Rede de Sussurros
Capítulo 19
31 DE MARÇO
Michael ainda dormia de fralda. Havia poucas coisas que Ardie valorizasse tanto
quanto suas horas de sono, e levantar várias vezes no meio da noite para levá-lo
ao banheiro seria sacrificar um pedaço de si mesma do qual ela não estava
disposta a abrir mão. Carros 3 rugia ao fundo, o controle remoto alguns
centímetros além do alcance de suas mãos, o suficiente para que não se desse ao
trabalho de diminuir o volume. Ela havia apresentado argumentos convincentes
em defesa de Enrolados, mas perdera a disputa e agora assistia ao filme por cima
das caixas de papelão vazias espalhadas no chão, com as quais estava construindo
prédios para a festa de super-herói do dia seguinte, prestando atenção no que os
carros falantes estavam aprontando. Michael entrava e saía correndo da sala de
estar, usando apenas uma fralda e uma camiseta do Homem-Aranha, agitando
pompons laranja e brancos e dizendo que eram “fogo”.
As pernas de Ardie estavam esticadas, uma folha de cartolina branca
estendida no chão entre elas. Com as costas doendo, ela desenhava minúsculas
janelas com canetinha preta. Aquela tinta ia demorar semanas para sair de suas
mãos, mas valia a pena. Bandejas de sanduíches de manteiga de amendoim e
geleia cortados no formato de escudo descansavam na geladeira. Máscaras de
super-heróis tinham sido espalhadas em cima da mesa do bolo. Em breve Ardie
terminaria a cidade em tamanho natural — ou pelo menos no tamanho de uma
criança — que seria salva pelos convidados do filho. Então ela se sentia um
pouco como uma super-heroína também.
Ardie, como muitas de nós, tinha sido infectada pelo perfeccionismo, uma
doença que, segundo diziam, era mais comum entre as mulheres em uma
proporção de aproximadamente vinte para um. Até onde sabíamos, era
transmitida pelas redes sociais e pelas reluzentes páginas das revistas expostas na
fila do caixa e, uma vez contraída, aos doze ou treze anos, não podia ser curada
nem com matérias do site Jezebel nem por meio de todas as comédias românticas
ousadas cuja protagonista retratava corajosamente uma mulher descompensada ou uma péssima mãe. Para nossos filhos, perseguíamos o modelo de excelência
da felicidade suburbana estabelecido por nossas mães donas de casa, e ao mesmo
tempo assumíamos o papel de nossos pais provedores. E fazíamos o possível para
que todos soubessem que estávamos lidando com isso às mil maravilhas,
escrevendo bilhetes em guardanapos cuidadosamente dobrados e guardados nas
lancheiras de nossos filhos e dando festas de Halloween com queijo cortado no
formato de fantasmas.
Porque, sinceramente, se isso não era sucesso, o que era?
Ardie, por sua vez, não via necessidade de psicanalisar precisamente o que
estava tentando provar a quem com aquela demonstração atípica de talento
doméstico. Estava tomando um gole longo de Coca Diet quando a campainha
tocou.
Ela olhou para a porta da frente, irritada. Quantas vezes já tinha pedido a
Tony que não tocasse a campainha nos momentos em que Michael pudesse estar
dormindo? O fato de o filho estar ou não dormindo não era um pré-requisito
para sua irritação.
— Michael, seu pai chegou! — gritou Ardie, odiando-se por dizer “seu pai”
em vez de algo mais íntimo, como “o papai”.
Ela era uma péssima divorciada. Mas, no fim das contas, não era exatamente
uma habilidade que imaginaria de que precisasse na vida. Como acender uma
fogueira. Ou costurar.
Suas articulações pareceram cem anos mais velhas quando ela se levantou do
chão.
— Já estou indo, já estou indo — gritou ao ver Michael passar correndo e
chegar antes dela à porta.
— Oi, campeão.
