Rede de Sussurros
Capítulo 25
3 DE ABRIL
O que iríamos perceber, pelo visto tarde demais, era que quando um prédio está
em chamas, ninguém sussurra “Fogo”. Ninguém fica sentado em silêncio diante
da mesa, concluindo diligentemente o trabalho e corrigindo erros de digitação
enquanto a fumaça entra na sala. Ninguém pede “socorro” com delicadeza, em
voz baixa, para não perturbar os colegas.
Então, por que fazíamos isso?
Shhh, não diga nada, mas… Por favor, mantenha segredo, mas… Nós não
contamos para mais ninguém, mas… Isso fica entre nós, mas…
Talvez as pessoas mais próximas conseguissem escapar, e as pessoas mais
próximas destas, e assim por diante, mas sussurros têm alcance limitado. É este o
propósito de sussurrar: garantir que nem todos ouçam.
Não comente com ninguém, mas o prédio está pegando fogo.
Rosalita nunca tinha entendido por que o filho não conseguia escutar com um
dos ouvidos. Ela pensava muito nisso enquanto passava o aspirador pelo carpete,
tentando imaginar como seriam as coisas dentro da cabeça de seu garotinho.
Barulho e silêncio, ele dissera certa vez.
Ela detestava os dias de passar aspirador, quando tinha que chegar à empresa
duas horas antes, embora só fosse trabalhar no terceiro turno. O pagamento, no
entanto, era melhor.
O relógio do telefone mostrava 19h01 quando ela terminou de passar
aspirador no saguão. Apertou o botão e o rugido da máquina morreu. Enrolou o
fio em torno da dobra da mão e do cotovelo, satisfeita com a protuberância firme
do músculo saliente de seu bíceps. Ela vinha se exercitando com vídeos no
YouTube.
Empurrou o aspirador até a tomada seguinte e conectou o plugue. Crystal não
tinha ido trabalhar naquele dia. Era um fato que aborrecia Rosalita,
principalmente porque ela não receberia o dobro por fazer a metade do trabalho
que cabia à colega. Se devia se preocupar com Crystal, que era jovem, estava grávida e ainda não tinha chegado ao trabalho àquela hora, estava
deliberadamente tentando não fazê-lo. Ela não era a mãe dela.
Os corredores estavam praticamente vazios, as secretárias e os portadores já
tinham ido todos embora. Rosalita cantarolava uma música enquanto trabalhava,
não porque se sentisse feliz, mas porque estava entediada e frustrada. Ela sabia
que muitas pessoas ficariam gratas por aquele emprego. Rosalita não sabia como
se sentir grata por um trabalho que exigia que ela desligasse o cérebro por
períodos de oito a dez horas seguidas, que se comportasse como uma máquina.
Nem ao menos uma máquina, porque tudo o que tinha que fazer era empurrar
uma coisa para a frente e para trás, para a frente e para trás, até embalar a si
mesma em um estupor que só foi quebrado pelo som de uma voz masculina,
entrecortada, falando ao telefone.
Quando o ouviu se aproximando — as portas de vidro do saguão se abrindo,
as pernas da calça roçando na parte interna das coxas —, Rosalita teve impulsos
conflitantes: não sabia se abaixava ou não para fingir que mexia no fio do
aspirador. O resultado acabou sendo algo entre uma coisa e outra.
Ela estava na linha de tiro. A voz, com um ligeiro sotaque do oeste do Texas,
um traço que reconhecia por conta da esposa do tio, nascida em Rule, intervinha
e silenciava no ritmo da conversa, soando mais nítida a cada momento.
Ames Garrett. Ela só se lembrou do nome completo dele depois.
Ele tirou o telefone do ouvido e imediatamente passou a digitar. A mecha
branca serpenteava pelo cabelo escuro. Havia manchas vermelhas em seu rosto
por causa da lâmina de barbear, pontinhas de sangue seco no pescoço.
As pessoas dos andares superiores caminhavam com uma rapidez
diretamente proporcional à importância que acreditavam ter. Quando Ames
andava, papéis soltos flutuavam das mesas das secretárias.
Ela torcia para que ele não notasse sua presença. Mas então houve um olhar
ao acaso, instintivo, para não colidir com alguma coisa — ou com alguma pessoa
— que estava no caminho. Ela se esquivou e se encolheu junto à parede, que
tinha a textura de impressões digitais frias apertando a parte de trás de seus
braços.
Ames parou diante dela. A bainha de sua calça terminava no tornozelo.
— Ah, oi — disse ele, estalando os dedos. Duas vezes. Isso a fez pensar em um
polegar pressionando o acendedor de um isqueiro. — Que bom que te encontrei.
Você se importa de esvaziar minha lixeira? — Ele fez um gesto de “siga-me” com
o braço. — Pedi meu almoço no UberEats, e não aguento mais o cheiro de
churrasco coreano.
Você se importa?
Era uma formalidade. Criava a ilusão de escolha e decência. Tinha ficado
surpresa quando ele falou com ela naquele dia no escritório de Ardie. Será que
teria sido apenas um aquecimento para aquilo, o que quer que “aquilo” fosse?
Rosalita o seguiu sem dizer nada e foi direto para o canto atrás da mesa, onde
ficava a lixeira de Ames. Seu corpo esperou pelo clique da porta se fechando.
Mas Ames não se preocupou em fechá-la. Ele pegou uma lata de Coca-Cola
em cima da mesa e a abriu. Inclinou a cabeça para trás e estalou os lábios de
satisfação depois de tomar um longo gole. Estava de bom humor.
