Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 31 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 30

 

6 DE ABRIL

A gente só queria fazer nosso trabalho — era pedir demais? Estávamos cansadas

de interrupções planejadas do servidor e de sessões de treinamento obrigatórias

para descobrir as atualizações mais recentes do Adobe Acrobat Pro. Sentíamos

um pouquinho de ódio quando as pessoas levavam bolo, e quando alguém nos

obrigava a comer com elas, apesar de já termos anunciado para quem quisesse

ouvir que estávamos tentando fazer a dieta paleo naquele mês. Não

conseguíamos entender quem ainda clicava naqueles e-mails de vírus que

causavam uma profusão de outros e-mails cujo único objetivo era nos encorajar a

parar de clicar, mas, invariavelmente, um deles aparecia no canto direito de

nossa tela no exato momento em que estávamos tentando fechar o Outlook para

fazer o trabalho de verdade. (E-mails eram trabalho de verdade?)

Estávamos sempre assinando formulários de beneficiários do ano anterior, do

ano corrente ou do ano seguinte, com uma frequência que desafiava o calendário

e nossa capacidade de lembrar os números do seguro social de nossos

dependentes. Suspeitávamos que a exigência de reuniões presenciais eram um

instrumento de tortura. Preferiríamos gastar 65% menos tempo estabelecendo

contatos, mas provavelmente precisávamos dedicar pelo menos 50% mais tempo

a isso. Havia uma centena de coisas pequenas e grandes que se interpunham

entre nós e nosso trabalho todos os dias, coisas que variavam do incidental ao

nefasto. Por isso, quando falávamos que preferíamos que não nos pedissem para

sorrir durante o trabalho, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso trabalho,

por favor. Quando falávamos que preferíamos não ouvir comentários sobre o

comprimento da nossa saia, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso

trabalho, por favor. Quando falávamos que preferíamos que não tentassem nos

tocar em nosso escritório, queríamos dizer: gostaríamos de fazer nosso trabalho.

Por. Favor.

Queríamos ser tratadas como homens no ambiente de trabalho pelo mesmo

motivo que as pessoas têm smartphones: porque isso facilita a vida.

Naquela manhã, Ardie estava tentando fazer seu trabalho enquanto lutava

contra a conexão lenta do computador quando dois homens de terno passaram

pela parede de vidro de sua sala a caminho do escritório de Ames Garrett. Fazia

um dia que Sloane contratara Helen Yeh para entrar com uma ação contra a

Truviv e contra Ames, uma ação da qual Ardie havia decidido se tornar uma das

partes. Com a iminente possibilidade de Ames ser anunciado como o próximo

presidente a qualquer momento, a questão do tempo era crucial.

Duas horas depois de os homens de terno passarem por sua sala, um convite

de reunião apareceu na tela solicitando sua presença no RH em vinte minutos.

Ela clicou em “aceitar”, e a reunião foi acrescentada à sua agenda.

Ardie era mãe solteira — isso significava que ela tinha menos ou mais a

perder?

Os dois homens de terno ficaram na sala de Ames por aproximadamente

quarenta e cinco minutos. Se isso era muito ou pouco tempo, Ardie não sabia.

Ela olhou para o relógio. Seus próprios vinte minutos também conseguiam ser ao

mesmo tempo muito e pouco tempo.

Ela se levantou, tirou o blazer da parte de trás da porta e o vestiu. Sloane

esperava por ela no saguão dos elevadores.

— É isso — disse Sloane. — Está preparada?

Ardie nunca tinha entendido a estratégia de concentrar toda a energia na

aparência quando algo importante estava acontecendo, mas esse era claramente

o modus operandi de Sloane. Ela usava um tailleur azul-royal com uma blusa

branca, o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo e elegante, sem um fio sequer

fora do lugar. Era como se ela fosse a Mulher-Maravilha Corporativa e aquele

fosse seu traje de super-heroína.

— Só tenho certeza de que não vou deixar você fazer isso sozinha.

