sim. — Derek apontou o gargalo da garrafa para ela.
— Teve mais.
Ele riu, se levantou do sofá e ficou andando de um lado para outro.
— E você escondeu isso? Nossa, Sloane, isso não é do seu feitio.
Ela não cedeu à provocação.
— Eu queria poupar você — explicou ela. — Não queria envolvê-lo nisso.
Então… Tomei uma decisão.
— Estamos falando do meu trabalho, Sloane — interrompeu Derek, batendo
no próprio peito.
— Eu sei.
— Será? — Ele se virou para encará-la. — Porque tenho a impressão de que
você acha que, só porque ganha mais do que eu, isso a torna mais importante
para esta família. A tomadora de decisões, né?
— Eu não acho nada disso.
— Você pode até ganhar mais dinheiro, mas nós dois trabalhamos
igualmente. Nós dois temos empregos de tempo integral. Você poderia trabalhar
em outros lugares, Sloane. — Ele apontou o dedo para ela, erguendo o queixo. —
Você não quer, mas poderia. Não há muitos outros distritos escolares na cidade.
— Eles não vão despedir você, e mesmo que fizessem isso…
— Mesmo que fizessem isso… o quê? O quê? Não importaria?
Ele passou as mãos no rosto. Tinha montado o balanço no quintal com
aquelas mãos.
— Claro que importaria. Desculpa. Como eu disse, não queria envolver você
nisso. O problema não é quem está lidando com a situação, Derek, o problema é
isso estar acontecendo em primeiro lugar.
Por que ninguém parecia entender?
— Certo. Bem, espero que a Ardie e a Grace saibam no que elas se meteram.
E lá estava. Seu pior medo, exposto pela pessoa que mais amava. Ela era uma
péssima embaixadora da causa. Era um risco. Tinha dito a si mesma que poderia
ser uma emissária imperfeita para a mensagem delas, mas era a única disponível,
então deveria ser melhor que nada. Mas agora elas tinham entrado com um
processo; como resultado, estavam sendo processadas e, bem, talvez até coisa
pior. Talvez até ramificações reais, permanentes e que podiam alterar a vida dela
ou de uma de suas amigas. E ela não sabia como, nem onde, tudo aquilo
terminaria. Só sabia que tudo aquilo tinha começado depois da morte de Ames. E elas teriam que lidar com aquilo, o que quer que aquilo fosse. No fim das contas,
e se ela ficasse sem nada? Nada poderia ser pior para Sloane do que perder tudo.