Rede de Sussurros
Capítulo 20
1O DE ABRIL
Temos que admitir: nenhuma de nós achava mesmo que maternidade e trabalho
poderiam coexistir de forma harmoniosa. Pelo contrário, eram duas forças
diametralmente opostas. Éramos prisioneiras, amarradas ao dispositivo de
tortura medieval que puxava cada membro em uma direção, tendo desfrutado o
raro privilégio de amar e ter escolhido nossos torturadores. Havia apenas o
pequeno inconveniente de nossas articulações estarem sendo deslocadas e nosso
coração estar saltando do peito.
Acordávamos no meio da noite ao som de vozes infantis e nos arrastávamos,
sonolentas, pelos corredores em direção a rostos que não se importavam se
tínhamos um relatório para entregar na manhã seguinte. Prendíamos a
respiração enquanto medíamos a temperatura, tateando em meio ao terremoto
que um filho doente causava em nossos cronogramas e dando telefonemas
urgentes para amigos e parentes em um último esforço para coordenar os
cuidados com a criança ou quaisquer que fossem as exigências mínimas para que
ninguém chamasse o conselho tutelar. Pedíamos aos nossos filhos que “fingissem
não estar doentes” para que pudéssemos mandá-los para a creche e assim deixar
todas as outras crianças doentes. Um favor que, imaginávamos, tinha sido
retribuído muitas vezes. Dizíamos a nós mesmas, enquanto nosso próprio nariz
escorria, a cabeça doía e o estômago recusava comida, que estávamos bem.
Porque, o que quer que acontecesse, éramos a única opção, as encarregadas da
tarefa de descobrir o que fazer a respeito de, bem, tudo.
Então era alguma surpresa quando uma de nós surtava? Não era exatamente
isso que o sistema tinha sido projetado para fazer?
Rosalita caminhava com o filho em direção a uma casa que representava os
caminhos que sua vida e a de Salomon estavam tomando, e ela se preocupava
com a reação de seu coração se um dia o filho olhasse para ela não com orgulho,
mas com pena. Imaginava que, no fim das contas, isso era a maternidade.
— Parece vazia.
Salomon olhou para a casa na Morningside Avenue enquanto seguia pelo
caminho pavimentado com a mãe. Rosalita estava esperando uma mansão
impessoal, mas a casa de Ardie parecia uma casa de campo — uma casa de
campo grande e muito bonita —, com detalhes azuis e hera no muro branco. O
carvalho no jardim tinha o tronco da largura de um urso e sombreava o gramado
e um banco de ferro convidativo. Rosalita não conseguia entender como alguém
que voltava todos os dias para um lugar tão bonito podia ter uma vida
estressante. Bom para Ardie.
— Você vai trabalhar, Salomon. Quando a gente vai trabalhar, tem que chegar
pelo menos dez minutos antes.
Enquanto caminhavam até a porta da frente, Salomon mexia nervosamente
na aba do boné.
— Mas por quê?
— Porque você está aqui para ser útil. Não para se divertir. — Ela fez uma
dancinha para provocá-lo e empurrou Salomon suavemente em direção à
campainha. — Lembre-se de não tirar o boné, pajarito.
— Será que vai ter doce? — Ele se virou para perguntar, cutucando o boné.
Os dois ouviram o som de passos se aproximando do outro lado da porta.
— Eu trouxe um lanche para você. Você vai trabalhar — repetiu ela. — A sra.
Valdez não está pagando para você devorar a comida dela.
Ela beliscou a nuca do filho.
— Talvez esteja, sim — resmungou ele, afastando a mão da mãe.
Rosalita teve apenas mais um segundo para reconsiderar aquela ideia, ir
embora antes de deixar que o filho entrasse naquela casa linda. Mas aí já era
tarde demais.
Ardie apareceu e pediu que entrassem, e Rosalita disse a si mesma que estava
sendo ridícula. Eram cento e vinte e cinco dólares. Em um sábado. Estava tudo
bem. Melhor; tudo ótimo, até.
Ao entrar, Rosalita se viu diante de preocupações mais imediatas. Por
exemplo, se deveria ou não tirar os sapatos. Ela se lembrava vagamente de que
aquilo era algo que as pessoas brancas faziam. Seu tio trabalhava com
manutenção de aparelhos de ar condicionado e dizia que às vezes tinha que
colocar sapatilhas descartáveis sobre as botas antes de entrar na casa de um
cliente. Dependendo da decisão, aquilo parecia abrir a brecha para um grande
constrangimento.
Ela olhou para os pés de Ardie. Ela estava usando um par de sapatos baixos —
mocassins, Rosalita achava que era o nome — e não parecia nem um pouco preocupada com os pés dela, então continuou calçada. Quando Ardie os chamou
para entrar sem mencionar os sapatos, ela relaxou. Um pouco.
— Eu já deixei seu uniforme separado. Pode trocar de roupa no quarto de
hóspedes — disse Ardie a Salomon, indicando o corredor. — Você vai ser um
ótimo Homem-Aranha.
Salomon sorriu. Ele adorava o Homem-Aranha.
