Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 9 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 8

 

23 DE MARÇO

Havia homens no escritório. Eles trabalhavam em mesas ao lado das nossas.

Povoavam os departamentos de recursos humanos, contabilidade, compliance e

tecnologia da informação, e trabalhavam em cargos acima e abaixo dos nossos.

Mas havia uma barreira invisível entre eles e nós. Então nos unimos. Se o

ambiente de trabalho era a extensão tradicional do antigo clube do Bolinha, nós

respondemos formando uma sororidade secreta. Reconhecíamos o aperto de

mão das iniciadas. Víamos umas às outras como companheiras de guerra.

É claro, não podemos nos esquecer dos homens bons: aqueles que riam das

nossas piadas e pediam nossos conselhos sobre a redação de um texto, que não

encaravam a maternidade como um problema, que tinham esposas com

empregos exigentes, que se encarregavam de parte do trabalho doméstico, que

eram felizes no casamento ou gays. Eles não iniciavam as reuniões reclamando

de remakes de filmes com elenco inteiramente feminino nem nos pediam que

atendêssemos a um único telefonema durante a licença-maternidade. Mas

mesmo os bons — ou especialmente os bons? — fingiam não notar as diferenças:

como eram tratados com mais deferência ao telefone por terem uma voz

masculina. Ou como sua altura, seu tamanho e a barba por fazer davam um peso

autoritário a suas ideias que as nossas nunca tinham. Se chamavam sua atenção

para isso, os homens bons desconsideravam essas observações com um

constrangimento humilde e nos diziam como éramos mais inteligentes e

melhores do que eles. Eles eram nossos colegas e alguns até nossos amigos.

Mas as diferenças de fato existiam. E não apenas na nossa cabeça. Não

importava quão habilmente fingíamos encarar numa boa as piadinhas indecentes

ou como éramos convincentes ao provar que ficávamos à vontade em embates

sem sermos agressivas, não importava com que precisão imitávamos nossos

colegas do sexo masculino, quase sempre havia em nosso desempenho, no que

dizia respeito à competência e ao pertencimento, algo que os homens em nossos

escritórios não conseguiam levar a sério. Eles achavam que liam nossos pensamentos. Achavam que nos conheciam. Achavam-se capazes de prever

nossos passos. Sobretudo os passos de alguém como Grace, que com tanta

frequência demonstrava exatamente o que estava sentindo.

Grace não se lembrava da última vez que tinha contado uma mentira. Uma

mentira de verdade. Até aquele momento.

— Preciso trabalhar até tarde, Liam, não sei a que horas volto, sinto muito. O

leite da Emma Kate está na geladeira — dissera Grace.

É claro, a reação de seu marido fora de acordo com o esperado. Como podiam

exigir isso dela? Era um absurdo. Não sabiam que eles tinham acabado de ter um

filho?

As pessoas não paravam de lembrar a Grace que ela acabara de ter um filho.

Três semanas antes, quando confessou a Liam que, na verdade, não, ela não

achava que fosse capaz de continuar acordando para amamentar Emma Kate,

que preferia deixar a filha chorar, ele apertara seu ombro de leve e dissera: “Você

está exausta. Tudo bem se sentir assim.” E ela pensou, assim como todas nós:

como é conveniente ter sempre um homem por perto para nos explicar nossos

sentimentos irritantes! Ele a beijou na testa e disse que Grace era uma mãe

incrível.

Então ela e Liam levaram Emma Kate para a consulta dos quatro meses —

com algumas semanas de atraso —, e o dr. Tanaka entregou a Liam um folheto

em papel brilhoso que listava todos os sinais de alerta para a depressão pós-parto:

tristeza prolongada, sensação de desamparo, episódios de choro inexplicável.

Aumento ou diminuição do apetite. Insônia. Preocupação de que a mãe pudesse

machucar o bebê, ela mesma ou outras pessoas. Era tudo muito interessante,

pensou Grace. Muito informativo. Mas… esse não era o caso dela. “Você está

fazendo a maternidade parecer algo fácil. Sua filha está no caminho certo”,

dissera o médico. Então era isso. Tudo estava nos eixos, porque, se não estivesse,

o dr. Tanaka certamente teria notado. Ele era o melhor pediatra de Dallas. Ela

havia se certificado disso.

