Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 3 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 2

 

20 DE MARÇO

Sloane estava olhando para o teto do elevador, desejando que ele subisse mais

rápido, até o exato segundo em que as portas se abriram no décimo quinto andar

e ela disparou como um cavalo de corrida.

— Estão todos na sala de reunião. — Sua secretária, Beatrice, se inclinou por

cima da mesa, o fio do telefone esticado e o fone pressionado contra a orelha.

— Eu sei, Beatrice. Eu sei. — Sloane passou por ela apressada, atravessando o

corredor. — E já estou completamente ferrada.

Só para constar, tudo estava indo às mil maravilhas até algumas horas antes,

enquanto ela e o marido conversavam com o diretor da escola de sua filha de dez

anos, Abigail. Ela havia guardado responsavelmente o telefone no aterro

sanitário que era sua bolsa, pois era uma boa mãe, o que, naquele lugar,

significava uma mãe presente. Ou pelo menos era esse o papel que ela pretendia

desempenhar diante do diretor Clark.

E veja só o que tinha acontecido!

Ela pegou o celular depois da reunião e deu de cara com as mensagens de

Ardie:

Desmond morreu hoje de manhã.

Infarto.

Ames está te procurando.

Ok, sério, cadê você??

Sloane??

Ela não teve tempo nem de se despedir do marido.

Finalmente, parou do lado de fora da sala de reunião, o coração tão acelerado

que teve medo de também estar infartando. Infarto é a principal causa de morte

entre mulheres com mais de quarenta anos! Tinha ouvido isso em algum lugar,

talvez no The View. Ela girou a maçaneta.

Sete advogados no nível de diretor, ou mais alto, estavam sentados em torno

da mesa. Ames, o diretor jurídico; Kunal, do setor de comunicação; Mark, que cuidava das contratações; Ardie, do financeiro; Philip, que cobria os riscos; Joe,

dos litígios; e Grace, diretora de compliance. Havia também uma mulher mais

jovem, que Sloane nunca tinha visto, com cabelo castanho cortado bem curto e

bochechas rosadas como as da Branca de Neve. Todos os rostos se voltaram para

Sloane quando ela entrou.

— Desculpem o atraso.

Ela se sentou na cadeira vazia ao lado de Ames. A mulher de cabelo curto

sorriu educadamente para ela. Ames ergueu o olhar de uma pilha de papéis. Uma

mecha branca percorria seu cabelo grosso e ondulado, predominantemente cor

de café, a não ser pelos poucos fios grisalhos nas têmporas.

— Onde você estava?

— Eu estava… — Sloane hesitou por uma fração de segundo, pensando em

como terminar a frase. (Todas nós fazíamos isso. Fosse em encontros ou no

trabalho, conhecíamos o poder de fingir que nossos filhos não existiam. Um

homem podia dizer que ia tirar o dia de folga para pescar com o filho, enquanto

para uma mãe, em geral, era melhor esconder o fato de que tinha estendido a

hora do almoço para levar a criança ao médico. Filhos transformavam os homens

em heróis e as mulheres em funcionárias inferiores, se não fizéssemos tudo

certo.) — Eu tive que dar uma saída rápida — terminou, dando um pigarro.

— Sem o celular?

Ames lambeu a ponta do dedo para ajudar a passar as páginas. As pessoas se

remexeram, desconfortáveis, ao redor da mesa.

— Fiquei momentaneamente incomunicável, de fato — disse ela. — Sinal

péssimo.

Aquela não era sua melhor desculpa.

Ames estalou a língua e moveu a bala de canela na boca.

Ela olhou para ele, contendo o desejo de encarar os sete pares de olhos que a

observavam.

Então Ames piscou. Sempre o olho esquerdo. Um delicado pé de galinha se

formando por um segundo. Ele era um dos únicos homens que ela conhecia que

ainda recorria à piscadela. E conseguia o que queria, na verdade. A piscadela

dizia ao mesmo tempo: Está tudo bem e Sou eu quem manda aqui.

Ele abriu as palmas para o restante dos presentes.

— Sloane Glover, pessoal — disse, como se estivesse recebendo uma

comediante no palco. Sloane ficou irritada, mas seu rosto permaneceu plácido.

Trabalhar com Ames era como se sentar ao lado de uma pessoa que não parava

de chutar sua canela por debaixo da mesa. — Que bom que finalmente podemos começar. Vamos lá?