— Rosalita, o que vai querer beber? Mimosa? Coca-Cola? Água com gás? Chá
gelado?
Ela seguiu Ardie até a cozinha. A casa era muito mais limpa do que Rosalita
esperava. Em comparação com as outras mulheres do décimo quinto andar,
Ardie Valdez era menos… composta. A maioria de suas roupas estava
ligeiramente puída. Seu cabelo nunca estava penteado atrás. As mangas dos
blazers eram compridas demais. Ela usava calças largas que amarrotavam
quando se sentava. Mas Rosalita notou que Ardie fazia alguns investimentos.
Tinha uma bolsa bonita. Lindos sapatos de couro, embora não os de bico fino e
aparência perigosa que as outras mulheres usavam.
Rosalita entrelaçou as mãos na frente da barriga.
— Estou bem, obrigada.
— Estamos prestes a ter dez crianças com menos de cinco anos nesta casa,
você talvez precise de algo para relaxar.
Ardie limpou a bancada com uma toalha de papel.
— Estou bem.
Ardie comprimiu os lábios finos e assentiu.
— Eu também. Vou ficar no chá gelado. Pode se servir se mudar de ideia. —
Ela jogou a toalha de papel úmida no lixo. — O Salomon está se saindo muito
bem nas aulas, por sinal. Ele estará pronto para o exame de admissão, não tenho
dúvida.
Rosalita se animou. Não conseguia resistir quando o assunto era Salomon. As
aulas particulares tinham começado assim. Você tem filhos?, perguntara Ardie
certa vez depois de muitos meses de breves conversas entre as duas. E Rosalita
ficara muito, muito orgulhosa em contar a Ardie como seu filho era inteligente, e
Ardie sempre ouvia. Então, toda vez que se viam depois disso, ela perguntava:
Como está o Salomon? E Rosalita respondia que ele estava bem, até que um dia a
professora mandou um bilhete em uma letra cursiva complicada e ilegível.
Timidamente, ela o mostrou a Ardie, que traduziu. Em resumo? Salomon
precisava mudar de escola. Ele não desenvolveria todo o potencial na escola do
bairro. A professora achava que ele era superdotado. Superdotado!
Rosalita chorou. Não foram lágrimas de felicidade, mas de desamparo. Alguns
dias depois, no entanto, Ardie deixou algumas páginas impressas em cima de sua
mesa, com um bilhete que dizia: Para Rosalita.
Era uma nova escola com um exame de admissão e bolsa de estudo. Ardie ia
ajudar Salomon a entrar.
— Você acha mesmo que ele vai conseguir? Ele está entendendo a matemática
ou só decorando?
Rosalita tocou a têmpora de leve.
Na maioria das aulas, Rosalita acompanhava Salomon até a Barnes & Noble
para encontrar Ardie, que pedia uma bebida cremosa de “café” gelado com uma
espiral de chantilly. Rosalita percorria os corredores, pegando guias de turismo e
imaginando viagens para lugares que nunca visitaria. Muitas vezes, desde então,
Rosalita quis perguntar por que Ardie a estava ajudando, mas achava que tinha
algo a ver com não querer ficar em casa sozinha quando o filho estava com o pai.
Rosalita não era exatamente uma pessoa abençoada, mas tinha sorte por não ter
que compartilhar o filho.
— Ah, ele entende — respondeu Ardie. — Só fica com preguiça de fazer o
passo a passo. Sempre digo a ele: em matemática, você tem que mostrar seu
trabalho.
Rosalita assentiu.
— Vou estudar com ele em casa. E vou continuar dizendo isso a ele.
Então ela olhou por cima do ombro para ver se Salomon tinha aparecido,
como se ele corresse o risco de ser engolido por aquela linda casa. Mas ele voltou,
vestindo uma fantasia completa de Homem-Aranha. Ele fez uma pose e estendeu
o antebraço, com os dedos abertos para lançar uma teia imaginária.
Ardie bateu palmas.
— Perfeito. Salomon, por favor, pode me ajudar a levar essas bandejas para o
quintal?
Rosalita gostaria de perguntar mais sobre o progresso de Salomon. Teria
gostado de ouvir elogios, na verdade. Os elogios ao filho eram o melhor tipo. Se
tinha uma coisa que o pai dele tinha, era inteligência. Essa era uma das únicas
fontes de conforto para Rosalita quando se tratava da paternidade de Salomon.
Logo, os convidados começaram a chegar. Nos trinta minutos seguintes,
crianças entraram correndo na casa, com mães e pais em seu encalço. Rosalita
permaneceu de pé, pacientemente, no canto da cozinha, a bolsa pendurada no
pulso. Ela tentava não se esconder, mas ao mesmo tempo não se misturava aos
outros convidados. Estava usando um vestido jeans da Old Navy e sandálias, e ficou feliz ao perceber que fora uma escolha adequada para a festa.
Pelas janelas, observava Salomon distribuindo máscaras e capas de super-
heróis para as crianças mais novas. Ele se apresentava para os adultos. Mostrava
às crianças como flexionar os músculos. Estava integrado. Era o que ela queria,
de verdade. Mas não deixava de sentir certo incômodo.