— Há quanto tempo trabalha aqui? — perguntou, como se fossem velhos
amigos que tinham se esbarrado depois de muito tempo.
Ela estava de pé, com os pés afastados, a lixeira cheia apoiada na cintura. O
diferencial de poder era imenso. Ela não sabia o suficiente sobre comida coreana
para dizer se ainda havia alguma coisa lá dentro.
— Nove anos, sem tirar nem pôr. — Ela sempre gostara dessa expressão,
assim como gostava da maioria das expressões idiomáticas que aprendia. Pegar o
jeito. Chutar o balde. Bola pra frente.
Ames forçou para baixo os cantos da boca, como se estivesse impressionado.
Em seguida, deu outro gole na Coca-Cola.
— Talvez você tenha ouvido que estou prestes a ser promovido a presidente
da empresa.
Ela teve o cuidado de manter o rosto impassível.
— As paredes aqui são grossas.
Rosalita não sabia disso. Para ela, o trabalho dos homens e das mulheres
naqueles andares consistia em digitar coisas sem sentido, gritar ao telefone no
viva-voz e embaralhar papéis. Em essência, era um buraco negro para Rosalita,
como ela imaginava que fosse seu mundo para eles.
— O Desmond foi uma grande perda, sem dúvida. — Ames enfiou a mão no
bolso. — Fiquei muito triste. Passamos por muitas coisas juntos. — Ele observou
Rosalita, que imediatamente compreendeu que havia um roteiro para aquele
encontro que ela não tinha recebido. Então não disse nada. — Espero não ter
problemas com a equipe de limpeza. Está claro?
Ela passou a lixeira para a outra mão.
— Não vejo por que haveria problemas com a equipe de limpeza além dos
problemas normais de gerenciamento — disse ela, satisfeita com a firmeza na
voz.
Ela sabia que tinha permissão para ir embora. A dispensa estava implícita. Ames já tinha dito o que precisava dizer. Ela, porém, ainda não tinha terminado.
Rosalita olhou para a escrivaninha, onde havia um porta-retratos com fotos
de duas crianças pequenas.
— São seus filhos? — perguntou, pegando uma das fotos.
Um dos garotos se parecia com Ames, mas sem a estranha mecha no cabelo.
O barulho de uma impressora cuspindo papel soou no fim do corredor. Ele
afastou da boca a lata de refrigerante, dessa vez sem dar um gole.
— São.
— Ainda está casado?
Seus olhos se estreitaram.
— Sim. Estou.
Ela assentiu. Os dois ficaram um de frente para o outro. Rosalita e Ames. Ele
ainda usava o relógio de elos prateados e dourados, o mesmo que deixara um
arranhão de um palmo no braço dela.
— Que bom — disse ela. — Isso é muito bom.
Transcrição do interrogatório de Adriana Valdez
Parte I
18 DE ABRIL
PRESENTES:
Detetive Malika Martin
Detetive Oscar Diaz
AUTOS
DET. DIAZ: Este interrogatório é referente a um óbito citado no
Relatório da Polícia do Condado de Dallas número 14-83584. A pessoa interrogada é Adriana Valdez. Certo, hum, sra. Valdez, falamos antes deste interrogatório sobre os acontecimentos do dia 12 de abril. Pode nos dizer, em suas próprias palavras, do que se lembra?
SRA. VALDEZ: Foi um dia normal. Cheguei ao trabalho por volta das oito e
meia, depois de deixar meu filho na creche.
DET. DIAZ: Qual creche seu filho frequenta? SRA. VALDEZ: A Children’s Courtyard, no Preston Center. DET. DIAZ: Continue, por favor.
SRA. VALDEZ: Eu fui para a minha mesa e trabalhei em algumas
contestações de impostos imobiliários em andamento, o que me tomou quase a manhã inteira. Peguei uma salada e um croissant no café do andar de baixo — o Al’s — e levei para comer na sala.
DET. DIAZ: E a que horas foi isso?
SRA. VALDEZ: Não sei, provavelmente por volta das onze e meia ou onze e
quarenta e cinco da manhã. É quando costumo almoçar.
DET. DIAZ: E por acaso tem o recibo desse almoço, se necessário? SRA. VALDEZ: Tenho certeza de que posso conseguir. Passei meu cartão em
um daqueles negócios do iPad, aqueles que pedem a você que dê gorjeta para cada coisinha comprada direto no balcão.
DET. DIAZ: Obrigado, vamos verificar. Continue. SRA. VALDEZ: Trabalhei durante o horário de almoço. Essa época do ano é
sempre de muito trabalho. Apenas tempo suficiente antes do recesso de verão para de fato adiantar as coisas.
DET. DIAZ: Onde estava por volta da uma e meia da tarde naquele dia? SRA. VALDEZ: Nesse horário, fui pegar uma folha de pagamento assinada. DET. DIAZ: Alguém a viu lá?
SRA. VALDEZ: O responsável pela folha de pagamento. Depois disso, voltei
para minha mesa.
DET. DIAZ: A que horas?
SRA. VALDEZ: Não lembro exatamente.
DET. DIAZ: Alguém que possa confirmar isso? SRA. VALDEZ: Grace Stanton ou Sloane Glover, talvez. DET. MARTIN: Mais alguém?
SRA. VALDEZ: Não sei. Talvez minha secretária, Anna Corlione. DET. DIAZ: Sra. Valdez, quando foi a última vez que viu a vítima? SRA. VALDEZ: Detetive Diaz, a quem exatamente está se referindo quando
diz vítima?