Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 2 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 1

 

Três semanas antes:

O dia em que tudo começou

 

20 DE MARÇO

Antes daquele dia, nossa vida se deslocava a toda velocidade em uma montanha-

russa invisível, um carrinho preso aos trilhos por meio de engenharia e forças

que não compreendíamos por completo, apesar de nossa superabundância de

diplomas acadêmicos. Nós nos movíamos com uma sensação de caos controlado.

Éramos especialistas em marcas de xampu a seco. Levávamos quatro dias para

assistir a um episódio completo de The Bachelor. Adormecíamos com o calor do

laptop queimando as coxas. Fazíamos pausas de duas horas para ler historinhas

para crianças e tentávamos não calcular o total de horas que passávamos

trabalhando como mães e funcionárias, confusas em relação às prioridades.

Éramos superqualificadas e subutilizadas, autoritárias e sempre donas da razão.

O aperto de mão era firme e as faturas do cartão de crédito, robustas.

Esquecíamos o almoço na bancada da cozinha.

Todo dia era igual. Até que tudo mudou. Na manhã em que o presidente de

nossa empresa morreu, nos demos conta de que havia uma roda defeituosa na

montanha-russa e que estávamos prestes a ser atiradas para fora dos trilhos.

Ardie Valdez, uma mulher paciente e estoica, com sapatos italianos

confortáveis e bem-acabados, foi a primeira a ter um pressentimento da colisão

iminente. Ela ouviu a notícia e decidiu se proteger.

— Grace? — Ela ficou parada no corredor, vazio a não ser por obras de arte de

valor exorbitante, e bateu em uma porta de armário com um ímã de vaca colado

na frente. — Sou eu, Ardie. Posso entrar?

Ela esperou, prestando atenção, até ouvir ruídos atrás da porta. A tranca

exigida por lei se abriu.

Ardie entrou na salinha e voltou a trancar a porta. Grace já estava se

acomodando novamente no sofá de couro, a blusa de seda enrolada acima dos dois cones de plástico acoplados a seus seios.

Ardie deu uma olhada na salinha. Um frigobar. O sofá surrado no qual Grace

estava sentada. Um pequeno aparelho de televisão no qual passava Ellen. Do lado

de fora, ouvia vozes, passos apressados, pessoas atendendo a telefonemas e

fazendo cópias. Ela franziu a testa, aprovando o espaço.

— Este lugar parece um pequeno esconderijo.

Grace acionou a bombinha de tirar leite, dando início a seu zumbido

mecânico e metódico.

— Ou uma pequena sepultura — disse ela, bem-humorada.

O senso de humor ácido de Grace sempre surpreendia Ardie. De fora, Grace

parecia muito descomplicada. Tinha cabelos volumosos pintados de loiro, era

membro ativo do clube de ex-alunas da fraternidade TriDelta e frequentava a

Igreja Presbiteriana Preston Hollow com o marido, Liam, um homem alto e

moreno que sempre usava camisa xadrez. Os dois estavam na lista privada de

convidados da inauguração da biblioteca presidencial George W. Bush e se

consideravam “conservadores solidários”, o que, na opinião de Ardie, queria

dizer que eles eram a favor do casamento gay, mas preferiam pagar a menor

quantidade possível de impostos. Além disso, havia pelo menos uma arma de

fogo guardada num cofre em uma prateleira no closet de Grace, e o fato de Ardie

gostar daquela mulher apesar de tudo isso era revelador.

— Quanto um bebê precisa comer, afinal? Eu fico o dia todo tirando leite.

Porra, Ardie, olhe só para mim, estou assistindo a Ellen de manhã.

Grace não costumava dizer “porra”.

Ardie lembrou como os dias pareciam longos quando seu filho, Michael,

dormia apenas algumas horas. Seu corpo inteiro parecia pesado e sujo, como se

houvesse uma fina camada de fuligem na sua pele, como dentes não escovados.

Ela vasculhou a bolsa e tirou duas latas suadas de água com gás saborizada La

Croix. Entregou uma a Grace e desabou no chão em frente ao sofá. Ardie podia

fazer coisas como se sentar no chão no trabalho porque — e ela era a primeira a

admitir — tinha se rebelado. Fazia anos, na verdade. Dormia até mais tarde em

vez de passar uma hora fazendo o cabelo e a maquiagem de manhã. Quase nunca

comprava roupas. Não desperdiçava um minuto que fosse de seu precioso tempo

no pilates. Era a coisa mais libertadora que já havia feito.

Ela deu uma olhada no celular. Nada ainda.

— Então — disse Ardie —, parece que o Bankole morreu. Em casa, hoje de

manhã, enquanto se arrumava para o trabalho.

Ela deu a notícia sem rodeios. Ardie não sabia dar notícias de outra maneira. Era sempre Minha mãe está com câncer ou Tony e eu vamos nos separar.

— O quê? Como?

Grace largou os tubos que estava tentando reinserir nas engenhocas em

formato de funil despontando do sutiã de amamentação.

— Teve um infarto. A esposa o encontrou no banheiro. — Ardie apoiou os

cotovelos nos joelhos e encarou Grace. — Acabei de saber.

Ardie tinha encontrado com o presidente da empresa, Desmond Bankole,

apenas uma vez. Cumprimentaram-se com um aperto de mão no elevador

porque ele fazia questão de conhecer todas as pessoas que trabalhavam no

prédio, incluindo a equipe de limpeza. Seus dentes eram muito brancos. Ele era

mais baixo do que ela imaginava, com pulsos delicados aparecendo debaixo do

paletó.

