Rede de Sussurros
Capítulo 39
18 DE ABRIL
Quando Rosalita chegou no décimo quinto andar, Ardie estava ao telefone. A
outra mulher a viu e gesticulou para que aguardasse. Fique, articulou com a boca.
Entre, entre. Acenos gigantescos com o braço, deixando Rosalita sem escolha.
— Quando você vai voltar? — perguntou Ardie ao telefone.
Uma pergunta: por que ninguém em escritórios elegantes usava celular? Era
uma espécie de distintivo de honra ficar acorrentado a uma mesa, um fio
embolado como uma coleira puxando o funcionário de volta ao trabalho?
Pensamentos aleatórios ocorreram a Rosalita enquanto ela esperava, como
observar as rachaduras na parede para afastar o tédio. Ela tentava não ouvir, mas
não era Salomon. Ela não era meio surda.
— Eu não sei o que pensar. — Ardie suspirou.
Ela virou a cadeira de lado, as calças franzidas como cortinas nos joelhos. Em
outras circunstâncias, Rosalita teria ficado aborrecida por ser obrigada a ficar ali
de pé. Poderia ter interpretado aquilo como um insulto, seu tempo menos
valioso do que o dos advogados só porque o tempo dela literalmente valia menos.
— Não, eu não me arrependo de processá-lo, de processar... Sim, é
lamentável. Mas é... Não tenho certeza... Provavelmente sim. No fim das contas.
Mas a situação ainda é delicada. — Ela sorriu para Rosalita. — Você está bem? —
Rosalita pensou que Ardie estava falando com ela e fechou a boca bem quando
Ardie disse: — Estou preocupada. Você parece... Certo. Tenho que ir. Você tem
dormido? Tente descansar um pouco. Tchau.
Ela colocou o telefone no gancho.
— Os problemas têm o poder de se multiplicar, não acha? — disse Ardie para
Rosalita, que não sabia se isso era verdade, só que os problemas se espalhavam
quando não eram tratados.
Ardie olhou para ela com expectativa, e a faxineira se lembrou da razão de
estar ali. Algo maravilhoso.
— Eu trouxe uma coisa para você — disse, segurando um saco de papel pardo.
Ardie estreitou os olhos, cética. Em outra vida, elas poderiam ter sido irmãs.
Primas, no mínimo.
— Achei que tivéssemos acertado tudo — disse ela, mas pegou o saco mesmo
assim.
— Tamales. Tenho uma amiga que faz. Dos bons.
Os olhos de Ardie relaxaram. Ela abriu o saco e inspirou o aroma de milho
cozido.
— Salomon ganhou a bolsa.
Ardie fechou o saco, amassando a borda.
— Ele passou? — Seus olhos se arregalaram. Um rubor invadiu suas
bochechas.
Rosalita assentiu, um nó atravessando sua garganta.
Ardie se levantou de um pulo da cadeira, contornou a mesa e deu um abraço
em Rosalita, apertando-a com força e beijando sua testa. Rosalita aceitou o gesto
de carinho porque acalmava um anseio dentro dela. Quando se afastou, Ardie
estava secando uma lágrima que ameaçava cair, e Rosalita tinha um sorriso bobo
no rosto, os olhos brilhando de felicidade.
— Essa é a melhor notícia que recebi esta semana. — Depois de adultas,
momentos em que mulheres ficavam genuinamente felizes uma pela outra eram
difíceis de encontrar. Rosalita ficou grata. — Este mês. Talvez até este ano.
Já haviam se passado vários dias desde que Ames Garrett tinha se jogado da
sacada. Dois funcionários da manutenção tinham usado uma britadeira para
arrancar o bloco da calçada e em seguida despejaram com uma betoneira
cimento fresco onde o corpo havia caído.
Aquilo tinha acontecido um dia antes de Salomon passar no exame de
admissão do programa de bolsas de estudo da escola particular. Rosalita não
contou isto a Ardie: como os dois acontecimentos estariam sempre ligados em
sua mente, como seriam importantes de alguma forma.
Depois que as duas mulheres disseram tudo que havia para dizer — o que não
era muito, considerando o acontecimento memorável que tinha se passado entre
elas —, Rosalita foi embora para esperar até o anoitecer.
Ela cumprimentou Crystal sem seus resmungos habituais. Naquela noite, se
movimentou pelo chão dos escritórios com uma eficiência singular, e até mesmo
Crystal não precisou ser repreendida. Era dia de pagamento. A promessa de uma
conta bancária cheia — ou melhor, menos vazia — aguardava.
A noite passou em uma monotonia agradável. Carpete fino sob os pés.
Corredores abafados se iluminando. O murmúrio desafinado de Crystal cantarolando para si mesma. Ou para o bebê. Rosalita se perdeu na própria
mente, vagando por memórias felizes, a maioria com Salomon.
Ela viu um papel encharcado no mictório do banheiro masculino no décimo
nono andar, o último do turno delas.
— Olha isso. — Crystal tinha encontrado outro, enfiado no ralo no fim da
fileira.
Rosalita sentiu as narinas se dilatarem. Colocou as luvas de borracha e puxou
a ponta dos dedos para desfazer a sucção. Pinçou o canto do primeiro pedaço de
papel. Nele, uma fotografia de Sloane Glover sorrindo, tirada do anuário da
empresa, tinha as cores borradas de mijo. Rosalita extraiu outros dois: o rosto da
moça que havia acabado de ter um bebê, Grace, e, por último, Ardie. Ela tirou as
fotos dos mictórios com a solenidade de alguém que vira um corpo encontrado
sem vida em águas rasas e se depara com boca, olhos e pele inchados e
encharcados.
— O que é isso? — perguntou Crystal, saindo do caminho enquanto gotas de
urina deixavam um rastro no chão a caminho do lixo.
Rosalita tirou as luvas de látex. O cheiro de amônia se intensificou.
— Tiro ao alvo. É o que parece.
Rosalita queria tomar um banho para se livrar da podridão dos homens... das
coisas que eles faziam quando achavam que ninguém estava olhando e, pior,
quando não se importavam se alguém estivesse olhando ou não.
Rosalita e Crystal não terminaram de limpar o banheiro do décimo nono
andar. Em vez disso, empurraram o carrinho de volta para o elevador e desceram
até o subsolo, as costas latejando, as mãos ressecadas pelo desinfetante, os pés
cansados.
Rosalita estava diante do supervisor agora.
— Soube de alguma notícia lá de cima recentemente? — perguntou ela
quando ele lhe entregou o envelope com seu nome.
— Além de um cara que ganhava dez vezes mais do que eu se matando? Pff.
Nem quero saber.
Rosalita pensou no vômito na lata de lixo no escritório daquele homem,
imaginando se teria sido o primeiro sinal e se isso significava alguma coisa.
Distraída, ela pegou o envelope. Tinha alguma coisa acontecendo lá em cima.
Ela havia flagrado a mulher de cabelo curto e o morto fazendo... fazendo algo.
Tinha visto o vômito na lixeira. Descobrira que os homens nos andares
executivos andavam urinando — literalmente, mijando — na foto de mulheres
que trabalhavam com eles, mulheres que ela conhecia. Para essas três coisas acontecerem em um período tão curto de tempo, pensou Rosalita, elas tinham
que estar conectadas. Mas como?
* * *
Rosalita rasgou o envelope com o indicador, um pedaço de pele se abrindo como
uma guelra sob o papel onde ele a cortou. Ela leu os números uma, duas, três
vezes. Nunca tinha sido boa em matemática. Mas, fosse lá quantas vezes Rosalita
olhasse, o cheque continha menos da metade do valor habitual.