Rede de Sussurros
Capítulo 27
3 DE ABRIL
— O Ames.
As forças que tinham feito com que quatro mulheres se reunissem em um
lactário para falar sobre um homem cuja presença parecia inflamar e supurar
entre elas, como um caso de herpes não tratado, estavam além da compreensão
de Ardie. Ela sabia apenas que, algumas semanas antes, estivera sentada
praticamente no mesmo lugar, falando sobre o mesmo homem, e achava que
havia algum tipo de força gravitacional agindo ali. Como os buracos negros.
Sloane fechou os olhos enquanto andava de um lado para outro.
— Calma… Conta pra gente exatamente o que aconteceu — pediu ela.
Respire, Ardie queria dizer a Katherine. Você não pode se esquecer de respirar.
Ardie precisava de um lugar seguro para levar Katherine e de segundas
opiniões confiáveis. O lactário agora parecia um abrigo nuclear, escuro, úmido e
isolado de qualquer calamidade que estivesse acontecendo do lado de fora.
(“Aquela vela é da Anthropologie?”, perguntara Sloane a Grace ao chegar.) Pelo
menos por enquanto, Grace mantinha os seios guardados. Provavelmente seria
mais fácil acompanhar a conversa assim. E Ardie tinha deixado os próprios
sentimentos de lado e chamado Sloane, reconhecendo suas deficiências no
departamento de consolar Katherine.
E assim as quatro mulheres se reuniram para discutir como resolver um
problema insolúvel.
— Eu… o magoei. — Uma nota inconfundível de amargura saturava as
palavras de Katherine. Mas elas já tinham ouvido essa parte. — Acho que
tínhamos ideias diferentes sobre a natureza do nosso relacionamento e o rumo
que estava tomando.
Havia algo automatizado no que ela dizia, como se tivesse repetido tudo
aquilo para si mesma várias vezes.
— Bem, parece que ninguém aqui vai passar no teste de Bechdel tão cedo.
Grace havia tirado os sapatos de salto e, como uma bailarina, estava flexionando os pés descalços no piso.
— Eu o encontrei no elevador mais cedo — confessou Ardie. — Ele disse:
“Vocês são todas malucas, sabia?” — Ela fez uma voz baixa e rouca para imitá-lo.
É claro que Ardie deveria ter se dado conta naquele momento de que o
comentário era uma jogada preventiva. A tentação, alimentada por pessoas como
Ames, sempre tinha sido invocar uma imagem de donas de casa entediadas
usando terninhos, brincando de telefone sem fio nas linhas da empresa. Éramos
sempre as exageradas, as histéricas, palavra literalmente derivada do latim
“hystericus”, ou “do útero”. Na verdade, uma grande quantidade de tempo e de
palavras tinha sido dedicada à arte do descrédito. Adjetivos como “mandona”,
“briguenta”, “nervosa” e “intensa” se tornaram desculpas sutis destinadas a
ajudar a justificar a perda de audição seletiva.
Quando encontrou Katherine na cozinha, Ardie viu a mesma expressão que
tinha visto no rosto de Sloane anos antes: O que eu faço agora? Estava tudo
começando de novo. Era como perceber de repente que, embora acreditasse que
estava disputando uma corrida, você na verdade estava o tempo todo numa
esteira.
— Mas… você não viu a lista? — arriscou Sloane.
Todas elas tinham se agarrado à promessa da lista de homens CILADA como
se fosse um pequeno bote salva-vidas nos mares da internet. Era o aviso na
entrada da montanha-russa do parque de diversões. Entre por sua própria conta e
risco. Depois que o aviso era dado, tinham cumprido sua responsabilidade legal.
Mas só naquele momento elas se deram conta de como tinham sido ingênuas.
— Vi. — As bochechas de Katherine se inflaram. Ela puxou as pernas para
cima do sofá. — Quando você enviou. Mas não sabia o que deveria fazer. Foi o
Ames quem me arranjou o emprego aqui. Eu não sou idiota. — Ela olhou ao
redor, desafiando cada uma delas a discordar. — Você não estava me contando
nada que eu já não soubesse em alguma medida. Sabia que era um equilíbrio
precário. Sim, sou qualificada. — Como se o fato de ter estudado em Harvard e
trabalhado na Law Review fossem informações menos importantes a respeito
dela. — Mas não tinha nenhuma recomendação. Pior: meu antigo empregador
me detesta de verdade. Conheci o Ames em um bar em Boston. Percebi que ele
provavelmente estava, vocês sabem, interessado em mim. Mas me esforcei muito
para chegar aonde cheguei. E precisava de um recomeço. Em um lugar que não
parecesse que estava dando um passo para trás. Isso soa péssimo. — Ela afundou
as costas nas almofadas do sofá. — Mas que mulher não faz isso um pouco? Você
fica sem gasolina no meio da estrada e, bem, de repente, não parece tão ruim usar um pouco do… Vocês sabem, charme, para conseguir uma carona. Não
olhem para mim desse jeito. Nós todas fazemos isso.