— Estou me escondendo, a propósito — revelou Ardie, e completou antes que

Grace pudesse perguntar: — Do Ames. Ele não para de perguntar da Sloane. Eu

disse que ela provavelmente saiu para comer alguma coisa. Ele disse que não a

autorizou a sair para almoçar. Aí respondi que ela é a vice-presidente sênior de

assuntos jurídicos na América do Norte, e que ela não precisa da autorização dele

para almoçar e…

— Você disse isso mesmo? — Grace se endireitou.

Sloane era amiga das duas, mas tecnicamente também era sua chefe, o que

fazia de Ames o chefe da chefe delas.

— É claro que não. Ficou maluca?

— Ah… — disse Grace, confusa.

Ela brincou com a cruzinha incrustada de diamantes que pendia de seu colar.

O zumbido elétrico da bombinha de tirar leite contava o tempo entre elas.

— Então estou escondida aqui feito uma covarde — continuou Ardie. —

Esperando Sloane retornar minha ligação.

Em geral, Ardie desagradava a homens como Ames. Ele detestava ter que falar

com uma mulher para quem não gostava de olhar. Quando perguntou a Ardie

onde Sloane estava, seus olhos não se fixaram nela, e ele se afastou o mais rápido

que pôde. Ela não mencionou essa parte para Grace.

Ardie estremeceu. Era insuportável ignorar os seios de Grace naquela salinha

minúscula.

— Essa máquina suga seus peitos com tanta força que às vezes eles ficam

parecendo uns torpedos. Não dói?

O filho de Ardie, Michael, tinha sido adotado uns quatro anos antes, um final

feliz após anos de luta contra a infertilidade. Ela nunca tinha amamentado, mas sempre imaginou um aleitamento tranquilo, cobiçou o contato pele com pele,

uma echarpe tecida a mão cobrindo o colo das mulheres mais recatadas. Não

aqueles puxões violentos que agora testemunhava.

— Não tanto quanto a boca da Emma Kate, para ser sincera.

(A amamentação deveria ser indolor, diziam. Amamentar era lindo, diziam.

Bem, gostaríamos de arrastar os mamilos das pessoas que dizem isso no asfalto

para mostrar como é realmente indolor e lindo.)

— A gente já inventou escovas de dentes elétricas, pelo amor de Deus — disse

Ardie. — Meu robô aspirador volta para a base e desliga sozinho no fim da noite.

É sério que não conseguimos inventar uma geringonça para tirar leite que

funcione um pouco melhor do que isso?

A máquina era, de certa maneira, grotescamente hipnotizante.

— É que homens têm dentes para escovar. — Grace ergueu as sobrancelhas.

— E chão para aspirar.

Ardie tomou um longo gole da água sabor grapefruit enquanto, na tela, Ellen

DeGeneres recebia um jovem no palco. Ele parecia um adolescente, e Ardie não

fazia a menor ideia de quem era. Ela tocou na tela do telefone: nenhuma

novidade.

— Acabei de ter um pensamento assustador — disse Ardie, depois de um

momento. — Ames pode ser o próximo presidente.

— Não. Você acha?

— Ele tem cara de presidente. É alto. Todo mundo gosta de gente alta. — Ela

abriu e fechou o punho, alongando o túnel do carpo, que era uma ameaça

constante a seu pulso. — Estou falando sério. Aquele desgraçado pode comandar

a empresa, e então como a gente vai ficar?

O problema não eram apenas os boatos envolvendo uma estagiária. Ou o

escândalo envolvendo sua secretária dois anos antes, durante o torneio de golfe

Byron Nelson. (E adivinhe quem demitiram? Alerta de spoiler: não foi Ames.)

Não era nem a ideia de que a cultura corporativa começava pelo topo e que ter

Ames no comando da Truviv seria como anunciar o início da temporada de caça.

O problema era que Ames Garrett detestava Ardie.

— Sei lá — comentou Grace. — Ele sempre foi legal comigo.

Ardie deixou o assunto de lado. Grace era alguns anos mais nova do que ela e

Sloane, e ainda acreditava que alguém podia ser uma “boa pessoa” apesar de suas

ações, como se as ações de alguém não fossem justamente um indicativo de seu

caráter. E Ardie já tinha visto Ames Garrett em ação.

Ainda assim, havia assuntos que não deviam ser discutidos, nem mesmo entre amigas: religião, dinheiro e, talvez, Ames.

Grace girou o botão da bombinha de leite para aumentar a intensidade. Um

dos tubos se soltou e caiu no chão. Uma gota branca respingou na saia dela.

Grace fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, inflando as narinas. Quando

os abriu, seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela esfregou o pulso no nariz e

pegou o tubo errante com uma calma proposital. Errou o buraco duas vezes

enquanto tentava reconectá-lo. A terceira tentativa foi bem-sucedida. Ela se

sentou cuidadosamente no sofá.

— Toda essa história do Bankole é deprimente. — Ela manteve o olhar fixado

na televisão. — É errado não estarmos mais tristes?

Ardie não respondeu, porque Grace parecia muito triste.

Checou o telefone mais uma vez. Apenas uma barrinha de sinal.

Onde estava Sloane?