A afirmação era parcialmente verdadeira. Ou, talvez, algo pudesse ser

totalmente verdadeiro sem ser a verdade completa, e nesse caso era isso que ela

queria dizer.

Sloane chamou o elevador. Momentos depois, saindo do banheiro, Grace

apareceu.

— Bem — disse ela —, se precisarmos de alguém para empunhar um

absorvente ensanguentado na cara deles, acabei de ficar menstruada pela

primeira vez em quinze meses. — As três entraram no elevador vazio. — Achei

que não era para eu ficar menstruada enquanto estivesse amamentando. O que

diabos está acontecendo?

Você vai precisar de mim.

Essa foi a mensagem de texto que Grace enviou na noite em que Sloane

decidiu abrir o processo. Ela se perguntou se Grace sabia quanto ela a havia

julgado mal, e se isso estava estampado no seu rosto.

Após um breve período no elevador, as três se depararam com um homem

careca, que não tinha nem manchas de mostarda na camisa nem usava óculos,

mas parecia o tipo de pessoa que teria ambas as coisas, esperando por elas no

saguão.

— Al Runkin. — Ele apertou a mão de cada uma delas com ambas as mãos. —

Venham comigo, vamos ver o que podemos fazer por vocês.

Sloane e Ardie se entreolharam. Havia diferenças físicas entre a paisagem do

nono, onde ficava o RH, e do décimo quinto andar. Era como pegar o trem do

Upper West Side para um bairro apenas parcialmente gentrificado do Queens. A

maioria dos funcionários tinha cubículos, não salas individuais. A equipe era de

modo geral mais jovem, a não ser pelas exceções, que, por causa da discrepância

de idade, pareciam estagnadas.

Al Runkin as conduziu para uma sala de reunião. Ele se sentou em uma

cadeira ergonômica de couro rachado de frente para elas e entrelaçou os dedos

atrás da cabeça. Manchas úmidas de suor nas axilas assombravam sua camisa.

— Então… — Ele olhou para a pilha de papéis sobre a mesa. — Vocês estão

cientes do motivo desta reunião, correto?

Al Runkin aproximou o queixo do pescoço, a pele se dobrando.

Sloane cruzou as mãos sobre a mesa.

— Provavelmente é melhor passarmos logo pelas partes óbvias. Sim. Abrimos

um processo em coautoria contra Ames Garrett, na qualidade de diretor jurídico,

e contra a Truviv, Inc., de modo geral, nos termos do artigo VII da Lei de

Direitos Civis. Embora eu tenha sofrido assédio direto enquanto Ames Garrett

estava no cargo de diretor jurídico desta empresa, minhas colegas Ardie e Grace

apresentaram suas alegações nos termos do mesmo artigo sob o enquadramento

de ambiente de trabalho inseguro, que permite queixas nas quais os funcionários

foram indireta porém negativamente afetados pelo comportamento do

assediador. Pronto. Isso deve nos poupar algum tempo, não acha?

— Advogados… — Os lábios do homem, já finos, formaram uma linha quase

imperceptível. — Que revigorante. — Ele endireitou a postura abruptamente. A

cadeira rangeu. — É o seguinte: temos procedimentos para esse tipo de acusação.

Uma ação judicial? Bem, sei que todas vocês são advogadas, então esse é, como se

diz, seu modus operandi, mas isso não é necessário. — Ele fez uma careta como

se tivesse sentido um cheiro ruim. — Na verdade, uma investigação já está em andamento. No futuro, teremos uma linha direta para registrar esse tipo de

reclamação. Ajuda a evitar despesas com advogados, procedimentos legais e

coisas do tipo, para todos.

Ardie uniu as mãos em torno do joelho. Ela não sabia como se sentir naquela

sala. As luzes fluorescentes no teto. As canecas de café cheias de lápis.

— Uma linha direta — disse ela —, que muitas vezes é redirecionada para a

pessoa sobre a qual você faz a reclamação. Não é preciso ter doutorado para

descobrir quem está fazendo a queixa.

