Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 29 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 28

 

3 DE ABRIL

— Você quer processar seu chefe.

Derek ignorou os dois dedos de uísque que Sloane tinha servido para ele antes

de iniciar aquela conversa. Eles estavam sentados na enorme cama deles. Por

alguma razão, todas as conversas importantes dos dois aconteciam naquela

cama. Era multiuso. Como anunciado.

— E a Truviv — completou ela.

Sloane estava no limite entre explicar devidamente, porque Derek não tinha

formação legal, e resvalar para a condescendência.

Ele apoiou a cabeça numa das almofadas da cabeceira.

— Ah, isso melhora muito as coisas.

— O sarcasmo não combina com você.

Sloane abraçou um travesseiro. Ela estava deitada de lado, as pernas dobradas.

Derek estava usando camiseta e cueca samba-canção. Uma hora antes, ela

solicitara uma “reunião familiar”, embora Abigail já tivesse ido dormir, porque

Derek gostava daquele termo. Tinha ouvido aquilo em um audiolivro para pais,

algo que ela teria ouvido para parecer uma mãe melhor, mas que ele ouvira para,

de fato, ser um pai melhor.

Ele levantou a cabeça. Seu cabelo era lindo para um homem com mais de

quarenta anos. Sloane só podia imaginar o que as garotas do ensino fundamental

diziam sobre ele.

— Olhe só para esta casa, Sloane. — Ele estendeu os braços. Na verdade, a

casa para a qual ela deveria estar olhando não era particularmente grande, mas

“localização é tudo”, como diziam. — Quanto você acha que eu ganho?

Sloane farejou uma armadilha. Ela havia se casado com um homem que não

se importava que a esposa ganhasse mais do que o triplo do seu salário, contanto

que isso nunca fosse mencionado.

— Estou falando sério, Sloane. O que você acha que vai acontecer se tudo

acabar mal? Se você, sei lá, perder o emprego, em vez de Ames? Caso não tenha notado, dinheiro não nasce em árvores.

Ele apertou e massageou a nuca.

— Só porque nós gastamos como se nascesse — retrucou ela. — Não

precisamos reformar o banheiro com azulejos Ann Sacks.

Ela jamais teria desconfiado que o hábito mais caro do marido seria sua

paixão não assumida por design de interiores, mas ali estavam eles.

— Também não precisamos de cinco pares de Louboutins.

O que não era exatamente justo, na opinião de Sloane, porque ela ganhava o

suficiente para pagar pelos Louboutins, e ela não dava a mínima se o banheiro

deles fosse revestido com azulejos mais baratos. Nunca diria isso a ele, porque

sabia que, se fosse um homem trabalhador que dissesse isso à esposa, ela teria

achado de uma indecência terrível, então se impunha o mesmo padrão. O

dinheiro era dos dois. E Derek estava certo. Se ela perdesse o emprego, haveria

um efeito dominó: primeiro um dos carros, depois as viagens de férias e, por fim,

a casa. A menos que ela encontrasse uma maneira de estancar a sangria.

Ainda assim, um trabalho deveria pagar ao funcionário, não sacrificá-lo. A

realidade de sua situação era que, se quisesse fazer algo em relação a Ames, era

agora ou nunca.

Ela abraçou o travesseiro com mais força.

— Que tipo de exemplo estamos dando a Abigail?

Derek jogou a almofada de quase duzentos dólares, pintada a mão, para fora

da cama, sem pensar.

— Nenhum. Porque ela não sabe que isso está acontecendo. É você que está

colocando isso sob os holofotes. — Ela o encarou. — Faça um acordo fora do

tribunal.

— Talvez eu faça. Mas a única maneira de isso acontecer é se eu abrir o

processo primeiro. Sem processo, sem acordo. — Era bom ser a pessoa sensata,

razoável. Ela deveria tentar mais vezes. A cabeça dele pendia para trás. — Se eu

entrar com um processo por assédio sexual, eles não podem me demitir.

Demitir, não. Reduzir suas responsabilidades? Deixar de promovê-la? Ocupá-

la com revisões de processos? Transformar sua vida num inferno? Forçá-la a

pedir demissão? Sim, mas não parecia prudente entrar em detalhes.

— É por isso que o processo é melhor do que simplesmente uma reclamação.

