Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 23 de 62

Páginas do PDF

Rede de Sussurros

Capítulo 22

 

3 DE ABRIL

Nossas segundas-feiras chegavam com sentimentos contraditórios — culpa,

medo, estresse, fadiga e alívio. Quando o fim de semana terminava, estávamos

loucas para entrar na internet. Salivávamos diante da oportunidade de navegar

por sites de compras e tomar o café fornecido pela empresa sem sermos

interrompidas. Sabíamos que havia mais pendências a serem resolvidas no

domingo. Que deveríamos ter trocado a lâmpada do banheiro e pagado a conta

do médico que já estava na bancada da cozinha havia um mês. Às segundas-

feiras, tínhamos a consciência amarga de que fazia tempo que havíamos

abandonado as férias de verão, que a monotonia do trabalho fluía ao longo das

quatro estações, que um fim de semana era, em sua essência, apenas um dia de

folga de fato, seguido de outro dia em que nos fortalecíamos para enfrentar o

massacre iminente da semana seguinte, porque não tínhamos usado nosso tempo

livre para nos atualizar em relação aos relatórios de despesas como havíamos

planejado. Em vez disso, tínhamos nos dedicado a uma maratona de episódios de

Jane the Virgin. As segundas-feiras chegavam com a mesma promessa das

resoluções de Ano-Novo: íamos nos alimentar melhor, fazer mais exercícios,

procrastinar menos, não deixar que nossos filhos vissem tanta TV. Elas chegavam

com a certeza modesta e intuitiva de que até sexta-feira teríamos fracassado em

pelo menos metade dessas metas.

Naquela segunda-feira em particular, ligamos nossos monitores, ouvimos

nossas mensagens de voz, checamos os e-mails, reabastecemos nossos

grampeadores, fizemos anotações em post-its, indiferentes às rachaduras que se

espalhavam pelo vidro sob nossos pés. Aquele dia chegou sem alarde, sem nada

indicando que se tratava da última segunda-feira de normalidade.

 

* * *

 

Grace Stanton tinha uma linda caligrafia. Tinha sido titular das equipes principais de futebol e tênis no ensino médio. Cozinhava bem o bastante. Tinha

estudado na faculdade de direito da Universidade do Texas e se formara não

como a melhor da turma, mas definitivamente entre os vinte melhores. Limpava

a geladeira regularmente. Lia um livro por semana. Falava francês.

A verdade era que Grace Stanton era boa em quase tudo.

Então por que chegou ao escritório na manhã de segunda-feira se sentindo

um fracasso?

Grace simplesmente não conseguia explicar. Tentou mentalizar o que falaria

para uma amiga: Você está sendo muito dura consigo mesma. Você é maravilhosa.

Pare de se martirizar por coisas sem importância. Ninguém nem percebe.

O problema era que, quando dizia essas coisas para uma amiga, estava sendo

sincera.

Grace fechou a aba de The Skimm, uma newsletter para mulheres que

explicava as notícias mais importantes do dia, e acessou um blog de design de

interiores que gostava de acompanhar, até que não pôde mais evitar o dia.

Um aquecedor portátil contrabandeado zumbia a seus pés quando ela se

voltou para um resumo das atualizações regulamentares mais recentes e

começou a avaliar os arquivos para verificar se alguma das alterações propostas

impactaria a Truviv. Fez algumas anotações em um documento do Word sobre

questões a serem encaminhadas a um advogado externo, que faria as pesquisas

adequadas por ela.

Estava finalmente absorvida no fluxo de trabalho quando ouviu um baque na

porta. Ergueu a cabeça e viu a mão de Ames no batente, como se ele estivesse

passando pelo corredor e então se segurado ali antes de perder a saída.

Ele deu um passo para trás.

— Ah, oi — disse, estalando os dedos antes de socar a mão com o punho. Seu

pai costumava fazer a mesma coisa. — Por acaso você teve tempo de dar uma

olhada naquele favor que discutimos na semana passada?

Ames coçou a bochecha, onde fios brancos salpicavam a barba por fazer do

fim de semana.

Grace estava acostumada a homens aparecendo em sua sala com certa

frequência e sabia que acontecia mais com ela do que, digamos, com Ardie. E se

isso lhe causasse mais do que uma leve irritação, talvez considerasse mudar o

visual. Mas vinha de uma família de mulheres sulistas que usavam salto alto até

para ir ao mercado. Velhos hábitos não eram difíceis de mudar. Simplesmente

não mudavam.

