Rede de Sussurros
Capítulo 33
12 DE ABRIL
Desde que entrara com a ação, Sloane tinha começado a trabalhar com a porta da
sala quase sempre fechada. Ela estava enclausurada lá dentro quando a comoção
começou. Foi um acúmulo de ruídos, na verdade. Vozes. Isso acontecia às vezes.
Um advogado sênior repreendia um funcionário de TI, alguém ficava noivo ou
levava o bebê recém-nascido para apresentar aos colegas e, por um momento,
um pequeno turbilhão de atividade irrompia no escritório.
Sloane terminou de escrever um e-mail. Então, curiosa, enfiou a cabeça para
fora da sala. Um grupo de secretárias estava reunido na mesa de Beatrice.
— O que está acontecendo? — perguntou Sloane.
Anna, a secretária de Ardie, se virou para ela.
— Estão dizendo que alguém se jogou do prédio.
Sloane saiu para o corredor e se juntou a elas.
— Se jogou do prédio. Do nosso prédio? — Ela apontou para o chão. —
Quem falou isso?
Corey, a recepcionista do décimo quinto andar, respondeu:
— Eu estava cobrindo o horário de almoço no décimo nono. Foi o que a
recepcionista de lá me contou.
Um telefone tocou. Beatrice olhou para o aparelho que piscava e ignorou.
Mais duas linhas se iluminaram. Em seguida, mais três. Beatrice mandou todas
para o correio de voz. Mas em segundos as linhas estavam piscando de novo. Ela
atendeu.
— Alô?
Anna deu um tapinha na mesa de Beatrice.
— Acabei de receber uma mensagem de texto. — Ela ergueu o dedo. Em
seguida, o abaixou. Anna pressionou o punho na boca. — Acabei de receber uma
mensagem da minha amiga Kristen, do décimo nono andar. Ela disse que
ouviu… que ouviu dizer que pode ter sido o Ames.
Sloane abriu a boca, mas as palavras não saíram.
— Quem? Espera aí. O quê?
Sirenes. Definitivamente eram sirenes. O som cada vez mais alto. Fazendo as
histórias se elevarem como ar quente.
Corey se afastou do grupo e entrou em uma sala desocupada, enfiando o nariz
no vidro da janela.
— Tem um caminhão de bombeiros lá embaixo. — Suas mãos deixaram
marcas no vidro. — Alguns carros da polícia. E uma ambulância.
Beatrice tinha desligado, os cantos da boca formando dois vincos para baixo.
O telefone tocou.
— É a Bobbi. — Ela começou a roer as unhas. Sua bochecha se contraiu. —
Será que eu atendo?
Ela olhou para Sloane. Sloane tirou o cabelo da testa. Seu blazer se levantou
desajeitadamente.
— Anna, vá dar uma olhada na sala do Ames. — Sloane já estava correndo
pelo corredor. — Não atenda ainda, Beatrice! — gritou ela. — Grace? Ardie?
Ela enfiou a cabeça na sala das duas. Ambas vazias. Sloane voltou.
— Ele não está lá — informou Anna, com um ar sombrio.
— Tem uma ambulância lá embaixo. Vocês não acham que ele está vivo,
acham? Vocês acham que ele está vivo? — perguntou Corey, afastando o rosto da
janela, buscando a opinião do grupo.
— A gente não sabe se é ele. — Os batimentos cardíacos de Sloane tinham se
acelerado.
— A Bobbi continua ligando. — A mão de Beatrice segurava o telefone. — O
que eu faço? — Ela parecia aflita.
Sloane respirou fundo, pensou, em seguida pegou o celular, que estava em
cima da mesa, e o enfiou no bolso do blazer.
— Me dê dez minutos — pediu ela a Beatrice. — Vou até lá embaixo ver o que
está acontecendo. Aguente firme. Não faça nada ainda. Eu já volto, ok?
* * *
Luzes vermelhas e brancas piscavam do lado de fora da porta giratória. Ela abriu
caminho até onde as pessoas se amontoavam diante do prédio. Dois policiais de
uniforme azul-escuro agitavam as mãos para os curiosos e gritavam para que
recuassem.
Sloane ficou na ponta dos pés e deslocou algumas pessoas para a esquerda,
tentando ter uma visão melhor. Um lençol branco estendido sobre uma figura humana na calçada, a poucos metros da fachada do prédio da Truviv. Sloane
olhou ao redor. Será que tinha sido ele? Será que tinha sido Ames?
Merda.
Ela contornou a multidão até o outro lado, onde havia menos pessoas
aglomeradas. Ficou surpresa com a maneira como tudo estava em ordem, como
se a rua e aqueles que a ocupavam tivessem concordado em ficar quietos. As
sirenes haviam sido desligadas. A maior fonte de ruído parecia ser o tráfego de
carros e o barulho dos walkie-talkies presos aos cintos dos policiais.
Ela chegou para o lado, os olhos fixos na figura encoberta, o coração na boca.
Em seguida se agachou, apoiada em um dos joelhos. Pegou o celular e procurou
o número de Ames. Pronta, se aproximou o máximo que pôde e fez a ligação.
Prendeu a respiração. Um toque. E então o toque de uma marimba flutuou, a
musiquinha vindo de debaixo do lençol branco e inerte.
De um telefone que, Sloane sabia muito bem, estava envolto por uma capa
protetora OtterBox cor de chumbo. O celular intacto; o homem não.
Desligar, desligar. Ela se apressou em pressionar o ícone vermelho na tela. O
toque — merda, o toque — parou. Seu estômago se revirou.
Ames estava morto.
Ames Garrett havia pulado da janela de seu escritório.
Ele tinha se matado. Ali.
Sloane tinha trabalhado para ele; tinha suportado as gracinhas dele. Tinha
ficado com raiva dele. Tinha entrado com um processo contra ele. Tinha até
beijado ele, no passado. Mas foi a lembrança dos dois filhos pequenos de Ames
que a sufocou com uma onda de pesar.
Jesus Cristo, Ames.
Por quê?