Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 19 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 18

 

31 DE MARÇO

Sloane chegou em casa depois de ir à Target, onde uma hora antes havia

comprado um presente para o filho de Ardie, Michael. A festa de aniversário era

no dia seguinte. Sábado. A festa a pegara de surpresa, pois ficara escondida

inocentemente em seu calendário logo após uma sexta-feira infernal e, bem, lá

estava ela. E aquela noite, a véspera da festa de aniversário, não parecia o

momento adequado para contar a Ardie. Ela tentou redigir a mensagem de texto

em sua cabeça como se fosse um e-mail de trabalho: Ardie, preciso falar com você,

podemos dar uma palavrinha?

Poderia telefonar. Não era uma adolescente. Mas não tinha certeza se era uma

boa ideia também. Sloane realmente era especialista em procrastinar, não era?

Sloane tinha um dilema, e, para lidar com ele, estava de pé na cozinha,

descalça, devorando seus sentimentos, quando um segundo dilema moral se

apresentou.

O celular de Abigail vibrou. Foi assim que tudo aquilo começou, pelo menos.

Então, bem… Sloane não estava sendo bisbilhoteira. Ela estava sendo uma boa

mãe. Inspecionar era uma obrigação tão importante quanto ajudar no dever de

casa. Qualquer um concordaria com isso. Na verdade, enquanto pensava a

respeito, Sloane teve certeza de que tinha lido aquilo em um artigo em algum

lugar. Bisbilhotar era uma forma de demonstrar amor.

Talvez merecesse uma reformulação, no entanto. Curiosidade. Pronto, assim

soava melhor. Para o caso de Derek perguntar por que ela estava xeretando o

celular da filha. Ela daria de ombros e diria: Ah, sei lá, fiquei curiosa.

Derek estava no quarto fazendo exercícios na barra fixada no batente da

porta. Ela podia ouvir sua respiração ruidosa e viril da cozinha, onde, na semana

anterior, ele havia instalado duas luminárias — candelabros no estilo provençal

feitos sob encomenda na região do Luberon — que agora pendiam

ostensivamente sobre a ilha, provocando Sloane com a consciência da fatura do

cartão de crédito que em breve chegaria. Não que ela pudesse falar muito, já que acabara de “investir” em um par de sapatos Manolo Blahnik Clizia Mesh, cuja

visão quase a levara diretamente ao orgasmo. Mas mesmo assim. Antes de se

casar, sua mãe lhe dissera que, para um casamento funcionar, o casal precisava

ter atitudes semelhantes em relação ao dinheiro. Por consequência, Sloane

passou a considerar os gostos reciprocamente caros dela e de Derek como um

sinal de compatibilidade. Anos depois, seus pais estavam divorciados e ela

descobriu que gostos reciprocamente caros significavam duas pessoas gastando o

salário dela em um ritmo assustadoramente rápido, em vez de apenas uma.

O celular de Abigail vibrou de novo na bancada, com o visor virado para

baixo, girando um centímetro. Eram dez e meia da noite. Quem estaria

mandando mensagens para Abigail?

Então ocorreu a Sloane: ela era a mãe de Abigail, não uma namorada

ciumenta. Ela não tinha que imaginar, podia apenas checar. Um dilema moral

resolvido, e, simples assim, a preocupação em falar com Ardie antes da festa do

dia seguinte passou a ser um estresse secundário.

Sloane digitou a senha de Abigail no telefone e navegou para o ícone verde e

branco do aplicativo de mensagens. Lá estavam. Três novas mensagens alinhadas

no lado esquerdo da tela.

Sloane as devorou:

Grady Reed

Todo mundo sabe que você foi correndo dedurar a gente pra sua mãe. A gente nem fez nada. Nada a ver. A gente nem teria falado com você se soubesse que você era dedo-duro.

 

Steve Lightner

É. Meu pai disse que a gente não pode mais convidar você pra festa aqui em casa porque você é dedo-duro e sensível demais.

 

Grady Reed

Desculpa, Abigail, sua FOFOQUEIRA.

 

Sloane bateu o telefone no granito com um grunhido de raiva.

— Está tudo bem aí? — perguntou Derek do outro cômodo.

— Sim, sim. Tudo bem. Desculpa.

A decisão de não revelar o que havia encontrado no telefone de Abigail foi

rápida e instintiva. Injusta, provavelmente. Imoral? Talvez. Abigail também era

filha dele. Partes iguais. Embora ela sentisse que, no caso de um desempate,

Abigail fosse só um pouquinho mais dela, considerando que tinha sido gestada

em sua barriga por nove meses e tudo o mais. Derek certamente não tinha uma

bolsa de canguru flácida abaixo do umbigo. Ainda assim, em um mundo perfeito, ela deveria ser capaz de chamá-lo para se unir a ela em sua fúria

parental.

