Rede de Sussurros
Capítulo 10
23 DE MARÇO
Rosalita colocou o envelope endereçado à “Sra. Valdez” no teclado de Ardie. Ela
ficou feliz por ninguém estar na sala. Era mais simples assim.
Ardie tinha oferecido seus serviços a Rosalita pro bono. Na época, a faxineira
não sabia o que isso significava, não exatamente, mas seu filho, Salomon, a
ajudou a pesquisar no Google e os dois descobriram que significava “de graça”.
Rosalita não gostava de nada de graça. Ou melhor, não confiava em nada
oferecido de graça. Até uma amostra gratuita de frango com gergelim no
shopping era um convite para comprar a refeição. A amostra grátis funcionava
como isca. E Rosalita não queria ser enganada. Seu primeiro instinto fora recusar
a ajuda de Ardie, e teria feito isso, se não fosse pela imagem incômoda de seu
menino, que não lhe deixou escolha a não ser aceitar. Então ela juntou o que
conseguiu economizar do parco dinheiro que ganhava com aquele emprego e
enfiou as notas num envelope.
O maior problema foi calcular exatamente quanto deveria pagar. Isso ela
também pesquisou na internet, e o valor dos honorários parecia variar do caro ao
exorbitante. Rosalita não podia pagar nem uma coisa nem outra, então separou o
que achava justo. Uma pilha de notas amarrotadas disfarçadas em um envelope
de correspondência. A imprudência de deixar aquela quantia ali fez suas
entranhas se revirarem.
— O que você está fazendo?
O corpo inteiro de Rosalita se enrijeceu ao som da voz masculina atrás dela.
Ela se virou e lá estava ele, o homem da sala do canto, a mecha de cabelo branco
escapando da testa. Os pelos dos braços de Rosalita se arrepiaram.
— Nada. — Ela entrelaçou os dedos e segurou as mãos na frente do corpo.
Ficou parada enquanto ele a inspecionava, olhando-a de cima a baixo. —
Limpeza.
Ele não tinha entrado na sala, mas seu corpo bloqueava a saída. A pulsação
reverberava em seus tímpanos. Ela podia falar a verdade, mas aquilo não era da conta dele. Ou talvez fosse, mas, em todo caso, ela já tinha dito uma mentira e
agora teria que mantê-la até o fim.
Ela pensou no envelope em cima da mesa e em como aquilo pareceria se ele
examinasse a sala mais atentamente, em como soaria ridículo se ela dissesse que
estava deixando o dinheiro ali em vez de pegá-lo. Ele não acreditaria.
— Sem produtos?
Ele coçou atrás da orelha, como se a questão não tivesse importância, embora
fosse óbvio que tinha, ou aquela pergunta não estaria sendo feita.
Rosalita se recompôs, amarrando mentalmente um torniquete em torno da
raiva e da humilhação que ameaçavam sangrar para sua voz. Um homem passou
no corredor, lançando um olhar de soslaio para dentro da sala. Ela já estava
acostumada com a suposição inerente de que ela e o restante da equipe de
limpeza estavam sempre de olho na oportunidade de pôr as mãos enluvadas nos
pares extras de sapato e nas pulseiras barulhentas que as pessoas deixavam em
cima ou embaixo das mesas. Sua antiga parceira de limpeza, LaTisha, tinha lhe
contado sobre um memorando que circulou nos escritórios do andar de cima
encorajando todos os funcionários a trancar seus pertences em um lugar seguro e
proteger seus computadores para evitar roubos. Reduza a tentação evitando
deixar seus pertences à vista!
Jesus Cristo. Tentação.
— Eu não preciso de produto para esvaziar as lixeiras. A outra limpeza será
feita no turno da noite.
Rosalita pensou em explicar melhor, mas duvidava que ele fosse prestar
atenção por tanto tempo. Uma ou duas vezes por mês, Rosalita pegava um turno
diurno, durante o qual havia apenas uma pequena equipe, que ficava de
prontidão para cuidar do serviço de limpeza mais leve e do inevitável
derramamento de uma xícara inteira de café, o que acontecia pelo menos uma
vez por dia. Tudo o que ela queria era encerrar aquela interação o mais rápido
possível.
Os olhos dele foram da lixeira no canto para onde Rosalita estava, bem em
frente à mesa de Ardie. Ela estava mentindo e, provavelmente, os dois sabiam
disso. Rosalita esperou, tensa como uma pistola engatilhada, pelo que
aconteceria a seguir. Um segundo. Dois segundos.
Se ela fosse outra pessoa, será que ele teria…
— Tudo bem por aqui? — Ardie apareceu atrás do homem, e Rosalita deveria
ter ficado aliviada em vê-la.
