Rede de Sussurros
Capítulo 5
20 DE MARÇO
Trocávamos poucas palavras no elevador. Entrávamos, cheirando a xampu e
enxaguante bucal. A suave pressão sob os pés, nos levando para cima, nos
transportando para nossos andares. Toda vez que as portas se abriam, surgia um
pequeno portal para outro mundo.
Viramos especialistas em classificar umas às outras pelos respectivos andares
antes mesmo que o botão fosse apertado. Marketing? Bem-vinda ao oitavo andar,
o cemitério de ex-animadoras de torcida no limbo enquanto decidem se fazem
ou não pós-graduação. Líder do setor de vendas no décimo segundo andar?
Reparávamos em suas unhas perfeitamente manicuradas tamborilando na tela do
celular, a bolsa de marca pendurada no ombro anunciando que seu ano estava
correndo realmente bem. Podíamos perguntar discretamente a uma
coordenadora de desenvolvimento de produto onde tinha comprado os óculos
novos. Ou abrir espaço para a mulher de terninho preto que entrou depois de
nós e apertou resolutamente o botão do décimo quinto andar.
Mas o que sabíamos de fato umas sobre as outras? Estávamos separadas por
aço e patamares. Nossos universos pareciam desconectados, esbarrando-se
apenas ocasionalmente devido à proximidade. Ou era o que pensávamos.
Bastava que batêssemos na porta dos mundos umas das outras para descobrir
como nossas histórias se entrelaçavam, entremeando fios em comum em um nó
atado por nós mesmas.
Foi isso que aconteceu quando Rosalita e Crystal, a garota nova, estavam de
pé em frente à porta de uma sala do décimo quinto andar. Alarmada, Crystal
sussurrou:
— Tem alguém lá dentro.
Ela se afastou subitamente, como se a porta a tivesse queimado. Rosalita
soltou um suspiro, sem esconder a irritação, o que era seu objetivo.
Eram nove e meia da noite. Juntas, Rosalita e Crystal estavam limpando os
andares às escuras, aspirando e esvaziando lixeiras, passando pano em bancadas e repondo rolos de papel higiênico. Os aquários das salas eram verdadeiros
buracos negros. Lá dentro, as luzes automáticas do corredor iluminavam o
cubículo no qual as duas mulheres trabalhavam. Quando saíam, as luzes se
apagavam.
As luzes costumavam incomodar Rosalita. Faziam com que se sentisse sob um
holofote, sendo observada. Pior: às vezes um conjunto de lâmpadas se acendia no
fim de um corredor, e ela ficava paralisada, com o coração acelerado, esperando
que alguém surgisse. Ninguém aparecia, e ela terminava a ronda olhando por
cima do ombro de tempos em tempos.
“Mariposas”, sua supervisora lhe dissera certa vez. Isso fora anos antes,
quando Rosalita tinha começado a trabalhar como faxineira, alguns meses depois
de o tio ter buscado ela e a irmã no Vale em uma van abafada. Depois de um
tempo, deixou que outras preocupações substituíssem as luzes.
— Não tem problema — disse Rosalita, assinalando todas as salas que já
tinham limpado como “conferido” no papel preso à prancheta.
Na reunião que antecedera seu turno, ficara feliz por ser designada para
limpar os andares de sempre. Um dos executivos tinha morrido e logo chegaria a
hora de limpar a sala dele. Rosalita não queria nem chegar perto de lá.
— Devo bater? — perguntou Crystal.
Rosalita passou por Crystal, deu duas batidinhas na porta entreaberta e, sem
esperar resposta, entrou com passos decididos na sala ainda ocupada do décimo
quinto andar. Pegou a lixeira e os caixotes de reciclagem e os levou para o
corredor.
Era assim que a garota nova aprenderia.
Rosalita tinha descoberto que o segredo de ser invisível não era andar na
ponta dos pés. Isso só servia para chamar mais atenção e deixar todo mundo
inquieto. Não, o segredo da invisibilidade era ser veloz e ter objetividade. Essas
qualidades faziam com que as pessoas relaxassem e continuassem fazendo o
trabalho como se ela não estivesse ali.
Rosalita esvaziou os cestos de lixo. Substituiu o saco plástico e entrou
novamente na sala. A loira ergueu o olhar da tela do computador.
— Como está sua noite? — perguntou a mulher para Rosalita em um tom
amigável.
Rosalita recolocou as lixeiras no canto e bateu as mãos enluvadas.
Ela reconheceu a mulher confiante de cabelo loiro. Sloane Glover, seu nome
estava escrito na plaquinha prateada do lado de fora da porta. Rosalita a achava
parecida com uma apresentadora de programa de TV, elegante e vivaz. Era bem o tipo de mulher branca que causaria um incêndio midiático internacional se um
dia fosse dada como desaparecida.
