Rede de Sussurros
Capítulo 21
1O DE ABRIL
As bolhinhas do champanhe subiram direto para a cabeça de Sloane. Ela estava
pensando em sugerir a Rosalita que combinassem de o filho dela — qual era
mesmo o nome dele? Sal… Sal… Sal-alguma coisa — ir brincar com sua filha.
Sim, devia fazer isso. Tomou mais um gole da bebida, a mão no quadril,
pensando. Mas… convidar o filho de Rosalita para brincar com Abigail seria
uma atitude receptiva ou condescendente?
E, na verdade, o fato de se perguntar isso não era em si um indício de ausência
de receptividade? Aquilo era um enigma. Sloane detestava quebra-cabeças éticos.
Ela gostar de todo mundo já não bastava? Nunca tinha conhecido uma pessoa
com quem não conseguisse manter uma conversa. Mas não, aparentemente ela
estava sendo ingênua. Ou, uma palavra ainda pior que havia aprendido
recentemente: privilegiada.
No quintal de Ardie, o sol brilhava na medida certa. Os galhos balançando no
alto e os gritos das crianças derrubando os prédios de papelão pareciam saídos de
um catálogo de moda. Ela se preocuparia com a política que envolvia uma tarde
de brincadeira mais tarde.
Realmente gostava de sentir as bolhinhas flutuando até a cabeça.
Por mais um momento, ficou atipicamente alheia à festa, observando a filha
brincar de super-herói com o filho de Rosalita. Duas crianças pequenas cujas
idades lhes garantia alguma importância relativa naquele contexto em particular.
Ela havia apagado as mensagens no celular de Abigail. Puf! Sumiram! E agora
veja só! Sua filha estava brincando feliz no quintal, e fora Sloane quem tinha
tornado aquilo possível. A mãe enxerida de Abigail.
Talvez o memorando que havia mandado por e-mail parecesse um pouco
exagerado à luz do dia, mas a escola precisava aprender uma lição, e quem
poderia censurá-la? Ela era mãe.
Sloane abriu o sorriso fácil de alguém que já havia bebido uma taça e meia de
champanhe, então voltou para a varanda, onde Grace, Ardie e Katherine conversavam com seu marido.
— Já está nadando em estrogênio?
Ela passou o braço pelo dele. A camisa polo macia e surrada roçou sua
bochecha. Derek era um pai que fazia sucesso nas festinhas de crianças. Feito sob
medida para lançar uma bola de futebol americano e carregar os pequenos nos
ombros. Sloane ainda estava decidindo se deveria contar a ele sobre a carta que
havia enviado para o conselho escolar. Até então, parecia inclinada a não contar.
Afinal de contas, era uma queixa formal direcionada ao empregador dele, mas
fora precisamente por isso que ela tivera que assumir as rédeas da situação. Era
melhor que seu marido não soubesse de nada. Permanecesse inocente. Além
disso, um memorando legal não era algo de sua alçada.
Derek inclinou a cabeça, a barba por fazer puxando o cabelo dela.
— Eu me lembrei de prender a respiração antes de mergulhar.
Sloane sorriu para o grupo.
— Excelente. O que eu perdi?
Grace segurava uma garrafa de champanhe pelo gargalo. Ela usava uma
camisa de cambraia por dentro de uma saia evasê com estampa floral. Sloane
nunca mais parecera tão elegante depois do nascimento de Abigail. Havia
perdido o peso que ganhara durante a gestação com relativa rapidez, apesar de
ter engordado vinte quilos, mas sua silhueta nunca mais fora a mesma. Era como
se seu corpo tivesse se deslocado um centímetro para a esquerda e não tivesse
voltado ao lugar até quase um ano após o parto.
— Só estava enchendo a taça da Katherine. — Ela fez uma pequena
reverência. — Parece que as raízes dela estão começando a aparecer.
Grace ergueu as sobrancelhas maliciosamente.
Katherine tomou um gole agressivamente demorado do champanhe, e Sloane
olhou de soslaio para ela. Era jovem demais para ter cabelos brancos.
— Ela só estava elogiando minha bandeja de petiscos — disse Ardie com um
forte sotaque de Boston enquanto erguia uma bandeja de frutas e queijo com
palitos espetados.