Mas não. Sloane não podia arriscar a propensão do marido à razoabilidade.

Sua filha estava sendo assediada. Era óbvio. E Grady Reed tinha envolvido o

nome de Sloane Glover naquilo. Dissera “mãe”, e “mãe” significava Sloane. Não

Derek. Não, ela definitivamente não poderia arriscar que ele a dissuadisse. Estava

com raiva. Devia estar com raiva. Na verdade, raiva era a única resposta razoável

naquele momento.

O status social de sua filha oscilava precariamente. Isla Lombardi não falava

mais com Abigail, e pelo visto era um negócio importante, porque Isla Lombardi

tinha dividido as meninas da turma em Legais e Chatas, e Abigail não tinha sido

escolhida para o grupo das legais. Daí aquelas primeiras mensagens de texto

horrorosas — vagabunda, vadia, puta. Só as meninas “chatas” receberam. A mãe

de Isla — que era diretora de marketing em Irving — estava tentando convencer

a escola de que a filha e as amigas estavam exibindo alguma forma de feminismo

da nova geração — garotas sendo obstinadas, contundentes e sinceras. Elas só

não se adequavam à narrativa da personagem feminina amável e, portanto, não

deveriam ser punidas. Sloane queria que a mãe de Isla enfiasse a mão no

triturador, então talvez ela também estivesse exibindo um pouco do feminismo

da nova geração.

Quando Sloane virou o telefone, uma rachadura fina atravessava a tela de

vidro. Ela fechou os olhos, respirando fundo, até sentir a vermelhidão das

bochechas desaparecer.

— Derek. — Ela entrou no quarto deles, onde o marido estava fazendo

abdominais, sem camisa, deitado no tapete persa, parabéns para ele. — Recebi

um e-mail. — Como qualquer outra coisa, mentir era uma habilidade que se

aperfeiçoava com a prática, e Sloane tinha experiência em enganar o marido. Não

se orgulhava disso. Mas aquilo era para o bem de Derek. Ela o estava poupando

de saber como a salsicha era feita, por assim dizer, então, no mínimo, deveria ser

aplaudida por carregar aquele peso sozinha. Algumas pessoas diriam que ela era

até um pouco heroica. — Preciso trabalhar um pouco mais hoje à noite. Estarei

no andar de cima, no escritório.

Ele mostrou os dentes quando expirou ao fazer o abdominal. Parecia

doloroso. Sloane se perguntou se os dois — Sloane e Derek — estavam sendo

submetidos a um teste de coragem para ver quem desistiria de cuidar da própria

aparência primeiro. Ela rezava para que fosse ele.

— Tudo bem. Vou para a cama daqui a pouco. Antes de subir, pode verificar se todas as portas estão trancadas?

Ela assentiu.

— Tem certeza de que não quer… — Ele olhou na direção da cama king size.

— … primeiro?

— Tenho.

Considerando que Derek tinha o corpo de um jovem de vinte e cinco anos,

Sloane provavelmente deveria se preocupar com a fidelidade do marido, mas,

por alguma razão, não se importava. Como você se sentiria, de verdade, se

descobrisse que Derek anda ciscando por aí? Grace uma vez perguntou a ela.

Péssima, respondera Sloane. Mas depois eu superaria. E, em seu íntimo, ela

acreditava nisso de verdade.

De qualquer forma, não conseguiria fingir a respiração ofegante durante o

sexo e manter seu nível atual de raiva ao mesmo tempo. Então, fugiu para o

andar de cima, sua indignação começando a ferver.

No computador, usou o cursor para navegar até a área de trabalho remota,

onde abriu um modelo de documento no papel timbrado da Truviv e escreveu o

nome do superintendente do conselho escolar na linha de destinatário. Desde

que Abigail recebera as primeiras mensagens de texto chamando-a daqueles

nomes, Sloane vinha considerando uma ideia.

Cerca de um ano antes, tinha visto uma reportagem sobre uma garota que se

enforcou no banheiro porque os colegas de classe estavam fazendo cyberbullying

com ela por causa de um garoto. Tinha sido uma notícia sensacionalista,

projetada para fazer com que pais em toda parte surtassem coletivamente. Fotos

da menina doce e sorridente com aparelho nos dentes e almofadas felpudas na

cama viralizaram, e Sloane pensou, como todo mundo: Por favor, que isso nunca

aconteça com minha filha. Essa era a questão.

