Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 15 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 14

 

28 DE MARÇO

“Safada” era uma palavra muito pervertida. Uma palavra pornográfica. Ainda

assim, foi a primeira que veio à mente de Grace. Ah, Grace, você está sendo tão

safada. Graças a Deus seus pensamentos não eram transmitidos ao público.

Depois do almoço, Grace entrou no lactário e trancou a porta, verificando

duas vezes para ter certeza de que estava bem fechada. Entrou e tirou os sapatos

de salto alto. No canto, havia guardado uma caixa de plástico com seu nome

escrito na lateral a caneta. Seu pequeno contrabando. Ela deu tapinhas

carinhosos na tampa.

Grace não tinha começado aquilo de propósito. Simplesmente aconteceu,

depois da escapada no hotel, aquela noite selvagem de aromaterapia e serviço de

quarto. Ela abriu a caixa e começou a retirar seus tesouros: uma máscara de

dormir, creme francês para as mãos, meias de caxemira, pijama de seda, um

travesseiro com fronha de linho limpa e um cobertor de lã. Grace vestiu o pijama

e colocou as meias nos pés cansados, soltando um gemido audível. Os

absorventes em seu sutiã de amamentação estavam úmidos, mas ela os deixou

como estavam, deitando-se no sofá de couro rachado e afofando o travesseiro

sob a cabeça. Enquanto isso, as peças da bombinha elétrica flutuavam em uma

tigela cheia de água com sabão embaixo da pia da cozinha.

Para acompanhar a demanda de Emma Kate, Grace tinha que tirar leite pelo

menos três vezes ao dia. Então, certa tarde, ela pensou: Que se dane. E decidiu

tirar uma soneca. Acordou com linhas vermelhas vincando a bochecha e uma

baba seca no canto da boca, mas por um curto período depois disso se sentiu

humana.

Sua produção de leite já havia começado a diminuir, mas ela não conseguia se

livrar do cochilo que se tornara diário. Todas as tardes, era como uma mulher

que, prestes a começar uma nova dieta, ficava desanimada ao descobrir que sua

força de vontade sucumbia ao se deparar com um cupcake de chocolate. O

lactário era o cupcake de chocolate de Grace.

E como era perfeccionista, começou a aperfeiçoar sua arte. E pensar que,

apenas algumas semanas antes, se sentia presa dentro daquela mesma salinha,

irritada pela falta de sinal de celular e por estar perdendo seu precioso tempo.

Foi muito fácil.

Grace também conhecia seus direitos. Durante um ano inteiro após o

nascimento de Emma Kate, a Truviv era obrigada a oferecer um espaço privado e

intervalos suficientes para que tirasse leite. A Truviv não era obrigada a

proporcionar tempo para soneca, mas, falando sério, não deveria ser? Talvez só

um pouquinho?

Ela colocou a máscara de dormir e tentou se isolar do mundo. O melhor de

tudo era que ninguém suspeitava que Grace Stanton seria capaz de mentir, muito

menos no que dizia respeito a alimentar a filha pequena. Ninguém suspeitava de

nada, o que a fez se perguntar o que mais seria capaz de fazer.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Em sua queixa inicial, a senhora alegou que a cultura de

assédio sexual já durava uma década. Uma década é muito tempo. Por que não disse nada, sra. Glover? Certamente deve ter tido oportunidade de externar suas preocupações em algum momento durante esse período. Pelo menos uma vez. Devo dizer, no entanto, que não encontramos uma única reclamação feita pela senhora.

Ré 1: Eu obviamente temia pelo meu emprego e pelo futuro da minha

carreira. Eu temia uma retaliação da Truviv. Um receio que, como pode ver, acabou se provando muito válido.

Sra. Sharpe: Nesse caso, a senhora manteve segredo sobre essa suposta

informação por pelo menos dez anos, de acordo com seu relato. Por que se pronunciar agora?

Ré 1: Seria ingênuo acreditar que meu caso foi o único incidente de

assédio sexual. Mas não fiquei confortável ao ver a mesma coisa que tinha acontecido comigo acontecer com outra pessoa bem debaixo do meu nariz. Eu não ficaria com a consciência tranquila se simplesmente assistisse àquilo sem dizer nada.

Sra. Sharpe: O sr. Garrett estava prestes a se tornar o próximo

presidente da Truviv. A senhora estava ciente disso, não estava?

Ré 1: Estava.

Sra. Sharpe: Sua consciência tem um timing impecável. Quando disse que acreditou haver outra vítima do suposto comportamento

do sr. Garrett, a quem exatamente está se referindo?

Ré 1: Katherine Bell.

Sra. Sharpe: E o que exatamente a senhora viu o sr. Garrett fazer com

Katherine Bell?

Ré 1: Eu vi que ele dedicou atenção especial a ela, uma atenção que não

era compatível com sua posição na empresa. Eu vi que ele a conduzia para reuniões a portas fechadas em sua sala.

Sra. Sharpe: A empresa tem uma política contra reuniões a portas

fechadas?

Ré 1: Claro que não, mas…

Sra. Sharpe: Então, resumindo, a senhora alega que Ames Garrett dedicou

atenção a uma de suas funcionárias e teve reuniões com ela em sua sala.

Ré 1: Não, Cosette. Foi pior. Muito pior.