Mesmo de onde estava, na cozinha, não havia como não notar a chegada de
Sloane. Ela usava uma camiseta justa com listras azuis e brancas, calça jeans
skinny e sapatos com salto anabela forrados com uma linda estampa xadrez. Seu
cabelo estava preso em um rabo de cavalo loiro reluzente que balançava na nuca.
Ela falava alto, como se narrasse a entrada da família. Suas mãos estavam
apoiadas nos ombros de uma menininha. O homem — seu marido — fechou a
porta depois que eles entraram.
— Mas que incrível! — exclamou Sloane para ninguém em especial. — A
Ardie se superou.
A filha de Sloane olhou para cima, sussurrou algo no ouvido da mãe e em
seguida saiu correndo para o quintal. Os olhos de Rosalita a seguiram, e, em
instantes, a garotinha encontrou Salomon, e as duas crianças mais velhas
assumiram o papel de chefes da organização.
— É seu filho? — Sloane entrou na cozinha e pegou uma das taças de
champanhe. — Quer alguma coisa, amor? — perguntou ela por cima do ombro,
mas o marido já estava indo para o quintal, onde as crianças e os outros adultos
estavam reunidos.
— É. O nome dele é Salomon.
Sloane serviu-se de uma taça quase cheia, a espuma borbulhando tão
precariamente perto da borda que Rosalita teve certeza de que ia transbordar.
Mas não; Sloane ainda acrescentou um pouco de suco de laranja.
— Eles parecem ter quase a mesma idade, a Abigail e o Sal… Salomon. — Ela
gaguejou ao dizer o nome dele. — Meu nome é Sloane, aliás. Acho que não
fomos apresentadas formalmente. Eu conheço você do… do… — Ela balançou o
dedo no ar como se estivesse tentando pegar a palavra, então estalou os dedos. —
Do escritório!
— Rosalita. — Ela estendeu a mão direita.
Naquele exato momento, porém, chegaram novos convidados, e a mão de
Sloane, fria e suave, se desvencilhou quando ela olhou para a porta da frente.
— Grace! Katherine! Com licença. — Ela ergueu um dedo, se desculpando. —
Só um momento. — E se afastou, equilibrando-se nos saltos e segurando a taça
de champanhe. — Vocês vieram! Juntas? Olhem só para vocês.
Houve muitos abraços. Aquele tipo de abraço de costas eretas, inclinadas a
partir da cintura, e pescoços arqueados, típico de mulheres como Sloane. Rosalita
percebeu que Katherine era a mulher de cabelo curto, a mulher do escritório, e
rapidamente virou o rosto para o outro lado.
Ela evitou olhar para o saguão de entrada e, em vez disso, deixou que os olhos
percorressem a cozinha em direção ao pote de biscoitos em forma de gato, uma
fruteira vazia, uma mochila de criança pendurada em um conjuntinho de mesa e
cadeira.
Agora as mulheres se aproximavam a passos ruidosos.
— Vinho! — exclamou Sloane para Katherine, que segurava o gargalo de uma
garrafa. — Para uma festa infantil! Gostei.
Sloane pegou a garrafa como se a casa fosse dela e a colocou na bancada da
cozinha.
— Entrem, entrem, eu estava conversando com a Rosalita. — Ela pronunciou
o nome dela com um sotaque carregado.
— Grace. — Outra mulher loira, um pouco mais jovem e muito bonita,
estendeu a mão.
— Olá — cumprimentou Rosalita. — Meu filho está ajudando na festa. — Ela
apontou para o quintal, onde Salomon carregava Michael nas costas. Ele era um
sucesso.
— Acabei de ter um bebê. E estou usando a festa como desculpa para tirar
uma folguinha de algumas horas. Me sinto culpada, mas…
Grace deu de ombros. Não parecia realmente sentir tanta culpa assim.
Rosalita já imaginava o bebê por causa da bombinha de tirar leite que ficava
guardada embaixo da mesa dela, mas fingiu que não sabia de nada.
Quando Salomon nasceu, ela não queria se afastar dele nem por uma hora,
mas era obrigada. Às vezes, ouvia as mulheres no escritório se queixando de que
mal podiam esperar a hora de voltar ao trabalho depois de ter um bebê. Mas
Rosalita sabia que elas poderiam esperar, e esperavam.
Katherine tinha visto Rosalita. Com certeza, pois desviou o rosto quando seus
olhos se encontraram — da mesma maneira que fizera naquela noite — e foi
direto para onde as bebidas estavam.
— Quer alguma coisa, Grace? — perguntou, sem voltar a olhar para Rosalita.
Ninguém mais pareceu notar.
Katherine ignorou o suco de laranja e, quando terminou de servir o
champanhe, sugeriu que fossem para o quintal. A sugestão não incluía Rosalita.
Mas Rosalita viu. Rosalita sempre via tudo. A questão naquele caso era: o que exatamente tinha visto na sala de Ames naquela noite?