Grace teve a ideia uma semana antes, quando Liam perguntou casualmente

quando os dois começariam a considerar outro filho. Grace não era mais tão

jovem, dissera ele, embora tivesse usado palavras mais gentis, é claro, porque

Liam era uma boa pessoa. Durante toda a gravidez, ele não parava de falar no

quanto ela estava bonita. Ele tinha sido o futuro pai que saía às dez da noite e

voltava com milk-shakes como se merecesse uma medalha de honra por isso.

Aquelas saídas tarde da noite para comprar comida fizeram com que a barriga de

Liam também crescesse durante os quase dez meses que ela carregou Emma Kate, e, para um devoto do CrossFit, Grace achava que tinha sido a coisa mais

generosa que ele já havia feito por ela.

Mas aquela conversa de segundo filho a deixou alarmada. Eles nem sequer

tinham transado desde o nascimento de Emma Kate. O médico a liberara para

“atividades sexuais” semanas antes, mas ela ainda não havia contado a Liam.

Talvez fosse mais mentirosa do que pensava.

Grace se deu conta de que simplesmente não havia diagnóstico clínico para o

egoísmo. E, como aparentemente era isso que a afligia, decidiu se tratar por conta

própria.

 

* * *

 

A diária do quarto de hotel custava exorbitantes seiscentos e cinquenta dólares.

Alguns dias antes, ela pegara uma das ofertas de cartão de crédito na caixa de

correio, um envelope no qual estava escrito “pré-aprovado” em letras garrafais.

Preencheu o formulário durante um dos intervalos para tirar leite no escritório e,

em seguida, guardou o cartão na carteira. Naquele momento crucial de traição,

sua filha acordara seis vezes na noite anterior, sete vezes na noite anterior àquela.

Ela havia lido em um artigo do Post que fora a privação de sono, não os

afogamentos simulados, que fizera com que os integrantes da Al-Qaeda falassem.

A promessa de um cochilo. Ela entendia. E desistiu. Sua filha tinha vencido.

Seu cérebro parecia feito de algodão; latejava. Grace estava tão exausta que

sentia náuseas, o café da manhã deixado pela metade se revirando no estômago.

O café provocou apenas um zumbido desconfortável que se espalhou sob a

camada espessa e leitosa de fadiga. Ela desejava dormir mais do que jamais tinha

desejado cupcakes.

Era um hotel maravilhoso, com piscina de borda infinita, restaurante de chef

famoso e champanhe de graça no saguão. Ela acreditava que não havia sentido

em fazer as coisas pela metade. Se Grace Stanton ia para o inferno, não seria por

causa de uma noite no Holiday Inn.

Na noite anterior, Grace perambulava com as pantufas macias do hotel

quando lhe ocorreu o pensamento: Então é assim que as pessoas começam a ter

casos. No início, tinha prometido a si mesma que seria apenas uma noite. Mas

depois de abrir uma garrafa de chardonnay (ela tampouco economizou nesse

quesito, indo direto para a seção de vinhos de setenta e cinco dólares no cardápio

do serviço de quarto), Grace tinha toda a intenção de dar continuidade àqueles

encontros sórdidos consigo mesma.

Vou abandonar meu marido por você, disse ela à banheira preparada com

aromaterapia. Vamos fugir juntas. Somos almas gêmeas. O único problema é que

meus seios mantêm minha filha viva, mas me dê alguns meses para arrumar uma

solução. Você vai ver. Eu prometo. Eu te amo.

Naquela manhã, ela acordou com o sol se esgueirando pelas bordas das

cortinas com blecaute. Puxou os lençóis até o nariz. Eram brancos como novos e

cheiravam a perfume francês caro. Um arrepio de satisfação fez com que seus

dedos dos pés se curvassem quando ela pensava em como Liam devia ter sentido

sua falta enquanto trocava fraldas e dava mamadeiras às duas, em seguida às três

e meia e, por fim, às cinco da manhã.

Finalmente, ela se levantou e pediu o serviço de quarto — um croissant com

manteiga e geleia de damasco e um cappuccino. Seus seios estavam doloridos.

Pequenos nódulos se formavam sob a pele. Ela os pressionou suavemente e

estremeceu.

Ia chegar atrasada ao trabalho, muito atrasada. Aproveite o máximo possível,

ela havia pensado na noite anterior quando não programou o alarme. Mas, ao se

levantar da cama, sentia-se menos rebelde. Enquanto pegava a roupa — um

vestido preto liso, um colar de pérolas —, sentiu uma escuridão totalmente nova

se espalhando pelo estômago, como piche.

Grace tentou pensar em Emma Kate.

