Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 50 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 49

 

2 DE MAIO

Sloane encontrou duas mensagens de voz esperando por ela depois daquela

reunião horrorosa.

A primeira: “Aqui é o diretor Clark. Tivemos um problema na escola

envolvendo sua filha, Abigail. Receio que ela tenha agredido outro aluno.

Precisamos que a senhora compareça à escola quanto antes.”

A segunda: “Sra. Glover, estamos tentando entrar em contato há uma hora.

Realmente precisamos que venha à escola o mais rápido possível, devido à… à

gravidade do incidente.”

Gravidade! Do incidente!

Aquilo tinha sido vinte minutos antes.

Sloane nunca tinha sido mandada para a sala do diretor, nem mesmo por

colar em uma prova, dar uma resposta insolente ou alguma outra imprudência

normal. Os professores amavam Sloane. Ela tinha sido vice-presidente do grêmio

estudantil. Pelo amor de Deus, ela chegou a fazer broches.

Abigail, por sua vez, tinha agredido alguém. Apenas torcedores fanáticos

agridem pessoas. Crianças imundas, com mãos meladas de geleia e sujeira

acumulada debaixo das unhas. Os filhos dos outros.

Um pensamento lhe ocorreu no trajeto frenético até a escola: seria possível

que fosse sua filha quem vinha praticando bullying o tempo todo? E por isso

tinha recebido aquelas mensagens de texto? Ah, meu Deus, e se Sloane fosse uma

daquelas péssimas mães que acreditavam que sua filha era um anjo de candura, e

enquanto isso a criança chutava filhotinhos de cachorro e beliscava outras

crianças quando a professora não estava olhando? Ah, merda, ah, merda.

Tantos dias, Abigail, ela diria quando a encontrasse. Tantos dias para você

fazer uma coisa dessas.

Diante das portas duplas que levavam à secretaria, Sloane verificou seu reflexo

no vidro fumê, colocando a saia de volta no lugar e ajeitando a parte de trás do

blazer quando Derek chegou correndo, aparecendo atrás dela na imagem distorcida.

— Sloane — chamou ele, sem fôlego. — Meu Deus, o que diabos está

acontecendo? — Ele colocou a mão nas costas dela, e Sloane sentiu os cantos da

boca se erguerem. — Desculpe, demorei séculos para encontrar um professor

substituto.

— Eu estava em uma reunião — explicou ela, compreensiva. — Vim assim

que soube.

Ver o rosto de Derek piorava tudo. Também melhorava.

Ele balançou a cabeça, incrédulo.

— Nossa filha agrediu alguém.

— Nossa filha agrediu alguém — repetiu ela.

Eles deram as mãos. Embora nenhum dos dois tivesse se dado conta disso. E

foram para a reunião como um casal.

Todos estavam esperando por eles. Foi a primeira coisa que informaram

quando os dois entraram na sala do diretor Clark. Estávamos todos esperando por

vocês!

Isso lhe pareceu um completo exagero. Estavam presentes o diretor Clark. O

professor de inglês de Abigail, qual era mesmo o nome dele? Sr. Tawley? Tully?

Derek saberia. Derek, cuja mão ainda segurava a dela com firmeza. E outra mãe,

cujo nome Sloane nunca soubera. Ela usava um traje hospitalar com o nome de

uma clínica veterinária bordado acima do bolso esquerdo da camisa. Um

menino, com cabelo suado e lambido para trás e tênis tão chamativos que eram

capazes de cegar alguém, estava de cabeça baixa. Havia sangue seco em torno da

narina direita. E lá estava Abigail. O coração de Sloane fraquejou ao ver a filha

encolhida em uma cadeira no canto. Lágrimas escorreram silenciosamente pelo

rosto bonito e sardento quando ela viu os pais. Derek e Sloane foram até ela e se

postaram a seu lado. Abigail era filha deles. Eles a amariam, não importava o que

acontecesse. Mesmo que ela tivesse matado alguém.

— Vou fazer as apresentações. Este é Steve Lightner. — O diretor Clark

apresentou o menino como uma prova em um julgamento. Steve Lightner.

Sloane reconheceu o nome das mensagens de texto e instantaneamente sentiu o

coração mostrar as garras. — Abigail deu dois socos no nariz do Steve, do lado de

fora da aula de inglês.

Certamente o diretor Clark pensava ter conseguido uma prova irrefutável.

Está vendo, sra. Glover, sua filha não é tão inocente quanto parece.

Derek tocou o ombro de Abigail, muito de leve, como se estivesse com medo

de ela se despedaçar.

— Isso é verdade?

Abigail fungou, mas assentiu.

— Ele estava sangrando — disse a mãe de Steve. — Jorrando sangue pelo

nariz — completou, com a expressão séria.

