Rede de Sussurros
Capítulo 55
3 DE MAIO
— Oi, Katherine. — Ardie parou à porta, as mãos enfiadas nos bolsos largos.
Katherine olhou para ela de trás da mesa na sala improvisada no vigésimo
andar. Uma sala particular no nível superior. Subindo na vida, pensou Ardie,
olhando para as duas paredes e a janela grande, com as persianas fechadas, atrás
dela.
— Oi.
Ardie tentou imaginar como seria ter conhecido Katherine em outro
contexto. Em uma entrevista de emprego, talvez. O que teria pensado dela? Será
que a teria contratado? Achava impossível dizer. Muita coisa tinha acontecido
naquele meio-tempo.
— Só queria avisar que não aceitamos o acordo.
Nenhuma inflexão. Apenas os fatos. Como uma fonte de notícias imparcial, se
é que isso ainda existia.
A ponta da língua de Katherine deslizou pelo lábio superior.
— Vocês acham que é pru…
— Houve uma mudança no caso — interrompeu Ardie. — Acho que posso
dizer com segurança que vamos receber outra oferta de acordo em breve. Talvez
até hoje mesmo, e vai ser considerável.
Katherine vacilou. Três manchas vermelhas tinham começado a se espalhar
pelo pescoço longo e perfeito. Não era fácil estar no lado perdedor de uma
batalha moral, especialmente quando você tinha escolhido o lado pragmático, o
lado vantajoso, quando tinha vendido parte de si mesma em nome da aposta
mais segura. A boca de Katherine formou um “o” de surpresa.
— Por quê, Katherine? Por que você mentiu? — perguntou Ardie, por fim.
Ela respirou fundo.
— Eu… eu pensei que fosse óbvio. Eu precisava de distância.
Ardie cruzou os braços.
— Do quê? De nós?
— Não. — Katherine massageou as têmporas. — Não só de vocês. De tudo.
Do que… do que aconteceu. — Ela abriu as mãos, tentando explicar. Ardie
esperou. — Não espero que você entenda. No Frost Klein não me protegi, e veja
só o que aconteceu. E havia ainda mais em jogo aqui. Fiz o que tinha que fazer.
Não só por mim. Foi melhor… É melhor para mim que eu tivesse uma boa
relação com Ames.
Ardie permanecia calma. Outro dos seus superpoderes.
— No Frost Klein ninguém estava tentando proteger você. E você não estava
apenas “se protegendo”. Você tentou destruir a gente, Katherine.
— Não. — Ela desviou o olhar, balançando a cabeça. — Não, não foi pessoal.
Supostamente, ninguém era o vilão em sua própria história, e Katherine,
Ardie agora sabia, era capaz de inventar histórias para si mesma. O que ela não
sabia era se ela era fraca, calculista ou mentirosa, ou se era possível ser todas essas
coisas, dependendo das circunstâncias.
— Nunca pedi isso — continuou Katherine. — Nunca pedi a vocês que
processassem seu chefe por minha causa, está bem? Na verdade, deixei bem claro
que não estava pedindo isso.
Ela esfregou a parte de trás da nuca com muita agressividade.
— Tudo bem — respondeu Ardie.
Katherine olhou para ela.
— Não foi como… Não foi como se eu tivesse entrado lá planejando dizer…
planejando dizer o que eu disse.
Ardie permaneceu em silêncio.
— Entrei lá, e antes que eu tivesse a chance de dizer uma palavra, a Cosette
me informou que eu deveria saber que eles iam processar vocês. — Ela estava
sussurrando agora. — Que os detetives estavam investigando de perto qualquer
um que achassem que andava brigando com o Ames. Eles esperavam — ela riu
um pouco —, eles esperavam que eu fosse sincera, porque viam um futuro
brilhante e promissor para mim aqui na Truviv e sabiam que eu tinha tido alguns
problemas antes.
— E isso foi o suficiente para você nos atirar aos leões.
— Eu ia ser crucificada. De novo. Meu nome ia ficar estampado nos jornais.