— Na verdade, ainda não. — Ela se esforçou para manter o tom despreocupado de Ames.

Ele passou a mão no cabelo, fazendo com que a mecha branca no topete

desaparecesse por um momento.

— Entendo.

Os dedos de Grace ainda pairavam sobre o teclado.

— Mas está na minha lista de prioridades.

Não era que ela tivesse se esquecido do favor que Ames lhe pedira. E não era

que não quisesse fazê-lo.

Por que não deveria? Era uma coisa tão pequena... Ela gostava de Ames, e ele

via algo nela. Ela podia gostar de Ames, não podia?

Grace sorriu para o chefe, lembrando-se de como deixar um homem à

vontade. Era simples, na verdade: um sorriso caloroso, uma risada fácil e —

pronto — não importava o homem com quem estivesse falando, ele se sentia

instantaneamente mais feliz. Na verdade, já estava funcionando.

Ele cruzou os braços e apoiou o ombro no batente da porta.

— Você sabe que eu nunca iria querer que você fizesse nada que a deixasse

desconfortável.

Ele apoiou o nó de um dos dedos na boca, estudando-a.

— Claro. — Grace afastou as mãos do teclado e as apoiou no colo. — Claro

que não.

E, pensou ela, ele provavelmente nunca iria querer que ela fizesse nada que o

deixasse desconfortável também.

Ela poderia mentir. Era uma opção. Mas uma boa opção? Provavelmente não.

— Enfim, tenho que ir. O pessoal da comissão de remuneração marcou uma

reunião agora.

Em um momento de puro cinismo, ela se perguntou se a menção à

remuneração era uma coincidência ou uma indireta. Então se lembrou de como

Ames tinha sido legal com ela quando estavam na sacada, do plano deles para

alavancar a carreira de Grace na empresa, e se arrependeu.

— Mas… — Ele estalou os dedos e apontou para cima. — Talvez, depois que

você terminar hoje, possamos ir até a sacada para um… — Ames fez um gesto

como se estivesse fumando. — Tenho alguns projetos em vista que talvez

interessem a você. E adoraria ouvir sua opinião sobre algumas questões

regulatórias.

— Bem, você sabe como eu adoro… questões regulatórias.

Uma conversa de trabalho inofensiva. Ela cedeu.

— Foi bom conversar com você, Grace. — Ele piscou. — A gente se fala mais tarde.

Ao sair, deu duas batidinhas na porta.

A tela do computador diante dela tinha entrado em modo de espera. Ela

mexeu no mouse para trazê-la de volta à vida. Pensou naquela conversa, pensou

e não viu escolha a não ser fazer o que Ames havia pedido. Mas seria errado? Em

se tratando de negócios, o objetivo não era sempre conseguir o máximo que

achava ser possível impunemente?

Grace encarou a questão de outro ângulo e perguntou a si mesma: se tivesse

escolha, uma escolha sem consequências, o que faria?

Talvez a resposta não mudasse. E se fosse realmente o caso, então isso deveria

ser um conforto. Ames era casado, com filhos… Tinha um passado complicado

com Sloane, sim, mas isso não fazia dele um monstro.

Ele podia ser babaca, não havia dúvida. Não com ela, mas, tinha que admitir,

às vezes era. Mas duvidava que Sloane e Ardie, por exemplo, tivessem tanta

experiência com homens de determinado feitio quanto ela. Porque Grace tinha

crescido em Cotillion, tinha debutado, participara de uma fraternidade na

faculdade e, em cada parada, tinha compreendido o discreto alicerce no cerne do

comportamento desses homens: prerrogativa.

De qualquer forma, “prerrogativa” não era uma palavra tão obscena assim, a

menos que você permitisse que fosse. Significava apenas que você achava que

tinha direito a algo valioso.

Grace achava que merecia mais dinheiro e reconhecimento. Na verdade,

acreditava que tinha direito a isso. E se perguntou se aquilo era o que precisava

fazer para conseguir. Para ser algo além de uma “mãe de primeira viagem”.

