Rede de Sussurros
Epílogo
Tínhamos sido programadas para trocar segredos. Nossa principal marca de
desodorante prometia não revelar nada. As capas de revista penhoravam os
segredos para uma pele mais macia, cabelos mais brilhantes, pernas mais
torneadas e orgasmos mais longos. Nossas mães passavam adiante receitas com
ingredientes secretos. Até mesmo nosso feminismo — segunda onda, fomentada
como foi por nossa mística feminina — parecia intencionalmente
(inteligentemente) envolto em segredos.
Nosso lema havia muito era: é melhor manter isso entre nós.
E foi o que fizemos. Por gerações. Passando adiante histórias da carochinha,
ensinando umas às outras como aliviar as cólicas, alertando umas às outras a
nunca deixar uma bebida fora do campo de visão, a não usar rabo de cavalo, a
não abrir a porta para um estranho, a não ficar sozinha com ele. Nossa tática era
a evasão, sinalizar as minas terrestres e encorajar umas às outras a contorná-las
para que ninguém explodisse.
Não eram apenas os alertas que nos mantinham seguras, mas também nossa
capacidade de manter esses alertas em segredo. Como agentes secretas operando
atrás das linhas inimigas, não podíamos nos dar ao luxo de sermos pegas. E ainda
assim nos arriscávamos. Com vozes abafadas, estendíamos umas às outras nosso
conhecimento. Nós tentávamos. Porque sempre queríamos o melhor para nossas
amigas.
Queríamos que ela largasse aquele babaca. Queríamos que ela parasse de se
preocupar em perder dois quilos. Queríamos dizer que ela estava ótima naquele
vestido e que definitivamente deveria comprá-lo. Queríamos que ela arrasasse na
entrevista. Queríamos que ela nos mandasse uma mensagem quando chegasse
em casa. Queríamos que ela visse o que nós víamos: uma mulher inteligente,
corajosa, engraçada e digna de amor, sucesso e paz. Queríamos matar quem quer
que se metesse no caminho dela.
Começamos a nos perguntar: ao sussurrar, estávamos guardando os segredos
de quem, afinal? Os nossos ou os deles? Nosso silêncio acabava protegendo os interesses de quem, no fim das contas?
A resposta foi chegando aos poucos. À medida que começamos a tirar a meia-
calça, a exigir mais dinheiro, a marchar com chapéus cor-de-rosa e segurar
megafones. À medida que construímos plataformas digitais, assistimos a aias e
exigimos que as empresas oferecessem tamanhos que coubessem em nós. À
medida que fomos ocupando espaços.
À medida que cansamos de sussurrar. O que nós tínhamos a esconder, afinal?
Tínhamos histórias, todas nós. Falar teria um preço? Talvez. Mas talvez cobrasse
o preço deles também.
Assim, quando uma de nós falava, nunca era apenas por ela. Era por nós. Na
verdade, ela era o sacrifício voluntário. Mais lenha na fogueira alimentada por
nós, nossas histórias, nossas vozes. E nós íamos atiçar as chamas. Espalhar a
verdade. Nos juntar ao coro. Reduzir tudo a cinzas. Arrasar a Terra, se fosse
preciso. Começar tudo de novo.
Nosso legado seriam nossas palavras. Gritadas bem alto. Para todos ouvirem.
Estávamos fartas de implorar que acreditassem em nós. Não pediríamos mais o
benefício da dúvida. Não pediríamos mais permissão. A palavra era nossa.
Ouçam.