Rede de Sussurros
Capítulo 8
23 DE MARÇO
Havia homens no escritório. Eles trabalhavam em mesas ao lado das nossas.
Povoavam os departamentos de recursos humanos, contabilidade, compliance e
tecnologia da informação, e trabalhavam em cargos acima e abaixo dos nossos.
Mas havia uma barreira invisível entre eles e nós. Então nos unimos. Se o
ambiente de trabalho era a extensão tradicional do antigo clube do Bolinha, nós
respondemos formando uma sororidade secreta. Reconhecíamos o aperto de
mão das iniciadas. Víamos umas às outras como companheiras de guerra.
É claro, não podemos nos esquecer dos homens bons: aqueles que riam das
nossas piadas e pediam nossos conselhos sobre a redação de um texto, que não
encaravam a maternidade como um problema, que tinham esposas com
empregos exigentes, que se encarregavam de parte do trabalho doméstico, que
eram felizes no casamento ou gays. Eles não iniciavam as reuniões reclamando
de remakes de filmes com elenco inteiramente feminino nem nos pediam que
atendêssemos a um único telefonema durante a licença-maternidade. Mas
mesmo os bons — ou especialmente os bons? — fingiam não notar as diferenças:
como eram tratados com mais deferência ao telefone por terem uma voz
masculina. Ou como sua altura, seu tamanho e a barba por fazer davam um peso
autoritário a suas ideias que as nossas nunca tinham. Se chamavam sua atenção
para isso, os homens bons desconsideravam essas observações com um
constrangimento humilde e nos diziam como éramos mais inteligentes e
melhores do que eles. Eles eram nossos colegas e alguns até nossos amigos.
Mas as diferenças de fato existiam. E não apenas na nossa cabeça. Não
importava quão habilmente fingíamos encarar numa boa as piadinhas indecentes
ou como éramos convincentes ao provar que ficávamos à vontade em embates
sem sermos agressivas, não importava com que precisão imitávamos nossos
colegas do sexo masculino, quase sempre havia em nosso desempenho, no que
dizia respeito à competência e ao pertencimento, algo que os homens em nossos
escritórios não conseguiam levar a sério. Eles achavam que liam nossos pensamentos. Achavam que nos conheciam. Achavam-se capazes de prever
nossos passos. Sobretudo os passos de alguém como Grace, que com tanta
frequência demonstrava exatamente o que estava sentindo.
Grace não se lembrava da última vez que tinha contado uma mentira. Uma
mentira de verdade. Até aquele momento.
— Preciso trabalhar até tarde, Liam, não sei a que horas volto, sinto muito. O
leite da Emma Kate está na geladeira — dissera Grace.
É claro, a reação de seu marido fora de acordo com o esperado. Como podiam
exigir isso dela? Era um absurdo. Não sabiam que eles tinham acabado de ter um
filho?
As pessoas não paravam de lembrar a Grace que ela acabara de ter um filho.
Três semanas antes, quando confessou a Liam que, na verdade, não, ela não
achava que fosse capaz de continuar acordando para amamentar Emma Kate,
que preferia deixar a filha chorar, ele apertara seu ombro de leve e dissera: “Você
está exausta. Tudo bem se sentir assim.” E ela pensou, assim como todas nós:
como é conveniente ter sempre um homem por perto para nos explicar nossos
sentimentos irritantes! Ele a beijou na testa e disse que Grace era uma mãe
incrível.
Então ela e Liam levaram Emma Kate para a consulta dos quatro meses —
com algumas semanas de atraso —, e o dr. Tanaka entregou a Liam um folheto
em papel brilhoso que listava todos os sinais de alerta para a depressão pós-parto:
tristeza prolongada, sensação de desamparo, episódios de choro inexplicável.
Aumento ou diminuição do apetite. Insônia. Preocupação de que a mãe pudesse
machucar o bebê, ela mesma ou outras pessoas. Era tudo muito interessante,
pensou Grace. Muito informativo. Mas… esse não era o caso dela. “Você está
fazendo a maternidade parecer algo fácil. Sua filha está no caminho certo”,
dissera o médico. Então era isso. Tudo estava nos eixos, porque, se não estivesse,
o dr. Tanaka certamente teria notado. Ele era o melhor pediatra de Dallas. Ela
havia se certificado disso.
