Rede de Sussurros
Capítulo 16
30 DE MARÇO
Nunca chorávamos no trabalho, quase nunca, mas, quando chorávamos — ao
chegar em casa ou talvez antes disso, usando óculos escuros no carro —,
geralmente era por causa do trabalho.
Tudo tinha a ver com trabalho, mesmo as coisas que não tinham:
continuaríamos a trabalhar depois de ter filhos? Colocaríamos nossas metas
profissionais à frente do desejo de constituir uma família? Estávamos
trabalhando o suficiente? Estávamos trabalhando demais? Estávamos ganhando
um salário justo? O que faríamos no fim de semana, íamos sair para jantar ou
teríamos que trabalhar?
Inevitáveis espirais de pensamentos negativos que se originavam do
sentimento insistente que nos tomava pelo menos uma vez por semana,
espalhando-se pelas nossas entranhas enquanto descíamos de elevador até o
saguão, a lenta sensação de medo que apenas crescia: medo de que tivéssemos
deixado algo pendente, de que tivéssemos conduzido mal uma situação, ou de
que tivéssemos ferrado com tudo de forma irreversível. Mas não conseguíamos
precisar o que, exatamente, tínhamos feito de errado. E isso só piorava as coisas,
porque deixava quatrocentos e oitenta minutos de possibilidades para vasculhar
em busca da raiz do problema que envenenava a lembrança de cada dia.
Então, na manhã seguinte, enfiávamos palmilhas Dr. Scholl no fundo dos
sapatos de salto alto e nos inscrevíamos para presidir mais um almoço da Junior
League e fingir que éramos sempre felizes, agradáveis e competentes. Nada mais,
nada menos.
Talvez tenha sido por isso que nenhuma de nós demos a importância que
deveríamos ter dado à morte de Bankole. Estávamos muito ocupadas fazendo a
dança da mulher feliz-agradável-competente, sorrindo enquanto torcíamos para
ninguém notar nosso possível passo em falso.
Mas não era possível sustentar isso para sempre. O espantoso agora é pensar
que todos esperavam que continuasse.
Quando Grace por fim chorou no escritório, foi pelo leite derramado —
literalmente. Quando notou a mancha úmida se espalhando pelo tecido da bolsa
monogramada, era tarde demais. A saia lápis e a blusa estavam molhadas, mas
ela não se importava com aquilo. Caiu de joelhos no meio do corredor. A
superfície áspera do carpete áspero irritava seus joelhos enquanto ela pegava o
saquinho de armazenamento do qual escorria silenciosamente, através de um
furo no plástico, um fio de leite materno.
— Não, não, não, não — murmurou ela.
Seu cérebro procurou por palavrões, mas nenhum surgiu. Em vez disso, ela
sentiu o coração sangrar enquanto colocava a mão em concha embaixo do
saquinho de plástico. Tentou levá-lo até a pia da cozinha, mas ao chegar lá se deu
conta de que não havia nenhum recipiente estéril no qual armazenar o leite
enquanto os últimos poucos mililitros escorriam por entre seus dedos. Ouro
líquido.
E foi isso. Uma hora tirando leite. Perdida. Por favor, Deus, arranque meus
malditos seios e os entregue a alguém mais responsável. Ela culpou o fabricante
dos saquinhos. Culpou o marido. Culpou até mesmo a filha. E se isso era errado,
ela não se importava.
Grace gostaria de terceirizar a coisa toda — como se chamava mesmo? Ah,
sim, “fórmula” —, mas tinha certeza de que no segundo em que o fizesse, Emma
Kate desenvolveria diabetes infantil ou alergias terríveis, e o médico perguntaria
para Grace: “Você estava amamentando?” E Liam olharia para ela com sua cara
de Eu apoio sua decisão, enquanto em silêncio desejaria ter tido um filho com
outra pessoa.
Ela apoiou os cotovelos na borda da pia de aço inoxidável e enfiou os dedos
na base do coque. Sabia que, se olhasse no espelho, estaria com os olhos e nariz
vermelhos. Esse era o problema de chorar no escritório. Quanto mais você
desejava não chorar, mais provável era que chorasse.