Todos fizeram acenos desajeitados com a cabeça. Ao lado dela, Philip

empurrou discretamente o bloco de anotações e a caneta na direção dela. Sloane

apoiou a mão no peito e expirou. Obrigada, articulou em silêncio, e Philip, cuja

gravata estava sempre torta, apenas deu de ombros. Se ao menos todos os

homens no escritório fossem mais parecidos com Philip…

— Imagino que a esta altura todos estejam cientes do lamentável falecimento

de nosso presidente, Desmond Bankole — começou Ames. — A data do velório

será anunciada nos próximos dias. Tenho certeza de que muitos de vocês estarão

presentes.

Enquanto Ames falava sobre os feitos de Bankole, Sloane descarregou

furiosamente da caneta para o papel as ações que foi formulando enquanto

voltava para o escritório.

Ames olhou para ela, que pousou a caneta.

— Vamos tentar ficar em sintonia aqui. — Ele juntou as mãos na mesa. —

Pedi a Grace que começasse falando sobre as obrigações legais que a Truviv tem

como empresa de capital aberto. Grace?

Grace endireitou a coluna. Sloane se perguntava com frequência se seu rosto

passava pela mesma transformação quando ela precisava assumir uma postura de

autoridade em algum assunto na empresa. Aos vinte e poucos anos, tinha certeza

de que sim. Na época, ela se via vestindo uma máscara de confiança, abaixando a

voz, eliminando os “tipo” da fala, firmando os joelhos, lembrando a si mesma

que, sim, ela era qualificada. As mudanças em Grace eram mais sutis. Em Grace,

via o queixo erguido. Os ombros eretos. Como a maioria das mulheres, Sloane

raramente notava essas pequenas traições da autoconfiança nos colegas do sexo

masculino. Seria porque elas não aconteciam? Ou só não estávamos afinadas o

suficiente para enxergá-las?

— Claro — disse Grace, e deu início a uma explicação que envolvia a

Comissão de Valores Mobiliários, o formulário 8-K e a atualização do site da

empresa. Na ausência inesperada de um presidente, a transparência, disse Grace,

era fundamental. — Vou enviar um memorando explicando tudo isso —

finalizou ela.

— E estamos preparando uma declaração. — Kunal estendeu o dedo,

batucando a mesa para dar ênfase. — Até que esteja pronta, por favor,

respondam a qualquer contato da imprensa dizendo que estamos muito

consternados com a perda de Desmond, tanto pessoal quanto profissionalmente.

— Seus grandes olhos castanhos observaram cada rosto na sala. — De jeito nenhum respondam “nada a declarar”. Acionistas odeiam a expressão “nada a

declarar”. Entenderam? Vamos tentar finalizar a declaração até amanhã de

manhã. Funciona para você, Sloane?

Sloane se recostou na cadeira.

— Parece viável — respondeu ela, decidida. Os homens podiam não se

comprometer. Essa era considerada uma atitude cuidadosa. Se Sloane hesitasse,

pareceria que ela não tinha a menor ideia do que estava fazendo. — Precisamos

enfatizar o plano de sucessão da firma e analisar exemplos recentes de empresas

que lidaram com a doença ou a morte de um presidente de maneira

particularmente eficiente. Algumas me vêm à cabeça, como o Mc…

— Na verdade — interrompeu Ames, fazendo os dedos dos pés de Sloane se

contraírem automaticamente —, acho que deveríamos analisar o caso do

McDonald’s. Eles passaram por uma situação similar. Dois presidentes morreram

em um espaço de dois anos. O primeiro foi uma morte súbita. E o caso da

Imation. Eu me concentraria nesses dois exemplos, Kunal.

Sloane engoliu a frustração. Àquela altura de sua carreira, ela já havia usado

todas as respostas possíveis. Sua favorita era um educado “Interessante, é bem

parecido com o que acabei de dizer”, com seu melhor sotaque sulista. Mas, depois

de ouvir aquilo, ela disse apenas:

— Ótima ideia, Ames.

Ele esfregou as mãos, satisfeito.

— Muito bem, todos já sabemos o que é preciso fazer. A porta da minha sala

está sempre aberta se precisarem de mim.

Eles se levantaram. Sloane recolheu a ponta da caneta com um clique. A parte

interna do dedo médio direito estava salpicada de tinta. Ardie e Grace, que

estavam sentadas diante dela, circundaram a mesa para passar a seu lado antes de

saírem da sala.

— Sinto muito — sussurrou Ardie, enquanto balançava a cabeça lentamente.

Grace estreitou os lábios e segurou a mão de Sloane por alguns instantes.

Sloane viu uma mancha úmida na frente da blusa de seda de Grace que ela soube,

sem sombra de dúvida, que não ia sair. Era um desperdício usar qualquer peça de

roupa de seda durante a amamentação. Ela precisava dizer isso a Grace.