Sloane olhou para a filha, para as protuberâncias ósseas que se projetavam de

seus ombros como asas raquíticas.

— Por quê, Abigail? — perguntou ela, com urgência na voz. — Por que bateu

no Steve?

Tudo parecia terrível demais. Como se a pena de morte ainda estivesse na

mesa e todos — aparentemente, Sloane também era exagerada — estivessem

prendendo a respiração para ver o que o júri decidiria.

Abigail engoliu em seco e olhou para o teto.

— Ele ficou zombando da minha calcinha. Ele e o Grady. Toda vez que eu me

abaixava para tirar um livro da mochila, os dois gritavam: “Calcinha de vovó,

calcinha de vovó.” — As bochechas dela coraram. — E aí o Steve meio que

puxava a parte de cima da minha calcinha toda vez que isso acontecia, e dizia

para todo mundo que cor eu estava usando naquele dia e que eu não usava fio

dental. Pedi para ele parar, mas ele continuou fazendo isso, fez três dias seguidos.

— Mesmo agora, quando a filha se abaixava, Sloane via uma pequena parte da

calcinha aparecendo por abaixo da cintura do short jeans. Algodão roxo. —

Então eu fui e contei pro sr. Tully, mas o sr. Tully me disse para deixar ele pra lá,

que ele ia parar. Eu tentei, mas então o Steve pegou minha calcinha e… — Ela

abaixou o olhar. — E deu o maior puxão. Doeu. Aí eu me virei e… e… — Ela

começou a chorar novamente. — Dei um soco nele. Duas vezes — murmurou

ela.

Os olhos de Sloane se arregalaram.

— Ela falou com você? — Sloane dirigiu a pergunta ao sr. Tully, que, diga-se

de passagem, não era nem de longe tão bonito quanto Derek. Aquelas pessoas

tinham feito com que ela duvidasse da própria filha, sua menina doce e gentil.

Sloane estava louca de raiva.

O sr. Tully pigarreou e se remexeu, inquieto.

— Tentamos desencorajar pequenas queixas. Achamos que deixar que as

crianças se resolvam entre si as estimula a desenvolver habilidades para a vida.

— Ah, vocês acham? — Sloane cruzou os braços. — Então minha filha estava

sendo assediada sexualmente, foi até você, o adulto responsável, e seu grande

conselho de habilidade para a vida foi ignorar o que estava acontecendo?

— Por favor, não vamos exagerar. — O diretor Clark ergueu as mãos como se estivesse dando a bênção. Que a porra dos céus o ajudasse.

O sr. Tully coçou atrás da orelha.

— “Assediada sexualmente” é uma expressão forte. Não acho que tenha sido

tão sério.

— Tudo bem, então. — Sloane se virou. — Vamos ver. Steve, que habilidade

para a vida você aprendeu?

A mãe de Steve — que Deus a abençoe — pelo menos teve o bom senso de

parecer envergonhada.

— Steve, ela lhe fez uma pergunta — disse a mãe.

A boca do garoto se abriu e se fechou como a de um peixe, muda.

— Derek? — O diretor Clark ergueu as sobrancelhas. — Não quer intervir?

Derek franziu a testa e deu um passo para trás, na direção da janela.

— Não, Ian. Acho que minha esposa está se saindo muito bem sozinha.

Sloane estufou o peito. Seu coração parecia realmente prestes a alçar voo. Em

nome do feminismo, havia muito tempo que ela parara de pagar boquetes, mas

até consideraria abrir uma exceção depois daquilo.

— Então, o que vocês sugeririam que ela fizesse a partir daí? — perguntou

Sloane ao diretor Clark e ao sr. Tully. — Depois que usou palavras para pedir a

ele que parasse, e em seguida recorreu à pessoa em posição de autoridade, que se

recusou a ajudá-la, qual deveria ser seu plano de ação? Porque — continuou ela,

já que ninguém ofereceu uma sugestão — parece que o plano de ação de vocês

teria sido que ela, o quê, ficasse calada? Deixasse que o Steve a tocasse? Deixasse

que um menino a empurrasse, a apalpasse, enfiasse a mão no short dela porque

ele acha isso engraçado, porque ninguém faria nada para impedir, porque ele

estava a fim? Sem revidar? Será que entendi mais ou menos o enredo? —

questionou ela, piscando loucamente, as narinas dilatadas, graças ao bom Deus

não havia câmeras gravando-a naquele momento. Mas havia Derek, que com

certeza faria comentários a respeito depois. Só que, não, na verdade, ele a

observava, prestando atenção em cada palavra, com seus olhos gentis e bondosos.

— Estamos apenas tentando explicar que a violência nunca é a solução —

garantiu o diretor Clark.

