Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 4 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 3

 

20 DE MARÇO

Nós lemos Faça acontecer. Acredite: o livro era praticamente obrigatório na cena

profissional feminina da cidade. Quando nossas amigas precisavam de conselhos,

era nosso dever moral dizer a elas de maneira sincera e sábia, quase implorando:

“Amiga, o que você precisa é fazer acontecer.”

Então líamos todas as duzentas e quarenta páginas enquanto fazíamos luzes

no cabelo, e ouvíamos o audiolivro enquanto dirigíamos nossos Land Rovers

pela estrada. Precisávamos de alguém que nos dissesse o que estávamos fazendo

de errado e o que era preciso fazer para corrigir. Alguém que nos lembrasse de

que não estávamos ganhando dinheiro o bastante, nem subindo na carreira

rápido o bastante, nem nos esforçando o bastante. Fantasiávamos sobre nossas

carreiras, íamos a eventos de networking para mulheres, ansiávamos por riscos

profissionais que pudéssemos assumir. Seguíamos a receita, ajustávamos o timer

para dali a dezoito meses e imaginávamos que, àquela altura, o teto de vidro teria

se estilhaçado sob o peso de todas as mulheres do mundo que faziam acontecer.

Quando foi exatamente que nos demos conta de que a fórmula não estava

funcionando? Foi durante a eleição? Antes disso? É difícil registrar diferenças no

status quo. É como tentar medir ligeiras mudanças de temperatura sem um

termômetro. Mas a sra. Sandberg tinha razão a respeito de uma coisa. Tínhamos

que fazer acontecer.

Era a única maneira de ouvir os sussurros.

 

* * *

 

De três em três minutos, um purificador de ar automático pulverizava um

desinfetante com aroma cítrico, fazendo Grace, com um sobressalto, se lembrar

de onde estava. Em um banheiro público. Sentada na privada. Olhando distraída

seu feed do Instagram. A calcinha pendurada entre os tornozelos.

Fora a isso que a maternidade a reduzira. Era culpa da privação de sono. Todos prometiam que ia passar. Que logo, logo ela voltaria a se sentir como a

pessoa que era antes.

Ela queria que a pessoa que era antes se apressasse um pouco mais, caramba.

A porta do banheiro se abriu e dois pares de saltos entraram.

Grace poderia ter anunciado sua presença desenrolando um pedaço de papel

higiênico ou ficando de pé para acionar a descarga automática, mas, antes que

pudesse se mexer, um dos pares de saltos parou diante do espelho e disse:

— Danielle me encaminhou aquela planilha. Meu Deus, quem poderia

imaginar que havia tantos canalhas em Dallas?

Grace desviou o olhar da tela do celular. Semicerrou os olhos. Abaixou a

cabeça para ver os saltos parados diante do espelho: cor-de-rosa, bonitos, mas

não muito sofisticados. Steve Madden, talvez.

A mulher de saltos rosa talvez estivesse retocando a maquiagem diante do

espelho. A outra garota, de saltos de couro, entrou em um dos reservados e girou

o trinco.

— Você deveria ter me falado. Eu recebi, tipo, faz uns três dias.

Grace não conseguiu identificar a voz. (Nossas vozes eram pouco mais que

um artifício. Vivíamos na época das vozes crepitantes e das afirmações

pronunciadas como se fossem perguntas. E nos odiávamos por isso.) Conversar

no banheiro combinava duas atividades que não deveriam acontecer ao mesmo

tempo, mas Grace se lembrava de como era ser jovem, quando entrar no

banheiro juntas, conversar e se revezar na hora de usar um vaso sanitário

imundo era um símbolo de intimidade. Ela sentiu uma leve pontada de saudade.

— O mais bizarro — continuou Saltos de Couro — é que um dos caras na lista

é o melhor amigo do meu pai.

Diante da pia, Saltos Rosa disse:

— Caramba. — Grace ouviu o estojo de pó se fechando. — E ele nunca agiu,

sabe, estranho com você?