Tony bagunçou o cabelo de Michael. Não era surpresa que ele não se
parecesse em nada com Ardie ou Tony. Michael tinha cabelo aloirado pelo sol e
sardas, orelhas grandes e lindas, e pernas tão finas quanto o pulso da mãe.
Quando Tony saiu de casa, ela teve medo de que ele abandonasse Michael e
construísse com Braylee uma linda família biológica, que o filho que os dois
tinham não fosse suficiente para segurar o ex-marido sem a força do DNA. Mas
ela estava enganada. Tão enganada que quase se sentiu culpada. Na verdade,
Tony estava se dedicando duas vezes mais a Michael, e aparentemente ele e
Braylee não pretendiam ter filhos.
Ela achou que ter um filho adotivo em meio a um divórcio a pouparia das
frequentes lembranças irritantes no estilo você-está-agindo-igualzinho-a-seu-pai, mas não. Michael era como Tony em muitos aspectos, e isso tocava seu coração
de uma maneira que ela nunca saberia explicar.
— Cadê a Braylee? — perguntou Ardie, porque não queria sentir a familiar
pontada de ciúme se Michael perguntasse antes dela.
— Ficou em casa.
Tony estava usando uma calça de pijama xadrez. Ele tinha dirigido dez
minutos e aparecido na porta dela de pijama, e Ardie tinha que aceitar que ela e
o ex-marido não eram perfeitos um para o outro?
— Os balões estão na caminhonete. Vou lá buscar.
— Eu ajudo! Eu ajudo! — A franja de Michael caía nos olhos enquanto ele
pulava em volta do pai.
— Você está sem sapato — disse Tony.
— E sem calça — completou Ardie.
Mas a batalha já estava perdida. Tony sorriu, se desculpando, e os dois
voltaram com três sacos de papel-celofane cheios de balões vermelhos e brancos.
— Obrigada. Pode amarrar nas cadeiras da cozinha.
— Uau, você realmente se superou. Ele vai amar.
Ardie estava cansada da generosidade de Tony com as palavras só porque fora
ele quem tinha saído de casa. Isso não dava a ela nenhuma alternativa a não ser
agir de forma civilizada.
— Sim, ele vai amar — disse ela.
— Quatro anos… Como isso aconteceu?
— Mudanças são inevitáveis.
Na verdade, o que ela queria dizer era que no dia anterior Michael havia
cantado todos os versos de rap da canção “De nada”, do filme Moana. Isso não
provava que o filho deles era um gênio? Eles costumavam reunir esses pequenos
relatos sobre o filho e compartilhá-los enquanto escovavam os dentes e lavavam
o rosto, ainda falando sobre Michael quando se deitavam lado a lado na cama.
Será que isso tinha sido parte do problema? Ou será que agora ele fazia isso com
Braylee?
Ardie não fez nada para diminuir o desconforto causado pelo silêncio,
embora essa fosse uma característica que vinha de muito antes da separação. Eles
observaram o garotinho na frente deles até que, por fim, Tony apoiou as mãos
nas coxas e seus joelhos emitiram um estalo familiar quando ele se levantou.
— Bem, já está tarde — disse ele, o que significava que estava indo embora.
Ela ainda estava tentando se acostumar com essa revelação silenciosa. Tony
era uma pessoa que ia embora. Ardie, por sua vez, era uma pessoa que permanecia.
Transcrição de depoimento
27 DE ABRIL
Sra. Sharpe: Sra. Valdez, a senhora mencionou uma festa. A que festa
estava se referindo?
Ré 2: A festa de aniversário do meu filho. Ele acabou de fazer quatro
anos.
Sra. Sharpe: E algumas de suas colegas de trabalho compareceram,
correto?
Ré 2: Correto.
Sra. Sharpe: Posso perguntar quais?
Ré 2: Sloane Glover, Grace Stanton e Katherine Bell, embora, pensando
bem, acho que convidar Katherine não foi uma boa ideia.
Sra. Sharpe: Por quê?
Ré 2: Bem, por causa do que aconteceu depois.