Rede de Sussurros
Capítulo 17
31 DE MARÇO
Rosalita se sentou na beirada da cama de Salomon. Uma colcha do Homem-
Aranha estava enfiada sob as axilas do filho e ele exalava o cheiro do sabonete
amarelo da Johnson & Johnson que ela usava nos banhos desde que ele era bebê.
— Você terminou o dever de casa?
Rosalita se forçava a usar o inglês porque ele ia precisar mais do inglês do que
do espanhol. Isso a entristecia, a barreira de comunicação invisível que já surgia
entre eles.
Salomon assentiu, os cílios grossos como cortinas tocando as bochechas.
Quando ele era bem pequeno, o tio dela e a esposa riam e diziam que, se
Salomon não tivesse saído dela, ela poderia não acreditar que ele era seu filho.
Mas Rosalita via características suas em Salomon em dezenas de coisas
minúsculas, mas importantes. Os pontos achatados na lateral das orelhas. Sua
tolerância para comidas extremamente picantes. Sua reação alérgica a sabonetes
perfumados.
Ela deu um tapinha no peito firme dele.
— Fez tudo certo?
Ele assentiu novamente, e Rosalita lhe dirigiu um olhar duro, como uma
bronca silenciosa.
— Fiz — disse ele em voz alta.
Às vezes precisava persuadi-lo a dizer as palavras que a perda auditiva com a
qual nascera tinha tentado roubar dele, palavras que tinham lutado muito para
desenterrar do fundo de seu doce menino.
No fim das contas, não fora tão doloroso pedir ao pai de Salomon o dinheiro
para o fonoaudiólogo do filho e, em seguida, o aparelho auditivo caro. Rosalita
era orgulhosa, mas se decidia com uma só pergunta: o que era melhor para
Salomon? Então pediu e pediria de novo, quando Salomon entrasse na escola
particular. E ele ia entrar, ela disse a si mesma. Porque o objetivo era tanto dela
quanto dele — mais, até.
Rosalita ficava encantada ao ver as mãos de seu menino rabiscando palavras
rápido pela página, perceber que ele conhecia a história americana e sabia
resolver operações com frações. Rosalita não era ignorante, mas nunca aprendera
a ler ou escrever em inglês tão bem quanto gostaria. Antes do emprego no prédio
comercial, ela fazia faxina para mulheres que tinham o hábito de enviar
mensagens de texto de última hora para dizer onde tinham deixado a vassoura
ou pedir a ela que soltasse o cachorro, e Rosalita sempre ficava constrangida por
causa das respostas toscas que enviava, sabendo que não estavam corretas, mas
ao mesmo tempo sem ter ideia de como corrigi-las. Tinha concluído o ensino
fundamental no México antes de se mudar para o outro lado da fronteira e quase
terminara o ensino médio nos Estados Unidos. E ainda adorava ler. Mas essas
coisas tinham se tornado partes tão pequenas dela que Rosalita sabia que as
pessoas no prédio comercial onde trabalhava nunca seriam capazes de enxergá-
las, nem mesmo se tivessem um microscópio.
— Tenho uma coisa para você. — Salomon se contorceu embaixo das cobertas
enquanto procurava por um tesouro escondido a seus pés. — A sra. Ardie me
deu isso. — Então o filho estava sorrindo com a palma da mão aberta e nela
havia um reluzente broche azul e dourado. — Ela disse que todo piloto de avião
tem que ter um, e que eu podia ficar com ele.
As bochechas de Rosalita coraram e ela passou uma das mãos no cabelo.
— Eu posso ser piloto um dia — afirmou Salomon. — E o bom é que eu já
vou ter o distintivo.
— Talvez.
Rosalita nunca tinha entrado em um avião. Ardie Valdez andava de avião com
tanta frequência que não precisava guardar o broche com asas para o próprio
filho.