Sloane assentiu.
— Estamos em uma zona livre de julgamento. Você é uma de nós.
— Enfim. — Katherine suspirou. — Achei que, depois que conseguisse a
oportunidade, eu poderia ir estabelecendo aos poucos alguma distância, e isso
deixaria de ser um problema. O Ames demonstrava interesse, mas, sinceramente,
parecia inofensivo. Ele estava me ajudando e não pedia nada em troca. Achei que
tudo estivesse sob controle.
Grace deixou os sapatos de salto caírem no chão e a encarou.
— E o Prescott? — perguntou ela.
Katherine olhou para Grace, que estava perto da TV. Havia um reflexo em
miniatura de Sloane e Katherine na tela escura.
— O Ames pagou pelo quarto — respondeu ela lentamente. — Ele me pediu
que não contasse a ninguém. Sinto muito. Ele disse que a empresa não costuma
cobrir as despesas de mudança, mas que eu poderia considerar a ajuda dele parte
do meu pacote de contratação. Ele inclusive usou um cartão de crédito da
empresa. Falei para ele que tinha encontrado você, e essa foi a primeira vez que a
coisa toda pareceu um pouco, não sei, suspeita.
A pele ao redor dos olhos de Grace se franziu. Ela cruzou os braços, num
impulso de autoproteção.
— Mas juro que nada aconteceu no Prescott.
— Tudo bem, então nada aconteceu no Prescott. — Sloane girou as mãos no
ar: continue. — O que aconteceu depois?
Katherine engoliu em seco.
— Ele me pediu que ficasse até mais tarde para ajudar com… nem lembro
mais o quê… Então fui até a sala dele, começamos a conversar e ele foi meio que
chegando… — ela inclinou a cabeça para o lado, como se examinasse o episódio
em sua mente — … mais perto, acho, e… Isso vai parecer estranho, mas a luz
estava desligada porque ele disse que assim era mais confortável para os olhos
dele à noite. Então as coisas ficaram… Pensei que fosse outra coisa, mas ele… Ele
me beijou. E aí. — Sua boca tremeu com uma lembrança desagradável. — No
começo, fiquei surpresa. Não no bom sentido. Tentei me desvencilhar, sabe,
delicadamente. Mas ele é persistente. O Ames tentou… Ele ficava, sabe… Então
eu tentei… Enfim, ele pegou minha mão e colocou no… — Ela lançou um olhar
para que todas entendessem. Havia uma infinidade de lacunas nas frases de
Katherine, mas, ainda assim, Ardie sabia exatamente o que ela estava dizendo. — Alguém nos pegou na hora, na verdade. A faxineira.
Ardie piscou, confusa.
— Rosalita?
— Não tenho certeza. Acho que sim. Não sei. — Katherine se inclinou,
segurando a cabeça apoiada nos joelhos. — Eu disse qualquer coisa relativamente
inofensiva para ele. Algo como: “Ah, sinto muito, mas não quero me envolver
com ninguém do trabalho.” Ele jogou uma caneta no chão e disse que eu só podia
estar de brincadeira. Fui embora. Achei que poderíamos resolver as coisas
depois, quando não estivéssemos com a cabeça quente.
— Talvez você tenha demonstrado interesse? Será que ele não pode ter
interpretado mal… — Em sua defesa, Grace não soou como se a estivesse
julgando, não exatamente. Embora tampouco parecesse como se a apoiasse. —
Casos no escritório estão na moda, né?
Ela não olhou para Sloane, mas poderia muito bem ter olhado.
— Grace. — Sloane se virou. — Ela tem… Eu não sei, quantos anos você tem,
Katherine? Não importa… Você não acha que ela sabe?
Grace não respondeu.
Porque Sloane estava verbalizando algo em que todas nós acreditávamos, que
era o fato de que sabíamos a diferença. Como sabíamos quando um
comportamento era inapropriado? A gente simplesmente sabia. Qualquer
mulher com mais de quatorze anos provavelmente sabia. Acredite ou não, não
queríamos ser insultadas. Não ficávamos sentadas, torcendo os dedos, esperando
que alguém aparecesse e nos insultasse para que tivéssemos o que fazer naquele
dia. Na verdade, usávamos dezenas de desculpas para evitar a fadiga. Dávamos o
benefício da dúvida. Encarávamos o comentário de um homem sobre como
nossos saltos destacavam nossas panturrilhas como algo bem-intencionado.
