Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 26 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 25

 

3 DE ABRIL

O que iríamos perceber, pelo visto tarde demais, era que quando um prédio está

em chamas, ninguém sussurra “Fogo”. Ninguém fica sentado em silêncio diante

da mesa, concluindo diligentemente o trabalho e corrigindo erros de digitação

enquanto a fumaça entra na sala. Ninguém pede “socorro” com delicadeza, em

voz baixa, para não perturbar os colegas.

Então, por que fazíamos isso?

Shhh, não diga nada, mas… Por favor, mantenha segredo, mas… Nós não

contamos para mais ninguém, mas… Isso fica entre nós, mas…

Talvez as pessoas mais próximas conseguissem escapar, e as pessoas mais

próximas destas, e assim por diante, mas sussurros têm alcance limitado. É este o

propósito de sussurrar: garantir que nem todos ouçam.

Não comente com ninguém, mas o prédio está pegando fogo.

Rosalita nunca tinha entendido por que o filho não conseguia escutar com um

dos ouvidos. Ela pensava muito nisso enquanto passava o aspirador pelo carpete,

tentando imaginar como seriam as coisas dentro da cabeça de seu garotinho.

Barulho e silêncio, ele dissera certa vez.

Ela detestava os dias de passar aspirador, quando tinha que chegar à empresa

duas horas antes, embora só fosse trabalhar no terceiro turno. O pagamento, no

entanto, era melhor.

O relógio do telefone mostrava 19h01 quando ela terminou de passar

aspirador no saguão. Apertou o botão e o rugido da máquina morreu. Enrolou o

fio em torno da dobra da mão e do cotovelo, satisfeita com a protuberância firme

do músculo saliente de seu bíceps. Ela vinha se exercitando com vídeos no

YouTube.

Empurrou o aspirador até a tomada seguinte e conectou o plugue. Crystal não

tinha ido trabalhar naquele dia. Era um fato que aborrecia Rosalita,

principalmente porque ela não receberia o dobro por fazer a metade do trabalho

que cabia à colega. Se devia se preocupar com Crystal, que era jovem, estava grávida e ainda não tinha chegado ao trabalho àquela hora, estava

deliberadamente tentando não fazê-lo. Ela não era a mãe dela.

Os corredores estavam praticamente vazios, as secretárias e os portadores já

tinham ido todos embora. Rosalita cantarolava uma música enquanto trabalhava,

não porque se sentisse feliz, mas porque estava entediada e frustrada. Ela sabia

que muitas pessoas ficariam gratas por aquele emprego. Rosalita não sabia como

se sentir grata por um trabalho que exigia que ela desligasse o cérebro por

períodos de oito a dez horas seguidas, que se comportasse como uma máquina.

Nem ao menos uma máquina, porque tudo o que tinha que fazer era empurrar

uma coisa para a frente e para trás, para a frente e para trás, até embalar a si

mesma em um estupor que só foi quebrado pelo som de uma voz masculina,

entrecortada, falando ao telefone.

Quando o ouviu se aproximando — as portas de vidro do saguão se abrindo,

as pernas da calça roçando na parte interna das coxas —, Rosalita teve impulsos

conflitantes: não sabia se abaixava ou não para fingir que mexia no fio do

aspirador. O resultado acabou sendo algo entre uma coisa e outra.

Ela estava na linha de tiro. A voz, com um ligeiro sotaque do oeste do Texas,

um traço que reconhecia por conta da esposa do tio, nascida em Rule, intervinha

e silenciava no ritmo da conversa, soando mais nítida a cada momento.

Ames Garrett. Ela só se lembrou do nome completo dele depois.

Ele tirou o telefone do ouvido e imediatamente passou a digitar. A mecha

branca serpenteava pelo cabelo escuro. Havia manchas vermelhas em seu rosto

por causa da lâmina de barbear, pontinhas de sangue seco no pescoço.

As pessoas dos andares superiores caminhavam com uma rapidez

diretamente proporcional à importância que acreditavam ter. Quando Ames

andava, papéis soltos flutuavam das mesas das secretárias.

Ela torcia para que ele não notasse sua presença. Mas então houve um olhar

ao acaso, instintivo, para não colidir com alguma coisa — ou com alguma pessoa

— que estava no caminho. Ela se esquivou e se encolheu junto à parede, que

tinha a textura de impressões digitais frias apertando a parte de trás de seus

braços.

Ames parou diante dela. A bainha de sua calça terminava no tornozelo.

— Ah, oi — disse ele, estalando os dedos. Duas vezes. Isso a fez pensar em um

polegar pressionando o acendedor de um isqueiro. — Que bom que te encontrei.

Você se importa de esvaziar minha lixeira? — Ele fez um gesto de “siga-me” com

o braço. — Pedi meu almoço no UberEats, e não aguento mais o cheiro de

churrasco coreano.

Você se importa?

Era uma formalidade. Criava a ilusão de escolha e decência. Tinha ficado

surpresa quando ele falou com ela naquele dia no escritório de Ardie. Será que

teria sido apenas um aquecimento para aquilo, o que quer que “aquilo” fosse?

Rosalita o seguiu sem dizer nada e foi direto para o canto atrás da mesa, onde

ficava a lixeira de Ames. Seu corpo esperou pelo clique da porta se fechando.

Mas Ames não se preocupou em fechá-la. Ele pegou uma lata de Coca-Cola

em cima da mesa e a abriu. Inclinou a cabeça para trás e estalou os lábios de

satisfação depois de tomar um longo gole. Estava de bom humor.