E que importância tinha isso? Era o que dizia a si mesma, porque era sensato e
verdadeiro. Não era uma competição. Embora a parte mais cruel de sua
consciência não pudesse deixar de acrescentar que a razão pela qual aquilo não
era uma competição era porque Ardie Valdez já estava muito à frente.
Agora um pedaço do escritório e de Ardie moravam em sua casa. Uma coisa
pequena. No entanto, coisas pequenas a tinham destruído antes.
— Ou talvez até mesmo alguém que constrói aviões. — Sua voz ficou
repentinamente cansada, como se ela estivesse voltando para casa depois do
terceiro turno, em vez de estar saindo para ele. — Mas só — ela puxou as
cobertas até o queixo do filho — se você estudar muito. Me dê isso. Não quero
que se espete enquanto dorme.
Ele colocou o broche na mão dela. Era apenas um objeto sem valor. Sem peso.
Mas fizera seu filho sorrir, e era isso que a assustava.
A cama rangeu quando ela se levantou. Rosalita desligou o interruptor,
deixando apenas o brilho da luz noturna em forma de lua no canto. Com o
ouvido bom no travesseiro, ela sabia que ele não estava ouvindo quando
sussurrou:
— Te quiero, Salomon.
* * *
Rosalita foi de carro para o trabalho e parou no estacionamento em frente ao
prédio da Truviv. A equipe de limpeza não tinha permissão para estacionar na
garagem do prédio, apesar de estar quase vazia àquela hora da noite. A distância
impedia que os faxineiros saíssem com qualquer objeto que não estivesse
pregado.
Depois de pegar o carrinho de material de limpeza, Rosalita e Crystal subiram
de elevador até um andar tão desprovido de vida que ela teve a sensação de ter
pousado na lua. Detectando os movimentos das mulheres, as luzes se acenderam
com um estalo seguido pelo zumbido baixo das lâmpadas fluorescentes.
As meias largas de Crystal se embolavam nos tornozelos enquanto ela
caminhava até a mesa vazia da recepcionista e vasculhava a tigela de doces com
as unhas mal cortadas. Rosalita deu um tapa na mão da garota.
— O que foi? — Crystal levou a mão ao peito.
— Isso não é para a gente — disse Rosalita, voltando para o carrinho, onde
estava pendurada a prancheta.
— Como assim? Por acaso eles contam?
Crystal mirou a tigela com olhos famintos.
— Talvez contem.
Crystal não insistiu.
Rosalita começou a limpar o andar com uma eficiência clínica. Quando estava
em um dos banheiros, enfiou a mão no bolso enquanto Crystal se inclinava para
um vaso sanitário dentro de um dos reservados, tirou o broche de Salomon e o
jogou na lixeira antes de trocar o saco. Disse a si mesma que aquilo era para o
bem de Salomon. Ela dizia isso a si mesma, mas também sabia mentir.
Então as duas continuaram no décimo quinto andar. As horas passavam de
maneira diferente no meio da noite. A excitação e a depressão simultâneas que
vinham por estar acordada quando todos dormiam. A nitidez da luz contra a escuridão. A maneira como o tempo se tornava apenas um conceito, mas
também a única coisa na qual Rosalita conseguia pensar. Isso fazia com que se
lembrasse dos dias após o nascimento de Salomon, quando o segurava junto ao
peito enquanto olhava para a televisão, mergulhada na escuridão, quando nunca
havia nada passando que valesse a pena assistir. Pela manhã, ela ligava para a
irmã e catalogava os acontecimentos da noite em detalhes minuciosos — quanto
Salomon tinha mamado, quantas horas ele tinha dormido, quantas horas ela
tinha dormido —, como se essas minúcias precisassem ser documentadas,
testemunhadas. Ela sabia que a lembrança daquelas noites não deixaria seu corpo
até o dia de sua morte.
