Rede de Sussurros
Capítulo 56
4 DE MAIO
No dia seguinte, Rosalita voltou ao trabalho. Retornou para os frascos de spray,
as luvas de látex, os sacos de lixo transparentes e os rolos de papel higiênico
vazios. Para a caixa de concreto nas entranhas de um prédio de escritórios e suas
artérias, que eram os corredores vazios e canalizados que conectavam os andares.
Fazia a mesma coisa havia dez anos. Ninguém ali sabia o que tinha acontecido
nas últimas vinte e quatro horas, e ela mergulhou no trabalho porque era dela e
porque precisava.
Ao lado de Crystal, foi marcando os quadradinhos na prancheta, escritório
por escritório, enquanto a noite respirava ao redor delas.
Em alguns momentos, ela se via, quando jovem, em Crystal. Como quando
Crystal contorcia o corpo para pegar uma lixeira. Ou quando revirava os olhos
para alguma conversa se desenrolando na própria cabeça. Rosalita via essas
coisas e se preocupava que já estivesse amolecendo. O sucesso fazia isso com as
pessoas, e Rosalita havia ganhado, e ganhado muito. Com Salomon e contra a
Truviv, e embora ainda assim tivesse ido trabalhar, a diferença já estava se
instalando sorrateiramente e se resumia a isto: Rosalita não teria que estar ali.
Bastava remover a obrigação e tudo mudava.
Enquanto trabalhavam juntas limpando o vidro de uma sala de reunião,
Rosalita perguntou pela primeira vez:
— Para quando é o bebê? — Estava ficando dolorosamente óbvio para
qualquer um que não fosse cego que Crystal estava grávida.
Crystal não respondeu de imediato. Ela ficou na ponta dos pés e esfregou a
janela.
— Agosto. — Ela se abaixou até ficar de cócoras. Desequilibrou-se um pouco,
e Rosalita resistiu à vontade de segurá-la. Então Crystal sorriu, envergonhada. —
Meu aniversário também é em agosto, e estou torcendo que ela nasça no mesmo
dia. Acho que seria legal. Vou fazer vinte anos. Então, teríamos exatamente vinte
anos de diferença.
Ela sorriu, com a boca cheia de dentes tortos. Rosalita nunca havia reparado.
Rosalita pressionou o gatilho do limpa-vidros e pulverizou. Vinte anos de
idade.
— É menina?
Ela voltou a trabalhar.
— É. O médico me disse quando eu estava com uns quatro meses.
— Já preparou o enxoval? — perguntou Rosalita.
Era bom que Crystal tivesse um emprego fixo, mas o supervisor jamais a teria
contratado se soubesse que ela estava grávida. Ela esperava que Crystal não fosse
demitida quando ele notasse. Coisas assim ainda aconteciam ali de vez em
quando.
— Mais ou menos. Bem, não. Na verdade, não. O pai não consegue se decidir
se vai querer, você sabe, participar depois que ela nascer, então vou esperar para
ver em que pé estamos.
Ela evitou o olhar de Rosalita quando disse isso. Rosalita se lembrava da
própria barriga crescendo e de como erguia o queixo toda vez que alguém olhava
— sempre de maneira tão ostensiva — para seu dedo anelar esquerdo.
— Não se preocupe. Eu sabia que queria ficar com ela de qualquer maneira.
Eu não tenho família. — Crystal tocou a barriga. — Agora vou ter.
Rosalita jogou uma toalha de papel no saco pendurado na parte de trás do
carrinho.
— Criei meu filho sozinha. Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. — Embora,
claro, ninguém pudesse saber com certeza.
Crystal mordeu o interior da bochecha. Rosalita já passara por aquilo.
Sozinha. Insegura. Na maior parte do tempo com raiva.
Rosalita suspirou.
— Anote seu endereço aqui — disse ela. — Na prancheta. Vou levar algumas
das coisas de bebê do Salomon. Tenho mamadeiras, macacões, cadeirinha e
brinquedos. Tenho tanta coisa que você não vai acreditar. Quase tudo que você
precisa.
Rosalita tinha guardado todas as coisas de Salomon, pensando que um dia
poderia querer ter outro filho, mas essa vontade veio e passou.
Crystal balançou a cabeça.
— Não — retrucou depressa. — Não, não preciso de doações. Não preciso de
caridade.
Rosalita chegou tão perto de Crystal que a deixou desconfortável, mas ela não
se afastou um centímetro.
— Para. Está me ouvindo? Para com isso. Quando outra mulher se oferece
para ajudar, você aceita. Entendeu?
Crystal olhou para ela pelo canto do olho. Rosalita ergueu uma das
sobrancelhas, esperando, recusando-se a recuar, até que finalmente Crystal
assentiu.