Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 13 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 12

 

28 DE MARÇO

Embora fosse março, a planilha transformou todas nós em papais noéis.

Acrescentávamos nomes à lista, verificávamos tudo duas vezes e tentávamos

descobrir quem tinha se comportado bem e quem tinha se comportado mal.

Não parávamos de atualizar a planilha. Esperávamos encontrar certos nomes

que nunca apareciam. Éramos pegas de surpresa quando surgiam na tela nomes

que jamais imaginaríamos. Durante aquelas semanas, andávamos de elevador,

digitalizávamos documentos na copiadora e participávamos de reuniões

comerciais observando tudo como se com visão de raios X. Enxergávamos

através de portas fechadas e calças sociais.

Ignorávamos alguns comportamentos — não tinha problema ouvir uma piada

sexual ou outra. Outros — homens que faziam questão de nos contar sobre seus

casos extraconjugais, que entravam atrás de nós no banheiro, que enviavam

mensagens com conteúdo sexual explícito e depois diziam que estavam bêbados

demais para lembrar, que se recusavam a ouvir a palavra “não”, que retaliavam

quando a ouviam, que apalpavam nossos traseiros —, não podíamos ignorar.

Ficávamos aliviadas quando não acontecia conosco. E, quando acontecia,

sentíamos um conforto nauseante por não ter sido apenas conosco, um alívio

como o de vomitar depois de uma ressaca.

Nós nos inclinávamos nas esteiras da academia, teorizando sobre o que

motivava os homens naquela lista, e nesse sentido fracassávamos inerentemente,

porque desperdiçávamos mais tempo concentradas na vida emocional deles do

que eles jamais tinham refletido sobre a nossa.

A questão nunca era por quê. A questão era…

— O que vamos fazer a respeito da Katherine?

Sloane entrou na sala de Ardie sem bater e fechou a porta, na qual apoiou as

costas, como se tivesse sido perseguida até lá. Ardie estava revisando um e-mail

para um dos advogados do escritório Norman, Steele & Sandoval a respeito de

um litígio envolvendo impostos de propriedade, uma prática — revisão de textos — à qual os advogados mais jovens da empresa pareciam alérgicos. Todos

estavam sempre com muita pressa.

Sloane farejou o ar.

— Estou sentindo cheiro de McDonald’s, Ardie. Por favor, não me diga que

você foi ao McDonald’s.

— Ok, eu não fui ao McDonald’s.

Sloane foi até a lixeira e pegou uma embalagem de fast-food com a ponta dos

dedos: o que restara de um cachorro-quente com ovos e queijo que Ardie havia

comprado no caminho para o trabalho. Estava delicioso.

— Nunca vou entender você.

Sloane jogou a embalagem de volta na lixeira e se sentou na cadeira diante da

mesa de Ardie.

— Bom dia para você também. Por favor, sente-se — disse Ardie, indiferente.

Como todas as outras mulheres do planeta, ela já tinha visto os memes de

Kate Moss com a frase “Nada é tão gostoso quanto ser magra”, mas pensou

consigo mesma: Desculpa, mas já comeu cheesecake? Entretanto, Ardie suspeitava

que o verdadeiro problema com relação a seus hábitos alimentares não era o fato

de gostar de comidas que eram ruins para ela, mas gostar de comida barata.

Ardie podia pagar por produtos orgânicos, carne de animais criados ao ar livre e

de forma humanizada, mas em geral não fazia questão.

— Estou com um dilema moral.

Sloane arrastou a cadeira para mais perto da mesa.

Ardie terminou de reler o e-mail e clicou em “enviar”.

— Eu tinha a impressão de que sua moral era bastante flexível — comentou,

casualmente.

Ardie notou que seu terninho estava brilhante e gasto nos cotovelos. Ela sabia

que esse era o tipo de coisa ao qual deveria ficar mais atenta, mas sua mãe

sempre lhe dissera que não havia nenhum atributo físico mais importante para

uma mulher do que a pele, e Ardie tinha uma pele ótima, então isso devia contar

para alguma coisa.

— Minha moral é complicada. Tem diferença. — Sloane cruzou as mãos nos

joelhos, sentando-se com a coluna ereta, como uma aluna tentando impressionar

a professora. Ardie apertou os lábios e pressionou as têmporas. — Eu vi o

Ames… rondando a menina durante o funeral, no qual vocês me abandonaram,

aliás.

Ardie tinha pegado uns sanduíches e fugira para o carro. Ela não gostava de

ficar no meio de tantas pessoas. Costumava caminhar pela vizinhança e, quando o fazia, mudava de calçada e evitava uma rua sem saída apenas para não ter que

acenar para outro ser humano. Era um milagre que tivesse uma amiga como

Sloane.

— Eu a convidei para a festa do Michael — disse Ardie, evitando a pergunta

implícita sobre seu paradeiro.

Sloane franziu a testa e inclinou a cabeça.

— Isso foi estranhamente gentil da sua parte.

— Assim você me ofende.

