Rede de Sussurros
Capítulo 40
18 DE ABRIL
Vivíamos com a culpa da mesma maneira que outras pessoas viviam com
condições médicas crônicas, só que nosso problema era ainda menos tratável,
disso não havia dúvida. Tínhamos culpas para todos os gostos: culpa da mãe que
trabalha fora, culpa da mulher sem filhos, culpa porque tínhamos recusado uma
obrigação social, culpa porque tínhamos aceitado um convite para o qual
sabíamos que não teríamos tempo, culpa por recusar trabalho e por não recusar
quando sentíamos que já estávamos sendo exploradas demais. Sentíamos culpa
por pedir mais e por não pedir o suficiente, culpa por trabalhar de casa, culpa por
comer um bagel, culpa católica, culpa presbiteriana e culpa judaica, cada uma à
sua maneira. Sentíamos culpa se não estivéssemos nos sentindo culpadas o
suficiente, de tal forma que começamos a nos orgulhar dessa capacidade de
funcionar sob conflito moral. Às vezes chegávamos ao ponto de sugerir a
redução do nosso próprio salário simplesmente para aliviar a culpa de ter um
emprego e ser mãe ao mesmo tempo.
Nós nos perguntávamos toda hora: estávamos fazendo a coisa certa?
Estávamos estragando tudo? A gente gostaria de poder dizer que, diante de tudo
aquilo, isso havia mudado, que adquirimos uma nova perspectiva. Em vez disso,
simplesmente passamos um pouco mais de desodorante, abrimos o pacotinho de
antiácido, preparamos nosso melhor sorriso falso e aperfeiçoamos nossas
habilidades.
Porque descobriríamos que uma de nós realmente era culpada.
* * *
— Bi-bi!
Sloane abaixou o vidro da janela de seu novíssimo Volvo. Seu punho
pressionou a parte macia do volante, que afundou como a moleira na cabeça de
um bebê. O carro vociferou. Era a mãe dela que costumava atribuir palavras aos ruídos — toc-toc, bi-bi, pou-pou —, e Sloane tinha revirado os olhos
respeitosamente até dar à luz e de imediato começar a fazer o mesmo com
Abigail. Aquilo tinha se tornado instintivo e ainda era; estava se transformando
na própria mãe, dia após dia.
Ela parou com um solavanco na entrada de cascalho da casa de Grace e Liam.
A porta da frente — pintada de azul-petróleo da Farrow & Ball — se abriu, e
Grace apareceu na varanda.
Uma pashmina branca cobria seus ombros, dando-lhe a aparência delicada de
um origami, os braços cruzados.
— Eu disse que não tinha certeza de que estava me sentindo bem para ir
trabalhar hoje. — Ela estreitou os olhos, como se o sol a incomodasse.
Sloane nunca pedira a Grace que se juntasse a elas no processo contra Ames,
mas recentemente tinha sido acometida pela preocupação incômoda de que a
amiga pudesse ter se sentido pressionada, considerando que Sloane era sua
superior, assim como Ames tinha sido. Sloane odiava preocupações,
especialmente aquelas que a incomodavam.
Ainda assim, pouco importava agora que Ames estava morto e o processo,
aberto. Sloane apenas sentia a necessidade urgente de reunir as amigas, trazê-las
para perto, mantê-las sob sua asa. A borda do precipício nunca parecera tão
próxima quanto nos últimos dias. Uma viga havia se materializado, e todas as
quatro — Sloane, Ardie, Grace e Katherine — estavam agora equilibradas em
cima dela. Um pé na frente do outro, o chão de concreto girando em uma espiral
vertiginosa abaixo. Uma queda fatal, ela temia, poderia ser contagiosa.
Assim como um empurrão.
— Grace — disse ela, em meio ao ronco do motor —, sabe que precisamos de
você no escritório. É... estranho sem você lá.
Grace, por sua vez, não discutiu. Ela não era de discutir.
Entrou em casa e voltou com a bolsa. No banco do passageiro, se sentou
cuidadosamente ao lado de Sloane e colocou o cinto, as unhas cutucando as
costuras do banco de couro.
— Quer conversar? — perguntou Sloane, dando ré até a rua.
Sloane seguiu pelas ruas largas de Highland Park, onde policiais não tinham
nada melhor para fazer do que chamar a atenção das pessoas por deixar de parar
completamente o carro antes de atravessar um cruzamento vazio. Só depois de
passarem pelo Highland Park Village, o shopping do bairro, com suas vitrines
inacessíveis de marcas como Carolina Herrera, Fendi e Balenciaga, foi que Grace
respondeu.
Seu olhar perfurava o para-brisa.
— Estou bem, de verdade. Desculpa. Você lembra como foi quando teve a
Abigail. — Seus olhos se voltaram por um breve momento para Sloane:
esperança e acusação. — A combinação de tudo que está acontecendo: Ames, a
empresa, é coisa demais. Está me afetando.
— Você se sente... responsável? — perguntou Sloane, sabendo que isso
poderia significar muitas coisas diferentes.
— Não. — Grace firmou as mãos. — Não sei. A detetive Martin ligou lá para
casa. Eu me senti mal. Não tenho muito o que dizer a ela.
Aqueles olhares de soslaio uma para a outra eram traiçoeiros demais.