Grace teve a ideia uma semana antes, quando Liam perguntou casualmente
quando os dois começariam a considerar outro filho. Grace não era mais tão
jovem, dissera ele, embora tivesse usado palavras mais gentis, é claro, porque
Liam era uma boa pessoa. Durante toda a gravidez, ele não parava de falar no
quanto ela estava bonita. Ele tinha sido o futuro pai que saía às dez da noite e
voltava com milk-shakes como se merecesse uma medalha de honra por isso.
Aquelas saídas tarde da noite para comprar comida fizeram com que a barriga de
Liam também crescesse durante os quase dez meses que ela carregou Emma Kate, e, para um devoto do CrossFit, Grace achava que tinha sido a coisa mais
generosa que ele já havia feito por ela.
Mas aquela conversa de segundo filho a deixou alarmada. Eles nem sequer
tinham transado desde o nascimento de Emma Kate. O médico a liberara para
“atividades sexuais” semanas antes, mas ela ainda não havia contado a Liam.
Talvez fosse mais mentirosa do que pensava.
Grace se deu conta de que simplesmente não havia diagnóstico clínico para o
egoísmo. E, como aparentemente era isso que a afligia, decidiu se tratar por conta
própria.
* * *
A diária do quarto de hotel custava exorbitantes seiscentos e cinquenta dólares.
Alguns dias antes, ela pegara uma das ofertas de cartão de crédito na caixa de
correio, um envelope no qual estava escrito “pré-aprovado” em letras garrafais.
Preencheu o formulário durante um dos intervalos para tirar leite no escritório e,
em seguida, guardou o cartão na carteira. Naquele momento crucial de traição,
sua filha acordara seis vezes na noite anterior, sete vezes na noite anterior àquela.
Ela havia lido em um artigo do Post que fora a privação de sono, não os
afogamentos simulados, que fizera com que os integrantes da Al-Qaeda falassem.
A promessa de um cochilo. Ela entendia. E desistiu. Sua filha tinha vencido.
Seu cérebro parecia feito de algodão; latejava. Grace estava tão exausta que
sentia náuseas, o café da manhã deixado pela metade se revirando no estômago.
O café provocou apenas um zumbido desconfortável que se espalhou sob a
camada espessa e leitosa de fadiga. Ela desejava dormir mais do que jamais tinha
desejado cupcakes.
Era um hotel maravilhoso, com piscina de borda infinita, restaurante de chef
famoso e champanhe de graça no saguão. Ela acreditava que não havia sentido
em fazer as coisas pela metade. Se Grace Stanton ia para o inferno, não seria por
causa de uma noite no Holiday Inn.
Na noite anterior, Grace perambulava com as pantufas macias do hotel
quando lhe ocorreu o pensamento: Então é assim que as pessoas começam a ter
casos. No início, tinha prometido a si mesma que seria apenas uma noite. Mas
depois de abrir uma garrafa de chardonnay (ela tampouco economizou nesse
quesito, indo direto para a seção de vinhos de setenta e cinco dólares no cardápio
do serviço de quarto), Grace tinha toda a intenção de dar continuidade àqueles
encontros sórdidos consigo mesma.
Vou abandonar meu marido por você, disse ela à banheira preparada com
aromaterapia. Vamos fugir juntas. Somos almas gêmeas. O único problema é que
meus seios mantêm minha filha viva, mas me dê alguns meses para arrumar uma
solução. Você vai ver. Eu prometo. Eu te amo.
Naquela manhã, ela acordou com o sol se esgueirando pelas bordas das
cortinas com blecaute. Puxou os lençóis até o nariz. Eram brancos como novos e
cheiravam a perfume francês caro. Um arrepio de satisfação fez com que seus
dedos dos pés se curvassem quando ela pensava em como Liam devia ter sentido
sua falta enquanto trocava fraldas e dava mamadeiras às duas, em seguida às três
e meia e, por fim, às cinco da manhã.
Finalmente, ela se levantou e pediu o serviço de quarto — um croissant com
manteiga e geleia de damasco e um cappuccino. Seus seios estavam doloridos.
Pequenos nódulos se formavam sob a pele. Ela os pressionou suavemente e
estremeceu.
Ia chegar atrasada ao trabalho, muito atrasada. Aproveite o máximo possível,
ela havia pensado na noite anterior quando não programou o alarme. Mas, ao se
levantar da cama, sentia-se menos rebelde. Enquanto pegava a roupa — um
vestido preto liso, um colar de pérolas —, sentiu uma escuridão totalmente nova
se espalhando pelo estômago, como piche.
Grace tentou pensar em Emma Kate.