Os olhos da filha ainda lhe pareciam estranhos. Duas bolas de gude em uma

cabeça grande demais e toda enrugada. Sempre encarando, sempre esperando o

amor ao qual ela deveria ter direito. Uma expectativa razoável, Grace admitia,

para uma criança que tinha nascido em uma família estável com uma mãe

saudável na casa dos trinta anos. Não era como se Emma Kate tivesse sido uma

surpresa. Grace acompanhava seu ciclo de forma meticulosa. Até o gênero do

bebê fora planejado. Liam achava graça, mas Grace tinha aprendido todos os

truques: ela tomava uma quantidade indecente de suco Crystal Light e iogurte

durante o período fértil. E Sloane, que, é claro, tivera Abigail, lhe dera o conselho

de ter orgasmos depois de Liam, o que exigira algum esforço. Depois do

ultrassom, quando o médico entregou o envelope a Grace, ela já sabia que seria

uma menina. Liam também sonhava com uma menininha e ficou com os olhos

marejados ao receber a notícia. E quando Grace deixou o envelope na mesa de

Sloane para que ela e Ardie vissem, as duas soltaram gritinhos. Bem, Sloane

soltou gritinhos, na verdade. Elas imediatamente começaram a fazer planos de

criar as meninas juntas, de Abigail ser a babá, e de um dia casar Michael e Emma

Kate. Tudo tinha sido simplesmente adorável. Exatamente como planejara.

Tudo isso e ainda assim, às vezes, ela tinha vontade de olhar nos olhos de

Emma Kate e dizer: não se empolgue. Contra todos os indícios, Emma Kate

definitivamente não havia ganhado na loteria parental.

Se servia de consolo, nada tinha saído exatamente como o anunciado para

Grace também. Na faculdade, ela fora tesoureira da sororidade TriDelta, e desde

então sentia falta da conexão natural compartilhada com um grande grupo de

mulheres. Quando deu à luz Emma Kate, chorou de felicidade ao lado de Liam, e

em segredo ficou até mesmo exultante. Finalmente. Ela agora fazia parte da

maior e mais importante sororidade de todas: a maternidade. Imaginou-se

fazendo aulas de ginástica com o carrinho de bebê e praticando ioga mamãe e

bebê. Caça aos ovos de Páscoa em abril. Um lindo vestido de batizado e Grace

em pé diante da igreja, segurando com cuidado a cabeça da filha, coberta com

uma touquinha. A família perfeita.

Em vez disso, Grace se sentia distante, isolada de praticamente todas as outras

mães. Ela observava as mães felizes e amorosas na igreja, segurando as

mãozinhas adoráveis das filhas, menininhas lindas de meia-calça e sapatos de

verniz, e tentava entender que diabo estava fazendo de errado.

Quando ia chegar a parte boa? Porque, no que dizia respeito a Grace, ela não

conseguia se reconciliar com seus seios grandes e caídos, a barriga flácida, a

incontinência urinária, as olheiras profundas, as mastites esporádicas e os bicos

dos seios rachados. Tudo isso somado ao fato de que agora ela levava duas horas

para sair de casa com a filha a tiracolo, tinha que ouvir um choro irritante toda

vez que entrava no chuveiro e não era mais bem-vinda em restaurantes com

toalhas de mesa. Emma Kate era muito magra, cheia de eczemas; um líquido

turvo escorria dos cantos de sua boca, e ela quase não sorria. Grace queria sentir

uma conexão, mas o mais perto que chegou disso foi na primeira vez que a filha

segurou seu dedo, e durou apenas um instante. Grace se sentia uma idiota por

acreditar que houvesse alguma magia naquela matemática. Alguma alquimia que

fizesse tudo aquilo, como todo mundo dizia, valer a pena.

Se Grace sentia afinidade com alguma mãe desde o nascimento de Emma

Kate, era com as que jogavam suas minivans dentro de lagos.

 

* * *

 

Grace tinha apenas uma bolsa de lona com as roupas do dia anterior,

maquiagem, artigos de higiene pessoal e a bombinha manual de tirar leite. Olhou

pela última vez para a cama macia, para as toalhas limpas e dobradas, para a variedade de cápsulas de café Lavazza, temendo retornar para a própria casa,

onde fraldas sujas entupiam a lixeira e as almofadas estavam manchadas de

vômito.

No fim do corredor, apertou o botão, entrou na redoma de vidro e ficou

surpresa ao reconhecer a outra mulher no elevador.

— Katherine? — Grace sentiu uma pontada de prazer, como se tivesse

esbarrado em um conhecido no aeroporto, ou durante as férias em um lugar

distante, ou em uma das lojas da rede Target. Uma divertida justaposição de

vidas.