Sloane segurou o volante com mais força e umedeceu os lábios.
— Acho que talvez seja hora de você falar com a Katherine.
Ela estava se preparando para aquela conversa, avaliando o melhor momento
para tê-la e com quem. Grace precisava de um propósito, e elas precisavam de
Grace.
Sloane tinha quase certeza de que Ardie mentira para ela. Primeiro quando
disse acreditar que a empresa havia chamado Cosette porque estava pensando
em acatar as alegações delas, depois sobre outra coisa. Foi a maneira como ela
disse “sinceramente” que fez Sloane desconfiar. Ardie sabia alguma coisa sobre
alguém; Sloane só não sabia o que era e por que Ardie estava guardando segredo.
Ela havia investigado um pouco, e Ardie não estava mentindo sobre a assinatura
nos formulários da folha de pagamento, mas, por outro lado, por que mentiria a
respeito de formulários da folha de pagamento? Então, Sloane se perguntou, o
que Nancy Drew faria em seguida?
Nancy Drew não era uma mulher de meia-idade, sua idiota.
Ainda assim, ela queria ser a primeira a falar com Grace.
— Sim — respondeu Grace, simples e elegante como as pérolas em seu
pescoço. — Concordo.
Elas pararam em um sinal vermelho e ficaram sentadas por um momento em
silêncio. Então Grace disse:
— Ele estava tentando me manipular. Na verdade, foi por isso que me juntei a
vocês, caso esteja se perguntando. Não podia deixar ele achar que tinha me
enganado.
Sloane soltou um suspiro profundo.
— Como?
Grace riu baixinho e brincou com a ponta de uma das unhas.
— Ele me chamou para fumar com ele na sacada algumas vezes. Ele… — Grace soltou uma espécie de soluço — … agiu como se estivesse genuinamente
interessado na minha carreira.
Meu Deus, a Grace andava fumando? Fumando com o Ames? Uma pequena,
minúscula parte de Sloane queria julgar a amiga — se vangloriar, na verdade. Ela
se imaginou dizendo a Derek: Dá pra acreditar? A sempre perfeita e correta Grace
Stanton fumando enquanto amamenta. Eu nunca fiz isso. Quem é a melhor mãe
agora? Mas, Deus do céu, era Grace e, bem, Sloane não era exatamente uma
santa, e Derek e Sloane não estavam exatamente se falando, então era tudo um
pouco improvável, na verdade. Ainda assim, a notícia era inegavelmente
obscena. Grace e Ames. Cigarros.
— Onde vocês fumavam? — Ela achou que tinha usado um tom
despreocupado. Quase despreocupado, de qualquer forma. Não havia maneira
delicada de perguntar: No décimo oitavo andar? Na sacada? Ah, viu algo
incomum lá em cima? Como estava a brisa?
— Em uma das sacadas. — Grace dobrou o dedo e o apertou nos lábios. —
Assim que a Katherine nos contou que disse ao Ames que tinha me encontrado
no Prescott, percebi como tinha sido idiota. Devo ter parecido um alvo
ridiculamente fácil para ele. Me elogiar. Se oferecer para ajudar na minha
carreira. Com isso eu ficaria do lado dele, e o mais triste é que fiquei. — A borda
do dedo ficou manchada com o vermelho vivo do batom.
Sloane franziu a testa.
— Uma coisa não invalida a outra, sabe — disse Sloane. — Ele deve ter
realmente visto algo promissor em você e se ofereceu para ajudar.
— Talvez. Mas vi a chave do quarto, um daqueles cartões magnéticos. Do
Prescott. Quando ele me mostrou uma fotografia dos filhos. Mesmo que nada
tenha acontecido naquele quarto, ele ficou com o cartão porque queria que algo
acontecesse. Acho que era por isso que ele queria tanto que eu escrevesse a carta.
As pessoas tentam se aproveitar de quem é legal.
— O que você estava fazendo no Prescott? — perguntou Sloane.
— Dormindo.
Elas passaram pela Dealey Plaza, o lugar onde John F. Kennedy foi
assassinado. Sloane nunca passava por ali sem ter pelo menos um pensamento
fugaz: sangue e cérebro.
— Você alguma vez viu a Katherine lá em cima? Na sacada?
Era uma possibilidade remota, mas Sloane não tinha escolha a não ser tatear
no escuro, na esperança de esbarrar em alguma coisa. Ela não gostava da ideia de
que a única pessoa que tivera a oportunidade fosse Grace. Mas, não, isso não faria sentido, porque ela nunca tinha ouvido a amiga sequer deixar de dizer “por
favor”.
— Acho que ela não andava por lá. A Katherine tem pavor de altura.
Quando estavam quase chegando ao escritório, Sloane pensou em outra coisa.
— Então o que houve? Por que você desapareceu? Está se sentindo culpada?
Por quê? Por processar o Ames? Por acreditar nele? Pelo quê?
Grace apoiou a cabeça no banco.
— Eu me senti culpada por tantas coisas nos últimos meses que nem sei por
onde começar.
Sloane estendeu o braço por cima do porta-copos, ainda ocupado por duas
latas vazias de Coca Diet, e apertou a mão de Grace.
— Bem-vinda à maternidade — disse ela. E então: — Ei, cadê sua aliança?