Os olhos da filha ainda lhe pareciam estranhos. Duas bolas de gude em uma
cabeça grande demais e toda enrugada. Sempre encarando, sempre esperando o
amor ao qual ela deveria ter direito. Uma expectativa razoável, Grace admitia,
para uma criança que tinha nascido em uma família estável com uma mãe
saudável na casa dos trinta anos. Não era como se Emma Kate tivesse sido uma
surpresa. Grace acompanhava seu ciclo de forma meticulosa. Até o gênero do
bebê fora planejado. Liam achava graça, mas Grace tinha aprendido todos os
truques: ela tomava uma quantidade indecente de suco Crystal Light e iogurte
durante o período fértil. E Sloane, que, é claro, tivera Abigail, lhe dera o conselho
de ter orgasmos depois de Liam, o que exigira algum esforço. Depois do
ultrassom, quando o médico entregou o envelope a Grace, ela já sabia que seria
uma menina. Liam também sonhava com uma menininha e ficou com os olhos
marejados ao receber a notícia. E quando Grace deixou o envelope na mesa de
Sloane para que ela e Ardie vissem, as duas soltaram gritinhos. Bem, Sloane
soltou gritinhos, na verdade. Elas imediatamente começaram a fazer planos de
criar as meninas juntas, de Abigail ser a babá, e de um dia casar Michael e Emma
Kate. Tudo tinha sido simplesmente adorável. Exatamente como planejara.
Tudo isso e ainda assim, às vezes, ela tinha vontade de olhar nos olhos de
Emma Kate e dizer: não se empolgue. Contra todos os indícios, Emma Kate
definitivamente não havia ganhado na loteria parental.
Se servia de consolo, nada tinha saído exatamente como o anunciado para
Grace também. Na faculdade, ela fora tesoureira da sororidade TriDelta, e desde
então sentia falta da conexão natural compartilhada com um grande grupo de
mulheres. Quando deu à luz Emma Kate, chorou de felicidade ao lado de Liam, e
em segredo ficou até mesmo exultante. Finalmente. Ela agora fazia parte da
maior e mais importante sororidade de todas: a maternidade. Imaginou-se
fazendo aulas de ginástica com o carrinho de bebê e praticando ioga mamãe e
bebê. Caça aos ovos de Páscoa em abril. Um lindo vestido de batizado e Grace
em pé diante da igreja, segurando com cuidado a cabeça da filha, coberta com
uma touquinha. A família perfeita.
Em vez disso, Grace se sentia distante, isolada de praticamente todas as outras
mães. Ela observava as mães felizes e amorosas na igreja, segurando as
mãozinhas adoráveis das filhas, menininhas lindas de meia-calça e sapatos de
verniz, e tentava entender que diabo estava fazendo de errado.
Quando ia chegar a parte boa? Porque, no que dizia respeito a Grace, ela não
conseguia se reconciliar com seus seios grandes e caídos, a barriga flácida, a
incontinência urinária, as olheiras profundas, as mastites esporádicas e os bicos
dos seios rachados. Tudo isso somado ao fato de que agora ela levava duas horas
para sair de casa com a filha a tiracolo, tinha que ouvir um choro irritante toda
vez que entrava no chuveiro e não era mais bem-vinda em restaurantes com
toalhas de mesa. Emma Kate era muito magra, cheia de eczemas; um líquido
turvo escorria dos cantos de sua boca, e ela quase não sorria. Grace queria sentir
uma conexão, mas o mais perto que chegou disso foi na primeira vez que a filha
segurou seu dedo, e durou apenas um instante. Grace se sentia uma idiota por
acreditar que houvesse alguma magia naquela matemática. Alguma alquimia que
fizesse tudo aquilo, como todo mundo dizia, valer a pena.
Se Grace sentia afinidade com alguma mãe desde o nascimento de Emma
Kate, era com as que jogavam suas minivans dentro de lagos.
* * *
Grace tinha apenas uma bolsa de lona com as roupas do dia anterior,
maquiagem, artigos de higiene pessoal e a bombinha manual de tirar leite. Olhou
pela última vez para a cama macia, para as toalhas limpas e dobradas, para a variedade de cápsulas de café Lavazza, temendo retornar para a própria casa,
onde fraldas sujas entupiam a lixeira e as almofadas estavam manchadas de
vômito.
No fim do corredor, apertou o botão, entrou na redoma de vidro e ficou
surpresa ao reconhecer a outra mulher no elevador.
