Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 42 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 41

 

18 DE ABRIL

Grace hesitou em frente à sala de Katherine, ainda fora de vista, protegendo-se

das implacáveis paredes de vidro. Ela tocou no dedo anelar esquerdo. Tirei para

mandar limpar, dissera a Sloane, o que, estritamente falando, era verdade.

Grace entrou na sala e fechou a porta com suavidade.

— Você voltou — disse Katherine.

— Voltei. — O coração de Grace não conseguia se decidir em que ritmo estava

a fim de bater. Ela precisava pedir duas coisas a Katherine. A questão era qual das

duas pedir primeiro. — Você sabe que a gente jamais pediria algo que você não se

sentisse confortável em fazer, né?

Era uma péssima maneira de começar. Uma versão daquelas mesmas palavras

provavelmente tinha dado início a todo aquele caso sórdido em primeiro lugar.

Katherine franziu a testa, confusa.

Era importante que Grace não estragasse as coisas. Que não estragasse nada.

Mas, apesar de ter passado dias dormindo, estava com dificuldade de organizar

os pensamentos. Ela jurava que alguma coisa acontecera com seu cérebro, algo

anatômico e detectável, desde o nascimento da filha.

Bem-vinda à maternidade, dissera Sloane.

Mas será que na verdade era isso que todos queriam dizer quando falavam em

“cérebro de mãe”?

— Desculpa, vou explicar melhor. — Grace começou de novo. — Sloane,

Ardie e eu estamos pensando nos próximos passos. A mídia, o pessoal da

Truviv… está todo mundo distorcendo a história, agindo como se o Ames fosse

um santo. Agora a Truviv contratou um grande escritório de advocacia de Nova

York, e queremos ter certeza de que nosso lado não será esquecido no meio de

tudo isso, e que não sejamos difamadas pelas circunstâncias. Agora que o Ames

morreu, achamos que talvez você se sentisse mais confortável em compartilhar

sua história.

Grace se deteve antes que dissesse algo como “você precisa ser corajosa” ou “seja forte”, graças a Deus. Também resistiu ao impulso ainda mais persistente de

dizer que havia “rezado” pensando naquela questão e que agora estava

recorrendo a Katherine porque se sentira “no dever” de fazer aquilo — métodos

populares de manipulação no círculo social de sua mãe.

Katherine estava fazendo um movimento estranho com a mandíbula, e Grace

pensou ter ouvido um leve estalo, o que provocou uma dor psicológica na

própria boca.

— Eu…

— Achamos que realmente poderia ajudar. — Grace começou a falar

exatamente na mesma hora que Katherine, e, quando isso acontecia, ela tomava a

decisão consciente de terminar sua frase para evitar o educado “não, não, pode

falar” de duas pessoas tentando conversar fora de sincronia.

— Entendo — afirmou ela. — Vou compartilhar o que aconteceu. Não é um

problema.

Ames havia manipulado as duas. Era engraçado como, mesmo quando aquilo

que as pessoas compartilhavam era desagradável, a parte que mais importava era

o fato de ser algo em comum. Essa era a teoria por trás dos rituais de trote, Grace

imaginava, e ela havia explorado isso com Katherine para fazer com que a outra

concordasse em fazer o que o grupo precisava que ela fizesse.

Mas havia outra questão. Havia o que Grace precisava. E o que ela precisava

era parar de sonhar toda noite que se jogava de um prédio, acordando um

segundo antes de seu corpo atingir o chão.

— Não tivemos tempo de conversar. Depois — disse Grace. A etiqueta em seu

vestido Tory Burch estava pinicando nas costas. Os olhos de Katherine eram

grandes, castanhos e atentos. — Você conseguiu se encontrar com o Ames?

Ele quer falar comigo, dissera Katherine. Se bem que àquela altura Grace

estava tão exausta, depois de uma semana de treinamento do sono com o método

Babywise, que era quase possível que tivesse imaginado coisas. Será que Grace…

Será que Grace estava paranoica?

— Eu só queria saber se você chegou a, bem, procurá-lo…

As duas se encararam por um instante.

— Não. Quer dizer, tentei encontrá-lo, mas não consegui. Não conversamos.

— Katherine abriu um sorriso abatido. — Acho que ele tinha… Bem, ele devia

ter outros planos em mente, no fim das contas.

Será que Katherine estava dizendo a verdade? Será que ela, na realidade, tinha

visto alguma coisa? O que ela sabia?

— Provavelmente foi melhor assim — concluiu Grace, o clima pesado entre as duas.

Quando Katherine passou a mão pelo cabelo, Grace notou uma linha aquosa

de sangue, uma faixa vermelha de pele em carne viva que se estendia pela base da

unha do dedo indicador.

 

* * *

 

Algum tempo depois, Sloane e Ardie se juntaram às duas para acompanhar

Katherine até o departamento de recursos humanos. Grace abraçou a colega, as

omoplatas delgadas dela afundando em suas mãos. Elas disseram as coisas que

amigas falam nos momentos em que não há muito a dizer. Disseram a ela que

tudo ia ficar bem, que ela estava fazendo a coisa certa, que estavam ali para

apoiá-la, que ela era incrível, e era quase impossível imaginar algo parecido

acontecendo com um grupo de amigos ou colegas homens. Grace viu Katherine

desaparecer atrás do vidro fosco, e as três esperaram mais alguns segundos até

ficar claro que não eram mais necessárias ali.

Tudo ficaria bem. Ela estava fazendo a coisa certa. As amigas de Grace

estavam lá para apoiá-la. Mas, quando entrou novamente no elevador, seu

reflexo obscurecido nas portas de metal fosco, Grace se perguntou quando, se é

que isso aconteceria um dia, deixaria de pensar nas últimas palavras que dissera a

Ames Garrett lá em cima naquela sacada.

