Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 14 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 13

 

28 DE MARÇO

Ardie foi a primeira a se servir das tortilhas na mesa. O restaurante era do tipo

mexicano brega, com botas penduradas na parede como decoração. Luzes

coloridas pendiam do teto. Grupos de homens se debruçavam sobre pratos de

taco, a gravata enfiada para dentro da camisa social.

Em torno da mesa estavam Grace, Sloane e Katherine. Katherine aceitara o

convite de Sloane para almoçar, mas não exatamente com “grande entusiasmo”.

Ela insistiu que tinha levado o próprio almoço, e Sloane disparou de volta

“Protesto, irrelevante”, o que suscitou uma reclamação de Ardie, que era

fundamentalmente contra piadas de advogado.

— Então — Sloane abriu o cardápio plastificado —, será que é cedo demais

para margaritas?

Grace cruzou as pernas.

— A regra na minha casa sempre foi que, depois das dez da manhã, vale tudo.

Sloane chamou a jovem garçonete.

— Margaritas para todas, então? — perguntou Sloane ao grupo.

— Eu tenho que tirar leite assim que voltar do almoço.

Grace bocejou.

— Eu aceito.

Katherine ainda estava sentada com a mesma postura impecável, como se

fosse equilibrar um conjunto de pratos na cabeça a qualquer momento. Sua boca,

Ardie notou, tinha o hábito de se contorcer entre um pequeno sorriso e uma

expressão neutra — diversas vezes —, como se estivesse pedindo permissão.

Talvez a bebida fosse um sinal de que ela estava se soltando. Dedos cruzados,

Ardie imaginou Sloane bradando alto demais; ainda bem que essa ideia não lhe

ocorreu. A garçonete anotou o pedido e saiu apressada.

— Sua filha está sendo um pouco desmancha-prazeres — disse Katherine para

Grace.

Os olhos de Sloane se arregalaram e ela apoiou as mãos espalmadas na mesa.

— Ah, meu Deus, você precisa conhecer a Emma Kate. Ela é a bebê mais linda

do mundo. Poderia estar em um comercial das fraldas Pampers, de tão linda que

é. Você vai odiá-la, por ela ser tão linda. Embora, claro, ninguém consiga odiar

bebês.

Grace e Katherine trocaram um olhar conspiratório. Grace ergueu o copo de

leve em direção a Katherine.

Sloane apontou o dedo entre elas, inclinando-se para a frente.

— Tudo bem, vocês duas, desembuchem: quando viraram melhores amigas?

O que estão escondendo? Podem falar.

Grace desdobrou primorosamente o guardanapo de pano preto e o colocou

no colo.

— Eu não sei do que você está falando. Você sabe, Katherine?

— Tudo bem. — Sloane examinou as unhas. — Também podemos participar

desse jogo. Ardie e eu também temos segredos, não é? — O rabo de cavalo

deslizou pelo ombro quando ela se virou para Ardie.

Ardie pousou o copo de água na mesa.

— E nós somos mais velhas que vocês, então temos mais segredos.

As margaritas chegaram, e Grace ergueu o copo de água.

— Saúde, meninas.

Ardie poderia estar sendo otimista, mas achava que Grace estava feliz, o que

não acontecia havia semanas.

Sloane lambeu o sal da borda do copo.

— Caramba, Grace, você é, tipo, a mãe perfeita. Tenho certeza de que bebi

vinho quando estava grávida. Quando estava amamentando, o que, vamos ser

sinceras, durou só três meses, acho que nem cogitava não beber. — Ela espremeu

o limão na margarita. — E olhe só Abigail! Está ótima!

Ardie revirou os olhos, quebrando ao meio outra tortilha.

— O que eu sempre digo? As estatísticas não significam nada no nível

individual. E o inverso também é verdadeiro.

Sloane mergulhou uma tortilha no molho.

— A Ardie está sempre dando um jeito de me ensinar conceitos matemáticos,

mas sou uma péssima aluna. Vamos ver. Tem esse e, ah, sim, não se deve

considerar custos irrecuperáveis ao tomar decisões futuras. Hein! Hein! Muito

bom, não acha?

— Alguém já disse que você deveria escrever para a The Economist? —

perguntou Grace, ajeitando uma mecha de cabelo que havia escapado, enquanto

falava com um grampo preso entre os dentes. — Além disso… — Ela prendeu o cabelo com destreza. — Este almoço é sobre Katherine. Katherine, você tem a

palavra. — Grace fez um gesto igual ao de um apresentador de TV, com

Katherine como prêmio principal. — Queremos saber tudo a seu respeito.

— Ou o que quiser nos contar — completou Ardie, porque estava óbvio que,

como ela, Katherine era um pouco… Bem, não exatamente tímida, Ardie não era

tímida… Um pouco reservada. Alguém que não operava na mesma frequência

que pessoas falantes e com traquejo social, como Grace e Sloane, que

naturalmente não conseguiam enxergar os sinais. Sloane acreditava que dentro

de toda pessoa introvertida havia um extrovertido à espera de um amigo. Sério.

