Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 37 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 36

 

14 DE ABRIL

A maré mudou no momento em que o corpo de Ames atingiu o concreto.

Nenhuma empresa de relações públicas, por mais poderosa que fosse, poderia ter

orquestrado uma campanha mais eficiente para reabilitar a imagem de Ames

Garrett do que sua morte. Ardie teve um vislumbre dos efeitos posteriores já na

tarde seguinte, quando se deparou com um grupo de jovens advogados — todos

homens, vestindo calça cáqui e com cortes de cabelo típicos da Ivy League — em

torno do prato de doces na recepção, comendo Skittles enquanto conversavam.

— Elas devem estar se sentindo mal — ouviu um deles dizer; ainda não sabia

qual.

Ardie parou atrás deles para que tivessem que se virar e notar sua presença.

— Por quê? — perguntou. Ela teria fingido que não tinha ouvido se eles

fossem mais velhos e influentes. — Por que eu deveria me sentir mal?

Eles não tentaram negar que estavam falando sobre ela. Não era só sobre ela,

mas isso não tornava a questão menos pessoal. Não pareciam arrependidos, o

peito estufado, como se fossem capazes de dizer exatamente a mesma coisa na

cara dela. O terceiro homem jovem olhou para o amigo, o pomo de adão saliente,

mais expressivo que um pênis.

— Desculpa — murmurou ele.

Ardie lhes dirigiu um olhar que seria capaz de murchar seus testículos até

virarem uvas-passas, mas ao sair pensou ter ouvido o som anasalado de risos

abafados.

Mais tarde, ao voltar para sua sala, encontrou uma folha de papel em branco

com a palavra “vagabunda” impressa, e se perguntou se teria sido deixada ali

pelos mesmos garotos ou se tantas pessoas assim a odiavam no escritório. Ela

não mencionou o bilhete para ninguém.

Era como tivessem batido no vidro do terrário no qual elas moravam e as

paredes tivessem se rachado. O que a morte de Ames fez foi dar a todos

permissão para sair em defesa dele.

Foi pura sorte encontrar Katherine sozinha. O fluxo costumeiro de

mensagens de texto em grupos e janelas de mensagens instantâneas havia se

esgotado, assim como o vaivém de conversas triviais de escritório. Ardie achava

que era instinto, que todos sentiam que qualquer coisa escrita que

compartilhassem entre si era como uma arma carregada, e pensavam: Não mire

na minha cara. A palavra “responsabilidade” gritava em seus cérebros de

advogados. Então eles pararam de trocar mensagens.

Ela e Katherine saíram dos reservados ao mesmo tempo, seus olhos se

encontrando no espelho enquanto lavavam as mãos.

— A polícia foi falar com você? — perguntou Ardie.

Katherine baixou os olhos e esfregou as mãos com força sob a água quente.

Uma vermelhidão florescia na pele ao redor do polegar.

— Foi.

— E aí?

Ardie se afastou da pia, as mãos pingando água no chão de ladrilhos. Ela

abaixou a cabeça para verificar se havia mais alguém no banheiro.

— Eu fui sincera. — Todas as palavras com o mesmo peso. — Disse a eles que

não trabalho aqui há muito tempo e que estava chateada com a situação.

Ela fechou a torneira e pegou uma toalha de papel. Ardie se perguntou como

teria descrito Katherine para uma amiga, se fosse o tipo de gente que descrevia

outras pessoas para amigas. Se tivesse outras amigas além de Sloane e Grace.

Ardie teve a sensação de que estava vendo Katherine — que tinha ocupado uma

parte tão grande de seu espaço mental coletivo — sem filtro pela primeira vez.

Ela não era, como Ardie tinha pensado, madura e feminina. Era esquelética, com

uma cicatriz esbranquiçada no cotovelo ressecado e escamoso. Era como um

coelho no quintal de um vizinho, inquieto e alerta. Ardie queria estender a mão

para ela, fazer com que se aproximasse. Mas ainda via as chamas da teimosia, da

intensidade e da impetuosidade que a tinham levado até ali assombrando seus

olhos. Elas não tinham se apagado, e isso era uma coisa boa.

— E?

— Eles fizeram mais algumas perguntas e foram embora. — Sua língua se

movia, invisível, entre os dentes, perceptível apenas na forma como se projetava

sob as bochechas.

Aparentemente não havia nenhuma época na vida de uma mulher na qual

conversas importantes não acontecessem naquele espaço. Ardie se lembrava da

obsessão do irmão por banheiros femininos quando eram mais jovens. Como é lá

dentro?, perguntava ele, e ela descrevia obedientemente os diferentes banheiros nos quais havia estado como se fossem países estrangeiros — chaise longues,

máquinas de absorvente, ganchos para bolsa e, às vezes, quando eram

particularmente exóticos, spray de cabelo e desodorante.

