Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 33 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 32

 

11 DE ABRIL

O pavimento molhado se estendia como uma língua da estação de carregamento

aberta no porão. O bloco de cimento cavernoso cheirava a gasolina e adubo

velho. Homens transportavam engradados de latas de refrigerante em carrinhos.

— Preciso da chave do almoxarifado — disse Rosalita ao supervisor.

Crystal esperava junto ao elevador, vigiando o carrinho de limpeza. Ela estava

de volta.

O supervisor estava sentado em uma pilha de caixas de papelão, debruçado

sobre uma prancheta. Sua barriga saliente se destacava na camisa polo amarela.

Uma depressão marcava o umbigo.

— Se quiser alguma coisa, gata, é melhor pedir de joelhos — disse ele, sem

olhar para Rosalita.

Ele assinava o contracheque dela.

— Não tem problema, mas aviso logo: eu mordo.

— Vá se foder. — Ele cuspiu no chão de cimento. Mas soltou o chaveiro preso

ao cinto e jogou duas chaves para ela. — Não roube nada. Vou verificar.

 

* * *

 

Crystal e Rosalita arrastaram o carrinho de limpeza pelo saguão dos elevadores

nos andares superiores — tum, tum, tum.

— Ele me pediu para chupá-lo. — Crystal colocou as luvas de borracha.

— Ele faz isso com todas. Simplesmente ignore.

Crystal não respondeu. Ela examinava a ponta dos dedos das luvas,

beliscando-as — eram grandes demais.

Bem.

Às vezes, Rosalita pensava em como o supervisor tinha sido criança um dia,

um menino que provavelmente gostava do Batman, Lego e outros brinquedos.

Empurrou o carrinho. Suas panturrilhas se contraíram. Ela parou no meio do corredor.

— Já volto — disse para Crystal.

— Você sabe que eu não gosto de ficar sozinha.

— Falou a vaca que não apareceu para trabalhar — disse Rosalita, com uma

risada, por cima do ombro. — Com quem você acha que eu fiquei naquele dia?

Na sala de material de escritório e cópias, Rosalita enfiou a chave na

fechadura e girou a maçaneta. O quarto tinha cheiro de papel quente — químico

e amadeirado. As copiadoras emitiam luzes azuis enquanto hibernavam. As

lâmpadas automáticas se acenderam quando ela atravessou a sala até os

armários. Ela se ajoelhou e leu os rótulos laminados em cada uma das portas.

Pegou três canetas, quatro marcadores de cores diferentes, um pacote de fichas

timbradas, três envelopes e um caderno para Salomon. Rosalita estava roubando,

mas apenas da mesma forma que as pessoas que trabalhavam naqueles andares

roubavam para os projetos escolares dos filhos. E eles não se sentiam culpados,

então por que ela se sentiria?

Faltavam dois dias para o exame de admissão de Salomon.

Ela voltou e colocou o material na prateleira de baixo do carrinho.

— Para quem é isso? — perguntou Crystal.

— Não é da sua conta. — Rosalita verificou a prancheta.

— Eu não fui para a faculdade.

Crystal espiava o material escolar.

— Talvez devesse ter ido.

Elas faxinaram os andares às escuras. As luzes da cidade perfuravam as

persianas fechadas. Suas silhuetas fantasmagóricas passavam por divisórias de

vidro. De tempos em tempos, dentro das salas de reunião, ela olhava pelas janelas

e notava um prédio imerso na escuridão, exceto por um ou dois cubos dourados

de luz, e via uma pessoa lá dentro aspirando o chão e espanando as estantes de

livros.

Ela passou pelos escritórios do décimo quinto andar, observando apenas

sinais indiretos de vida: uma mudança no cheiro, uma embalagem de barra de

granola deixada em cima da mesa, uma bolsa de ginástica aberta… e, no fundo

do cesto de lixo na sala de Ames Garrett, uma poça de vômito marrom.

The Dallas Morning News — 11 de abril

Aspirante a presidência de empresa enfrenta acusações de assédio sexual

 

Ver comentários

 

Ex-funcionário da Truviv Anônimo

11/04, às 6h26

Ele não é o único na Truviv.

 

Funcionário da Truviv Anon

11/04, às 6h31

Trabalhei com Ames Garrett durante anos. Ele é um bom homem com um legado comprovado. Nunca pediu elogios, mas conduziu a empresa sem chamar a atenção por períodos turbulentos e numerosos riscos legais em potencial até a próspera era recente. Essas alegações são infundadas e é vergonhoso que hoje em dia esse tipo de coisa seja considerado jornalismo.

 

Ruth McNary

11/04, às 6h36

Parem. Acreditem nas mulheres. Esse papo de “Ele é um cara legal e fez coisas boas para a empresa” não significa nada. Essa punição merecida já veio tarde.

 

Anônimo & Farto

11/04, às 6h45

Ninguém tem prova de nada. Cada acusação falsa torna ainda mais difícil acreditar nas mulheres e, de alguma forma, querer saber dos fatos nos torna os bandidos da história. Sim, caras. Alguém foi estuprada? Alguém foi assediada? Não. E ninguém vai alegar o contrário.

 

Funcionária da Truviv

11/04, às 07h01

Sério, Anônimo & Farto? Sim, uma mulher foi assediada. Mais de uma, na verdade. É exatamente isso que está sendo alegado. E, a propósito, ninguém precisa ser estuprada para que seja assédio. Não estamos em 1950.

 

Anônimo & Farto

11/04, às 07h02

Você estava lá, Funcionária da Truviv? Sabe o que aconteceu? Ótimo, então você não sabe.

 

Vítima Anon

11/04, às 7h16

Eu gostaria de agradecer às mulheres que acusaram Ames Garrett. Isso me inspirou a nomear meu próprio assediador na Truviv. O nome dele é Lamar O’Neill.

 

Lamar O’Neill

20/04, às 14h11

Fui informado deste comentário e também sei quem fez falsas alegações contra mim. Por respeito e gentileza, decidi não nomear essa pessoa publicamente, mas vou tomar medidas legais imediatas.

 

Ruth McNary

11/04, às 07h35

@VitimaAnon, eu acredito em você. Sinto muito que tenha passado por isso.

 

Anônimo & Farto

11/04, às 08h12

Sério, @RuthMcNary? Com base em quê? Foi isso que este país se tornou? Não nos importamos mais com provas e um julgamento justo? Por que estamos aceitando calúnias na sua forma mais óbvia? Vocês estão arruinando a vida e a carreira de homens honrados. Apresentem provas. Mensagens, e-mails… Vivemos em uma era digital, então, se as alegações dessas mulheres e as suas forem verdadeiras, queremos provas. Todos são inocentes até que se prove o contrário. Eu, pelo menos, ainda tenho algum respeito pelos nossos antepassados.

 

Anônimo

11/04, às 8h45

Você não sabe o que aconteceu lá. Ninguém sabe.