— Grace? — A voz de Ames Garrett surgiu atrás dela. — Isto aqui é seu?
Ela virou a cabeça e viu a bolsa úmida e traidora com suas iniciais bordadas
na frente.
— Sim. Sinto muito.
Os dois ficaram em silêncio por um momento desconfortável. Uma
funcionária à beira de um colapso nervoso completamente inadequado no
ambiente de trabalho e seu chefe. Parabéns, Grace, você está sabotando sozinha a
causa de todo o seu gênero.
Antes de ela e Emma Kate serem duas pessoas distintas, Grace ficava furiosa sempre que alguém perguntava “Você vai voltar a trabalhar depois que o bebê
nascer?”. Ninguém perguntava isso a Liam, então por que deveriam perguntar a
ela? Mas vejam só! Ali estava a Prova A.
Ames se inclinou para trás, apoiado nos calcanhares. Moedas tilintaram nos
bolsos da calça dele.
— Sabe do que você precisa? — Dormir, pensou ela, imediatamente. Com
certeza, dormir. — De um cigarro.
Ela virou as costas para a pia e esfregou os olhos.
— Estou amamentando. Não posso.
— Pelo que estou vendo, acabou de tirar leite. Provavelmente tem, o quê, mais
três horas? Vai ficar tudo bem. — Ames tirou um maço do bolso do paletó e o
bateu duas vezes na palma da mão. — Confie em mim. Eu tenho dois filhos que
nunca dormiam ao mesmo tempo e uma esposa que encarava a maternidade
como esporte competitivo. — Ames abaixou a voz. — Não foi nada bonito.
Grace tocou a mancha úmida na saia, perguntando-se quando teria tempo de
deixá-la na lavanderia. Provavelmente não antes de precisar usar a saia de novo.
Ela poderia comprar uma saia nova pela internet, o que seria mais fácil, e até
mesmo pedir que fosse entregue no dia seguinte, mas Grace gostava de fingir —
especialmente para si mesma — que tinha as preocupações financeiras normais
de uma mulher que trabalhava. Porque a única razão socialmente aceitável para
uma mulher trabalhar tanto quanto Grace era necessidade. Ela expirou devagar
enquanto Ames esperava, paciente, sua resposta.
A chance de um tempo a sós com o diretor jurídico não era algo que surgia
todos os dias. Mesmo que fosse, Grace não saberia como recusar a oferta. Então,
deixou o saquinho plástico vazio na pia, pegou a bolsa e seguiu Ames até a sacada
no décimo oitavo andar.
A Truviv tinha relegado os fumantes a sacadas, pequenos quadrados de
espaço ao ar livre que lembravam os já quase extintos saguões de aeroporto e
tinham o mesmo cheiro de câncer de pulmão.
O prédio projetava uma sombra no fumódromo, deixando o ar ligeiramente
frio. Grace estreitou os olhos e observou a cidade banhada de sol. Mataria por
um pouco daquele sol. Ela se sentia pegajosa desde que tivera a bebê. A camada
de urina, fezes moles, golfada, baba e leite nunca saía completamente de seu
corpo.
Ames pegou um cigarro e o entregou a Grace. Ela nunca havia fumado, mas
achava que, se adolescentes de quinze anos vadiando na frente de shoppings
conseguiam, uma mulher de trinta e oito com doutorado também seria capaz. Posicionou o cilindro de papel entre os dedos indicador e médio e o colocou nos
lábios, como tinha visto nos filmes. Ames passou o polegar pela pedra do
isqueiro e uma chama irrompeu. Ela se inclinou para a frente e acendeu a ponta
do cigarro. Uma espiral satisfatória de fumaça escapou da ponta.
Ela tragou devagar, tomando cuidado para não inalar a fumaça, enquanto
Ames posicionou habilmente um cigarro na boca e o acendeu.