— Katherine. — Ames ergueu um dedo, dirigindo-se à mulher desconhecida,

que continuava na sala mesmo depois que todos já tinham ido embora. — Pode

esperar aqui um momento? Só preciso entregar para Sloane o rascunho do

comunicado que está na minha mesa. — Ele olhou para Sloane. — Você se

importa de dar uma passada na minha sala?

* * *

 

Ao contrário do que Ames tinha dito, a porta da sala dele na verdade não ficava

sempre aberta. Nem no sentido literal nem no figurado. Sloane o seguiu

enquanto ele andava dois passos à sua frente pelo corredor estreito.

Ele abriu a porta da sala, e os dois entraram juntos no Santuário — uma

parede coberta de fotos de Ames com atletas famosos. A Truviv, Inc. era a

principal marca de roupas esportivas do mundo, patrocinadora de todos os

grandes atletas do país. Em uma das fotos, lá estava ele jogando golfe com Tiger

Woods. Em outra, sentado na lateral da quadra com Kevin Durant, que havia

sofrido uma contusão. E — veja só! — outra foto espontânea jogando beisebol

com Justin Verlander e a esposa, Kate Upton. Se Ames tinha noção de que os

homens e as mulheres imortalizados em sua parede talvez só fossem seus amigos

porque a Truviv assinava grande parte dos seus cheques de patrocínio, ele não se

importava. De qualquer maneira, Sloane considerava o Santuário o equivalente

socialmente aceitável de uma foto do próprio pênis.

— Então… — disse ele, virando-se para se apoiar na mesa.

Ames já estava na casa dos quarenta anos, mas era o tipo de homem que

ficava bem de terno cinza, cada vez mais bonito conforme envelhecia. Pelo

menos isso era o que Sloane sabia objetivamente ser verdade, embora àquela

altura tivesse dificuldade de reconhecer sua beleza. Havia se tornado mais um

fato a respeito de Ames no qual ela não acreditava.

— O Desmond partiu. — Ele apertou os olhos com os polegares. — Por essa

eu não esperava.

— Eu… Sim, é uma grande perda.

Sloane se permitiu avançar mais um passo para dentro da sala. Desde que

recebera a notícia, era a primeira vez que pensava na morte do presidente no que

diz respeito às condolências. Era terrível. Ele tinha filhos, dois, pelo que

lembrava, pouco mais velhos que Abigail. Ela planejava processar a morte dele

naquela noite junto ao marido, Derek, enquanto tomavam uma taça de vinho —

o melhor chardonnay que tivessem na geladeira. Ela se lembraria de Desmond,

com seu semblante alegre e atento, sentado na primeira cadeira do lado esquerdo

da mesa de reunião, ouvindo enquanto ela fazia apresentações trimestrais para os

executivos da empresa.

— Você se lembra de como ele sempre chamava você de srta. Sloane? — Ames

cruzou os braços. Seus ombros se sacudiram com uma risada baixinha e bem-

humorada. — Como se você fosse uma professora da pré-escola?

A lembrança provocou um breve sorriso.

— Nossa, lembro. Mas isso não me incomodava. Vindo dele.

— Ele gostava de você.

Ames se afastou e deu a volta na mesa, onde começou a digitar no teclado sem

se dar ao trabalho de sentar na cadeira. Ela esperou, sem saber se precisava dirigir

alguma atenção ao que quer que ele estivesse fazendo no computador.

— Desculpe a mudança de assunto, mas quem era aquela mulher? —

perguntou Sloane. — Katherine, não era?

Ele abriu uma gaveta e pegou algumas balas de canela — uma fixação oral

para conter o hábito de fumar.

— Katherine Bell. Vou apresentá-las. Acabei esquecendo no meio de tudo

isso. Um segundo, por favor.

Ele digitou mais alguma coisa antes de olhar para Sloane novamente.

Sloane tinha a impressão de que às vezes Ames sofria de uma espécie de

amnésia seletiva a respeito dos primeiros anos dos dois na empresa. Em alguns

momentos, essa parecia ser a única coisa a respeito dela da qual ele se lembrava.

Naquele dia, ele claramente estava inclinado a fingir que o passado não existia.

— É funcionária nova — disse ele. — Tem uma vasta experiência corporativa.

Vai trabalhar no seu departamento. Tenho certeza de que vai considerá-la uma

adição muito valiosa.

Sloane inclinou a cabeça na direção de Ames, como se não tivesse escutado

direito.

— Meu departamento?

— Isso.

— E você não pensou em me consultar sobre contratar alguém novo para o

meu departamento? — Sua voz soou aguda demais. Estridente, ele diria. — Eu

sou a vice-presidente sênior desse departamento.