— Tudo ótimo. — Ele passou a mão nas bochechas. — Só estava checando como estavam as coisas.
— Na minha sala? — perguntou Ardie com um ar de inocência. Ela se
espremeu para passar por ele, a enorme bolsa imprensando-o, de modo que ele
foi forçado, por educação, a se afastar. Seu rosto parecia visivelmente irritado.
Mas ele abriu espaço.
Ele ficou parado por um momento, em seguida acenou para Rosalita e disse,
antes de ir embora:
— Boa tarde.
Ardie fechou a porta sem consultar Rosalita.
— O que aconteceu? — perguntou ela, colocando a bolsa em uma das duas
cadeiras em frente à mesa.
Rosalita torceu o tecido amarelo horroroso de sua camisa polo. Sentia na pele
a aspereza do tecido. Seu rabo de cavalo grosso caía pelas costas.
— Nada.
Ela se sentia pequena e insignificante, como uma criança vendo os adultos
trabalharem.
— Não pareceu ser nada. — Ardie se deixou cair pesadamente na cadeira de
rodinhas. — Desculpa. Você estava procurando por mim? — Nesse momento, do
outro lado da mesa, Ardie viu o envelope sobre o teclado. Ela o pegou. — O que é
isso?
Rosalita não respondeu.
Ardie cruzou os braços e soltou um longo suspiro ao examinar o conteúdo.
Em seguida, deu batidinhas com a borda do envelope na palma da mão aberta e
olhou pela janela.
O fato de aquelas mulheres terem estabelecido uma relação amigável não era
tão estranho quanto parecia. Havia acontecido naturalmente, ao longo de muitos
meses. Anos, àquela altura. Na primeira vez que Ardie falou com ela em
espanhol, Rosalita teve receio de que ela talvez fosse lésbica, mas ela tinha um
filho e um marido (que mais tarde se tornou ex-marido), então Rosalita se sentiu
uma babaca. ¿De dónde es usted?, perguntara para a faxineira, e elas descobriram
que Ardie, filha de médicos, era de McAllen, enquanto Rosalita cursara o ensino
médio na vizinha Rio Grande City. Suas conversas nunca duravam mais do que
cinco minutos, mas havia algo de agradável em falar com outro adulto em
espanhol, o que era desencorajado no trabalho por receio de que os funcionários
do prédio achassem que a equipe de limpeza estava fofocando sobre eles (o que
era verdade). O conforto de não ter que atravessar a camada extra de tradução,
de sentir que estava sendo compreendida, de soar como si mesma e inteligente perto de uma pessoa como Ardie a preenchia com uma sensação de
autoconfiança que lhe faltava durante a maior parte de suas interações no
trabalho, na mercearia, no banco, com o técnico da TV a cabo…
Ardie suspirou novamente.
— Rosalita, vou aceitar este dinheiro com uma condição — disse Ardie. —
Quero contratar o Salomon para ajudar na festa de aniversário do meu filho.
Rosalita encarou Ardie.
— Por quanto?
— Cem dólares — respondeu Ardie.
Isso era mais do que a quantia no envelope. Rosalita franziu a testa, quase se
esquecendo do homem.
— Cento e cinquenta.
Fora sua mãe quem lhe ensinara a nunca ficar grata pela primeira oferta. Sua
mãe tinha sido uma mulher pequena com um elevado grau de demência precoce
causada por uma lesão na cabeça sofrida em um acidente de carro aparentemente
sem gravidade. Nos anos que antecederam sua morte, Rosalita sentira o amor da
mãe como arame farpado. Mas, como resultado, tinha criado calos. E, ao olhar
para trás, muitas vezes ficava surpresa ao descobrir que algumas das habilidades
mais importantes que aprendera na vida tinham vindo daquela mesma mãe
maluca e perturbada.
Ardie fez uma pausa.
— Cento e vinte e cinco. Negócio fechado?
— Sim. Negócio fechado.
Ardie estendeu a mão, e Rosalita disse a si mesma que aquele era um acordo
simples. Fora o que dissera a si mesma no passado também. Claro, na época se
tratava de sua sobrevivência, e ela se forçara a reduzir o significado daquilo a
fatos e números. Mas continuava a ser, até aquele dia, a pior coisa que já tinha
feito. Uma transação simples que provou a Rosalita para sempre que ela era, no
fundo, uma pessoa de sangue frio. Que colocaria a si mesma e a seu filho acima
de tudo e de todos.
É só dinheiro, pensou ela. Mas… não tinha sido “apenas dinheiro” na última
vez que fizera um acordo?