Era incrível mesmo. Uma baforada e seu corpo ficou visivelmente relaxado, os
ombros se afastando do pescoço. Ames olhou de soslaio para ela e ergueu uma
das sobrancelhas, a boca brincando com a ideia de um sorriso, como se
reconhecesse o vício com um triste O que eu posso fazer?.
Ela lembrou que ele ainda não sabia a respeito da lista. Sentiu-se um pouco
mal por estar ali, cara a cara com ele, sabendo que seu nome estava circulando
por Dallas sem seu conhecimento. Mas Grace sabia que não deveria ser a
mensageira.
Ames tragou novamente e deixou que a fumaça escapasse da boca.
— Uma vez, minha mãe estava ajudando a cuidar dos gêmeos e esqueceu uma
mamadeira de leite da Bobbi em cima da bancada o dia todo, então ela teve que
jogar tudo fora. Achei que ela ia dar um soco na cara da minha mãe. Em vez
disso, apenas deixou de falar com ela por duas semanas. Foi quase tão ruim
quanto o soco.
Grace riu. A fumaça fez seu nariz arder, e os olhos voltaram a lacrimejar.
— Eu teria dado um soco na cara dela com certeza.
Ela olhou de relance para o diamante — três quilates — em seu anelar
esquerdo. Aquele anel definitivamente tiraria sangue se Grace socasse alguém.
Ames franziu a testa.
— Você provavelmente se sente como se tivesse enlouquecido, não é?
Ele deu outra tragada.
Grace não respondeu. Sentiu a fina camada de cinzas no piso da sacada,
arenosa sob a sola dos sapatos Cole Haan.
— Tudo bem. Não precisa responder. — Ele deu batidinhas com o cigarro no
peitoril, deixando as cinzas caírem. Ao perceber que as cinzas de seu cigarro
estavam caindo na saia, Grace fez o mesmo. — Bobbi chorava o tempo todo. E
ela nunca chora. Ela é um eterno raio de sol, sempre otimista.
Ames sorriu, e Grace viu que a esposa o fazia feliz, o que era reconfortante.
Havia uma estranha mania entre os homens do escritório de competir para ver
quem conseguia reclamar mais da esposa. Meu Deus, que inferno, ela está me
obrigando a ir à Disney com as crianças, quero morrer. Eu chego do trabalho e ela me entrega o bebê antes mesmo de eu tirar a carteira do bolso. Vou ter que
trabalhar mais uns vinte anos para pagar pela bolsa Birkin dela. Esse tipo de
coisa. Era como se fingissem que tinham sido sequestrados de sua aldeia nativa e
forçados a comprar diamantes de vinte e cinco mil dólares da Tiffany contra a
vontade. Tipo, quem eles achavam que estavam enganando e por que
acreditavam que a ilusão de que haviam feito péssimas escolhas na vida era algo
pelo qual se vangloriar?
Talvez essa fosse a verdadeira razão pela qual Grace insistia em trabalhar
apesar de Liam, um investidor de risco bem-sucedido (com uma ajudinha do
dinheiro dela), ter totais condições de sustentá-los. Ela não queria ser uma
daquelas esposas.
— Pensei que invasores de corpos tinham aparecido no meio da noite e
colocado outra pessoa no lugar dela — continuou Ames. — Era como um
episódio de Além da Imaginação. Tanto choro. Não estou dizendo isso para ser
cruel. As coisas pelas quais o corpo de vocês passa… Eu com certeza não
aguentaria.
Grace cruzou os braços e apoiou o cotovelo direito na dobra do pulso
esquerdo para sustentar o braço do cigarro. Aparentemente, agora ela tinha um
braço do cigarro. A nicotina já estava circulando pela corrente sanguínea,
deixando sua cabeça pesada. Uma leve dor de cabeça tinha começado em algum
lugar no centro do crânio.
Mas, conforme a intensidade da frustração por causa do leite derramado
diminuía, ela começou a se preocupar com o que Sloane ia achar de ela estar ali
em cima com Ames.
— Você fumava com a Bobbi? — perguntou Grace, mudando de assunto.