Fazia anos desde a última vez que Ames aprontara uma dessas com ela —

anos! E Sloane quase pôs tudo a perder, todos aqueles meses mantendo a calma,

lidando com Ames e suas merdas inacreditáveis, com um súbito rompante da

mais pura raiva.

Ele se curvou a fim de olhar para a tela do computador.

— E eu sou o diretor jurídico. Quer dar uma olhada no meu currículo?

Sloane já podia se imaginar relembrando a conversa naquela noite, diante do

espelho, enquanto escovava os dentes, desejando que tivesse sido diferente.

— Onde Katherine vai ficar? — Ela mudou o rumo da conversa.

— Achei que você pudesse se encarregar disso. Afinal — ele abriu um sorriso sedutor, e uma covinha surgiu em seu queixo —, você é a vice-presidente sênior.

— Certo.

Ela respirou fundo e compartimentalizou. Até porque eles não poderiam

deixar uma advogada, mesmo uma que Sloane não havia solicitado, sem ter o

que fazer na sala de reunião para sempre. Ela apoiou o bloco de anotações no

antebraço e acrescentou Arrumar uma sala para Katherine à lista de

providências, bem no topo. Que dia pouco auspicioso para começar. E ela

parecia tão jovem, a pele tão hidratada! A palavra “ingênua” surgira em sua

mente, embora isso fosse ridículo. Ela devia ter pelo menos trinta anos, mais

velha do que Sloane quando começou a trabalhar na empresa.

Sloane se virou para ir embora, esquecendo-se por um momento da razão que

a levara até lá.

— Sloane. O rascunho. — Ames finalmente tinha decidido se sentar e estava

clicando em algo que ela não conseguia ver porque a tela estava virada. Ele

indicou com a cabeça o bloco de anotações em cima da mesa. — Eu fiz a

primeira versão. Quero ver o comunicado antes de ser divulgado.

Sloane voltou a se aproximar da mesa. Havia uma tesoura aberta em cima do

bloco de anotações. As lâminas prateadas formavam um X agressivo sobre as

páginas amarelas. Ela sentiu privação de sono, pilhas de contas a abrir e raiva.

Seus dedos pairaram sobre o metal frio. Às vezes, quando se via em lugares

muito altos, Sloane tinha medo de ser tomada por um ímpeto de pular da beirada

do prédio. Todas entendíamos essa sensação: como, em um estalar de dedos,

Sloane — ou qualquer uma de nós — poderia pegar a tesoura e cravá-la no

pescoço de Ames.

Ela pegou o bloco de anotações, a ponta dos dedos umedecendo as páginas

devido ao suor.

— Eu mando o comunicado para você em uma hora — disse ela, a falsidade se

insinuando na voz quando fugiu da sala de Ames Garrett, não pela primeira vez.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Diga seu nome, por favor.

Ré 1: Sloane Glover.

Sra. Sharpe: Qual é sua profissão, sra. Glover? Ré 1: Trabalho como advogada na Truviv. Meu cargo formal é vice-

presidente sênior de assuntos jurídicos na América do Norte.

Sra. Sharpe: Há quanto tempo trabalha na Truviv? Ré 1: Treze anos.

Sra. Sharpe: É bastante tempo. Mais do que a maioria das pessoas costuma

permanecer em um emprego, imagino. O que a manteve na Truviv por tantos anos?

Ré 1: Eu ocupo um cargo muito cobiçado. Cargos corporativos na área

jurídica, especialmente os com bons salários, são difíceis de encontrar. A Truviv é uma empresa muito conhecida. Muita gente seria capaz de matar… Desculpe, eu não quis… Muita gente gostaria de ter o meu emprego.

Sra. Sharpe: E como conheceu o sr. Ames Garrett? Ré 1: Ames fazia parte do grupo que me entrevistou antes de eu sair do

escritório Jaxon Brockwell e ir para a Truviv, então acho que foi aí que nos conhecemos.

Sra. Sharpe: Você participou de muitos projetos com o sr. Garrett? Ré 1: Não até trabalharmos na venda de uma marca subsidiária, acho.

Naquela época, ele estava na empresa havia mais ou menos cinco anos. Estava organizando o material da auditoria jurídica a ser enviado para o advogado da outra parte, e eu o assessorei.

Sra. Sharpe: E como era a relação entre vocês nessa época? Ré 1: Boa.

Sra. Sharpe: O que quer dizer com “boa”, sra. Glover? Ré 1: Eu o considerava inteligente e ambicioso. Ele me ensinou muito

sobre a condução de um processo de venda. Nós nos dávamos bem.

Sra. Sharpe: Entendo. E quando começaram a ter um caso?