 

* * *

 

Três horas depois, Grace ainda não tivera notícias, tampouco Ardie e Sloane,

mas era fácil se convencer de que aquilo era normal, por mais relativo que esse

termo fosse naquelas circunstâncias. Ela poderia pensar em algumas razões. A

empresa estava considerando um acordo depois da denúncia de Katherine.

Talvez outras mulheres também compartilhassem suas histórias. Grace tinha

ouvido falar que algo assim acontecera em uma emissora nacional de TV. Um

efeito cascata. Talvez a diretoria estivesse esperando para anunciar o nome do

próximo presidente antes de encerrar aquela questão de assédio — boas notícias

para amenizar as más.

Mas então ela viu dois funcionários do prédio tirando caixas do escritório de

Katherine e seu coração disparou. Toc, toc, toc, quem está aí, Grace?

Ela foi até lá.

— Com licença. — Grace sinalizou para eles. — O que exatamente vocês estão

fazendo?

Katherine tinha sido demitida. Grace não conseguia acreditar. Katherine

tinha razão de não se arriscar a ir contra a empresa. Ela deveria ter se juntado a

elas no processo ou ficado calada. O RH não é seu aliado! Tinha lido isso em

algum lugar, mas nunca suspeitara de que fosse verdade.

Os funcionários do prédio pararam de empurrar o carrinho. Um homem com

um bíceps da grossura das coxas de Grace olhou para ela, de alto a baixo.

— Estamos transferindo os pertences da srta. Bell para um escritório

temporário no andar de cima.

— No andar de cima?

Grace tinha um olhar de preocupação que era ao mesmo tempo sincero e

dissimulado. Sua tensão diminuiu. O pico de culpa caiu para o nível anterior, que

já era alto, mas pelo menos suportável.

— Sim, senhora.

— Por que lá em cima?

O homem pigarreou.

— Imagino que seja porque é onde a srta. Bell vai ficar agora. Esta é a sala

certa, não é? — Ele semicerrou os olhos, passando o dedo na primeira letra na

placa de identificação, cujo resto dizia claramente: KATHERINE BELL.

— É, sim — respondeu Grace.

Ele deu de ombros e levantou as caixas do chão novamente. Ela não fez nada

para impedi-lo.

Um homem vestindo uma camisa polo úmida estava parado na frente de sua

sala quando ela voltou.

— Grace Stanton?

Ele usava calça cáqui e estava com a testa brilhando.

— Sim, sou eu.

Ele carregava um envelope na altura da cintura, e ela notou esse fato com o

mesmo pânico surreal de alguém que tem o cano de uma arma apontado para a

cabeça.

— Grace Marie Stanton. — Ele estendeu o envelope, e ela teve um impulso de

autopreservação de sair correndo sem olhar para trás. — Você foi intimada.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Diga seu nome, por favor.

Testemunha: Katherine Bell.

Sra. Sharpe: Qual é sua ocupação, srta. Bell? Testemunha: Sou advogada na Truviv, Inc., na área de direito corporativo

e empresarial.

Sra. Sharpe: A senhorita conhecia Ames Garrett? Testemunha: Sim. Apenas depois que comecei a trabalhar na Truviv. Ele

era o diretor jurídico. Eu me reportava a Ames e também a Sloane Glover, que trabalhava diretamente abaixo dele.

Sra. Sharpe: Qual era sua impressão do sr. Garrett? Como foi a

experiência de trabalhar para ele?

Testemunha: Eu o achava extremamente inteligente. Ele me recrutou em um

escritório de advocacia em Boston, e fiquei grata pela oportunidade. Eu nunca tinha trabalhado no departamento jurídico de uma empresa, então ele se dispôs a me orientar para que eu me inteirasse de tudo. Ele dava trabalhos interessantes para os advogados sob sua supervisão. Fiquei realmente animada quando soube que ele tinha a possibilidade de ser promovido a presidente da empresa. Imaginei que isso seria visto como algo positivo para o departamento jurídico.

Sra. Sharpe: Ele já fez alguma tentativa indesejada de aproximação?

Alguma vez a tocou de alguma forma inapropriada?

Testemunha: Não.

Sra. Sharpe: Já o testemunhou fazendo esse tipo de abordagem no

escritório com outras mulheres? Testemunhou algum comportamento do sr. Garrett que pudesse chamar de “assédio sexual”?

Testemunha: Não.

Sra. Sharpe: Estava ciente de que havia outras mulheres no escritório

que tinham outra opinião e que, na verdade, planejavam processar o sr. Garrett e a Truviv, Inc.?

Testemunha: Sim.

Sra. Sharpe: Como ficou sabendo disso?

Testemunha: Desde que comecei a trabalhar lá, ficou bem claro que a

Sloane e a Ardie odiavam o Ames. Eu não tinha certeza de como a Grace se sentia em relação a ele, mas a Sloane era a chefe, então nós todas meio que tínhamos que compactuar com ela. A sensação era de que ou você fazia parte do grupinho ou estava fora. Estava do lado delas ou contra elas. Eu sentia que, para fazer parte do grupo, tinha que estar disposta a ouvi-las reclamar do Ames. Era muito parecido com efeito manada. A Sloane era minha superior direta, então eu queria cair nas graças dela. Almocei e saí algumas vezes com as três — eu tinha acabado de ser contratada —, e logo ficou claro que elas estavam elaborando uma espécie de vingança pessoal contra o Ames. Era tipo um passatempo. Elas praticamente só falavam disso. Quero acreditar nas mulheres. De

verdade. Mas a Sloane ficou satisfeita demais depois de acrescentar o nome do Ames à lista de homens CILADA. Era como se estivesse se gabando.