Entendíamos o desejo de que traçássemos um limite claro — isso pode, isso não
pode. Essa linha não existia, ou pelo menos não de forma que pudéssemos traçar.
Mas acredite que, quando começávamos a trabalhar, nossos medidores já tinham
sido testados dezenas de vezes. Éramos especialistas em nosso campo.
— Foi o que pensei.
— Sinto muito, Katherine — disse Grace suavemente. — Só estou tentando
entender o que aconteceu. Eu não… não conheço esse lado do Ames, só isso.
— E aí? — perguntou Ardie.
— Ele não está aceitando bem a rejeição — interveio Sloane.
— No começo, achei que estava. Parecia, pelo menos… Tudo bem, aquilo
aconteceu. Foi lamentável, mas, sabe, talvez eu estivesse mesmo demonstrando interesse. — Ela lançou um olhar para Grace. — Ou algo assim. E poderíamos ser
adultos razoáveis. Então ele soube da lista.
— O quê? — Os olhos de Sloane se arregalaram.
Olá, lista, pensou Ardie. Fico feliz que você tenha finalmente sido desenterrada.
— Hoje, na verdade. E ele acha que fui eu que coloquei o nome dele.
Sloane apertou a cintura, curvando o tronco enquanto caminhava pela sala.
— Ah, merda — disse ela. — Merda, merda, merda, merda.
Ela andava em círculos agora. Círculos pequenos, minúsculos e tristes. Ardie
se perguntou exatamente qual porcentagem daquilo poderia ser considerada
culpa dela.
— Não foi você que colocou o nome dele — afirmou Sloane. — Você contou
para ele? Disse que não foi você que adicionou o nome dele na lista?
— Claro que disse.
— E o que ele respondeu? — perguntou Ardie, o tom suave.
Elas estavam reunindo os fatos. Só isso. Estavam em uma missão de
averiguação. Pesquisa. Era uma sala cheia de advogadas. Somando todas, havia
trinta e dois anos de educação superior ali. O objetivo: esclarecer as coisas e
ajudar sua colega a sair de uma enrascada com seu emprego intacto.
Talvez “enrascada” não fosse a melhor descrição.
Katherine cruzou os braços e as pernas. Ao fazer isso, ela ficava com uma
postura péssima. Ardie nunca a tinha visto com nada menos que um porte físico
perfeito, e aquele parecia um sintoma particularmente óbvio e alarmante.
— Ele não acreditou em mim — disse ela, falando mais para os próprios
joelhos do que para as outras três. — Disse que eu estava sendo desonesta. Disse
que tinha trabalhado com todas as pessoas neste escritório durante anos e anos,
que fui eu que comecei nosso caso e que eu tinha, sei lá, mandado sinais
contraditórios para ele. — Ela fez um gesto de aspas com os dedos. — Aí, de
repente, a culpa é toda dele, tem uma lista circulando por aí com o nome dele e
isso claramente não é coincidência. Palavras dele, não minhas.
Os olhares de Sloane e Ardie se encontraram. Procuraram imediatamente
uma à outra. No dia anterior, Sloane tinha aparecido na sala dela declarando:
Não tenho um ramo de oliveira para selar a paz, então trouxe comida do Olive
Garden, que dá no mesmo. E embora a trégua fosse acontecer de qualquer
maneira, os grissini certamente aceleraram o processo. Elas eram, claro, aliadas
outra vez. Velhas aliadas. Experientes. Esse era definitivamente o melhor tipo. E
Sloane era sua melhor amiga. Ela aguçou os ouvidos para ouvir seu coração de
modo a saber se isso ainda era verdade, e esperou muito que fosse.
O raciocínio de Ames na verdade era bastante razoável. Sloane e Ardie
trabalhavam com ele havia mais de uma década. Por que, de repente, decidiriam
denunciá-lo, especialmente considerando que a promoção de Sloane na empresa
estava em jogo?
Ele as subestimara.
— Bem — disse Grace —, isso é definitivamente um problema.
— Meu Deus. Eu deveria ter alertado você de forma mais clara, Katherine —
confessou Sloane, parando subitamente de andar de um lado para outro. —
Desculpa. Eu só pensei que… — Ela balançou a cabeça. — Eu não sei o que
pensei. Eu deveria ter contado a você sobre o Ames pessoalmente.
Katherine ergueu o queixo.
— Foi você que acrescentou o nome dele à lista?