Talvez nunca mais conseguisse trabalhar como advogada. Durante anos,
qualquer um que procurasse meu nome no Google não veria como eu me matei
de trabalhar. Não veria que eu fui uma das editoras do Law Review, nem até onde
cheguei. A única coisa que as pessoas veriam era que eu tinha acusado um
homem de assédio e ele havia morrido. Você não ouviu a Cosette. Os detetives iam vir com tudo pra cima de mim. E eu não ia ficar no olho desse furacão. —
Ardie pensou: Você não ficou no olho; você foi o próprio furacão. — Eles estavam
fazendo perguntas, Ardie.
— Eu sei. — Ardie não tinha se mexido um centímetro. — Eles também
fizeram perguntas para mim.
— Seu nome já estava no processo. Isso foi feito antes de ele morrer.
Antes de ele morrer. Então tá.
— Então, por que não contar mais aos detetives? — perguntou ela. — Por que
não contar tudo a eles?
Katherine ficou em silêncio.
— O Ames não era uma boa pessoa — disse Ardie.
O que ela mais se lembraria a respeito de Ames seria a conversa que tiveram
na sala dele, um dia ou dois depois de fecharem o acordo em Los Angeles. Foi a
última conversa significativa que tiveram. Arrependimento, foi como ele
chamou. Dor de cotovelo. Ele disse que ela só estava com raiva porque ele não
tinha ligado depois. Tinha sido apenas sexo casual; as pessoas faziam isso o
tempo todo. Ele tinha razão. As pessoas faziam isso o tempo todo. Só que não
tinha sido o caso dela. Tinha certeza. Certeza. Ela estava bêbada, talvez até
desmaiada. Mas… “Vamos ser realistas por um segundo”, dissera ele. “Olhe bem
pra você. Acha mesmo que eu estava morrendo de vontade de transar com você?
Não fiz nada que você não quisesse. Na verdade, foi você que veio pra cima de
mim. Quantas bebidas pediu mesmo? Poderia ter simplesmente ido embora se
quisesse.”
A dor da vergonha que persistira durante anos não foi por ela ter acreditado
nele, mas porque tinha deixado ele pensar que ela acreditara, ao não contar nada
a ninguém… ninguém além daquele inútil do Al Runkin. Ela olhou para
Katherine, as duas separadas por uma mesa e muitos anos de experiência.
— Ele pode ter tentado, de vez em quando — continuou ela —, quando lhe
convinha ou quando não exigia esforço, mas não era uma boa pessoa.
Um aceno de cabeça quase imperceptível.
— De qualquer forma. — Ardie esfregou as mãos. — Eu só queria que você
soubesse por mim.
— Mas… — Katherine engoliu em seco. — Não acabou. Ainda tem o resto. —
Sua voz era um fio rouco.
— Isso eu não sei. — Lentamente, ela caminhou até a janela. O grande buraco
de vidro. Ela levantou as persianas. Katherine se encolheu. — Mas você e o Ames
tinham uma relação tão boa. Por que deveria se preocupar?
A vermelhidão tinha se espalhado até o queixo de Katherine, avançando como
uma erupção cutânea.
— Eu sei que eles acham que eu me encontrei com o Ames.
— Você se encontrou com o Ames.
— Ardie, o que eu faço?
Ela apertou de leve com a mão aberta o ponto onde suas costelas se
encontravam.
Ela já não tinha feito o suficiente?
Ardie deu de ombros.
— Só lhe resta esperar.
— Ardie, eu…
Ela viu a esperança no rosto de Katherine. Os olhos luminosos, o pequeno
apelo escrito em seu belo rosto, pedindo que Ardie a salvasse novamente.
— Katherine — interrompeu ela. Porque Ardie havia feito a escolha certa. Ela
havia feito a escolha com a qual poderia viver, não importava o resultado. Ela
havia escolhido as amigas. Agora Katherine tinha que aceitar a escolha que fizera.
Se poderia ou não viver com ela, não era da conta de Ardie. A única coisa da
conta de Ardie era o segredo que as duas compartilhavam. — Nós não somos
amigas.