— Ótima — respondeu Rosalita. — E a da senhora?
A mulher suspirou e se reclinou na cadeira.
— Como se diz “noite de merda” em espanhol?
Rosalita soltou uma risada seca, do tipo que vem de um infortúnio em
comum.
Sloane levantou a cabeça abruptamente.
— Desculpa. Meu Deus.
Ela balançou a cabeça e apertou as têmporas com a ponta dos dedos. Não
parecia tão confiante e cheia de vida naquele dia. Seus olhos, Rosalita reparou,
estavam avermelhados. Havia um site de compras aberto na tela do computador.
— Eu… não tive intenção. Sou uma idiota. Foi uma coisa totalmente
insensível de se dizer. De supor, na verdade. — Sloane encarou Rosalita nos
olhos. — Foi uma noite longa, mas isso não é desculpa.
Ela ergueu uma das mãos, como se estivesse se defendendo de uma agressão.
Rosalita esperou pacientemente até que Sloane terminasse. Ela tinha muitas
palavras em mente e todas pareciam precisar sair ao mesmo tempo.
— Noche de mierda — disse Rosalita.
— O quê?
— Noite péssima. De mierda. — Rosalita franziu a testa. — Ou… no vale
mierda. De pura mierda. Tanto faz.
Ela deu de ombros. Rosalita não via por que ficar ofendida com a suposição
de Sloane. Tinha cabelo escuro e ondulado, pele morena. Falava com um sotaque
carregado. Além disso, morou em Guanajuato até os doze anos. Claro, havia
momentos em que Rosalita não gostava que lhe pedissem para falar espanhol —
principalmente quando o pedido partia de um homem (um fetiche). Fora isso,
ela não ficava muito ofendida, como algumas das moças mais jovens. Exigia
energia demais.
Sloane sorriu, agradecida.
— De mierda mesmo. Obrigada. — Em um impulso, a loira voltou a olhar
para a tela, mas então se lembrou e encarou Rosalita. Seu sorriso vacilou. — Sinto
muito — desculpou-se pela segunda vez em menos de cinco minutos.
Rosalita sabia que tinha sido dispensada. Não ficou chateada com Sloane, que
estava com cara de quem com certeza já deveria ter ido para casa.
Ao voltar para o corredor, assinalou o quadradinho ao lado da sala de Sloane
Glover na prancheta.
— Vá pegar uma garrafa de água mineral para a sra. Glover na geladeira —
pediu a Crystal. — Eu cuido da próxima sala.
A garota obedeceu. Crystal era jovem e, Rosalita supunha, possivelmente
estava grávida, embora escondesse bem a barriga por baixo da camisa polo
folgada da empresa.
Rosalita empurrou o carrinho da limpeza, de forma lenta e metódica, pelo
corredor acarpetado. O que ela sabia com a certeza de alguém que já tinha visto
aquilo muitas vezes antes era que, naquela noite, Sloane Glover estava bêbada.
Ardie Valdez
Então… Como foi? O que você descobriu? Qual é a história dela?
Grace Stanton
Como foi o quê? Do que você está falando? Quem?
Ardie Valdez
Sloane saiu com o Ames e a Katherine ontem à noite para tomar uns drinques. A
Katherine é a mulher da reunião de ontem. Parece que é nova. Começou ontem. Ames
contratou sem falar com a Sloane. Clássico.
Grace Stanton
Desculpa, estou por fora. Drinques… com o Ames? Sério?
Sloane Glover
Oi! Oi! Estou aqui. Acabei de voltar para a empresa. Enfim… Sim, drinques com o
Ames. Sem incidentes. Comportamento exemplar. Katherine. Tem. Pedigree. Tipo,
exposição de cães de Westminster. Faculdade de direito em Harvard. Advogada no
escritório Frost Klein. De Boston. (Daí os sapatos?) Sem muito do “calor sulista”, se é
que me entendem. Talvez leve um tempo para se entrosar. Mas que se dane, estou
atolada. Graças a Tina Fey, ela é inteligente.
Ardie Valdez
Ei, o que todas as secretárias estão olhando tanto na tela da Beatrice? Parece uma
planilha. Por acaso alguém está desenvolvendo algum projeto importante no Excel?
Grace Stanton
Não sei, mas ouvi as estagiárias falando de uma planilha ontem. Alguma coisa a respeito de homens canalhas em Dallas. Esqueci de contar pra vocês. Alguém tem uma barrinha? Estou morrendo de fome.
Ardie Valdez
Não, desculpa. Mas tenho salgadinho integral na minha mesa. Pode pegar.