A sala ficou em silêncio por um instante. Uma onda de raiva atravessou o
rosto de Katherine.
— Foi — respondeu Sloane.
Ela não incriminou Ardie. Ardie estava lá. Ardie não tinha impedido Sloane
de acrescentar o nome de Ames. Mais do que isso, ela havia concordado.
— Porque eu já estive no seu lugar.
Katherine avaliou Sloane, ou pelo menos foi assim que Ardie interpretou.
Levando em conta a diferença de idade e as disparidades estéticas. Uma não se
parecia em nada com a outra. Mas desde quando esse tipo de coisa tinha a ver
com aparência?
— Ah, meu Deus, isso aconteceu anos atrás. Séculos, na verdade. — Sloane
abanou a mão. — Foi só uma vez, para falar a verdade. — Os segredos mais mal
guardados de Sloane Glover costumavam ser os que escondia dela mesma. —
Mas ainda temos nossos… desentendimentos.
— Não foi exatamente a mesma coisa — observou Grace, mas as outras três a
ignoraram.
Katherine inclinou a cabeça para trás e olhou para o teto.
— E agora? — perguntou ela. — Tenho quase certeza de que minha carreira
não tem sete vidas. Talvez não tenha nem duas.
Como devia ser abrir caminho de South Boston até Harvard, depois descobrir
que aquela não tinha sido a parte difícil?
— Você quer registrar uma queixa? — perguntou Sloane. — Porque nós
vamos apoiá-la, se quiser. Não tenha dúvida.
Katherine se empertigou, assustada.
— O quê? Não. Não. Vocês não podem contar pra ninguém. Precisam me prometer. Eu já perdi um emprego.
Ardie sentiu um desconforto na boca do estômago.
— Aquilo foi diferente. — Sloane falou com Katherine da mesma maneira que
Ardie já a ouvira falar com Abigail.
Grace apenas observava.
— Uma queixa parece uma boa opção. Acho que tem até uma linha direta.
— É a minha palavra contra a dele. Não me parece tão diferente assim.
— Tudo bem… — Ardie observou a cabeça de Sloane, o cabelo loiro repartido
em uma linha bem marcada. — Ardie?
Sloane se voltou para ela em busca de ideias.
— Eu não sei o que fazer. Qual é a melhor saída nessas situações? —
perguntou Ardie. — Vocês se lembram de quando a Debra ainda trabalhava na
empresa? Provavelmente nem estavam aqui ainda. Talvez você estivesse, Sloane.
Era de outro andar. Ela registrou uma queixa de assédio no RH contra um de
seus supervisores. Alguns meses depois, houve uma leva aleatória de demissões,
pouca gente. Ridiculamente pouca. Ela foi mandada embora. Com uma mão na
frente e outra atrás. Sem mais nem menos.
Havia outros exemplos que ela estava deixando de fora.
— Isso pode ter sido coincidência — interveio Grace. — Nós não devemos
tirar…
— Ele vai ser presidente — interrompeu Sloane. — O conselho diretor já se
reuniu. Fiquei sabendo que está decidido. Depois que for anunciado, haverá
ainda menos opções. Talvez nenhuma.
— Vocês deveriam ter visto a cara dele. — Katherine afastou o cabelo da testa.
— Eu sou muito idiota. — Ela já havia passado ao estágio de censurar a si
mesma. Sloane tinha seguido a mesma trajetória. — Isso não aconteceu
exatamente do nada.
Ninguém perguntou o que aquilo significava. Se alguém fosse perguntar, teria
sido Sloane, mas ela deixou o comentário no ar. De quanta informação elas
precisavam de fato? Ou acreditavam em Katherine ou não acreditavam. Será que
ela teria que detalhar cada interação apenas para que elas decidissem por si
mesmas quão problemático determinado comportamento tinha sido? Ou talvez
até: de quem era o problema?
Ardie e Sloane se entreolharam. Quanto mais as coisas mudavam, mais elas
permaneciam as mesmas. De onde vinha isso? Uma canção? Ardie achava que os
versos estavam errados. O correto seria: Quanto mais as coisas não mudavam,
mais elas permaneciam as mesmas.
Sloane massageou a nuca.
— Bem… — Durante a pausa, Ardie sentiu que dali a pouco elas teriam que
se dispersar, voltar ao mundo onde tudo aquilo estava acontecendo e importava.
Estava acontecendo, Ames existia, bem ali do outro lado daquela porta trancada.
— Acho que não podemos mais cruzar os braços e rezar para que ele seja
atropelado por um ônibus.
Nossa, pensou Ardie, mas não seria uma bela coincidência?