— Ames pediu para falar comigo. Antes. — Havia uma urgência oculta na

declaração que fez a mão de Ardie parar enquanto pegava a toalha de papel. —

Alguém pode ter me visto procurando por ele. E se contarem à polícia?

Por necessidade, “antes” também estava na mente de Ardie. Ela havia subido

para pegar documentos fiscais assinados por um dos encarregados da folha de

pagamento. Dissera isso aos detetives Martin e Diaz. Quando retornou ao

décimo quinto andar, Ames estava morto.

— Procurar seu chefe não é crime. — Ela destacou um pedaço de papel do

rolo. — Quem mais sabe? — perguntou Ardie, plácida. Por dentro, um

terremoto.

Ao fundo, a água corria através de canos como sangue nas veias, circulando

pelo organismo vivo do prédio.

— Grace — respondeu ela, a voz fina como papel. — Eu estive com a Grace

naquela manhã. Contei a ela que Ames queria falar comigo, e ela perguntou o

que eu ia fazer.

— Tudo bem.

Desde o incidente, Grace faltara ao trabalho dois dias, alegando estar doente.

O incidente. Era assim que Ardie tinha começado a chamá-lo em sua mente.

Uma palavra que, como substantivo, significa acontecimento ou ocorrência, mas

como adjetivo significa “que atinge ou afeta algo”.

— Vocês vão desistir do processo? — Katherine voltou a atenção para o

reflexo.

— Não sei — respondeu ela, sinceramente. — Acho que vamos dar uma pausa

em tudo por enquanto. — A advogada delas, Helen, tinha registrado a queixa

formal e as condições da ação. Ela havia entrado em contato com o RH a fim de

marcar um horário para discussão e mediação. Mas então Ames se jogou de uma

sacada do décimo oitavo andar, e isso mudava tudo. Quanto, Ardie ainda não

sabia afirmar. — Vamos esperar até o fim das investigações. Depois pensaremos

na melhor maneira de proceder.

Estamos verificando todas as possibilidades, dissera a detetive quando ela e seu

parceiro apareceram na sala de Ardie, com as armas presas nos cintos. A Truviv

era uma empresa grande e conhecida. As pessoas em Dallas iam acompanhar o

caso. Então, Ardie entendia por que a polícia tinha que fazer perguntas, esgotar

todas as possibilidades.

— Às vezes acho que sou amaldiçoada. — Katherine disse para a versão de si

mesma, qualquer que fosse ela, que via no espelho. — É como se o universo

achasse que eu deveria estar trabalhando em alguma fábrica ou fritando

hambúrgueres em Boston e quisesse restabelecer o equilíbrio. — Sua voz soava

alta demais. Ela baixou as mãos e respirou fundo. — Brincadeira. Se eu realmente

achasse que as coisas funcionam dessa maneira, não estaria aqui. Estaria?

Seu rosto se transformou e, como mágica, Katherine ficou bonita novamente.

— Eu tenho certeza de que você não tem nada com que se preocupar.

Era uma ideia tão reconfortante que Ardie decidiu que também acreditaria

nela.

Transcrição do interrogatório de Sloane Glover

Parte I

 

13 DE ABRIL

 

PRESENTES:

Detetive Malika Martin

Detetive Oscar Diaz

 

AUTOS

DET. DIAZ: Sra. Glover, é verdade que, em determinado momento, a senhora

disse “Seria mais fácil simplesmente matá-lo” se referindo a Ames Garrett?

SRA. GLOVER: Não tenho certeza de que tenha sido exatamente isso que eu

disse, e se foi, era brincadeira. Quando estávamos pensando em como proceder — se íamos ou não entrar com uma ação por assédio sexual —, posso ter apontado que, em termos de logística, uma coisa seria mais simples que a outra. Mais uma vez: de brincadeira.

DET. DIAZ: E você costuma brincar a respeito do assassinato de alguém,

alguém que — devo salientar — está morto, sra. Glover?

SRA. GLOVER: Obviamente, detetive Diaz, decidimos processá-lo e não

matá-lo. Fazer as duas coisas teria sido suicídio, não acha? Peço perdão pela péssima escolha de palavras, mas o senhor entendeu o que eu quis dizer.

DET. DIAZ: Há câmeras de segurança nos elevadores. DET. MARTIN: A senhora entrou no elevador logo após a morte de Ames

Garrett. Na verdade, a senhora, Grace Stanton, Adriana Valdez e Katherine Bell estavam todas em elevadores por volta da hora da morte do sr. Garrett.

SRA. GLOVER: Tenho certeza de que sim. Afinal, é um prédio de

escritórios.