Não queria pensar em Sloane. Ames queria passar o tempo. Com ela. E ela se
sentia, tinha que admitir, especial.
— Existe alguma regra que diz que não posso incriminar minha esposa, não
existe?
— Regra de Provas, Seção 504.
Grace tinha uma memória de elefante.
— Ela não acha minhas raízes operárias tão charmosas quanto deveria. — Ele
piscou, um gesto que deveria ter sido brega, mas Ames tinha olhos apertados que
explodiam em rugas quando sorria. Era uma imagem bonita.
Grace conhecia Ames havia seis anos e, na verdade, não ligava muito para ele.
Mesmo antes. Sabia que ele e Sloane não se davam bem. Mas sempre tivera o
distinto palpite de que Sloane tinha pelo menos um pouco de culpa no cartório por confundir os limites entre os dois. Isso, e, bem, nada do que Ames tinha feito
era exatamente escandaloso. Estava aberto a interpretação. Havia alguns boatos.
Ok, tudo bem, definitivamente havia boatos. Mas não havia boatos sobre todo
mundo? Toda pessoa tem alguém que não gosta dela. Talvez não Grace, em
particular, mas a maioria das pessoas. Ames era um pouco rude às vezes, isso
com certeza, mas era um executivo que fumava e usava as mangas enroladas até
os cotovelos.
Grace caminhou até o parapeito e apoiou os antebraços na superfície estreita.
Os gramados pareciam campos de golfe em miniatura lá embaixo. Carros do
tamanho de seu polegar esperavam nos sinais, desviavam uns dos outros e
desapareciam em estacionamentos. Seu ritmo cardíaco se acelerou quando ela
olhou para a extensão vertical de concreto. Era impossível olhar para baixo e não
pensar em cair. Momentos antes, ela talvez tivesse considerado se atirar do
prédio.
— Você vai ficar bem — disse Ames. — Seu médico é bom, não é?
— Emma Kate tem o melhor pediatra que consegui encontrar. Dr. Tanaka.
Um pedaço de papel empapado voou de sua língua, e ela percebeu que estava
mastigando o cigarro como se roesse a unha.
— Para você, quero dizer.
Grace deu as costas para o parapeito.
— Estou bem. Só estou cansada.
— Claro.
Ele se aproximou, ficando a uma distância respeitável, e apoiou os cotovelos
no parapeito.
— Bobbi teve depressão pós-parto. — Ele deu de ombros. — É mais comum
quando se tem gêmeos, acho. Ela teve que tomar remédios, e graças a Deus
tomou. Vou ser sincero: pensei que fosse alguma dessas merdas hippies. Uma
expressão sofisticada para “cansaço”. Mas quando o médico dela fez o
diagnóstico, pesquisei. Mudanças de humor. Ansiedade. Exaustão. Suicídio.
Tudo isso por causa de um bebê. Parece uma falha no sistema.
Uma falha no sistema.
Sim, Grace achava que fosse.
— Não acho que eu esteja deprimida. — Ela inclinou a cabeça. — Estou
vestindo Rebecca Taylor. — O nariz dela estava ressecado por causa da fumaça.
Queria desviar o assunto de seu frágil estado mental. Ficava grata pela
preocupação, mas a última impressão que queria passar para o chefe era a de que
estava a uma noite sem dormir de distância de uma crise nervosa. Esperou. — Então, existe alguma coisa que você gostaria de ter feito diferente aqui na Truviv?
— Grace sabia que os homens adoravam esse tipo de pergunta e, nesse caso, a
resposta poderia ser útil. Ele lhe lançou uma olhadinha. — Profissionalmente,
quero dizer.
Ele apoiou o corpo no parapeito novamente e deu uma tragada no cigarro.
— Acho que não. — Ames soprou a fumaça e abriu um meio sorriso de
satisfação. — Acho que estou em uma boa posição atualmente.
— Então, que conselho daria para alguém como eu? E se, digamos, eu quisesse
liderar um setor maior dentro do departamento? Você me diria para fazer… o
quê, exatamente?
