Rede de Sussurros
Capítulo 24
3 DE ABRIL
Ela estava flertando. Estava dormindo com alguém para tentar subir na empresa.
Conhecemos uma pessoa na faculdade de direito que disse que ela já tinha feito
esse tipo de coisa antes. Que tipo de coisa ela estava fazendo mesmo?
Ela estava indo longe demais. Alguém estava se aproveitando dela. Ela era
inocente. Ela era uma femme fatale. Casos amorosos eram uma realidade. A
gente não deveria ser tão moralista. Estávamos sendo ingênuas. Muitos
relacionamentos legítimos começavam no trabalho. Era proibido ter amigos do
sexo oposto? Ela era talentosa. Ela estava compensando a falta de talento. Ela era
uma vadia. Ela gostava de provocar. Nós gostávamos dela. Nós gostávamos do
trabalho dela. Provavelmente não seríamos amigas dela. Ela era uma de nós.
Com tudo isso, aprendemos que quem tem teto de vidro não deve atirar
pedras. Mas ninguém disse nada sobre como nos comportar nas salas de reunião
envidraçadas e nos edifícios formados por milhares de olhos de vidro sem alma.
Em nossas mãos, não pedras, mas o peso elegante de um smartphone. Ver e ser
visto. Essa era a natureza de nossa casa de vidro. E estávamos tão acostumadas às
gaiolas de vidro que desconfiávamos de qualquer coisa que acontecesse além do
alcance de nossa visão periférica. Talvez a curiosidade fosse uma adaptação
biológica. Sobrevivência dos mais bem informados.
Quem somos nós para julgar? Ou melhor, quem somos nós para não julgar?
Sloane julgou sua imagem no metal embaçado das portas do elevador a
caminho da sessão, mas Oksana não aceitava cancelamentos, e havia a chance de
o treino servir para alguma coisa. Ela estava se sentindo péssima. Em grande
parte por causa da situação com Ardie, mas não só por isso.
O elevador desacelerou até parar. A boca de aço se abriu e Chrissy Ladner,
contadora sênior da Truviv, entrou segurando uma garrafa de água com a logo
da empresa. Elas se cumprimentaram com bom humor, e Chrissy parou ao lado
de Sloane, ombro a ombro.
— Como estão as coisas na contabilidade?
Chrissy, pequena em estatura, grande em ousadia, deu de ombros.
— Na mesma. E no jurídico?
Sloane se remexeu, inquieta.
— Na mesma.
O que era verdade, da pior maneira possível.
Chrissy bufou.
— Não sei como você consegue trabalhar com aquele cara — disse ela,
olhando para os números vermelhos mudando rapidamente no topo do
elevador.
— Quem? — perguntou Sloane, já sabendo a resposta. Como você consegue
trabalhar com aquele cara? parecia mais uma acusação do que uma frase de
compaixão.
— Ames. A gente estava se perguntando quando você ia adicioná-lo à lista.
Os cantos da boca de Sloane se curvaram para baixo.
— Quem disse que fui eu?
Chrissy ergueu a garrafa como se estivesse se rendendo. Ela nunca teve papas
na língua, e Sloane gostava de encontrá-la nos eventos da Truviv. Se
trabalhassem no mesmo setor, seriam boas amigas.
— Enfim, pode ser que todas nós estejamos trabalhando para ele em breve.
— Você acha mesmo?
Chrissy ergueu as sobrancelhas delineadas.
— Eu queria não achar. Mas você não ficou sabendo? A diretoria se reuniu
hoje de manhã. Ao que parece, o cargo praticamente já é dele.
Chrissy saiu do elevador no andar seguinte, deixando que Sloane absorvesse
aquela notícia sozinha.
A realidade era que Sloane, acostumada a operar no limite do caos, de repente
se sentiu sem equilíbrio, escorregando da borda do precipício em direção a um
turbilhão real e genuíno. Claro, ela vinha sentindo as rédeas sendo puxadas já
fazia algum tempo, mas achava que ainda estava no controle, de forma que
poderia recolocar tudo no rumo certo se fosse preciso. A notícia que Chrissy lhe
dera não deveria ter sido uma grande surpresa. Mas percebeu que não estava
preparada para aquilo.
Acreditava que estava vendo, pela primeira vez, a torre frágil na qual sua vida
fora construída. Sloane se preocupou com coisas pequenas. Sentia como se tudo
aquilo — sua vida — pudesse desmoronar. Ardie, Abigail, o conselho escolar,
Ames, seu emprego, a fatura do cartão de crédito, a lista de coisas que tinha para
fazer e até mesmo Katherine. Katherine, que representava algo para Sloane, algo desconfortável: Quero ser como você.
Qualquer brisa poderia derrubar aquela torre.