— Enfim. — Sloane juntou a ponta dos dedos enquanto falava, rápido demais,

como sempre. — Eu confrontei o Ames e…

— Você o quê?

— Eu confrontei o Ames — repetiu ela. — E ele me disse, de forma muito

clara, que, se for nomeado presidente, eu serei promovida a diretora jurídica.

Sloane se recostou na cadeira, erguendo as mãos abertas. A grande revelação.

Ardie franziu a testa, balançando levemente a cabeça.

— Sei…

Sloane não parecia satisfeita.

— Mas ele estava…

— Sondando.

Ardie teve uma sensação de déjà-vu. Veja! Os quadros nas paredes de sua sala

não haviam mudado. A mesma orquídea roxa se arqueava preguiçosamente em

cima da mesa e uma pequena árvore-da-borracha ainda crescia no canto, ambas

cuidadas e regadas por ela. A foto de Tony tinha desaparecido desde a última vez.

Como mágica. Nesse caso — o caso da fotografia desaparecida de Tony —, Ardie

na verdade suspeitava de Grace, embora ela nunca tivesse confirmado.

— Sim. — Ela chegou para a frente outra vez. — Eu quero muito esse cargo.

— Você merece esse cargo.

Sloane não discutiu. (A falsa modéstia estava desaparecendo, como uma

tendência cafona de moda. Mas ainda relutávamos em adotar a autoconfiança

profissional — como quando jeans skinny estavam entrando na moda e todas

dizíamos: Mas será que nós podemos mesmo? Sim, nós podíamos.)

— Então, a meu ver — continuou Sloane —, minhas opções são: fazer com

que ele seja demitido, alertar Katherine ou matá-lo. O que você escolheria?

Ardie não queria responder àquela pergunta.

— Estou brincando. Claro. — Sloane retomou a conversa, se recompondo.

Ardie se perguntou se o simples ato de falar deixava a amiga nervosa. — A

segunda opção parece ser a menos complicada, já que não exige álibis e/ou conspirações insanas. Acho que, se chegarmos até ela antes que ele dê o bote, o

problema estará resolvido.

Ela limpou as mãos para demonstrar.

Ardie ficou em silêncio por um momento. Apoiou o queixo nas mãos.

— Eu tentei avisar você.

Isso era verdade, embora Ardie não tivesse se empenhado muito. Elas não

eram, na época, o tipo de amigas que acompanhavam uma à outra em cirurgias

ambulatoriais para remoção de cistos mamários.

— Você chegou um pouquinho atrasada — retrucou Sloane, com ironia.

Sloane não queria que essas palavras magoassem, mas magoaram. Não muito.

Foi mais o tipo de dor fantasma entorpecida que se sente anos depois de uma

cirurgia. Real e irreal ao mesmo tempo.

— E daí se você estiver um pouquinho atrasada? — disse Ardie. — Tudo que

você disser pode chegar até ele. Está preparada?

Disso Sloane não zombou, porque Ardie estava trazendo à tona uma verdade

que todas tínhamos que aprender em diversos graus. O escritório era um

ambiente perfeitamente projetado para fomentar desconfiança. Toda

confidência, todo pedido de conselho eram um salto no escuro, e todas tínhamos

histórias horríveis sobre as vezes em que confiamos na pessoa errada.

Sloane inclinou a cabeça para trás e massageou a musculatura tensa da nuca.

Todas tinham uma postura péssima por ficar o dia inteiro diante do computador.

— Podemos sondá-la — sugeriu Sloane, a voz rouca por causa do pescoço

arqueado. — Podemos fazer com que ela se torne uma de nós. — Sloane

terminou o alongamento. — Você não acha que ela já está envolvida com o

Ames, acha?

Ardie pensou a respeito.

— Não. Não acho. Pelo menos ainda não.

Ardie percebeu praticamente no minuto em que Sloane começou a dormir

com Ames. As pessoas eram óbvias demais quando tentavam agir com sutileza.

Embora existisse a possibilidade de que Katherine fosse apenas mais discreta.

Sloane apertou os lábios, determinada.

— Há a lista.

Sloane havia encaminhado a lista de “homens CILADA” para Ardie

imediatamente. Desde então, uma colega do primeiro escritório de advocacia em

que ela trabalhara e até a nova esposa de Tony, Braylee, tinham feito o mesmo.

Ardie não dera muita importância à planilha. Tinha ignorado, achando que não

passava de fofoca. Como os cadernos de perguntas que as crianças faziam nos anos 1990. Ela sempre gostou da ideia de cada um cuidar da própria vida. Mas

tinha que admitir que se tornara uma pessoa terrivelmente intolerante na meia-

idade. Talvez seus sentimentos em relação à lista fossem parecidos com o

sentimento que a impedia de baixar a última atualização do sistema operacional

do iPhone. Por outro lado, às vezes, as atualizações de sistema operacional eram

realmente uma bosta, então ela não estava totalmente errada.

— Ele não está na lista — disse Ardie, com a maior calma possível.

— Isso pode ser corrigido — retrucou Sloane, como se fosse uma ideia

proposta em uma reunião: corrigir o problema chamado Ames.

