Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 47 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 46

 

28 DE ABRIL

Ela morava em uma casa que faria a abuela de Rosalita exclamar “Imagine só os

impostos dessa propriedade!”, como se a família dela só se mantivesse longe

daqueles bairros para evitar o desperdício com tributos exorbitantes. O carro de

Rosalita, um Kia com dez anos de uso caindo aos pedaços, parecia destoar

naquela vaga junto ao meio-fio, e ela se perguntou quanto tempo levaria para os

vizinhos chamarem a polícia e, depois, quanto tempo a polícia levaria para

chegar, considerando que eles não tinham nada para fazer em Highland Park

além de distribuir multas por excesso de velocidade. Rosalita olhou para a casa.

Lindos tijolos brancos. Arbustos bem podados plantados em vasos de terracota.

Lanternas de ferro emoldurando uma porta cor de cereja. Uma entrada circular

para carros que nem precisava ser usada, considerando a garagem para três

veículos anexada à casa.

Imagine só os impostos dessa propriedade!

Rosalita cerrou os lábios e ergueu a pesada bolsa do banco do passageiro com

estofamento de tecido. O verso de cortinas cor de marfim bloqueava as janelas.

Os tênis de Rosalita tinham puído as bainhas da calça jeans, de modo que elas

raspavam no chão com fios brancos e úmidos. O atrito com o jeans era o único

som que seus sapatos faziam enquanto ela caminhava.

Ela tentou imaginar a mulher atrás da porta cor de cereja, morando na casa

perfeita de tijolos brancos com plantas mais bem cuidada do que as pernas de

Rosalita. Ela provavelmente escovava os dentes assim que acordava, gostava de

gritar durante o sexo, usava pijamas combinando e lia matérias sobre

alimentação saudável. Rosalita não queria aquela vida, embora compreendesse

que essa possibilidade era como terminar com um homem que já tinha parado

de ligar para ela havia meses. Nunca fora oferecida a ela.

Ela puxou a pesada aldrava de ferro — um anel na boca de um leão — e bateu

na porta. Esperou, contando em voz baixa. Bateu novamente. Como não houve

resposta, pressionou o polegar na campainha, coberta por um pedaço de fita adesiva. O som reverberou pela casa. Rosalita conseguiu ouvir de onde estava,

assim como os passos que se seguiram. Ela olhou para cima, distraída, e notou

uma câmera instalada no canto da porta. Rosalita imaginou sua imagem refletida

na lente olho de peixe, distorcida e arredondada, a cena inicial de um programa

sobre crimes da vida real.

Então a porta se abriu e as duas mulheres ficaram cara a cara em lados

opostos do umbral.

— Meu nome é Rosalita Guillen. Preciso falar com você.

Ela estendeu um envelope com uma caligrafia nítida no verso.

A mulher tinha a pele rosada coberta de sardas e um cabelo que parecia ter

sido mastigado nas pontas. Ela olhou para Rosalita e, de maneira gentil mas

enérgica, bateu a porta.