— Katherine? — Grace sentiu uma pontada de prazer, como se tivesse
esbarrado em um conhecido no aeroporto, ou durante as férias em um lugar
distante, ou em uma das lojas da rede Target. Uma divertida justaposição de
vidas.
Katherine estava de costas para o vidro, parecendo tensa. Um brilho de
reconhecimento surgiu em seus olhos.
— Oi, hum… — disse Katherine.
— Grace — completou. — Tudo bem, você deve ter conhecido umas mil
pessoas nos últimos dias.
— Ah, não, eu não estava… — Katherine fez um aceno com a mão, deixando
para lá o resto da frase.
Sua pele estava fresca como em um comercial de sabonete, o cabelo,
cuidadosamente repartido para o lado. Ela usava brincos pequenos de brilhante,
o que parecia corajosamente controlado e até fashion em meio ao mar de joias
pendentes em voga entre as mulheres de Dallas.
A campainha do elevador soou no saguão. Um fluxo de água tranquilo e
borbulhante fluía de um suporte de mármore e escorria em uma piscina azul
cintilante cheia de carpas. O átrio tinha um cheiro que lembrava o de um cassino
luxuoso de Las Vegas: ar reciclado e fragrância personalizada.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Katherine.
Grace pensou em contar mais uma mentira, mas nada lhe veio à mente.
— Eu precisava de uma noite de folga — admitiu. — Tenho uma bebê
travando uma guerra contra o sono.
Mais algumas noites maldormidas em casa com Emma Kate e Grace sabia que
se afundaria novamente no lamaçal da exaustão, tentando levar os dias aos
trancos e barrancos.
Os cantos da boca de Katherine formaram um ligeiro sorriso.
— E qual é a arma preferida dela?
— Pulmões de aço. É uma escolha óbvia, mas impiedosamente eficiente. —
Grace parou diante das portas de vidro automáticas que davam para o balcão do
serviço de manobrista e para a cidade a distância. Lá fora, o sol brilhava. — Às
vezes, eu simplesmente não consigo ficar perto dela. É como se eu…
Grace gaguejou.
— A odiasse?
— Eu pareço uma pessoa horrível.
E ela de fato se sentia horrível — uma mãe horrível —, mas provavelmente
não se sentia horrível o suficiente, e isso fazia com que se sentisse ainda pior,
embora ainda não tão mal quanto deveria se sentir. Ela achava que, já que não
gostava de ser mãe — e quase conseguia admitir isso para si mesma agora —,
podia pelo menos se superar em quão mal se sentia em relação a isso. Ela poderia
competir nas Olimpíadas da Culpa. Talvez até ganhar uma medalha. Mas a
verdade era que estava sempre tão cansada que nem tentava.
— Eu meio que não contei ao meu marido — acrescentou ela, envergonhada.
Katherine pareceu impressionada.
— Que você não ia para casa?
Grace colocou a mão na bochecha, em parte constrangida, em parte não se
importando.
— Não, essa parte eu contei. Mas… — Ela fechou um dos olhos. — Talvez
tenha dito a ele que ia passar a noite no escritório.
O que estava tão longe da verdade que quase chegava a ser cômico. Desde que
voltara a trabalhar, tinha a impressão de que Sloane e Ardie pegavam leve com
ela, poupando-a de qualquer trabalho que envolvesse urgência ou empenho,
como se Grace devesse estar desesperada pensando em voltar para casa e ficar
com a filha recém-nascida. Sua preciosa e esquisita recém-nascida.
— Ah! — Katherine assentiu, o ligeiro sorriso ganhando um ar zombeteiro. —
Seu segredo está seguro comigo.
Grace sentiu uma comoção patética, apreciando o sabor de um segredo, que,
quando compartilhado, quase sempre indicava o início de uma amizade, de
acordo com sua experiência.
— E você? — perguntou Grace.
— Vou me mudar, mas o apartamento ainda não está pronto. É um edifício
novo. Foi uma amiga que me arrumou. Estou aqui até poder me mudar.
— No Prescott? Que chique.
— É. É verdade. Mas me colocaram em um quarto bem lá no alto. — Ela
ergueu o queixo. O centro do hotel Prescott era um vão que se projetava em
direção ao teto de vidro. — Eu morro de medo de altura. E esses elevadores de
vidro? É como se eu estivesse despencando para a morte.
— Quer trocar de lugar comigo? — perguntou Grace. — Terei prazer em ficar
com seu quarto de hotel, e você pode ficar com meu marido enquanto tenta negociar um acordo entre minha filha e a hora de dormir. Sloane mencionou que
você é especialista nisso.