Eu já contei sobre a vez que o Ames disse ao advogado da outra parte que eu era

emotiva demais para ser uma boa negociadora? “Com licença, querida, nós

vamos nos encarregar de fechar o negócio.” — Sloane imitou um sotaque do

meio-atlântico antiquado, o tipo de coisa que costumava arrancar um sorriso do marido. — Meu negócio, Derek — disse ela, com mais seriedade.

— Você… mencionou, para falar a verdade.

— Nós podemos ganhar dinheiro com isso. — Ela não sabia em que momento

a ideia tinha deixado de ser apenas uma ideia para se tornar algo que ela

realmente queria materializar. Provavelmente enquanto tentava convencer

Derek. Era persuasiva a esse ponto, honestamente. — Eu estava concordando

com essa história do Ames se tornar presidente porque pensei, tudo bem, ele vira

presidente, eu me torno diretora jurídica, aceito tudo isso calada, recebo um belo

aumento e fico torcendo para tudo ficar bem. Mas… mas… e se não ficar? Desse

jeito, o Ames chega à presidência. Ainda há uma vaga para eu negociar. Existem

leis contra a retaliação por parte do empregador. Mas o principal é que eu vou

parar de ver aquele homem ter o mesmo poder sobre outras mulheres que ele

tentou ter sobre mim. Podemos controlar essa situação se assumirmos o controle

dela. Agora ele tem o controle. De tudo. Você entende isso, não entende? Vai

ficar ainda pior se ele se tornar presidente, o que vai acontecer, a menos que eu, a

menos que nós façamos alguma coisa a respeito antes de a promoção ser

anunciada. — Sloane se arrastou pelo colchão para mais perto do marido. —

Você acha que eu sou uma boa advogada, certo? Que eu mereço isso?

— Você está na minha lista dos cinco melhores, com certeza.

Os ombros dela relaxaram um pouco.

— Você tem uma lista dos cinco melhores?

Ele riu.

— Claro que tenho. Está brincando? Vamos ver. — Ele contou. — Johnnie

Cochran. John Adams. Robert Kardashian. Sloane Glover. Ruth Bader Ginsburg.

Ela abriu um sorriso.

— Hum… Então venho antes de RBG, mas depois de Robert Kardashian.

As coisas ainda podiam ser engraçadas. Seu marido era uma delas. Ela

precisava disso. Precisava dele, na verdade.

— Ei, a lista é minha.

Derek estava arrancando as penas do edredom, extraindo-as pela haste.

Nunca era uma disputa justa. Sloane conseguia o que queria em quase todos os

seus relacionamentos. Não que Derek não tivesse opiniões; era só que Derek a

amava. Ele era uma boa pessoa, e ela não se importava de ceder essa vitória para

ele, contanto que fosse apenas essa vitória.

Ele franziu a boca, formando vincos profundos.

— Tudo bem — disse. — Tudo bem. Se é isso que precisamos fazer para seguir

em frente, então é isso que precisamos fazer para seguir em frente. Você é quem manda.

Sloane tentou muito não tomar isso como uma alfinetada.

— Obrigada, Derek.

Ela deslizou para fora da cama. Já era tarde, mas ainda estava com as roupas

do trabalho, amarrotadas e parcialmente desabotoadas. Sentia-se, de modo geral,

aliviada. Se parte dela se preocupava com o fato de estar agindo por impulso, ela

argumentou que o caso contra Ames já vinha tomando forma havia anos. Sabia

que tinha razão, e Sloane amava estar com a razão mais do que praticamente

qualquer outra coisa. Essa havia sido uma das razões que a levaram a se tornar

advogada.

Ela abriu a gaveta e pegou um pijama de seda tailandesa. Derek estava lendo

algo no telefone enquanto ela se trocava.

Sloane respirou fundo.

— Só tem uma coisa que acho que preciso contar a você, caso seja

mencionada — disse ela enquanto colocava pasta de dente azul na escova.

Cinco anos antes, ela não teria sequer considerado contar a ele, porque teria

sido cedo demais. Mas agora, com seu casamento na casa dos dois dígitos,

parecia que tinha sido uma vida inteira atrás. Ela se pegou se perguntando coisas

como: quando o Derek me pediu em casamento, março ou novembro?

