Rede de Sussurros
Capítulo 48
2 DE MAIO
Ela foi informada de que a Truviv queria uma reunião na manhã seguinte. Estava
se formando um consenso de que os depoimentos não estavam indo bem. Grace
recebeu o telefonema de Helen Yeh a caminho do trabalho.
— Vou lhe dizer o que acho — disse Helen sem preâmbulos. — Acho que
precisamos ouvi-los. Descobrir o que está por trás desse movimento. Depois
disso, é melhor não tomarmos decisões precipitadas. Mas deveríamos…
— Ouvir — concluiu Grace ao virar na saída da Pearl Street para o centro da
cidade. Ela ainda não tinha se acostumado a falar em um dispositivo que deixava
as mãos livres, então sua voz saiu apenas um decibel abaixo de um grito.
— Exatamente.
Grace verificou o ponto cego no retrovisor.
— E eles nos ouviram, por acaso?
Ela virou na Main Street, passando pelo parque, no centro do qual havia uma
estátua de um globo ocular de nove metros de diâmetro — impossível de ignorar,
com seus capilares vermelhos e sua impressionante íris azul, e pelo fato de ser um
gigantesco globo ocular —, conhecida como “Monstruosidade”.
— Entendo, Grace, de verdade. Mas, veja bem, meu trabalho, como sua
advogada, é proteger seus interesses. Vocês são todas advogadas, mas se fossem
médicas não operariam o próprio coração, certo? — Grace poderia ter sido
médica, não fosse por todo o sangue envolvido. Mas olhe onde tinha ido parar.
— Tenho que aconselhá-las a fazer o que acho que será melhor para vocês no
longo prazo. Talvez eles estejam dispostos a esquecer tudo. Podemos ter
esperança. Mas vocês estão em queda livre.
Então foi isso que o Ames sentiu naqueles últimos segundos, pensou Grace.
Queda livre.
* * *
Helen encontrou as três no escritório. Vigésimo andar. Grace lembrou a si
mesma de que era o trabalho de Helen acabar com elas, prepará-las para aceitar
como cães famintos o que quer que lhes oferecessem. Era uma estratégia clássica
usada com clientes desavisados para fazer com que acreditassem que seu
advogado tinha conseguido um acordo vantajoso. Grace se irritou ao pensar em
Helen tendo uma rápida “conversa” ao telefone com Cosette antes da reunião:
Acho que consigo convencê-las.
Talvez Grace estivesse sendo injusta. Talvez não.
Ela se sentou ao lado de Ardie enquanto se reunia o que Grace tinha passado a
considerar o “grupo habitual”.
— Como você está? — murmurou ela.
Ardie havia emagrecido pelo menos três quilos, pelas estimativas de Grace,
provavelmente sem nem notar.
— Estou bem. Mas, olha, não sei o que vou dizer ao Tony.
— Não sabemos… — começou Grace.
— Por favor.
Grace não tinha uma resposta. Ela tinha Liam. Era a sortuda. Se não quisesse
trabalhar, não precisava. Liam disse isso no momento em que Emma Kate saíra
de suas entranhas. Na verdade, ele provavelmente ficaria feliz se ela ficasse em
casa. Chega de lavar mamadeiras!, pensaria ele.
Mães só deveriam trabalhar se precisassem. Grace sabia disso. Era por isso que
nunca deixava transparecer como as finanças deles eram sólidas. Se desistissem
agora, Grace estaria abrindo mão da carreira para sempre. Podia ver o futuro se
estendendo diante dela enquanto girava sem parar o anel de diamante — que
recentemente voltara a seu dedo.
Sloane chegou.
— Obrigada por terem vindo. — Uma bala de hortelã estava equilibrada na
parte de trás da língua de Cosette. — Vamos ser breves. O Ames está morto. —
Ela cruzou as mãos sobre a mesa. — Temos uma testemunha-chave a nosso favor
que afirmou, sob juramento, que não apenas não sofreu assédio sexual por parte
de Ames Garrett ou de qualquer outra pessoa, mas também que vocês três
planejavam uma vingança pessoal contra ele, em uma espécie de efeito manada
decorrente de um romance fracassado entre Sloane e Ames Garrett. — Grace
imaginou Cosette praticando aquele discurso diante do espelho no banheiro do
hotel. — As próprias palavras da Grace corroboram a ideia de que ele era um
chefe bom e capaz, o que ela estava disposta a atestar. Ardie Valdez
aparentemente não gostou de não ter sido promovida em consonância com as colegas. O momento de abertura do processo, pouco antes da promoção do sr.
Garrett à presidência da Truviv, foi planejado para causar o máximo de dano
possível, para colocar a empresa contra a parede. Nenhum desses fatos é
favorável a vocês. Ames Garrett se matou por causa de suas ações e acusações
infundadas.
— Você sabe que discordamos de literalmente todas as suas conclusões, certo?
— disse Sloane.
Isso era o que Grace mais temia: Sloane. Sloane não tinha entrado apressada
na sala. Não tinha feito um comentário irreverente sobre estar cinco minutos
atrasada. Havia se sentado suavemente. Tranquila.