Katherine estava de costas para o vidro, parecendo tensa. Um brilho de

reconhecimento surgiu em seus olhos.

— Oi, hum… — disse Katherine.

— Grace — completou. — Tudo bem, você deve ter conhecido umas mil

pessoas nos últimos dias.

— Ah, não, eu não estava… — Katherine fez um aceno com a mão, deixando

para lá o resto da frase.

Sua pele estava fresca como em um comercial de sabonete, o cabelo,

cuidadosamente repartido para o lado. Ela usava brincos pequenos de brilhante,

o que parecia corajosamente controlado e até fashion em meio ao mar de joias

pendentes em voga entre as mulheres de Dallas.

A campainha do elevador soou no saguão. Um fluxo de água tranquilo e

borbulhante fluía de um suporte de mármore e escorria em uma piscina azul

cintilante cheia de carpas. O átrio tinha um cheiro que lembrava o de um cassino

luxuoso de Las Vegas: ar reciclado e fragrância personalizada.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Katherine.

Grace pensou em contar mais uma mentira, mas nada lhe veio à mente.

— Eu precisava de uma noite de folga — admitiu. — Tenho uma bebê

travando uma guerra contra o sono.

Mais algumas noites maldormidas em casa com Emma Kate e Grace sabia que

se afundaria novamente no lamaçal da exaustão, tentando levar os dias aos

trancos e barrancos.

Os cantos da boca de Katherine formaram um ligeiro sorriso.

— E qual é a arma preferida dela?

— Pulmões de aço. É uma escolha óbvia, mas impiedosamente eficiente. —

Grace parou diante das portas de vidro automáticas que davam para o balcão do

serviço de manobrista e para a cidade a distância. Lá fora, o sol brilhava. — Às

vezes, eu simplesmente não consigo ficar perto dela. É como se eu…

Grace gaguejou.

— A odiasse?

— Eu pareço uma pessoa horrível.

E ela de fato se sentia horrível — uma mãe horrível —, mas provavelmente

não se sentia horrível o suficiente, e isso fazia com que se sentisse ainda pior,

embora ainda não tão mal quanto deveria se sentir. Ela achava que, já que não

gostava de ser mãe — e quase conseguia admitir isso para si mesma agora —,

podia pelo menos se superar em quão mal se sentia em relação a isso. Ela poderia

competir nas Olimpíadas da Culpa. Talvez até ganhar uma medalha. Mas a

verdade era que estava sempre tão cansada que nem tentava.

— Eu meio que não contei ao meu marido — acrescentou ela, envergonhada.

Katherine pareceu impressionada.

— Que você não ia para casa?

Grace colocou a mão na bochecha, em parte constrangida, em parte não se

importando.

— Não, essa parte eu contei. Mas… — Ela fechou um dos olhos. — Talvez

tenha dito a ele que ia passar a noite no escritório.

O que estava tão longe da verdade que quase chegava a ser cômico. Desde que

voltara a trabalhar, tinha a impressão de que Sloane e Ardie pegavam leve com

ela, poupando-a de qualquer trabalho que envolvesse urgência ou empenho,

como se Grace devesse estar desesperada pensando em voltar para casa e ficar

com a filha recém-nascida. Sua preciosa e esquisita recém-nascida.

— Ah! — Katherine assentiu, o ligeiro sorriso ganhando um ar zombeteiro. —

Seu segredo está seguro comigo.

Grace sentiu uma comoção patética, apreciando o sabor de um segredo, que,

quando compartilhado, quase sempre indicava o início de uma amizade, de

acordo com sua experiência.

— E você? — perguntou Grace.

— Vou me mudar, mas o apartamento ainda não está pronto. É um edifício

novo. Foi uma amiga que me arrumou. Estou aqui até poder me mudar.

— No Prescott? Que chique.

— É. É verdade. Mas me colocaram em um quarto bem lá no alto. — Ela

ergueu o queixo. O centro do hotel Prescott era um vão que se projetava em

direção ao teto de vidro. — Eu morro de medo de altura. E esses elevadores de

vidro? É como se eu estivesse despencando para a morte.

— Quer trocar de lugar comigo? — perguntou Grace. — Terei prazer em ficar

com seu quarto de hotel, e você pode ficar com meu marido enquanto tenta negociar um acordo entre minha filha e a hora de dormir. Sloane mencionou que

você é especialista nisso.