Ela abriu um documento em branco, digitou a data no canto superior

esquerdo. Hesitou. Seus dentes perfuraram o interior rosado da bochecha. Ela

verificou a hora. O cursor piscou.

Havia apenas um fio solto que ela precisava amarrar.

 

* * *

 

— Katherine?

Grace enfiou a cabeça na sala da colega. Lá dentro as paredes ainda estavam

brancas, brancas como alabastro, sem uma foto ou um diploma sequer para

quebrar a monotonia estéril do ambiente. Mais parecia um hospital psiquiátrico.

— Como está se sentindo? — perguntou Grace, entrando sem ser convidada.

— Fisicamente? Ótima. — Katherine fechou os olhos por um segundo. — Emocionalmente? Um pouco envergonhada. Fiquei bêbada na festa de

aniversário de uma criança de quatro anos.

Ela apertou a ponte do nariz.

Grace fez um gesto com a mão, minimizando a questão.

— Não fique. Estou contando os dias até meus peitos ficarem livres e eu poder

consumir álcool à vontade.

Grace olhou para os próprios seios, que já estavam começando a inchar de

leite. A contagem regressiva para o temido processo de se trancar naquela sala

minúscula que mais parecia uma cela e acoplar no corpo aquele equipamento

laboratorial começou a correr silenciosamente em sua mente. Embora tivesse

substituído uma das sessões de ordenha por um cochilo, ainda tentava manter o

compromisso de tirar leite com a bombinha. Compromisso com tudo, na

verdade. Com a perfeição. Era apenas um pequeno deslize. Não era como se

Grace tivesse dado uma chupeta para Emma Kate nem nada do tipo.

— Hashtag “libertem os peitos da Grace” — disse Katherine. — Isso deveria

estar impresso em camisetas.

— Hum… — Grace estalou os dedos. É sério. Igual a Ames. Ela juntou as

mãos, controlando-se. — Eu queria perguntar uma coisa: você ainda está

hospedada no Prescott?

— Não. — Katherine empurrou o mouse e se recostou na cadeira ergonômica.

Onde Katherine estava morando de alguma forma não tinha sido mencionado

durante o fim de semana e isso parecia estranho, agora que Grace pensava no

assunto. — Acabei de me mudar para meu apartamento novo. Você… Você devia

dar um pulo até lá qualquer dia desses.

Grace notou que Katherine desviou o olhar ao dizer isso, e só voltou a encará-

la quando terminou de falar. Ela poderia estar enganada, mas achava que

Katherine estava prendendo a respiração.

— Eu adoraria — respondeu ela logo, e foi sincera. O sorriso de Katherine foi

rápido e fugaz. — Mas na verdade o que eu queria perguntar… Quem arrumou o

quarto para você mesmo? No… No Prescott.

Ela estava sendo óbvia, não estava? Ela se sentia óbvia. Mas em relação a quê?

Nada seria óbvio se não houvesse nada a esconder. Grace relaxou.

Katherine voltou a atenção para a tela, deslizando a cadeira para mais perto da

mesa.

— Uma amiga. Por quê?

Uma rápida olhada para Grace, depois de volta para a tela.

— Ah, por nada. — Grace nunca tinha gostado de ficar na sala de outra pessoa, com as costas completamente expostas para o painel de vidro. — Eu só

estava curiosa. Procurando um contato também, talvez. Nada de graça, é claro.

Qual é o nome dela?

Os olhos de Katherine percorreram a tela. Sua boca se moveu discretamente,

lendo em silêncio o que quer que houvesse lá.

— Alice. — Outro rápido olhar na direção de Grace. — Alice Baxter.

— Alice… — repetiu Grace.

— Mas não sei se ela ainda tem o contato de lá. — Katherine fez Grace parar

quando ela estava se virando para sair. — Mas posso verificar, é claro.

— Seria ótimo. Obrigada.

Grace viu seu contorno fantasmagórico no vidro enquanto se dirigia para a

porta e, momentos depois, estava de volta à sala — sua base —, onde podia se

esconder atrás da própria tela de computador.

Alice Baxter. Será que Katherine estava falando a verdade? Ela deveria ter

perguntado sem rodeios: Ames Garrett estava pagando pelo seu quarto no

Prescott? Não, isso teria sido grosseiro.

Ela pensou na mentira que contara a Liam, como tinha sido fácil dizer que ia

trabalhar a noite toda. Talvez as mulheres fossem simplesmente ótimas

mentirosas.