— Hum? — Ele não tirou os olhos do telefone.

Aquele era o momento de desistir. Mas ela observava o marido, seus pés

descalços familiares, seus dedos longos e tortos. Eles tinham assistido a tantas

séries policiais nas quais uma criança era raptada e um dos pais estava ocupado

escondendo um caso extraconjugal, e sempre diziam um para o outro: Pelo amor

de Deus, se você estiver tendo um caso quando tem algo mais importante

acontecendo, fala logo de uma vez!

Sloane era uma mulher moderna com um marido moderno. Ela negociava em

concessionárias de automóveis. Ganhava dinheiro e tomava decisões. Fazia corpo

mole para sua parte das tarefas domésticas. Não cozinhava. Ela tinha transado.

Seu caso não era um motivo para deixar que outras mulheres fossem abusadas ou

assediadas, era?

— O Ames e eu já tivemos um caso. — Derek se voltou para ela, que ergueu a

mão. — Antes de nos casarmos.

Ele ficou ligeiramente aliviado.

— Quando antes de nos casarmos?

Era quase como se ele fosse casado com uma advogada.

Ela enfiou a escova de dentes na boca.

— Alguns meses antes.

— Então, nós estávamos namorando.

Derek largou o telefone para que ela tivesse toda a sua atenção. Ela poderia

viver sem isso. Só daquela vez.

— Noivos. Tecnicamente — disse ela.

— Noivos — repetiu ele.

Ela cuspiu na pia e enxaguou a boca com água.

— E ele era casado?

— Ele definitivamente era casado. Foi logo depois que você me pediu em

casamento. Não tinha certeza do que queria. Estava passando por uma crise de

consciência.

Ela achou que seria bom colocar um rótulo. Era como um diagnóstico. Todo

mundo tinha que apoiar quando você recebia um, sob o risco de parecer uma

pessoa horrível, egoísta e preconceituosa em relação a problemas de saúde

mental. E Derek definitivamente não era nada disso.

— Bem, é reconfortante ouvir isso. — Ele finalmente pegou o uísque da mesa

de cabeceira, cheirou e tomou um gole. Era um uísque muito bom. Ela achava

que isso deveria importar. — Desculpa, mas o que exatamente você quer que eu

diga? — Havia uma rispidez nítida em seu tom de voz.

Tudo bem, pensou Sloane. Eu mereço.

Sloane guardou a escova de dentes. Começou a responder e em seguida

franziu a testa, só que, é claro, sua testa não se franziu nem um pouco.

— Estou pensando — disse ela. — Você não vai perceber porque escolhi

envenenar meu rosto para me adequar a padrões sociais de beleza injustos. — Ela

passou o dedo pela testa com cuidado. — Essa deve ser a sensação de ter paralisia

facial.

Sloane estava falando demais. Era sua principal tática para enrolar, e Derek

sabia disso. Acontece que, em sua mente, ela não tinha articulado exatamente o

que achava que Derek ia dizer depois de sua confissão. Havia imaginado

vagamente o marido expressando a decepção de um pai rigoroso ao saber que

sua filha de quarenta anos costumava sair escondida e beber cerveja quando

estava no ensino médio. O rosto de Derek contava uma história diferente: mágoa

e raiva travando uma luta acirrada por domínio.

— Realmente importa, se foi antes de nos casarmos? Pense bem. É por isso

que dizemos “sim”. — Tinha medo de falar isso agora, mas sempre teve a

sensação de que qualquer coisa que acontecesse antes do casamento era, sei lá,

parte do jogo? Prática? Ou talvez só estivesse dizendo aquilo a si mesma porque era assim que tratava seus relacionamentos antes de Derek. — Fui fiel depois que

trocamos nossos votos.

— Que honrado da sua parte, Sloane. Porra.

Os dois falavam palavrão. Nunca um para o outro, no entanto. E ela precisou

se controlar para não assumir o papel de pessoa ofendida. Ela era muito melhor

nisso.

— Derek. — Sloane voltou do banheiro, um pouco de creme antirrugas na

ponta dos dedos. — Isso aconteceu há doze anos. Eu sei. Eu era jovem, horrível e

idiota. Mas…

As molas do colchão rangeram. Derek pegou seus dois travesseiros e arrancou

um dos cobertores da cama. Ele teve que torcê-lo ao redor do antebraço para

conseguir carregar tudo.