Parecia que uma vida inteira havia se passado desde que Rosalita tinha sido
capturada e se permitido ficar presa na teia da maternidade, que deixasse seus
fios se entremearem em seus cabelos grisalhos, se espalharem sob sua pele,
transformando-se em veias azuis e arroxeadas, que desenhassem uma linha
reluzente e retesada logo acima do osso púbico. Desde então, a teia só tinha
crescido em complexidade, as necessidades de sua vida enredando-a mais e mais
nos fios de seda, até que um dia fosse finalmente engolida.
Ao lado dela, Crystal ainda não era exatamente eficiente, mas estava
melhorando, mantendo o carrinho organizado o bastante para que Rosalita
pudesse acelerar as rondas. Àquela altura, Rosalita tinha certeza de que Crystal
estava grávida, pela maneira como sua mão descansava preguiçosamente na
barriga, e, quando o fazia, ela via a pequena protuberância que se projetava ali.
Provavelmente um menino, porque Crystal estava pele e osso, exceto na barriga.
Fora assim com Rosalita também. E seu corpo também se lembrava disso, nos
veios perolados que se estendiam pelas laterais dos quadris e se projetavam de
seu umbigo como um sol. O corpo se lembrava.
Rosalita esvaziou a picadora de papéis e a lixeira nas salas de Sloane Glover e
Ardie Valdez e de uma nova funcionária — Katherine Bell. Quando chegou ao
final do corredor, a sala do canto estava fechada, as luzes apagadas. Ela bateu
duas vezes e entrou.
O erro foi óbvio. Um gemido, logo sufocado. Uma bufada irada. Rosalita viu
uma mulher de cabelos escuros curtos olhando para ela boquiaberta, iluminada
pela faixa de luz projetada pela fresta da porta, os olhos arregalados, brilhando
no escuro como um guaxinim exposto ao facho de uma lanterna. Rosalita perdeu
o fôlego em um suspiro que quase não produziu som. Os momentos que se
seguiram foram silenciosos também. Tão silenciosos que os únicos ruídos foram
os de pele contra pele e tecido e engolidas em seco e um homem tossindo e saliva e cabelo e…
Rosalita recuou, batendo o ombro tão forte no batente que viu as cores do
hematoma que ia se formar estampadas no interior de suas pálpebras enquanto
piscava para conter as lágrimas de dor. Um grito ficou preso em seu peito
quando as costas se curvaram, e ela apertou o braço. Um formigamento disparou
descargas elétricas até o cotovelo. Sua mente entrou em uma espiral de visão
dupla que fez seu estômago embrulhar. Ela teve discernimento suficiente apenas
para fechar a porta.
Crystal estava atrás do carrinho, segurando o frasco de limpa-vidros como
uma arma.
— Você está bem?
Os órgãos de Rosalita ameaçaram sair pela garganta.
— Vamos pular a sala do canto hoje.
— Por quê? — Crystal olhou para a porta como se pudesse ver o que Rosalita
tinha visto.
Rosalita engoliu em seco. Seu ombro doía.
— Tem gente lá dentro.
— Mas você disse…
— Hoje, não. — Rosalita meio que esperava que a porta se abrisse, mas, até
aquele momento, nada. Seu rosto parecia febril. Ela não olhou para Crystal. —
Preciso ir ao banheiro. Vá adiantando as salas deste lado.
Os ouvidos de Rosalita zumbiam. Ela estendeu a mão, deixando que os dedos
tocassem a parede em busca de equilíbrio. Chegou ao banheiro. As luzes se
acenderam com um clique, brilhantes e exigentes demais. Ela se inclinou na pia,
apoiando o peso na porcelana branca. O suor brilhava entre as raízes escuras do
cabelo e sob os folículos das sobrancelhas.
Ficou de pé ali, quase ofegante. Seus olhos castanhos eram poças de lama
refletidas de volta para ela. Molhou o rosto com água fria e deixou que as gotas
escorressem da ponta do nariz e do queixo. Então fechou os olhos para o próprio
reflexo e secou as gotas presas nos cílios. Seu corpo, ela sabia, sempre tivera a
melhor memória.