No oitavo andar, ela passou o crachá no leitor eletrônico, e a porta de vidro da
academia se abriu. Sua treinadora, Oksana, já estava esperando junto à mesa da
recepção e não parecia nem um pouco feliz. Sloane tinha esquecido
completamente que estava atrasada.
— Se ajudar — disse Sloane, fazendo um rabo de cavalo —, eu só comi uma
barrinha de cereal hoje.
Na verdade, tinha comido duas, uma no café da manhã e outra no almoço, e,
embora fossem saudáveis, provavelmente não se destinavam a substituir
refeições inteiras.
No passado, Oksana tinha sido lutadora de MMA. Isso quando as mulheres
lutavam dentro de gaiolas, tentavam quebrar os braços e os narizes umas das
outras e rolavam pelo chão enquanto chutavam as costelas da adversária até a
morte.
— Vinte flexões. — Oksana apontou para o chão na frente dela.
Sloane não tinha conseguido passar no vestiário e ainda vestia o terno justo e
os saltos Dolce & Gabbana. Ela hesitou até a professora estalar os dedos e,
obedientemente, largou a bolsa e ficou de joelhos, começando a arquejar em
meio a uma série de flexões. Era como se estivesse numa escola militar, não em
um treino pelo qual pagava uma quantia exorbitante por hora para ser castigada
por atrasos.
Nas três últimas flexões, Oksana apoiou o pé nas costas dela, tornando o
exercício ainda mais difícil. Sloane ficou mortificada ao perceber que estava
suando no terno de lã.
— Vinte! — anunciou Sloane, sem fôlego.
Por fim foi liberada para correr até o vestiário e colocar as roupas de ginástica.
Contanto que não demorasse mais de dois minutos.
Sloane costumava gostar de pessoas que levavam o trabalho a sério. Como a
mulher que fazia sua sobrancelha, que afirmava ser uma “artista visual”. Isso
demonstrava espírito empreendedor. Assim, durante aquelas sessões de uma
hora, Sloane estava disposta a se entregar, totalmente, ao mundo de Oksana.
Quando voltou, a treinadora lhe informou que naquele dia fariam trabalho de
perna, e Sloane soube que tinha se dado mal. Agachamento afundo duplo
seguido de agachamento com barra, finalizando com afundo reverso com peso.
No fim da primeira série, o ácido láctico já penetrava nos músculos das coxas de
Sloane como veneno de cobra.
— Isso dói tanto que eu realmente não sei por que minhas pernas não estão
iguais às da Carrie Underwood — disse ela, ofegante.
Oksana fez uma bola com o chiclete.
— O que foi? — Sloane parecia ofendida. — Vai me dizer que as pernas da
Carrie Underwood doem mais do que as minhas? Estou sofrendo, Oksana. Não
faça pouco do meu sofrimento. Está fora de moda.
— Você acha que é a primeira cliente que tenta me enrolar para não trabalhar
pesado?
— Não, claro que não. Só acho que sou a melhor nisso.
Era verdade. Sloane de fato usava sua tagarelice como um escudo contra o
sadomasoquismo de Oksana. Talvez fosse por isso que contava mais coisas para a
personal trainer do que para seu terapeuta. Isso e o fato de que só tinha ido ao
terapeuta uma vez, e já fazia cinco anos. Ela achava que treinadores eram como
cabeleireiros: você podia contar qualquer coisa a eles. Naquele momento, no
entanto, Sloane queria não só distrair Oksana, mas também a si mesma. Ainda
estava pensando em Chrissy. Em Ames.
— Agachamentos de sumô. Vamos.
Oksana acionou o timer do relógio. Sloane nunca sabia quanto tempo ela
programava, e isso a deixava maluca.
— Mas eu queria mesmo perguntar uma coisa.
Oksana bufou, exasperada.
— Desculpa, vou agachar e falar ao mesmo tempo. — Sloane abriu as pernas e
tentou não pensar na queimação enquanto imitava pliés de bailarina. Oksana
olhou para o relógio. — Tudo bem. — A voz de Sloane estava tensa. — Minha
pergunta é a seguinte. — Ela abaixou a voz, consciente dos homens suados
puxando ferro e desenvolvendo hérnias perto dela. — Algum dos homens aqui
já… você sabe, tentou alguma coisa?
Oksana riu.
Sloane colocou as mãos na cintura enquanto se agachava. Estava começando a
sentir pontadas na lateral do corpo.
— Essa risada quer dizer “sim” ou “não”?
— O que você acha?
— Sim.
Oksana foi misericordiosa e permitiu que ela parasse os agachamentos de
sumô, mas no lugar deles ela teve que fazer a transição para passadas. Oksana
mantinha o ritmo ao lado dela.
— Tem os relativamente inofensivos — explicou ela. — Aqueles que passam por mim e me dão conselhos enquanto estou malhando, como se eu devesse me
importar com a opinião de um cara que fez CrossFit uma vez na vida.
