Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 46 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 45

 

27 DE ABRIL

Sloane raramente chegava em casa e encontrava tudo às escuras — um dos

pequenos luxos de ser a última a sair do trabalho —, mas naquela noite a casa

parecia sem vida, como se a família que morava ali tivesse saído de férias e

deixado apenas algumas poucas luzes acesas em pontos estratégicos para

despistar os ladrões.

— Abigail! — gritou ela.

— Aqui em cima — uma voz fraca gritou de volta.

Sloane ouviu o som da TV ligada. Ela olhou para cima, como se pudesse ver a

filha através do teto. Seu cérebro de mãe estava repleto de horrores nos quais

uma menina poderia começar a se envolver se fosse deixada sem supervisão.

Uma casa à prova de bebês é o de menos, Sloane gostaria era de ter uma casa à

prova de meninas pré-adolescentes. Ela sumiria com lâminas de barbear,

tesouras, qualquer coisa afiada, vasos sanitários e latas de lixo, revistas de

meninas adolescentes e aplicativos de mensagens instantâneas, celulares,

comprimidos, garrafas de bebida alcoólica e câmeras.

Sloane tirou o blazer e chutou os sapatos para baixo de um armário.

— O superintendente do distrito escolar ligou.

Ao ouvir a voz de Derek, ela se virou para a sala escura, sobressaltada, o

coração batendo acelerado como o de um coelho preso numa armadilha.

— Você me assustou — disse ela.

A silhueta do marido escurecia o sofá. As luzes da rua que entravam pelas

persianas iluminaram a borda externa de uma garrafa de cerveja verde-escura.

— Ele disse que ficou decepcionado ao receber nossa queixa.

— Eu nunca me referi a “nós” — garantiu Sloane, recostando o quadril na

bancada de granito.

— Você entendeu. — Derek tomou um gole da cerveja. Ele sempre soava mais

sulista depois de beber uma ou duas garrafas. — Ele disse que gostaria que não

tivéssemos ameaçado entrar com um processo e esperava que mudássemos de ideia. Mudássemos. Nós.

— Você não viu as mensagens de texto que a Abigail estava recebendo.

— Vi, sim. — Derek apontou o gargalo da garrafa para ela.

— Teve mais.

Ele riu, se levantou do sofá e ficou andando de um lado para outro.

— E você escondeu isso? Nossa, Sloane, isso não é do seu feitio.

Ela não cedeu à provocação.

— Eu queria poupar você — explicou ela. — Não queria envolvê-lo nisso.

Então… Tomei uma decisão.

— Estamos falando do meu trabalho, Sloane — interrompeu Derek, batendo

no próprio peito.

— Eu sei.

— Será? — Ele se virou para encará-la. — Porque tenho a impressão de que

você acha que, só porque ganha mais do que eu, isso a torna mais importante

para esta família. A tomadora de decisões, né?

— Eu não acho nada disso.

— Você pode até ganhar mais dinheiro, mas nós dois trabalhamos

igualmente. Nós dois temos empregos de tempo integral. Você poderia trabalhar

em outros lugares, Sloane. — Ele apontou o dedo para ela, erguendo o queixo. —

Você não quer, mas poderia. Não há muitos outros distritos escolares na cidade.

— Eles não vão despedir você, e mesmo que fizessem isso…

— Mesmo que fizessem isso… o quê? O quê? Não importaria?

Ele passou as mãos no rosto. Tinha montado o balanço no quintal com

aquelas mãos.

— Claro que importaria. Desculpa. Como eu disse, não queria envolver você

nisso. O problema não é quem está lidando com a situação, Derek, o problema é

isso estar acontecendo em primeiro lugar.

Por que ninguém parecia entender?

— Certo. Bem, espero que a Ardie e a Grace saibam no que elas se meteram.

E lá estava. Seu pior medo, exposto pela pessoa que mais amava. Ela era uma

péssima embaixadora da causa. Era um risco. Tinha dito a si mesma que poderia

ser uma emissária imperfeita para a mensagem delas, mas era a única disponível,

então deveria ser melhor que nada. Mas agora elas tinham entrado com um

processo; como resultado, estavam sendo processadas e, bem, talvez até coisa

pior. Talvez até ramificações reais, permanentes e que podiam alterar a vida dela

ou de uma de suas amigas. E ela não sabia como, nem onde, tudo aquilo

terminaria. Só sabia que tudo aquilo tinha começado depois da morte de Ames. E elas teriam que lidar com aquilo, o que quer que aquilo fosse. No fim das contas,

e se ela ficasse sem nada? Nada poderia ser pior para Sloane do que perder tudo.