Grace esperava que o elogio não parecesse exagerado. Era complicado fazer

elogios muito cedo em um relacionamento, e não era diferente em se tratando de

amizades.

— Em negociações, talvez — disse Katherine. — Não entendo nada de

crianças. Não me dou muito bem com elas, na verdade.

Grace olhava, distraída, para onde o mundo real a esperava. Ela já sentia o nó

se formando em seu peito.

— Bem — disse ela, depois de uma breve pausa. — É melhor nos apressarmos.

A essa altura Sloane já deve ter ligado para a polícia. Mais alguns minutos e ela

vai chamar a Guarda Nacional.

Katherine enfiou a mão na bolsa e pegou um cartão cor-de-rosa do serviço de

manobrista.

— Não podemos deixar isso acontecer. Arruinaria seu disfarce.

— Meu disfarce? — Grace girou o fecho do colar para que ficasse na nuca.

— Com seu marido? — Katherine franziu o nariz como um coelho. Era uma

expressão definitivamente fofa para uma mulher de trinta anos. — Você disse

que estava no trabalho.

Grace deu um tapa na testa.

— Droga, você tem razão.

Havia uma nota de riso na voz das duas. Grace sentiu uma pequena faísca.

Como se tivesse finalmente se conectado a uma tomada muito distante. Ela já

estava ansiosa para chamar Katherine para tomar uma taça de vinho ou fazer

compras no Highland Park Village. Era por isso que sempre tinha preferido fazer

amigas — ela era boa nisso. Em um momento de clareza, ocorreu-lhe que talvez

o que estivesse procurando fosse não se conectar a outras mães.

Katherine foi na frente até o balcão do manobrista. A temperatura estava

incomumente quente para fevereiro. O cheiro de gordura prenunciava os

almoços dos hóspedes, que sempre ocorriam no horário civilizado das onze e

meia da manhã. Havia um Jaguar prateado na entrada de carros. Uma

propaganda silenciosa do hotel.

Quando os dois jovens manobristas saíram apressados na direção do

estacionamento, Katherine cruzou os braços e olhou para a rua.

— Faz muito tempo que você trabalha na Truviv?

Grace procurou distraidamente a chave do carro antes de se dar conta de que

estava com o manobrista.

— Seis anos.

— E todo mundo é sempre tão legal?

Grace riu.

— Na maior parte do tempo, sim. É uma boa equipe. — As pessoas do sul do

país eram simpáticas de uma maneira quase competitiva, e Grace e sua família

eram consideradas excelentes nisso. — As pessoas não eram legais no seu antigo

emprego?

Por um momento, pareceu que Katherine não sabia como responder à

pergunta.

— Não é isso. Só quero recomeçar.

Ela ia dizer algo mais, mas o manobrista freou cantando pneu ao lado delas no

carro de Grace. As duas saltaram para trás, o braço de Grace se esticando num

gesto protetor na frente do peito de Katherine.

— Desculpa.

Suas bochechas coraram. Sua reação tinha sido claramente a de uma mãe que

faz rodízio de carona, e ela havia tratado Katherine — Katherine, que tinha se

formado em direito em Harvard — como uma criança incapaz de olhar para os

dois lados antes de atravessar a rua.

— Tudo bem — disse Katherine, alisando o vestido. — Se fosse alguém do

meu antigo emprego, teria me empurrado na frente do carro.

Grace riu, porque a ideia era ridícula. Claro.

DOCUMENTO DE CITAÇÃO

 

21 de janeiro

Srta. Katherine Bell

2337 Windsor Street

Boston, MA 02101

 

Prezada srta. Bell:

Seu contrato de trabalho com a Frost Klein & Roget (“Frost Klein”)

está oficialmente rescindido a partir da data de hoje.

A senhorita está sendo notificada, por meio do presente

documento, de que o contrato foi rescindido por justa causa.

A senhorita não receberá qualquer pagamento referente ao saldo

remanescente da sua licença remunerada. Seus benefícios de

assistência médica permanecerão em vigor por 0 dia(s).

Por favor, revise o contrato de confidencialidade assinado no ato

da contratação. De acordo com esse contrato, a senhorita não pode

revelar nenhum segredo comercial, prática ou método de operação

da empresa. A Frost Klein tem o direito de tomar as devidas medidas

legais caso seja constatado que a senhorita discutiu segredos

comerciais durante ou após o período em que trabalhou para a

empresa.

 

Cordialmente,

Alan Ziegler

Sócio-gerente

Frost Klein & Roget