Mas, escondida sob todo o interesse humano, sob o cerne comovente da

história, havia uma teoria jurídica que atraíra a atenção de Sloane. Os estudantes

que fizeram bullying com a garota foram responsabilizados nas esferas criminal e

civil pela morte dela. Eles foram para a cadeia. E isso também suscitou uma

discussão sobre a responsabilidade da escola no suicídio. Consequências reais,

jurisprudência real.

Estão vendo! Sloane queria sacudir o laptop acima da cabeça em uma reunião

de pais: Eu não sou louca!

Porque tudo tinha limite. Era assim que Sloane via as coisas.

Na tela, os casos se multiplicaram. Laney Presper, doze anos, se jogou de um

prédio após reclamar de bullying meses antes. A conclusão: os supostos agressores podiam ser acusados criminalmente quando as vítimas cometiam

suicídio.

Jackson Worrall, dezoito anos, se matou por envenenamento com monóxido

de carbono após uma série de mensagens de texto da namorada, que mais tarde

foi condenada por homicídio culposo.

Matt Renard, quinze anos, se enforcou para escapar do cyberbullying. O

resultado: aprovaram uma legislação que dava às autoridades policiais permissão

de apresentar queixas tradicionais contra assediadores cujo comportamento

contribuísse para que outra pessoa tirasse a própria vida.

Ela continuou pesquisando, resumindo e elaborando um argumento que

finalmente convencesse a escola a fazer algo a respeito da maneira como a filha

estava sendo tratada. E daí que estivesse se valendo do fato de ser advogada? Era

a filha dela!

Sloane era uma excelente digitadora. Rápida e mortalmente precisa. Perdeu a

noção do tempo enquanto digitava em seu teclado noite adentro, até que

ressurgiu em um mundo iluminado apenas pelas luzes vermelhas, verdes e

amarelas dos aparelhos de modem, alarme e DVD.

Contemplou o produto final, um memorando legal para o conselho escolar.

Suas citações de caso, ela sabia, eram impecáveis. O argumento, centrado na ideia

de que aqueles que praticavam bullying e aqueles que permitiam que isso

acontecesse poderiam ser responsabilizados pelos danos físicos e psicológicos

causados a suas vítimas parecia razoavelmente sólido. Havia apenas uma coisa

que a incomodava: ela era a mãe de Abigail.

Era só que, bem, aquilo não teria um pouco mais de peso se viesse de um

advogado que não fosse parente de Abigail? Uma fonte externa. Outra pessoa.

Alguém como… Ardie.

Seus dedos pairaram acima do teclado. Era apenas um pouco de liberdade

artística. Uma mentira inofensiva, na verdade. Sloane tinha certeza de que Ardie

teria concordado se tivesse a chance de perguntar, mas não tinha muito tempo e

a festa de aniversário de Michael era no dia seguinte. Ardie não teria tempo para

pensar naquilo e, na verdade, o que ela estava propondo não era errado, não

exatamente. Plágio era errado. Aquilo era o oposto. Sloane estava dando a Ardie

o crédito por um memorando que ela mesma havia escrito. Na verdade, era

muito legal da parte dela, não? Não tinha com que se preocupar.

Sloane tomou a decisão. Assinou o memorando: Adriana Valdez, advogada. E,

antes de se levantar — os joelhos doendo por ter ficado sentada de pernas

cruzadas em sua cadeira ergonômica —, procurou os endereços de e-mail na internet e os inseriu na linha de destinatário. Estou copiando nossa advogada,

Adriana Valdez, digitou Sloane, para dar prosseguimento ao assunto, caso seja

necessário. Envio em anexo um memorando para sua análise e consideração.

Atenciosamente.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Yeh: Sra. Garrett, permita que eu me apresente. Meu nome é Helen

Yeh e estou atuando como advogada das rés. Vou conduzir sua entrevista formal. Em seu depoimento, farei algumas perguntas e a senhora as responderá sob juramento. O estenógrafo do tribunal tentará transcrever tudo o que dissermos. É importante que não interrompamos uma à outra e que a senhora responda a todas as perguntas verbalmente. Vamos começar. Quanto tempo foi casada com Ames Garrett?

Testemunha: Vinte e sete anos em maio.

Sra. Yeh: Como a senhora descreveria seu casamento? Testemunha: Bem, depois de tantos anos, não é exatamente um mar de rosas

todos os dias, mas eu o descreveria como um casamento feliz. O Ames sempre planejava uma viagem de fim de semana para comemorar meu aniversário. Nunca esquecia nosso aniversário de casamento. Jantávamos em família. Conversávamos. Não só coisas triviais sobre as crianças. Nós conversávamos mesmo. Ele me falava sobre o trabalho e levava a sério meus conselhos sobre a carreira, embora eu não trabalhe há anos. Sempre valorizei isso. Mas, é claro, nas últimas semanas o comportamento dele mudou completamente. Ele tem estado deprimido, mal-humorado, estressado.