Sloane hesitou e então seus olhos se arregalaram, o que provavelmente era um
exagero, mas ela não se importava.
— Você estava escondendo um sotaque de Boston? — A ideia fez cócegas nela
junto com as bolhinhas do champanhe. A perfeita Katherine Bell. Mestre na
pronúncia. Sloane pegou um pedaço de melancia com um palito e o colocou na
boca. — Pensei que você fosse uma menina de colégio interno ou algo assim.
— Não exatamente — disse ela, tomando outro gole. — Sul de Boston. Escola pública.
— Você está muito longe de casa, Dorothy — disse Grace.
— Dah-thy — brincou Katherine.
— Isso! Isso! Diga outra coisa!
Sloane bateu palmas e se limitou a revirar os olhos de leve quando, depois
disso, Derek tirou a taça da mão dela. Sempre bancando o professor. Mas ela
poderia arrumar outra.
Katherine estendeu a taça para Grace, que a aceitou com uma risada suave e
cheia de cumplicidade.
— Acho que eu vou voltar dirigindo.
Katherine apontou para Sloane. Suas unhas eram curtas como as de uma
criança. Roídas quase até o sabugo.
— Sloane Glovah, você é muito inteligente — disse Katherine, carregando no
sotaque.
Talvez fosse o clima agradável ou o cheiro de grama recém-cortada, mas
Sloane tomou a decisão impulsiva e irreversível de gostar de Katherine. Ela não
era ingênua: era uma mulher que tinha se moldado a partir de fragmentos em
um mosaico de graduada na faculdade de direito de Harvard e advogada de um
dos maiores escritórios do país. Ela mostrava iniciativa.
Quero ser como você. As palavras que Katherine dissera — talvez tivesse dito
— borbulharam até a superfície. Ou será que tinha dito Eu quero ser você? E isso
importava? Sloane foi invadida por uma sensação sufocante e sentimentaloide de
culpa, se revolvendo e atormentando-a em algum lugar de sua consciência.
Estava torcendo para não ficar com ressaca.
— Tudo bem — disse Derek, colocando a taça pela metade de Sloane numa
das mesas. — Uma pergunta polêmica: quem é mais babaca, Jerry Jones, do
Dallas Cowboys, ou Bill Belichick, do New England Patriots?
— Bem, eu sei quem tem mais vitórias. — Katherine ergueu uma das
sobrancelhas.
— Ah, fala sério. — Derek abanou a mão, rindo. Mas ele realmente amava os
Cowboys. Todos os anos, em seu aniversário, Sloane conseguia dois assentos da
Truviv bem na beirada do campo. — Então, o que a trouxe de Boston para cá?
Sloane suspirou e recuperou furtivamente sua taça.
— Olhem só para o meu marido, tentando ser legal — brincou ela.
Katherine esvaziou a própria taça.
— Ah, eu fui demitida.
Grace limpou a boca com um guardanapo dobrado.
A testa de Ardie se enrugou.
— Você foi demitida? Da Frost Klein?
— Fui.
Como chefe de Katherine, Sloane não tinha certeza de que deveria estar
ouvindo aquela conversa. Mas como uma pessoa incorrigivelmente curiosa, não
conseguia resistir.
— Foi um pesadelo, na verdade — explicou Katherine, olhando para o fundo
da taça. — O que tem nisso aqui?
Ardie inclinou a cabeça.
— Champanhe — respondeu ela, lentamente.
— Está explicado. — Katherine assentiu, de maneira solene.
— Então, o que aconteceu? — perguntou Grace.
Sloane se lembrou vagamente de onde estavam: uma festa de aniversário
infantil, pouco depois do meio-dia. Derek pediu licença para dar uma olhada em
Abigail. Sempre o bom pai, Sloane registrou mentalmente com uma leve
irritação. Mais consigo mesma do que com o marido.
Ardie tirou os sapatos e esticou os pés no piso de cerâmica da varanda por um
momento enquanto ouvia.