Grace esperava que o elogio não parecesse exagerado. Era complicado fazer
elogios muito cedo em um relacionamento, e não era diferente em se tratando de
amizades.
— Em negociações, talvez — disse Katherine. — Não entendo nada de
crianças. Não me dou muito bem com elas, na verdade.
Grace olhava, distraída, para onde o mundo real a esperava. Ela já sentia o nó
se formando em seu peito.
— Bem — disse ela, depois de uma breve pausa. — É melhor nos apressarmos.
A essa altura Sloane já deve ter ligado para a polícia. Mais alguns minutos e ela
vai chamar a Guarda Nacional.
Katherine enfiou a mão na bolsa e pegou um cartão cor-de-rosa do serviço de
manobrista.
— Não podemos deixar isso acontecer. Arruinaria seu disfarce.
— Meu disfarce? — Grace girou o fecho do colar para que ficasse na nuca.
— Com seu marido? — Katherine franziu o nariz como um coelho. Era uma
expressão definitivamente fofa para uma mulher de trinta anos. — Você disse
que estava no trabalho.
Grace deu um tapa na testa.
— Droga, você tem razão.
Havia uma nota de riso na voz das duas. Grace sentiu uma pequena faísca.
Como se tivesse finalmente se conectado a uma tomada muito distante. Ela já
estava ansiosa para chamar Katherine para tomar uma taça de vinho ou fazer
compras no Highland Park Village. Era por isso que sempre tinha preferido fazer
amigas — ela era boa nisso. Em um momento de clareza, ocorreu-lhe que talvez
o que estivesse procurando fosse não se conectar a outras mães.
Katherine foi na frente até o balcão do manobrista. A temperatura estava
incomumente quente para fevereiro. O cheiro de gordura prenunciava os
almoços dos hóspedes, que sempre ocorriam no horário civilizado das onze e
meia da manhã. Havia um Jaguar prateado na entrada de carros. Uma
propaganda silenciosa do hotel.
Quando os dois jovens manobristas saíram apressados na direção do
estacionamento, Katherine cruzou os braços e olhou para a rua.
— Faz muito tempo que você trabalha na Truviv?
Grace procurou distraidamente a chave do carro antes de se dar conta de que
estava com o manobrista.
— Seis anos.
— E todo mundo é sempre tão legal?
Grace riu.
— Na maior parte do tempo, sim. É uma boa equipe. — As pessoas do sul do
país eram simpáticas de uma maneira quase competitiva, e Grace e sua família
eram consideradas excelentes nisso. — As pessoas não eram legais no seu antigo
emprego?
Por um momento, pareceu que Katherine não sabia como responder à
pergunta.
— Não é isso. Só quero recomeçar.
Ela ia dizer algo mais, mas o manobrista freou cantando pneu ao lado delas no
carro de Grace. As duas saltaram para trás, o braço de Grace se esticando num
gesto protetor na frente do peito de Katherine.
— Desculpa.
Suas bochechas coraram. Sua reação tinha sido claramente a de uma mãe que
faz rodízio de carona, e ela havia tratado Katherine — Katherine, que tinha se
formado em direito em Harvard — como uma criança incapaz de olhar para os
dois lados antes de atravessar a rua.
— Tudo bem — disse Katherine, alisando o vestido. — Se fosse alguém do
meu antigo emprego, teria me empurrado na frente do carro.
Grace riu, porque a ideia era ridícula. Claro.
DOCUMENTO DE CITAÇÃO
21 de janeiro
Srta. Katherine Bell
2337 Windsor Street
Boston, MA 02101
Prezada srta. Bell:
Seu contrato de trabalho com a Frost Klein & Roget (“Frost Klein”)
está oficialmente rescindido a partir da data de hoje.
A senhorita está sendo notificada, por meio do presente
documento, de que o contrato foi rescindido por justa causa.
A senhorita não receberá qualquer pagamento referente ao saldo
remanescente da sua licença remunerada. Seus benefícios de
assistência médica permanecerão em vigor por 0 dia(s).
Por favor, revise o contrato de confidencialidade assinado no ato
da contratação. De acordo com esse contrato, a senhorita não pode
revelar nenhum segredo comercial, prática ou método de operação
da empresa. A Frost Klein tem o direito de tomar as devidas medidas
legais caso seja constatado que a senhorita discutiu segredos
comerciais durante ou após o período em que trabalhou para a
empresa.
Cordialmente,
Alan Ziegler
Sócio-gerente
Frost Klein & Roget