— Ah, bem, bom saber. Mas se a violência for contra meninas é mais como

uma, o quê? Uma área cinzenta? De modo geral, tudo bem? Tudo ótimo,

contanto que a gente leve na esportiva? Ao que me parece o senhor está

confundindo quem foi violento e quem agiu em legítima defesa. Abigail, pegue

suas coisas, por favor — disse Sloane, sem tirar os olhos dos dois homens adultos

do outro lado da sala.

Abigail se levantou e, cabisbaixa, pegou a mochila e a lancheira, que estavam

debaixo da cadeira.

Derek segurou a porta aberta.

— Nunca mais toque nela. — Ela apontou o dedo para Steve. — Está me

ouvindo?

Steve não conseguia desviar o olhar daqueles tênis assustadores. Seus olhos

deviam estar latejando.

— Pode deixar — resmungou ele.

 

* * *

 

No estacionamento, o asfalto parecia uma frigideira de Teflon colocada em fogo

alto. Sloane estava ofegante, como se tivesse acabado de ganhar uma luta de boxe.

Ela andava em círculos pequenos, as mãos nos quadris, esperando que o latejar

da veia no pescoço diminuísse. Ela sacudiu os braços.

— Mas que audácia! — exclamou de tempos em tempos até conseguir ficar

quieta com sua diminuta família, o coração ainda disparado.

— Você está chateada comigo? — perguntou Abigail, a mochila um casco de

tartaruga grande e pesado demais para suas costas pequenas.

Ela não estava mais chorando, mas o lábio inferior ainda tremia.

— Não — disse Derek. — Ninguém está chateado com você.

Ele bagunçou o cabelo da menina.

— Mas eu dei um soco nele — disse ela, como se precisasse ser clara nesse

ponto.

Ela virou a mão e examinou os nós dos dedos, que apresentavam um tom

intenso de rosa.

— Acho que você herdou esse impulso da sua mãe — disse Derek. — É um

bom impulso. Na maioria das vezes.

Ele estendeu a mão, e ela entregou a mochila pesada para o pai, que a

pendurou facilmente no ombro.

Abigail arriscou um sorriso culpado.

— Acho que ele nunca mais vai fazer isso de novo, pai.

Derek riu.

— É, acho que não.

Com mais cautela do que nunca, Derek passou o braço pelos ombros de

Sloane e beijou sua têmpora.

Ela enterrou o nariz no pescoço dele.

— Derek. — Sua voz era baixa. — Derek, desculpa, mas tenho péssimas

notícias.

Transcrição do interrogatório de Katherine Bell

 

28 DE ABRIL

PRESENTES:

Detetive Malika Martin

Detetive Oscar Diaz

 

AUTOS

Srta. Bell: Tenho dois irmãos que são policiais. Det. Diaz: Ótimo, então conhece o procedimento. Srta. Bell: Não exatamente. Não dessa forma. Det. Diaz: Pelo menos uma pessoa nos relatou que Ames Garrett havia

pedido para ter uma conversa com a senhorita antes de sua morte.

Srta. Bell: Talvez. Não lembro exatamente.

Det. Diaz: Não mencionou que tinha falado com Ames Garrett minutos antes

de ele cair de uma sacada do décimo oitavo andar?

Srta. Bell: Ele pode ter pedido para falar comigo, mas não o vi. Det. Martin: Por que não? Achei que a senhorita e Ames Garrett tinham

uma ótima relação. Essa é a essência das declarações que deu no processo de assédio sexual contra Ames e a Truviv, certo?

Srta. Bell: Tínhamos uma boa relação, sim.

Det. Martin: Então, por que não se encontrou com ele? Srta. Bell: Não consegui achá-lo.

Det. Martin: Não conseguiu achá-lo… Então, deixe-me ver se entendi: ele

pediu que a senhorita fosse falar com ele, e quando a senhorita foi, ele não estava lá. Por que Ames Garrett faria isso?

Srta. Bell: Acabei demorando um pouco. Depois que ele chamou. Det. Martin: Estava postergando?

Srta. Bell: Não, não, eu não estava postergando. Det. Martin: Porque vocês tinham uma boa relação. Srta. Bell: Não. Quer dizer, sim. Tínhamos. Não sei por que não nos

encontramos. Ele claramente já não estava em seu juízo perfeito, na época.

Det. Martin: Onde Ames queria se encontrar com a senhorita? Srta. Bell: Não tenho certeza. Não acho que ele tenha especificado um

lugar.

Det. Martin: Hum. Isso seria estranho, não seria? Achou isso estranho? Srta. Bell: Achei que tinha sido um lapso. Acontece. Det. Martin: Sobre o que a senhorita acha que ele queria conversar? Srta. Bell: Não sei.

Det. Diaz: Srta. Bell, Grace Stanton mencionou que a senhorita tem medo

de altura. Isso é verdade?