— No ano anterior à minha demissão — contou Katherine —, o escritório
havia realizado algumas análises estatísticas para uma empresa pública sobre
igualdade no ambiente de trabalho que fizeram parecer que o cliente estava
muito melhor do que estava de fato, porque um dos sócios, que era o chefe do
setor, a propósito — ela girava a haste de sua taça —, tinha usado as estatísticas
erradas. O parecer jurídico com essa análise havia sido usado, indicado e tomado
como base para concluir uma fusão importante, conduzida por nosso escritório.
Ardie cobriu a boca com a mão e Grace estalou a língua.
Katherine olhou para os sapatos, depois para cima de novo. Por um instante,
algo indecifrável surgiu em seu rosto.
— Eu tinha trabalhado para a empresa em outras funções, mas naquele ano
fui designada para ajudar a organizar as novas finanças da pessoa jurídica
resultante da fusão. Percebi uma discrepância na análise estatística e levei ao
conhecimento do sócio.
Sloane havia tirado os sapatos e cruzado as pernas, os dedos dos pés descalços
batendo na perna na qual seu cotovelo estava apoiado.
— Sim, claro.
Ela teve a sensação indireta do medo crescendo sob a narrativa daquela
história de terror. Na Jaxon Brockwell, certa vez um advogado em seu segundo ano de trabalho no escritório esqueceu de colocar a palavra “não” em uma frase
crucial no plano de aposentadoria de uma empresa, e o erro resultou em milhões
de dólares em pagamentos adicionais. Sloane não teve absolutamente nada a ver
com aquele erro, mas ainda assim passou semanas sem dormir.
— Ele disse para fazer a análise daquele ano usando as estatísticas corretas —
continuou Katherine. — Ninguém ia ler, mas, caso lessem, seriam informados
sobre o erro naquele momento. Não me senti confortável com aquela solução...
— Ela enfatizou essas palavras. — Mas ele era o chefe do setor. Na Frost Klein. E
o sócio disse que, se a empresa perguntasse, revelaríamos o erro. — Ela passou a
mão pelo cabelo. — Mas a empresa com a qual a firma original se fundiu leu o
novo relatório, notou a discrepância e processou o escritório por fraude. Pensei:
bom, o sócio vai assumir a responsabilidade. Fiquei nervosa, mas a
responsabilidade era dele.
Grace estava boquiaberta. Ela havia tapado levemente as orelhas. Era uma
pornografia do desastre, excitante e aterrorizante, para o mundo dos advogados.
— Ele teve uma reunião com a empresa, para a qual eu não fui convidada. Saí
para almoçar. Quando voltei, o sócio-diretor, o chefe do setor e o chefe do
departamento de recursos humanos estavam em uma sala de reunião esperando
por mim. Fui demitida com efeito imediato. O cliente tinha exigido que o
escritório tomasse providências em relação a mim, mas tenho certeza de que foi
o sócio que sugeriu isso. Fiquei confusa. — Ela fechou os olhos, revivendo o
momento. Isso fez o estômago de Sloane se revirar. — Eu estava preparada para
me defender. — Seus olhos permaneceram desfocados. — Mas o sócio me
encarou e mostrou alguns documentos que estavam na mesa, documentos que
eles disseram ter encontrado na minha sala, relativos à análise do ano anterior,
na qual eu nem tinha trabalhado, juro. Eram as estatísticas. O sócio disse que eu
era a responsável. Disse que ia apresentar uma queixa criminal relativa aos meus
atos fraudulentos enquanto trabalhava para uma empresa pública, nos termos da
Lei de Valores Mobiliários. E os outros advogados presentes, bem, percebi que
era isso que eles queriam. Então deixei a firma. Não havia nada que eu pudesse
fazer. Eles ameaçaram revogar minha licença para exercer. — Sua voz ficou
rouca. — Foi assustador. Eu quase não consigo acreditar que saí de lá viva.
— Meu Deus — disse Ardie, por fim largando a bandeja de petiscos e
limpando as mãos. — Você poderia estar ganhando, o que, setecentos e
cinquenta mil dólares por ano, se tivesse ficado e se tornado sócia do Frost Klein.
Isso era muito mais do que um advogado que trabalhava no departamento
jurídico de uma empresa costumava ganhar. Mais precisamente, centenas de milhares de dólares de diferença.
— Sim. — A pele de Katherine parecia úmida. Se por causa do suor, do álcool
ou do sol, Sloane não sabia.