Grace se sentou e pensou por um momento. O Facebook era bloqueado nos

computadores da Truviv, mas ela pegou o celular e abriu o aplicativo. Digitou o

nome de Katherine, procurou a pessoa correta na lista e enviou uma solicitação

de amizade. Conseguiu se concentrar no seu trabalho por quinze minutos, até

seu telefone a alertar que ela agora era amiga de Katherine Bell. A amizade era

oficial.

Grace passou o indicador pela tela e acessou a lista de amigos de Katherine.

Era curta. Muito curta, para uma mulher da idade dela. Mas lá, no topo, estava o

nome: Alice Baxter.

Grace largou o telefone. Pronto. Confirmado. Ela se sentia melhor agora.

Consciência tranquila. Abriu o documento do Word, inseriu a data no topo da

tela e começou a digitar.

Transcrição de depoimento

 

27 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Diga seu nome, por favor.

Ré 3: Grace Stanton.

Sra. Sharpe: Qual é sua ocupação, sra. Stanton? Ré 3: Eu sou advogada do departamento jurídico da Truviv. Cuido de

questões regulatórias, principalmente as que envolvem a Comissão de Valores Mobiliários.

Sra. Sharpe: Há quanto tempo trabalha na Truviv? Ré 3: Seis anos.

Sra. Sharpe: E quem é seu chefe?

Ré 3: Sloane Glover, vice-presidente sênior de assuntos jurídicos para a

América do Norte.

Sra. Sharpe: E Ames Garrett?

Ré 3: Sim, ele era um dos meus superiores. Diretor jurídico da empresa.

Todos no departamento jurídico tecnicamente se reportavam ao sr. Garrett.

Sra. Sharpe: Você conhecia bem o sr. Garrett? Ré 3: Apenas profissionalmente.

Sra. Sharpe: O sr. Garrett alguma vez a assediou sexualmente, sra.

Stanton?

Ré 3: A mim, não. Minha queixa diz respeito ao artigo VII da Lei dos

Direitos Civis, e se baseava em um ambiente de trabalho inseguro.

Sra. Sharpe: Sim, estou ciente da fundamentação jurídica de sua queixa.

Minha dúvida é com a questão factual. Sra. Stanton, pode, por favor, examinar a Prova 13, que acabo de colocar na sua frente? Eu espero.

A senhora escreveu essa carta?

Ré 3: Escrevi.

Sra. Sharpe: Pode, para que conste dos autos, descrever a carta para

nós?

Ré 3: É uma carta de recomendação, acho que poderíamos chamar assim. Uma

recomendação ao conselho de diretores.

Sra. Sharpe: Uma recomendação em favor de quem? Ré 3: Ames.

Sra. Sharpe: Uma recomendação… ou carta de recomendação… em favor de

Ames Garrett para o cargo de presidente da Truviv, correto?

Ré 3: Sim, correto.

Sra. Sharpe: A senhora escreveu, e vou citar: “Ames Garrett foi um

mentor. Ele é brilhante e ambicioso e sua porta está e sempre esteve aberta para mim todas as vezes que tive um problema, fosse pessoal ou profissional. Valorizo meu relacionamento com Ames e estou ansiosa para dar continuidade a essa relação em qualquer cargo a que possa vir a ocupar na Truviv no futuro.” São palavras bastante elogiosas para descrever um homem que a senhora processou não mais do que… hum… duas semanas depois.

Ré 3: Não acho que o número de dias ou semanas seja tão importante

quanto o que aconteceu nesse meio-tempo, assim como a razão que me levou a escrever a carta em primeiro lugar, não concorda?

Sra. Sharpe: Por que escreveu a carta?

Ré 3: Eu me senti pressionada. Achei que seria bom para minha carreira

ajudá-lo com esse favor que ele havia pedido.

Sra. Sharpe: O que exatamente ele fez para pressioná-la? Ré 3: Ele pediu. Como era meu superior, senti que tinha que fazer o que

ele pediu. Ele poderia determinar o futuro da minha carreira e da minha remuneração.

Sra. Sharpe: A senhora tem o hábito de mentir quando está sob pressão? Ré 3: Não.

Sra. Sharpe: Nem se for bom para sua carreira?