Pronto, naquele momento Ardie soava como ela mesma. Seu coração

começou a bater. Era de esperar que estivesse batendo o tempo todo.

— A política da Truviv permite que os funcionários que desejem fazer uma

reclamação pulem as etapas habituais e recorram diretamente a um quadro

superior.

— A pessoa sobre quem estamos reclamando é o quadro superior — retrucou

Grace.

Ele ergueu as mãos. Sua testa era uma bola brilhante de cera; o reflexo da luz

se movia na superfície.

— O que querem que a gente faça?

Sloane, que estava sentada no meio, pôs as mãos no braço das cadeiras das

outras duas.

— Para começar, achamos que o contrato de trabalho de Ames Garrett

deveria ser encerrado.

— Como disse, há uma investigação em andamento.

— Quanto tempo acha que essa investigação vai levar?

Ardie temia que “investigação” fosse um estágio que durasse até que qualquer

pessoa que antes se importasse tivesse perdido a vontade de continuar se

importando. Vinha com uma imagem de pastas sanfonadas intermináveis,

empilhadas no chão de almoxarifados, repletas de papéis inúteis. Talvez isso fosse

ofensivo para o trabalho duro que os funcionários do departamento de recursos

humanos realizavam, mas esse era o preconceito particular de Ardie, e ela se

permitiu mantê-lo.

— É difícil dizer. Talvez uns três dias, uma semana no máximo.

Al deu de ombros.

— Ótimo — disse Sloane, num tom de voz que indicava que ela não achava

aquilo particularmente bom. — Então, esperamos notícias a respeito da

investigação nesse prazo. Enquanto isso, tenho certeza de que nossa advogada

entrará em contato.

Nossa advogada. Ardie podia imaginar uma pessoa que não fosse advogada se

sentindo mais poderosa ao usar essa frase, mas Ardie tinha visto o Mágico de Oz

por trás da cortina.

Elas se levantaram juntas. A etiqueta determinava que Al também ficasse de

pé, mas ele ficou preso entre a cadeira e a mesa, então se agachou

desajeitadamente enquanto tentava se levantar e acenar.

— Ardie. — Ele empurrou a cadeira de rodinhas, que bateu na parede. Ardie

parou à porta. — Foi bom vê-la de novo. Já faz um bom tempo — disse ele, em

voz baixa.

Ela hesitou.

— Sim. Acho que você tinha cabelo naquela época.

Ardie Valdez odiava Al Runkin.

Depoimentos de funcionários da Truviv

 

14 DE ABRIL

Kimberley Lyons: Não, eu não estava lá quando aconteceu. Eu cubro as

secretárias durante a hora do almoço, o que significa que minha pausa para almoçar é mais tarde, então eu tinha acabado de sair, uns quinze minutos antes. Sinto muito. Para mim é difícil falar sobre isso. Nunca tinha conhecido ninguém que tivesse morrido antes, além dos meus avós, e quando isso aconteceu eu era pequena demais para lembrar. É um choque para todos no décimo quinto andar. Nós somos como uma família.

Kunal Anand: As mulheres ficaram malucas. Se alguém disser que não foi

isso que aconteceu, estará mentindo ou tentando ser politicamente correto ou sei lá o quê. Elas viraram cães raivosos, sedentas por lágrimas masculinas. A raiva deixa a pessoa sedenta, caso não saiba. Eu vi no Viceland.

Katherine Bell: Acabei de entrar na empresa. Na verdade, me mudei para

cá de Boston, então a área de Dallas também é nova para mim. Esta é uma primeira impressão difícil, pode-se dizer. Eu realmente não estava envolvida na política do escritório.

Al Runkin: Não tenho conhecimento de ninguém que tivesse exibido

comportamento violento. Nosso departamento leva os funcionários e, particularmente, os problemas de saúde mental muito a sério. Pense em nós como orientadores para adultos. Homicídio? Duvido.