— Sloane…

Ardie suspirou. Talvez ela devesse se preocupar com o fato de ser sempre a

pessoa que suspirava nos relacionamentos. Era como se o papel que lhe tivesse

sido atribuído pela vontade divina fosse ouvir todos à sua volta exporem ideias

enquanto só ela era capaz de prever todas as coisas que poderiam dar errado. Isso

faria qualquer um suspirar. Mas ela temia que não a fizesse parecer muito

divertida. Talvez Tony a tivesse deixado por isso. Braylee parecia uma mulher

cujas respirações eram sempre profundas, calmas e regulares.

— É uma boa ideia. Você tem que admitir.

Ardie assentiu enquanto avaliava os riscos. A inserção do nome dele poderia

ser rastreada até Sloane. Ela não sabia como. Sloane poderia ser processada por

difamação, a não ser que o que dissesse fosse verdade. Poderia ser demitida. Mas

só se os outros dois itens se realizassem primeiro. Aquilo poderia arruinar a vida

de Ames.

— Não é a pior das ideias.

— Eu não fui a única. Houve outras mulheres antes de mim. Aquela

estagiária. E a secretária dele, lembra? E não foi uma coisinha ou outra. Você

deve se lembrar de quando…

— Eu lembro.

— Tudo bem. Então você sabe que o nome dele deveria estar na lista — disse

Sloane. — Além disso, todo mundo está colaborando.

— Se todo mundo resolvesse pular de um prédio, você também pularia? —

perguntou Ardie.

Sloane abriu um sorrisinho discreto.

— Claro que não. Eu provavelmente empurraria todo mundo. Você pode até

não acreditar, mas eu não era muito popular na escola.

Ardie revirou os olhos.

— Eu, definitivamente, não acredito nisso.

— Bem. — Sloane encarou Ardie. — Talvez não.

Justamente naquele momento, atrás de Sloane, deu para ver pelo vidro Ames

passando na frente da sala. Uma mistura de marrom, cinza e uma faixa branca.

Terno cinza. A barba por fazer crescendo no pescoço. Lóbulos envelhecidos.

Vincos nas costas do paletó. Os punhos fechados.

Ela não conseguia se lembrar da última vez que ele a olhara nos olhos ou da

última vez que olhara em sua direção sem fazer uma expressão que deixava claro

que todo o corpo dela dava nojo a ele.

Foda-se, pensou Ardie. Vou colocar o nome dele.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Sharpe: O que pode nos dizer sobre a lista, sra. Glover? Ré 1: Que lista?

Sra. Sharpe: A Lista de Homens de Comportamento Infame, Libertino e

Amoral de Dallas e Arredores. Acredito que esteja familiarizada com ela.

Ré 1: Eu não inventei a lista.

Sra. Sharpe: Não sugeri que a senhora tenha feito isso. Só pedi que nos

falasse a respeito.

Ré 1: Era uma lista de homens de Dallas com registros curtos detalhando

o comportamento sexualmente agressivo deles no local de trabalho.

Sra. Sharpe: A senhora achou que a lista era uma boa ideia? Ré 1: Eu achei que era uma ideia. Não cheguei a uma conclusão sobre se

era boa ou ruim. Ficou claro para mim que as pessoas identificaram uma necessidade e reagiram a ela.

Sra. Sharpe: Quando diz “pessoas”, está se referindo a mulheres? Ré 1: Até onde sei, mulheres também são pessoas. Sra. Sharpe: Quem decidia quais homens seriam incluídos na lista? Ré 1: Ninguém decidia nada. Se uma mulher era vítima do mau

comportamento de um homem ou era informada a respeito, ela podia incluí-lo na lista.

Sra. Sharpe: Está dizendo que as mulheres, nesse caso, não apenas agiam

como acusadoras, mas também como juízas e juradas.

Ré 1: Não estávamos em um tribunal. Não houve desdobramentos legais. Sra. Sharpe: Até onde sei, sra. Glover, isto aqui são desdobramentos

legais. Deixe-me fazer uma pergunta mais direta, então. Quando decidiu usar a lista para tentar sabotar Ames Garrett, seu colega?

Ré 1: A intenção da lista nunca foi sabotar. A intenção da lista era

apenas alertar.

Sra. Sharpe: Sra. Glover, poderia nos explicar o que é “causa próxima”,

na sua compreensão, para constar dos autos?

Ré 1: “Causa próxima” significa que um evento está suficientemente

relacionado a um dano, de modo que um tribunal considere esse evento como causa do dano.

Sra. Sharpe: Bem colocado. E pode nos dizer como é o teste para

determinar se existe uma causa próxima?

Ré 1: A causa próxima é medida pelo teste de sine qua non, expressão em

latim que quer dizer “se não fosse por”. Y não teria acontecido se não fosse por X.

Sra. Sharpe: Neste caso, sra. Glover, uma pessoa está morta. Esse é o

“Y”. Minha pergunta é simples: essa pessoa estaria morta se não fosse por suas ações?