Grace se lembrou de seus Ferragamos com lacinho, que certamente estariam

bem visíveis por baixo da porta do reservado se uma das garotas se desse ao

trabalho de olhar. Será que deveria tirá-los? Ou estaria indo longe demais?

Ela não conseguiu decidir o que fazer, então não fez nada.

— Não, ele sempre foi muito legal comigo. Uma versão de legal normal, tenho

quase certeza. Minha família jantou com ele mês passado.

— Mas já imaginou se fosse o seu pai? — perguntou Saltos Rosa. — Porque

essa é a questão. Eles são. Os pais de alguém, quero dizer. Imagine como seria

receber isso no seu e-mail e ver o nome do seu pai e do lado “pediu que eu enfiasse o dedo em seu cu”. Acha que ia conseguir olhar para ele da mesma

forma?

Grace achava que Saltos Rosa era a estagiária do departamento jurídico, uma

estudante do primeiro ano de direito que trabalhava alguns dias por semana na

Truviv. Não era de uma das grandes faculdades, se bem lembrava. O nome era

Olivia? Sophia? Um dos dois.

— Ei, pode parar por aí — disse Saltos de Couro. — Mark Souls é um homem

honrado. E eu não preciso dessa imagem na minha mente.

Certo, aquela voz pertencia a Alexandra Souls, uma das advogadas jovens

especializadas em direito empresarial que Sloane tinha contratado no ano

anterior. Grace gostava de Alexandra. E Alexandra e Olivia-ou-Sophia eram

colegas de faculdade, não?

O interessante era: Grace só tinha ouvido as pessoas falarem sobre a morte de

Bankole naquele dia. Talvez elas fossem novas demais ou estivessem muito

abaixo na hierarquia para se importar.

Ou talvez simplesmente achassem que aquele assunto merecia mais destaque.

Elas realmente deveriam checar por baixo das portas dos reservados.

— Você acha que isso é verdade? Essa coisa sobre o… cu? — perguntou

Olivia-Sophia, soando mais animada do que escandalizada.

Alexandra riu.

As pontas dos sapatos de Olivia-Sophia se viraram na direção dos reservados.

— Você acrescentou o nome de alguém? — perguntou ela.

Grace ouviu o barulho da descarga.

— Não… Eu não… — respondeu Alexandra. A resposta soou como uma

arma carregada. As dobradiças rangeram quando ela saiu do reservado. — E

você?

Mas naquele momento Alexandra devia estar lavando as mãos, porque o

barulho da torneira abafou suas vozes. Em seguida, o secador.

Grace pressionou as têmporas. Estava tentando juntar as peças. Alexandra e

Olivia-Sophia tinham recebido uma planilha. Que devia conter uma espécie de

lista. Uma lista de homens canalhas, elas tinham dito. E estavam passando a lista

entre si. Discutindo-a. (Grace estava tomando conhecimento dela naquele

momento, mas várias de nós já tinham visto. E acrescentado nomes. Usávamos

endereços de e-mail falsos, nomes de usuário falsos e cópia oculta como se

estivessem saindo de moda mais rápido do que macacões de corpo inteiro e

mangas morcego.)

A torneira se fechou subitamente.

— Não importa — afirmou Alexandra. — Aquele cara obviamente fez alguma

coisa que irritou alguém. Tenho certeza de que mereceu. Todos eles deveriam

perder o emprego.

Grace estremeceu. E o direito a um julgamento justo?, pensou, embora na

mesma hora tenha se sentido a caxias da faculdade de direito, o que achava que

de fato tinha sido.

Alexandra e Olivia-Sophia estavam indo embora, então Grace não conseguiu

ouvir o resto da conversa, apenas o murmúrio de vozes abafadas pela porta

fechada, deixando-a no banheiro apenas com a companhia de uma sensação

inquietante.

Embora, pensando bem, essa sensação talvez já estivesse lá.