Ela dizia essas exatas palavras. Era como terapia de conversão, só que meio que

funcionava. Pelo menos por um tempo. Mas Ardie entendia. Tudo aquilo podia

ser muito intimidante. Exaustivo. Tentar entrar em um grupo de amigos e passar

a impressão de que estava enturmada, quando na verdade tudo o que você queria

era ficar quieta comendo batata frita, de forma que toda a sua energia não

sangrasse acidentalmente pelos ouvidos.

Ardie notou que Katherine desviava o tempo todo o olhar para algum ponto

acima da cabeça de Sloane e que demorava um pouco para que seus olhos

voltassem para a conversa. Katherine alisou a saia.

— Ah, bem. Vamos ver. Eu trabalhei no Law Review.

— Em Harvard, ainda por cima, pelo que sei — acrescentou Grace.

Um sorriso quase imperceptível brotou na boca de Katherine.

— Isso mesmo. — Katherine falava com muita precisão, enunciando cada

sílaba. — Ganhei uma bolsa de estudos para fazer um curso no exterior, em

Oxford. Eu…

Sloane bateu com o punho na mesa, impaciente.

— Já sabemos disso tudo. Vamos para a parte que interessa. Queremos saber

sobre sua família, de onde você é. O que gosta de fazer. Essas coisas.

— Poupe seu tempo — avisou Ardie. — Em breve vai descobrir que é inútil

resistir. Você vai sofrer menos.

A garçonete interrompeu a conversa para anotar os pedidos. Ardie percebeu,

só depois de já ter começado, que estava fazendo uma varredura do restaurante

em busca do ex-marido. Ele trabalhava ali por perto e aquele era um restaurante

popular. A garçonete desapareceu novamente e Ardie voltou a atenção para as

amigas.

— Tudo bem — recomeçou Katherine. — Eu sou de Boston. Caçula de cinco.

A única menina. Eu não tinha muito tempo livre no meu último emprego. Para

fazer nada.

— Eu ainda sofro de transtorno de estresse pós-traumático por causa do

tempo que trabalhei em um escritório de advocacia. — Grace girou um canudo

em seu copo de água. Grace sempre usava canudo, para preservar o batom. — E

não é exagero.

O olhar de Katherine se ergueu estranhamente outra vez.

Depois de um tempo curto demais para que a comida fosse supostamente

preparada e servida, os pratos foram colocados diante do grupo e Ardie inspirou

o aroma de queijo derretido e jalapeños.

— Você tem namorado? — É claro que Sloane faria uma pergunta descarada

dessas.

Katherine hesitou.

— Não.

— Ou namorada? Ou alguma coisa?

— Não — repetiu Katherine.

— Porque eu sou meio que especialista em criar perfis em aplicativos de

relacionamento.

Ardie e Grace olharam para Katherine ao mesmo tempo e balançaram de leve

a cabeça: não.

— Eu vi isso. — Sloane colocou um pedaço de enchilada na boca. Diante dela,

a margarita tinha se reduzido a gelo.

O almoço transcorreu como transcorrem os almoços. Katherine beliscou sua

salada, enquanto Grace descrevia como acordava todas as manhãs com dolorosos

nódulos nos seios, os quais tinha que massagear no chuveiro. Sloane estava

escrevendo alguma coisa no celular quando o garfo de Katherine bateu com força

no prato. Ardie parou no meio de uma mordida e olhou para o rosto de

Katherine, que, por um único instante, assumiu uma expressão com os olhos

miúdos de raiva e o queixo projetado.

— Tudo bem? — perguntou Ardie, virando-se para espiar por cima de Sloane,

onde viu uma TV atrás do bar. Um jogo de beisebol estava sendo transmitido

sem som.

Ardie se recostou na cadeira e avaliou Katherine, que corou e tomou outro

gole da margarita.

— Desculpa. Eu só… foi uma péssima jogada.

— Eu amo o Rangers. — Ardie enfatizou sua posição com o garfo. Ela adorava

beisebol pelo ritmo tranquilo do jogo, pela oportunidade de comer cachorros-

quentes cheios de mostarda, por poder gritar com desconhecidos sem ninguém

se importar. Enquanto Sloane e Grace tinham aceitado o trabalho na Truviv mal sabendo a diferença entre um touchdown e um gol, Ardie realmente gostava de

esportes. Eles faziam sentido. E a Truviv com frequência oferecia ingressos de

graça para os funcionários. Ardie sorriu. — Você torce para o Red Sox?

Katherine soltou um suspiro e ergueu a mão.

— Desculpa.

Aquilo tudo pareceu perfeitamente inocente, e nos perguntaríamos se todos

aqueles momentos pareceram assim até serem deturpados mais tarde por

acontecimentos que não estavam mais sob controle de ninguém.

Nós nos lembraríamos daquele momento, meses depois, e questionaríamos

muitas coisas. Procuraríamos sinais. E os encontraríamos.

— Finalmente alguém para assistir aos jogos comigo! — comemorou Ardie.

— Vamos pedir mais uma rodada! — disse Sloane, antes de se debruçar na

mesa e sussurrar: — Katherine, você já viu a lista de homens CILADA?