— Registrado. Mas a Truviv está preparada para ir até o fim nessa batalha, se
necessário. Os acionistas, depois de ouvir o depoimento e os fatos do caso,
liberaram um orçamento considerável para o julgamento. Financeiramente faz
sentido, sejamos francas. Mas eis o que posso fazer por vocês. Abram mão de sua
parte das ações da Truviv. Peçam demissão. Aceitem o acordo de cinco milhões
de dólares para cobrir os custos dos honorários advocatícios e dos danos à
reputação da empresa. Desistam da ação, e a Truviv lhes dará cartas de
recomendação e assinará um acordo de confidencialidade proibindo que
qualquer funcionário da empresa fale mal de vocês, pessoal ou
profissionalmente.
— Cinco milhões de dólares. Querem que a gente pague cinco milhões de
dólares para vocês? — zombou Ardie. — De onde acham que vamos tirar o
dinheiro?
Grace não disse que poderia conseguir o dinheiro. Se precisasse. Pelo menos a
parte dela, talvez até todo o montante, mas teria que recorrer aos pais e, bem,
essa não era a melhor das opções. Além disso, foi a parte da “demissão” na
proposta de Cosette que fizera seu sangue gelar. E, com acordo de
confidencialidade ou não, não haveria como silenciar os “quens”, os “o quês” e os
“por quês” na comunidade jurídica.
O anel de diamante girava, girava e girava em torno do seu dedo. Ela tinha
sido estúpida demais. Seria a própria ruína.
— Podemos estabelecer um plano de pagamento. Se for necessário negociar o
número total de anos para quitação, acho que isso é algo que eu conseguiria
aprovar junto ao conselho. — Cosette olhou por cima do ombro para o homem
corpulento, o membro do conselho que fazia parte da comissão de análise
independente, e ele fechou os olhos e franziu a testa: Claro, claro, vamos dar a
elas essa colher de chá.
— Isso é vingança — disse Sloane. — É extorsão.
— Não — corrigiu Cosette, sem se alterar. Ela já estava colocando os papéis de
volta na pasta. — É preventivo. O acordo só vale até amanhã. Depois disso, a
Truviv vai dar seguimento ao processo contra vocês três.
Ficou claro que, se você cortasse as veias de Cosette Sharpe, veria que elas
estavam cobertas de crostas por causa das queimaduras de gelo. E, sinceramente,
quem naquela sala não gostaria de fazer isso?
Todos foram embora, exceto a equipe de Grace. Helen estava sentada na
extremidade da mesa, a boca franzida, esperando.
— Há um lugar especial no inferno para as mulheres que não ajudam outras
mulheres — disse Sloane, trincando os dentes.
— Madeleine Albright — disse Ardie.
Sloane se aproximou da janela e olhou para a fachada do prédio.
— Sério? Sempre achei que fosse algo que a Taylor Swift tinha dito para a Tina
Fey. Mas ainda assim.
Mas ainda assim. Grace sentiu uma onda de amor e nostalgia pelas amigas.
Talvez fosse exatamente naqueles momentos que as pessoas sentiam ondas de
amor e nostalgia. Quando seu pescoço estava na guilhotina.
— Vocês estariam livres do processo por responsabilidade em uma morte
indevida…
Isso era apenas o processo na esfera civil, porém. Não teria nenhuma
influência sobre acusações criminais. Entretanto, não as prejudicaria.
E se eu amar meu trabalho tanto quanto amo minha bebê? E se eu o amar só
um pouquinho, só um pouquinho mais?
Sloane se virou de novo.
— Cinco milhões de dólares, Helen.
Helen era uma mulher pequena, com um corpo semelhante a um daqueles
sacos selados a vácuo, só que contra a gordura. Ela corria distâncias insanas nos
fins de semana só por diversão.
— Eu sei que parece muito dinheiro. Mas, por Ames Garrett, na verdade é
pouco. — A vida de Ames Garrett em liquidação. Era realmente seu dia de sorte.
— Se perderem um processo de responsabilidade por morte indevida, terão que
desembolsar muito mais. Pelo menos três vezes esse valor.
— E a Katherine? — perguntou Grace, tentando manter a voz neutra.
Desde que falara com a polícia, ela nutria a esperança de que eles
descobrissem que Katherine era culpada pela morte de Ames. Grace se sentia
perversa, mas essa era a verdade nua e crua. Nunca estivera tão afastada de Deus e não se importaria nem um pouco se crucificassem Katherine. Supunha que, em
algum nível, as duas eram Judas agora.
— Pelo que entendi, ela vai ganhar uma… promoção. Não estou a par dos
detalhes. Sinto muito. — Helen respirou fundo. — Meu escritório me proibiu de
continuar representando vocês em regime de contingência. Sinto muito. Vocês
sabem que quero continuar. Mas não foi para isso que fui contratada
inicialmente. — Grace olhou para Sloane em busca de alguma reação, mas o
rosto da amiga estava inexpressivo. — Sinceramente, duvido que algum outro
escritório que trabalhe com questões relativas a cargos de alto nível na cidade vá
aceitar esse volume de trabalho de graça.
Ninguém disse nada. Instalou-se o mais longo silêncio que Grace já havia
experimentado na presença das amigas, que também eram as mulheres mais
inteligentes e capazes que ela conhecia. Mas, no fim das contas, aquilo não se
tratava de inteligência nem competência. Nunca se tratou. E por causa disso elas
iam perder.