Mas Katherine não tentou contornar o problema dizendo que não era sobre o
dinheiro. (Paramos de engolir essa história de “sucesso não é sinônimo de
dinheiro” anos atrás, quando percebemos como ganhávamos salários menores e,
por extensão, tínhamos menos sucesso. Aprendemos da maneira mais difícil que
dinheiro pressupõe sucesso, não o contrário. Dinheiro significa opções. Dinheiro
significa capacidade de assumir riscos. Para passar ao próximo nível. Dinheiro
não compra tudo, sempre nos disseram. Dinheiro não compra seu tempo. O que é
uma grande mentira. Tínhamos contas em sites de contratação de babás e no
serviço de entrega de compras para provar. Dinheiro era o que a gente queria.)
Grace fez uma careta de repulsa.
— Quem era o sócio?
— Jonathan Fielding — respondeu Katherine, sem hesitar.
— Uau. — Sloane estalou a língua. — Você deve ter ficado com vontade de
matá-lo.
— Sloane… — alertou Ardie.
Os olhos de Katherine, no entanto, brilharam.
— Se tivesse a chance, acho que teria feito isso.
— Merda. — Ardie olhou para o quintal, onde a metade infantil da festa
estava se transformando em um território rebelde enquanto pequenas mãos e
pequenos pés rasgavam e pisoteavam a cidade de papelão. Fragmentos tinham
começado a cobrir a área cercada. — Tenho que servir o bolo.
— Eu ajudo!
Sloane ergueu a taça e seguiu Ardie até a cozinha. A porta de tela se fechou
com um ruído metálico depois que as duas passaram.
Ardie abriu a porta da geladeira, e Sloane, que na verdade não era
particularmente prestativa em reuniões sociais, se recostou na ilha da cozinha.
— A Katherine está um pouco nervosa hoje, você não acha? — sussurrou
Sloane, olhando por cima do ombro, pela janela. — Será que foi isso mesmo que
aconteceu?
— Acho que foi.
Ardie tirou um bolo vermelho, branco e azul da prateleira do meio. Ela o
depositou cuidadosamente ao lado de Sloane.
— Ela é sempre tão cética... Foi só isso?
Ardie abriu a gaveta e começou a enfiar as velas na cobertura do bolo.
— Foi só isso.
— Como se diz quando os homens falham? Falhar para cima?
Sloane olhou para o glacê e considerou passar rapidamente o dedo pelas
espirais azuis. Ela acendeu um fósforo na lateral da caixa, e uma chama laranja
irrompeu no palito. Sloane o inclinou para encontrar os pavios das velas e viu a
cera pingar no bolo, até que a chama ficou próxima demais das pontas de seus
dedos e ela soprou o fósforo. Um fio de fumaça cinza espiralou e se dissipou.
— Tenho que dizer uma coisa — comentou Sloane. — Este é o aniversário de
criança com mais bebida alcoólica que eu já vi. Bem, a não ser pelo primeiro
aniversário da Abigail.
Ela segurou a porta para Ardie, que levava o bolo. Os convidados irromperam
em um “Parabéns para você”, que Sloane cantou com convicção. Ela percebeu
que Rosalita não estava por perto, mas deixou para lá.
Quando a cantoria terminou, fatias de bolo foram cortadas e servidas. O calor
do sol tinha começado a ficar desconfortável. Mas isso talvez se devesse ao fato
de ela ter deixado a taça de champanhe na cozinha. Os adultos começaram a
circular, inquietos, enquanto tentavam se retirar da festa a tempo de cuidar de
algumas pendências, se preparar para receber a babá naquela noite ou tirar um
cochilo.
Foi com a mente na própria casa e numa calça de moletom que Sloane
localizou Derek e se pôs a conduzi-lo na direção de Ardie para se despedir. Grace
já estava recolhendo pratos de papel e enfiando-os em um saco de lixo. Sloane
pensou que talvez fosse mais fácil se cada um simplesmente contribuísse com
uma quantia para pagar pela limpeza. Isso também não seria uma gentileza?
Talvez ainda maior, pensou ela.
