Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 39 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 38

 

17 DE ABRIL

— A Cosette está aqui.

Sloane acreditava que amigas de verdade não batiam na porta nem tocavam a

campainha; elas simplesmente entravam e se serviam de qualquer garrafa de

vinho aberta que houvesse na geladeira. Aplicara essa filosofia a vida inteira.

— Onde? — perguntou Ardie, sentada a sua mesa.

Era quase cômico como elas continuavam ali, diante de suas mesas, como se

tudo estivesse perfeitamente normal. Uma ação judicial. Um chefe morto. Uma

— ela se atrevia a pensar nisso? — investigação de homicídio. E ali estavam elas,

vestindo seus ternos da Theory e salvando rascunhos no iManage como se isso

tivesse alguma importância.

Exceto Grace. O que diabos Grace estava fazendo?

Sloane andava de um lado para outro no pequeno espaço no qual Ardie havia

sido alocada no décimo quinto andar, e, pela primeira vez, isso não tinha

absolutamente nada a ver com bater a meta diária de passos.

— No prédio, Ardie. Cosette Sharpe está neste prédio neste exato momento.

Está sentindo? — Ela inclinou a cabeça em direção ao teto. — Acho que o ar até

ficou mais frio.

— Por que ela está aqui?

— Eu vou dizer por quê. Ela está ajudando com o caso de assédio sexual. O

nosso caso de assédio sexual, Ardie. E não é do nosso lado. Ela está ajudando a

Truviv.

Ela girou o dedo no ar para demonstrar.

— Uau.

Sloane rangeu os dentes como um pilão em um almofariz.

— Até tu, Cosette?

— Mas... — começou Ardie, e Sloane percebeu que ela tentaria ser racional.

Por que Sloane insistia em se cercar de pessoas tão racionais? Que erro. — Talvez

isso signifique que eles estão realmente levando a questão a sério. Nossas alegações.

Isso fez com que Sloane parasse subitamente diante da ficus-lira no canto da

sala.

— Você acha? — perguntou ela, analisando a ideia.

Ardie deu de ombros. O problema de Ardie era que ela não levava em

consideração os sentimentos das pessoas quando escolhia dar ou não boas ou más

notícias. A notícia simplesmente era o que era: notícia. O que significava que

Sloane podia confiar nela. Ela era uma bússola apontando para o norte. E havia

indicado a Sloane a direção de uma possibilidade que passara despercebida.

— Talvez você tenha razão — disse ela, se acalmando um pouco. — Isso seria

uma preocupação a menos.

Seus olhos se encontraram. Uma admissão discreta e não intencional.

E, sinceramente, não era como se Sloane estivesse preocupada com a

investigação em si. Ou será que “sinceramente” era algo que apenas os

mentirosos diziam? Ela precisava se lembrar disso dali em diante.

A polícia tinha ido recolher os pertences de Ames. No dia que os peritos

criminais chegaram para encaixotar tudo que havia na sala, Sloane se perguntou

o que encontrariam. A atmosfera no escritório foi tomada por um burburinho,

todos alertas diante da possibilidade de obter informações bombásticas, qualquer

uma, para compartilhar. Era como se todos estivessem observando as pessoas

que carregavam o caixão em um enterro para o qual nenhum deles havia sido

convidado. Aplicativos de bate-papo apitavam com as mensagens dos sedentos

por informações, famintos por qualquer migalha. Encontraram alguma coisa?

Havia um bilhete? Aquelas mulheres estavam chantageando o Ames? Ele

realmente escreveu a palavra adeus na sacada? Por que ainda estão investigando?

Muitos dos colegas de Sloane tinham inventado desculpas esfarrapadas para ir

até o balcão das secretárias, feito cópias ou ido ao banheiro um número

desmedido de vezes a fim de dar uma olhada no transporte do computador de

Ames ou na remoção de sua galeria de fotos com famosos. Uma teoria popular

havia surgido, sugerindo que Ames tinha escondido uma carta de suicídio atrás

de uma das fotos, mas até aquele momento nada havia sido encontrado. Nem

mesmo Beatrice conseguira obter informações confiáveis.

Não saber era o problema. Se ele não tinha pulado, alguém devia saber alguma

coisa... Mas quem? Sloane havia feito uma lista de suspeitos.

Katherine estava agindo de maneira estranha, mas a verdade é que ela era um

pouco estranha. Provavelmente sentia que, de certa forma, havia desencadeado

tudo aquilo. A morte de Ames tinha acontecido logo depois que elas entraram com a ação, que surgiu logo após a história de Katherine. Então, sim, ela foi um

catalisador. Grace não tinha ido trabalhar desde o dia da morte de Ames.

Esquisito, sim, mas ela também andava tão sensível desde o nascimento de

Emma Kate que talvez estivesse tentando se poupar do estresse. Ou talvez

estivesse de fato doente. Pelo menos Ardie parecia impassível como sempre.

Sloane queria saber o que realmente havia acontecido e se suas amigas

estavam escondendo alguma coisa, mas ainda não tinha decidido como abordar

o assunto.

Nunca se surpreenda. Era uma estratégia legal sólida. Nunca se surpreenda

com o que o outro lado pode encontrar. E agora ela teria que enfrentar tanto

Cosette quanto a polícia. Então, sinceramente, não era fundamental saber o que

tinha acontecido antes da morte de Ames de forma a proteger a si mesma e suas

amigas?

“Sinceramente.” Lá estava de novo. Aquela palavrinha irritante. Sloane se

aproximou de Ardie e sussurrou.

— Como você acha que o sangue foi parar na sacada?

— Sinceramente, não sei.