Houve momentos na vida de Grace nos quais ela mostrara sua ambição, mas
ela foi recebida como motivo de divertimento, como a atração de uma festa, a
menina bonita que sabia as capitais de todos os estados e podia recitá-las de cor.
Outros em que pareceu que uma rajada de vento tinha levantado sua saia,
revelando sua ambição e fazendo com que todos os homens no recinto ficassem
ao mesmo tempo excitados e constrangidos. Mas não se importava mais.
Ames balançou a cabeça, pensativo, jogou a bituca no chão e pegou outro
cigarro.
— Ok. — Ele apontou o cigarro ainda não aceso para ela. — A primeira coisa
que precisamos fazer é conseguir trabalhos mais interessantes para você. Tarefas
desafiadoras. Ter certeza de que você é capaz de conduzir um negócio não apenas
do ponto de vista regulamentar. Posso ajudar você com isso. — Grace sentiu a
faísca de uma promessa. Um lampejo inesperado de esperança. Talvez pudesse
ser uma mãe estilo Marissa Mayer. Ambiciosa crônica. Mãe nas horas vagas. —
Mantenha uma pasta na sua caixa de entrada com todos os elogios que receber.
— Ele acendeu o cigarro. — Sempre que alguém disser, por escrito, que você fez
um bom trabalho, guarde essa informação. Envie um e-mail para mim a cada
trimestre com o que houver nessa pasta e o tipo de trabalho que você tem feito
nos últimos meses.
— Você quer que eu fique me gabando?
Ele coçou a testa com o polegar.
— Quero que você monte um caso, um caso mostrando por que merece uma
promoção. Faça isso, e em um ano conversamos sobre os próximos passos.
Grace reprimiu um sorriso. Estava orgulhosa de si mesma. E um tiquinho
menos exausta. Embora provavelmente devesse aplicar uma moratória na
palavra “tiquinho”, expressão que devia ter aprendido com a babá de Emma Kate.
Houve uma breve pausa e então…
— Quer ver uma foto dos meus filhos? — perguntou Ames.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Estranhos estavam sempre pedindo a Grace para ver fotos de Emma Kate,
como se precisassem de provas de que ela se importava o suficiente para tirá-las.
Era bom estar do outro lado.
Ames ergueu o dedo e equilibrou o cigarro em um cinzeiro próximo
enquanto tirava a carteira do bolso traseiro.
— Sou antiquado. Ainda gosto de levá-los aqui. — Ele folheou alguns porta-
documentos de plástico e ergueu duas fotos escolares dos gêmeos. Sorrisos
largos. Não eram idênticos. Um dos meninos era ruivo, o outro tinha cabelo
castanho, como o pai. — Nenhum deles tem minha… — Ele apontou para a
mecha. Tinha se tornado menos perceptível desde que os cabelos tinham
começado a ficar grisalhos, nos últimos dois anos. — Waardenburg. 50% de
chance.
Ele deu de ombros.
Seu dedo segurava a carteira de couro aberta. Um cartão brilhante atrás de
uma das fotos chamou a atenção de Grace, e ela se inclinou mais para perto,
fingindo admirar os filhos dele. Segurou o cabelo para trás.
— Muito lindos — disse com o tom de uma universitária contratada para
cuidar de uma criança por quatro horas.
Um cartão magnético que abria a porta de um quarto de hotel havia sido
enfiado em uma divisória da carteira. O nome impresso: Hotel Prescott.
Ela se endireitou e sorriu. Ele fechou a carteira e voltou a enfiá-la no bolso da
calça.
— Também acho — disse ele, em resposta ao elogio dela. — Mas como eu
poderia saber? Todo mundo pensa isso dos próprios filhos.
Ele voltou a pegar o cigarro e o tragou mais uma vez. Riu suavemente,
expelindo fumaça branca como um dragão.
— Ei, eu estava pensando… — Ele largou a bituca do cigarro e a esmagou sob
a sola do sapato de couro preto. — Será que você poderia me fazer um favor?