— Há quanto tempo trabalha aqui? — perguntou, como se fossem velhos

amigos que tinham se esbarrado depois de muito tempo.

Ela estava de pé, com os pés afastados, a lixeira cheia apoiada na cintura. O

diferencial de poder era imenso. Ela não sabia o suficiente sobre comida coreana

para dizer se ainda havia alguma coisa lá dentro.

— Nove anos, sem tirar nem pôr. — Ela sempre gostara dessa expressão,

assim como gostava da maioria das expressões idiomáticas que aprendia. Pegar o

jeito. Chutar o balde. Bola pra frente.

Ames forçou para baixo os cantos da boca, como se estivesse impressionado.

Em seguida, deu outro gole na Coca-Cola.

— Talvez você tenha ouvido que estou prestes a ser promovido a presidente

da empresa.

Ela teve o cuidado de manter o rosto impassível.

— As paredes aqui são grossas.

Rosalita não sabia disso. Para ela, o trabalho dos homens e das mulheres

naqueles andares consistia em digitar coisas sem sentido, gritar ao telefone no

viva-voz e embaralhar papéis. Em essência, era um buraco negro para Rosalita,

como ela imaginava que fosse seu mundo para eles.

— O Desmond foi uma grande perda, sem dúvida. — Ames enfiou a mão no

bolso. — Fiquei muito triste. Passamos por muitas coisas juntos. — Ele observou

Rosalita, que imediatamente compreendeu que havia um roteiro para aquele

encontro que ela não tinha recebido. Então não disse nada. — Espero não ter

problemas com a equipe de limpeza. Está claro?

Ela passou a lixeira para a outra mão.

— Não vejo por que haveria problemas com a equipe de limpeza além dos

problemas normais de gerenciamento — disse ela, satisfeita com a firmeza na

voz.

Ela sabia que tinha permissão para ir embora. A dispensa estava implícita. Ames já tinha dito o que precisava dizer. Ela, porém, ainda não tinha terminado.

Rosalita olhou para a escrivaninha, onde havia um porta-retratos com fotos

de duas crianças pequenas.

— São seus filhos? — perguntou, pegando uma das fotos.

Um dos garotos se parecia com Ames, mas sem a estranha mecha no cabelo.

O barulho de uma impressora cuspindo papel soou no fim do corredor. Ele

afastou da boca a lata de refrigerante, dessa vez sem dar um gole.

— São.

— Ainda está casado?

Seus olhos se estreitaram.

— Sim. Estou.

Ela assentiu. Os dois ficaram um de frente para o outro. Rosalita e Ames. Ele

ainda usava o relógio de elos prateados e dourados, o mesmo que deixara um

arranhão de um palmo no braço dela.

— Que bom — disse ela. — Isso é muito bom.

Transcrição do interrogatório de Adriana Valdez

Parte I

 

18 DE ABRIL

 

PRESENTES:

Detetive Malika Martin

Detetive Oscar Diaz

 

AUTOS

DET. DIAZ: Este interrogatório é referente a um óbito citado no

Relatório da Polícia do Condado de Dallas número 14-83584. A pessoa interrogada é Adriana Valdez. Certo, hum, sra. Valdez, falamos antes deste interrogatório sobre os acontecimentos do dia 12 de abril. Pode nos dizer, em suas próprias palavras, do que se lembra?

SRA. VALDEZ: Foi um dia normal. Cheguei ao trabalho por volta das oito e

meia, depois de deixar meu filho na creche.

DET. DIAZ: Qual creche seu filho frequenta? SRA. VALDEZ: A Children’s Courtyard, no Preston Center. DET. DIAZ: Continue, por favor.

SRA. VALDEZ: Eu fui para a minha mesa e trabalhei em algumas

contestações de impostos imobiliários em andamento, o que me tomou quase a manhã inteira. Peguei uma salada e um croissant no café do andar de baixo — o Al’s — e levei para comer na sala.

DET. DIAZ: E a que horas foi isso?

SRA. VALDEZ: Não sei, provavelmente por volta das onze e meia ou onze e

quarenta e cinco da manhã. É quando costumo almoçar.

DET. DIAZ: E por acaso tem o recibo desse almoço, se necessário? SRA. VALDEZ: Tenho certeza de que posso conseguir. Passei meu cartão em

um daqueles negócios do iPad, aqueles que pedem a você que dê gorjeta para cada coisinha comprada direto no balcão.

DET. DIAZ: Obrigado, vamos verificar. Continue. SRA. VALDEZ: Trabalhei durante o horário de almoço. Essa época do ano é

sempre de muito trabalho. Apenas tempo suficiente antes do recesso de verão para de fato adiantar as coisas.

DET. DIAZ: Onde estava por volta da uma e meia da tarde naquele dia? SRA. VALDEZ: Nesse horário, fui pegar uma folha de pagamento assinada. DET. DIAZ: Alguém a viu lá?

SRA. VALDEZ: O responsável pela folha de pagamento. Depois disso, voltei

para minha mesa.

DET. DIAZ: A que horas?

SRA. VALDEZ: Não lembro exatamente.

DET. DIAZ: Alguém que possa confirmar isso? SRA. VALDEZ: Grace Stanton ou Sloane Glover, talvez. DET. MARTIN: Mais alguém?

SRA. VALDEZ: Não sei. Talvez minha secretária, Anna Corlione. DET. DIAZ: Sra. Valdez, quando foi a última vez que viu a vítima? SRA. VALDEZ: Detetive Diaz, a quem exatamente está se referindo quando

diz vítima?