Sra. Yeh: Sabe o motivo?

Testemunha: Tenho certeza de que foi por causa da lista de homens

CILADA. Todas aquelas mentiras.

Sra. Yeh: Certo, então a senhora viu a lista e está nos dizendo que o

nome do sr. Garrett aparece nela?

Testemunha: Sim.

Sra. Yeh: E acha que o nome dele não deveria ter sido incluído? Testemunha: Eu sabia que o nome dele não deveria estar naquela lista

desde o início, mas, assim que descobri que foi Sloane Glover quem escreveu aquilo, bem, isso me disse tudo que eu precisava saber.

Sra. Yeh: Deixando a sra. Glover de lado, que motivo uma mulher teria

para mentir a respeito de assédio sexual e outras alegações que foram encontradas na planilha?

Testemunha: Atenção. Ganho profissional, financeiro. Sra. Yeh: A lista era anônima.

Testemunha: Mas não é mais, certo? Se era para ser tão anônima, por que

Sloane processou meu marido e a empresa dele, com o nome dela no processo?

Sra. Yeh: É uma pergunta válida. Vejamos. Sra. Garrett, sabe quem é

Clarence Thomas?

Testemunha: Um juiz da Suprema Corte.

Sra. Yeh: A senhora sabe o nome da mulher que acusou o juiz Thomas de

assédio sexual?

Testemunha: Acho que soube em algum momento, mas não lembro agora.

Sra. Yeh: E quanto a qualquer uma das mulheres envolvidas nas alegações

de assédio sexual contra David Letterman? Bill Cosby? Lembra-se dos nomes delas?

Testemunha: Não, não lembro.

Sra. Yeh: Eu poderia continuar, mas é correto dizer que esses homens,

Bill Cosby, David Letterman e o juiz Clarence Thomas, são mais famosos que seu marido, Ames Garrett?

Testemunha: Sim.

Sra. Yeh: Aparentemente essas mulheres não obtiveram nenhum tipo de

notoriedade como resultado das acusações de assédio sexual. A senhora sabe quem é Tyson Grange?

Testemunha: Um jogador de basquete. Joga no Lakers, acho. Amigo do meu

marido, na verdade.

Sra. Yeh: Isso mesmo. Ele joga no Lakers e é patrocinado pela Truviv. A

senhora também deve conhecer o nome Ariel Lopez, ginasta olímpica medalhista de prata. Ela também era patrocinada pela Truviv. Seis meses atrás, a srta. Lopez acusou Tyson Grange de abuso sexual. A senhora sabe o que aconteceu?

Testemunha: Não.

Sra. Yeh: Vou lhe dizer. Nada aconteceu a Tyson Grange. A srta. Lopez,

no entanto, perdeu o patrocínio da Truviv, empresa na qual seu marido trabalhava. Pode-se dizer então que ela não conseguiu muita coisa em termos de ganhos financeiros. E Tyson era, como a senhora mencionou, amigo de Ames.

Testemunha: São casos diferentes. Eu nunca disse que todas as mulheres

fazem acusações de assédio sexual para obter ganhos financeiros ou notoriedade. Eu acredito nas mulheres. Na maioria delas, pelo menos. Mas sempre há uma exceção à regra. Não podemos simplesmente dar carta branca a todas as mulheres que resolvem acusar alguém, podemos? Veja bem, eu sou mulher e estou dizendo isso. Essa história de “acreditar nas mulheres acima de tudo”, convenhamos, é ridícula. Sinto muito pelas palavras fortes, sei que é uma opinião impopular, mas essa é a verdade.

Sra. Yeh: Então, se Sloane Glover, como a senhora disse, acrescentou o

nome do seu marido à lista, alegando que ele tinha um histórico de assédio sexual, o que está dizendo é que não acredita nela. Correto?

Testemunha: Veja bem. Algumas pessoas precisam colocar rótulos em tudo

apenas para se sentirem melhores, para se colocarem como vítimas. Acredite, a Sloane é assim. A senhora deveria ver o que está acontecendo na escola da Abigail só porque a filhinha de dez anos dela não era popular o suficiente! Eram apenas crianças agindo como crianças, mas a Sloane entrou em pé de guerra, dizendo para todo mundo ouvir que era bullying. Eu sei o que aconteceu e não foi bullying. Agora ela está fazendo a mesma coisa aqui. De repente, virou “assédio sexual”. Infelizmente, meu marido — minha família — foi vítima de um bullying maldoso, e quem foi a responsável por isso? Sloane.