Abigail veio mostrar a ela um dente-de-leão que tinha encontrado na grama
antes de fazer um pedido. Estava tudo tão confuso e turvo que ela só percebeu
quem disse “Foi uma festa maravilhosa!” a Ardie quando Braylee e Tony
apareceram diante deles e Tony começou a falar com Derek.
— Vai ter uma degustação de uísque e chocolate no clube mês que vem, se
estiverem interessados. A Braylee pode explicar para a Sloane os detalhes.
E, bem, Sloane por acaso estava com desejo de comer chocolate naquele exato
momento, então concordou com entusiasmo e prometeu falar com ela em breve.
Quando se virou, deu de cara com o rosto de Ardie colado no dela, a
expressão impassível.
— Você vai falar com a Braylee para saber os detalhes.
Não foi uma pergunta.
Sloane estava prestes a dar um tapa na testa e maldizer os efeitos do excesso
de champanhe. Mas teria que fazer isso em casa com Derek, porque Ardie
Valdez, ela percebeu, não queria ouvir mais nada.
— Foi só uma ou duas vezes. — Talvez três ou quatro, pensou Sloane. Ou
cinco. — O Derek esbarrou com o Tony no mercado. — Ela tentou incutir na voz
um tom de surpresa, uma história do tipo “olha que coincidência”. — E o Tony o
convidou para jogar tênis no clube. O Derek está sempre querendo jogar tênis, e
você sabe que eu nunca vou deixar que ele fique sócio de um clube.
Na verdade, havia um envelope com os documentos para se associarem em
cima da bancada, e Sloane estava considerando seriamente a possibilidade.
Ardie ouviu, entregando sacolas com lembrancinhas sem dizer uma palavra.
Sloane tinha começado a falar sozinha.
— Uma coisa levou a outra e… Eu ia te contar.
A boca de Ardie era uma linha fina.
— Mas você não encontrou tempo nas dez horas em que trabalhamos juntas,
cinco dias por semana, é isso, Sloane?
Sabe o que é pior do que uma mensagem de texto? Isso. Isso é pior!
Sloane suspirou, os ombros murchando instantaneamente.
— Não fique assim. Sei que você odeia o Tony. — Ardie dirigiu um olhar
severo para Sloane. — Mas o Derek quase não tem amigos homens. Ele trabalha
com um monte de mulheres. Ficou tão feliz por ter sido convidado, eu acho. —
Derek estava junto ao portão, a mão apoiada na nuca de Abigail. Ela balançava a
sacola com as lembrancinhas na altura do joelho. Vamos, acenou ele. — Eu só
estava tentando, não sei, dar apoio.
— A quem?
Sloane ergueu o dedo para Derek. Um segundo.
— Ardie, por favor, não fique chateada. — Sloane sempre tivera a impressão
de que pessoas de meia-idade não ficavam chateadas umas com as outras. Então,
a ligeira frieza na voz da amiga foi uma surpresa desagradável.
— Não estou chateada.
— Não era minha intenção esconder de você.
Depois disso, Sloane não sabia ao certo o que mais poderia dizer. As duas já
estavam velhas demais para ressentimentos mesquinhos… não estavam? E eram
amigas e colegas de trabalho havia muito tempo. Eram, acima de tudo, mulheres
profissionais. Não deveriam ter tempo para drama.
— Sloane! — berrou Derek.
— Tenho que ir. Falamos sobre isso na segunda-feira. Ou antes disso. Quando você quiser.
Sloane seguiu Derek e Abigail pelo portão, dizendo a si mesma que não tinha
sido nada, que tudo estava bem, que Ardie não a culpava pelo que tinha
acontecido, mas não engoliu a própria mentira. Ardie estava chateada. Ela se
sentia péssima, e usando sapatos bonitos, ainda por cima. Sua animação
murchou. Sloane entrou no carro de Derek, sentindo uma pontada de dor bem
no meio da testa. Olhou pela janela — o dia de repente tinha ficado quente
demais, os pássaros muito barulhentos, os aspersores um desperdício de água.
Sloane tinha outros segredos. Adormecidos sob a superfície, a salvo daqueles que
amava. Sempre acreditara que os mantinha guardados para não magoar
ninguém. Mas talvez, apenas talvez, isso fosse outra mentira que um dia ia se
voltar contra ela.