— Derek? Derek, aonde você vai? — Ela o seguiu pela sala de estar enquanto

ele subia as escadas em direção ao quarto de hóspedes. — Pensei que você tinha

dito que a gente estava no mesmo time.

Ela passou o creme na perna. Trinta gramas daquilo custavam quarenta e três

dólares, e Sloane não podia acreditar que tinha acabado de desperdiçá-lo. Seus

pés bateram com força nos degraus. Ia acabar acordando Abigail se não tomasse

cuidado.

Derek olhou para ela do alto das escadas.

— Sim, acho que na verdade é por isso que dizemos “sim”.

E desapareceu no quarto de hóspedes, onde ela o ouviu trancar a porta.

Os passos de Sloane foram mais suaves ao descer as escadas. Ela se encolheu

no lado de Derek da cama e pegou o copo de uísque ainda quase cheio. Tudo ia

ficar bem, disse a si mesma. Com trinta e poucos anos, uma briga semelhante

teria envolvido portas batendo, longas mensagens de texto picotadas, um dos

dois indo embora — provavelmente ela — e em seguida voltando para gritar

mais um pouco.

Agora a casa estava silenciosa. Ela engoliu o resto do uísque. O sabor terroso

de turfa invadiu seu nariz. Você definitivamente merece isso, pensou.

Ela e Derek tinham planejado ver o episódio final da série Orphan Black

naquela noite. Em vez disso, ela foi até a cozinha se servir de mais uma dose.

Transcrição de depoimento

 

27 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Sra. Glover, quanto a senhora ganha por ano na Truviv? Ré 1: Qual é a relevância dessa informação? Sra. Sharpe: Se couber um protesto, seu advogado poderá justificá-lo

perante o tribunal. Quanto ganha por ano na Truviv?

Ré 1: Meu salário base é de trezentos e dez mil dólares anuais, além do

bônus discricionário.

Sra. Sharpe: A senhora está ciente de que esse salário está entre o 1%

dos salários mais altos do país?

Ré 1: Continuo sem entender a relevância disso. Não se trata de maneira

alguma de uma quantia exorbitante para uma pessoa com meu nível de experiência.

Sra. Sharpe: Consegue viver confortavelmente com essa renda, sra.

Glover?

Ré 1: Isso é relativo. Por exemplo, comparada a você, Cosette?

Provavelmente não. Mas, de modo geral, sim, estamos bem.

Sra. Sharpe: Então, sua única motivação ao entrar com uma ação contra a

Truviv e o sr. Garrett foi se unir à luta contra o assédio sexual, correto? Não se tratou de um esquema para ganhar dinheiro?

Ré 1: Claro que não. E com isso quero dizer que é claro que não se

tratava de um meio de ganhar dinheiro, a não ser pelo fato de que forçar uma corporação a pagar é uma das formas mais eficazes de encorajar essa corporação e os funcionários dela, de modo geral, a mudar de comportamento.

Sra. Sharpe: Estava enfrentando alguma pressão financeira indevida que

pudesse ter alterado seu comportamento no momento do processo, sra. Glover?

Ré 1: Nada fora do comum.

Sra. Sharpe: Interessante. Sabe, tenho um extrato bancário aqui. E ele

me diz que a senhora estava bastante endividada.

Ré 1: Nada mais natural. Sete anos de empréstimos estudantis. Uma

hipoteca. Cartões de crédito. Dois carros. Faça as contas.

Sra. Sharpe: Então a senhora não queria mais dinheiro? Mais dinheiro não

teria sido útil para a senhora?

Ré 1: Sinto muito, Cosette, mas quanto a Truviv está lhe pagando para

fazer perguntas contundentes como “Mais dinheiro não teria sido útil?”. Cosette, eu quero continuar trabalhando na Truviv. Como você mesma disse, eu ganho trezentos e dez mil dólares por ano e minha família e eu desfrutamos certo padrão de vida. Eu não estava exatamente planejando me aposentar na Riviera Francesa com o pagamento que recebesse da ação judicial. Mas, por favor, me escreva um cartão-postal de qualquer que seja a casa de férias cuja entrada esse processo vai financiar, pode ser?