Rede de Sussurros
Capítulo 54
Duas linhas cor-de-rosa. Rosalita estava sentada no vaso sanitário, com as calças
em torno dos tornozelos, enquanto observava a segunda linha escurecer
constantemente até que não houvesse dúvida do que o teste concluíra: ela estava
grávida.
Ela passara por um susto uma vez antes, quando telefonou para seu então
namorado e disse a ele que sua menstruação estava atrasada. Ela achava que
sabia, no fundo, que não estava realmente grávida antes mesmo de fazer o teste e
colocá-lo contra a luz, estreitando os olhos para ver se havia o mais leve indício
de uma segunda linha se formando ao longo da depressão cinzenta impressa na
faixa branca. Ela queria ver a reação do namorado e, por alguns dias, tudo tinha
sido muito maduro e romântico brincar com a ideia de começar uma família.
Agora, nem precisava se esforçar para ver.
* * *
Ela colocou o teste em um saco plástico e fechou com força, gotas de urina
grudadas nas laterais transparentes. Rosalita era católica, mas essa não era a
única razão pela qual ela não faria um aborto. Nos nove meses seguintes, o pai do
bebê seria assombrado pela visão de sua barriga crescendo, de seu corpo gordo e
inchado, inflando-se e abrindo caminho pelo mundo. Sem que ela dissesse uma
palavra, ele se lembraria exatamente do que tinha feito.
Antes daquela noite, ele era o homem com gravatas de seda, a estranha mecha
branca no cabelo, a tatuagem azul desbotada quase totalmente escondida pelos
espessos pelos do braço e o resto pela manga enrolada da camisa, maços de
cigarro vazios na lata de lixo. Antes daquela noite, ela não gostava de ser
invisível, detestava o modo como homens como ele olhavam através dela, como
se fosse uma máquina, e não uma pessoa, que estava espanando as persianas e
esvaziando as lixeiras. Depois daquela noite, ela nunca mais se sentiria invisível o
suficiente. Ela ansiaria pelo dom de não ser vista. Mas sempre se sentiria nua.
Ele vinha trabalhando até tarde, noite após noite, tantas noites seguidas que
parecia que ela e o homem trabalhavam no mesmo horário. Tirava cochilos
renovadores em um sofá na sala, o que no fundo deixava Rosalita impressionada.
Um sofá no escritório!
A palavra “aquisição” era mencionada o tempo todo, e ela uma vez pensou ter
ouvido “bilhões”, com “b”, e não sabia como alguém conseguia dormir, mesmo
em um sofá de escritório, estando encarregado de algo que custava mais de um
bilhão de dólares.
No começo, ela gostava da companhia, mesmo que eles nunca se falassem de
verdade. As horas se estendiam, e o número de advogados que andavam
apressados, indo e voltando da impressora, comendo sushi sem parar de digitar,
ia diminuindo até sobrar apenas ele. Isso durou dez dias, talvez mais. Uma vez,
ele percebeu a presença de Rosalita e ergueu a cabeça para dizer “Como vai?” em
uma voz rouca que não convidava a mais do que uma resposta sussurrada. Em
outra ocasião, ela o viu em pé diante da janela que ia do chão ao teto, olhando
para o poço sem fundo da noite, os prédios cravando os dentes pontiagudos no
céu azul-marinho. Apenas parado lá. Olhando.
Na noite em que aconteceu, vozes ecoavam pelos corredores vazios. Se elas se
intensificaram progressivamente, Rosalita não notou. Para ela, foi como um
aparelho de som sendo ligado, o volume alto demais, tão alto que perfurava os
nervos e fazia o ouvinte se apressar em desligá-lo. Rosalita manteve a cabeça
baixa e passou pela fileira de salas, sua parceira de limpeza em algum ponto do
outro lado do andar.
Não havia como negar o fato de que estava ouvindo a conversa, mas essa era
uma função primordial dos ouvidos. Ela não podia deixar de ouvir o som de dois
homens discutindo da mesma forma que não tinha como ignorar o som de cães
latindo à noite. De qualquer forma, não entendeu quase nada do que estava
sendo dito entre os dois homens, que ela supunha que fosse o chefe do primeiro,
seu homem (como tinha passado a pensar nele). Ela teria esquecido tudo aquilo,
se não na manhã seguinte, talvez em uma ou duas semanas. Sentiu pena do
homem que estava trabalhando tantas horas e ainda assim levava esporro do
chefe. Talvez esse fosse o problema — seu impulso de sentir pena. Porque ela
sempre se perguntou o que o homem teria visto em seu rosto naquela noite, e
imaginava que tivesse sido pena. O que a seus olhos era apenas compaixão
benigna, aos dele já havia se transformado em algo sórdido. Ela supunha que era
porque já havia sordidez dentro dele, nadando em seu âmago como células
cancerígenas. Ele tinha uma doença subjacente. Para onde aquela raiva toda teria ido se ele não tivesse notado que Rosalita olhava para ele? Se já não tivesse
sentido a humilhação fervendo dentro de si e não tivesse agido sob aquele
impulso fatídico para transferir para ela sua humilhação?
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para ouvir…
Ou: É a pergunta de um milhão de dólares!
Ela ouvira essas frases na TV.
O chefe do homem já tinha ido embora da sala havia quinze minutos quando
Rosalita entrou de cabeça baixa. Ela deixaria a sala quinze minutos depois, tendo
aprendido a diferença entre ser invisível e sentir-se invisível. Teria ao longo do
antebraço um arranhão branco, tornando-se vermelho. Levaria mais nove meses
para o arranhão cicatrizar, tendo se estendido até a pele macia entre seus quadris.
Entre aqueles dois pontos no tempo, ela finalmente memorizaria o nome na
placa prateada na porta da sala dele. Ligaria para um advogado gratuito sobre o
qual fora informada em uma linha direta, porque Rosalita não era a mulher que
ele esperava que ela fosse. Teria uma reunião com o presidente da empresa. Seria
informada de que o homem — seu homem — estava encarregado de uma
aquisição importantíssima para a empresa, que seria a palavra dela contra a dele,
que os acionistas a esmagariam com toda a força. Ela teria uma escolha, o que já
era mais do que tivera antes.
O lugar errado na hora errada!
Outra frase.
Oito anos depois, ela desejaria o dinheiro do homem mais do que desejaria
vê-lo morto. Ele acabaria morrendo de qualquer maneira. Ela apareceria na casa
da esposa dele, algo que nunca havia feito, não importava quantas vezes tivesse se
sentido tentada. A mulher bateria a porta na sua cara, dizendo-lhe para ir
embora e ficar calada. Uma daquelas duas coisas ela ia fazer.