Esse era o número de vezes que Sloane tinha feito CrossFit também.
— Mas tem os outros. — Ela olhou de soslaio para Sloane. — Eles ouvem um
“não” e pensam que é uma ótima oportunidade de ser “persistente”, “implacável”
ou qualquer outra palavra da moda no mundo corporativo que acabaram de
aprender no último TED Talk que viram no YouTube. É com esses caras que a
gente tem que tomar cuidado. Muito conservadores. Estabelecidos. Isso sem falar
nas mensagens privadas que recebo no Instagram.
— Nojentas? — perguntou Sloane, as pernas trêmulas.
— Mais imundas que um banheiro químico no Coachella.
— Entendi. E você simplesmente aceita essa situação?
Oksana riu.
— Não. É tudo bastante organizado, na verdade. As treinadoras aqui da
academia têm um sistema. Primeiro, contratamos recepcionistas mulheres. Só
mulheres. Isso é fundamental. — Sloane olhou para a jovem ruiva atrás do balcão
da recepção. — Se um cliente começa a dar problema, pedimos à recepcionista
que destaque o nome dele em amarelo no arquivo. Se esse cliente solicita
treinamento à noite ou de manhã cedo, a recepcionista diz que as treinadoras
estão com a agenda cheia ou não trabalham naquele horário. Se um cliente
problemático passa muito do limite, destacamos o nome dele em vermelho.
Quando isso acontece, todas as treinadoras ficam ocupadas demais para
trabalhar com ele.
— Isso é genial.
— Mas por que está me perguntando isso? Tem alguém incomodando você?
— Não mais do que o normal. Um código amarelo, pode-se dizer.
Ela esperava que fosse verdade. Sentia que estava comprometida a fazer com
que fosse verdade. Tinha tentado deixar para trás a conversa com Ames na sala
dele, durante a qual tinha concordado com vigor em ignorar o que quer que
estivesse acontecendo ou não com Katherine. E o que quer que definitivamente
tinha acontecido nos anos anteriores a Katherine. Mas era como o cesto de roupa
suja em casa: não importava quantas vezes ela empurrasse as roupas para dentro,
uma hora elas transbordavam de novo. No entanto, Sloane tinha aprendido a
ignorar a roupa suja.
Sala mais espaçosa. Salário maior. Benefícios melhores.
Ela tentou encarar as coisas da forma prática, como Ardie faria.
— Certo. Bem, lembre-se: mãos nos ombros. Pé direito plantado firme. Mire mais alto do que você acha que deveria.
Oksana demonstrou no ar: joelhada nos testículos.
— Ainda estou em busca de algo um pouco mais sutil, mas obrigada. — E ela
foi sincera.
Depois de tomar banho e vestir novamente o terninho, Sloane voltou para o
escritório. Os telefones tocavam. As impressoras engasgavam. As secretárias
digitavam. Tudo estava normal, exceto por uma coisa: Ames Garrett estava
prestes a se tornar o próximo presidente da empresa.
Depoimentos de funcionários da Truviv
13 DE ABRIL
Marvin Jefferson: Ames era um cara exemplar. Qualquer um que o
conhecesse sabia disso. Tinha uma família linda. Trabalhava duro por esta empresa. Todo funcionário que tem opção de compra de ações deveria se curvar de gratidão diante desse homem. Essa é a verdade. Quando fiquei sabendo que o nome dele havia sido acrescentado àquela lista idiota que anda circulando, bem, isso para mim foi a prova imediata de que a coisa toda era uma grande mentira. Nenhuma boa ação fica impune, disso eu tenho certeza. Ames aprendeu isso da maneira mais difícil.
Bob Rogers: O que eu quero saber é: onde está a lista das mulheres? Uma
coroa da contabilidade me chamou para tomar um drinque, e eu não a denunciei para a polícia. Ela é sete anos mais velha que eu. Você acha que eu queria esse tipo de atenção dela? Não mesmo.
Zane Spivey: É muita ingenuidade não imaginar que o tipo de coisa
detalhado na lista CILADA estava acontecendo. Quer dizer, eu já encontrei um preservativo e uma calcinha no banheiro masculino. Se eu sabia pessoalmente sobre o comportamento de Ames? Prefiro não dizer.
Josiah Swift: Quer saber o que eu acho? Acho que alguém — alguém
importante, que não queria que Ames fosse presidente — pagou àquelas mulheres para colocar o nome dele na lista. Aquela lista pode arruinar vidas. Aposto que esse tipo de coisa acontece com mais frequência do que imaginamos. Espionagem corporativa, traição e tudo o mais. São cargos que envolvem muito dinheiro. Será que é realmente tão louco assim pensar que o propósito da criação da lista era prejudicar a carreira de determinadas pessoas? Acho que vale a pena investigar. Vocês estão anotando isso?