Rede de Sussurros
Capítulo 34
13 DE ABRIL
O mais estranho foi ver como pouca coisa aconteceu no início. Os
acontecimentos se deram em rápida sucessão naquelas primeiras horas.
Momentos de escuridão, em seguida foco quando a persiana se retorce e reabre.
O primeiro acontecimento relevante, que equivale à primeira mudança climática
marcante que aconteceu depois que o diretor jurídico de uma das maiores
marcas esportivas do mundo se jogou de um prédio, foi que todos que
trabalhavam em seu andar foram embora, se dispersando como formigas em
uma inundação.
— Isso foi um erro — Sloane ouviu. Em sua mente, as lentes tinham acabado
de se abrir novamente, colocando em foco o segundo acontecimento relevante:
os policiais. — Deixar todo mundo ir embora. Quem tomou essa decisão?
O detetive Diaz era baixo, com o cabelo ralo penteado para trás e um bigode
grosso. O coldre ficava pendurado sob a curva da barriga. Ao lado dele, a detetive
Martin tinha seios fartos e cabelo preso num rabo de cavalo na nuca.
Naquele dia, o escritório estava operando sob uma ligeira aparência de
normalidade, com funcionários andando de um lado para outro, pegando
documentos na impressora enquanto tentavam ostensivamente ouvir alguma
coisa. Beatrice lançava olhares a cada três ou quatro segundos para o lugar onde
Sloane falava com os oficiais no corredor.
— Por favor, venham até minha sala e sentem-se. — Sloane gesticulou para
que os dois a acompanhassem e imediatamente se lembrou da bagunça de papéis
empilhados em cima da mesa. Ela colocou a cadeira atrás da mesa e empurrou o
teclado para mais perto do monitor, abrindo espaço. — Para responder à sua
pergunta, não acho que ninguém tenha tomado essa decisão. Acho que todos
estavam apenas tentando sair do caminho.
O detetive Diaz tinha braços grossos que exigiam algumas manobras para
serem cruzados. Óculos de sol da Oakley com lentes espelhadas se equilibravam
na cabeça.
— Mas você poderia ter insistido para que todos ficassem.
— Eu, pessoalmente? — Sloane considerou. — Acho que poderia ter tentado.
Sinto muito. Tenho certeza de que não estava pensando com clareza.
Grace tinha ficado pálida e caído num choro soluçante. Katherine tremia
enquanto tentava ajudá-la. As emoções de Sloane se alternavam entre o choque
por Ames ter pulado, a fúria por ele ter pulado e o horror diante da possibilidade
de que talvez tivesse influenciado sua decisão. Ardie não fingira ficar triste, mas
tinha percebido, quase de imediato, que aquilo mudaria tudo.
— Como ficou sabendo da morte de Ames Garrett? — O quadril da detetive
Martin surgiu por debaixo dos braços da cadeira. Ela pegou um bloco de
anotações do bolso.
— Me desculpem, isso é… — Sloane pousou os cotovelos, envoltos em seda
preta, na mesa. Apoiou o queixo no dorso das mãos. — Vocês se importam se eu
perguntar… Isso é normal em casos de suicídio?
Ela apontou para o bloco de anotações da detetive Martin. A palavra
“suicídio” era difícil de dizer em voz alta. Parecia de mau gosto. Sloane se
perguntou se haveria outra palavra melhor que deveria usar em seu lugar.
— Estamos investigando todas as possibilidades, senhora — respondeu o
detetive Diaz. Os pontos oleosos na testa dele lembravam queijo velho.
— O que significa… Desculpe, não estou familiarizada com o jargão. — Ela
enfiou a mão na gaveta da mesa e pegou um bloco de anotações e uma caneta
azul. Pressionou o topo da caneta com o polegar. — Assisti a uma quantidade
surpreendentemente pequena de episódios de Law & Order, considerando minha
profissão. — Um riso nervoso escapou, uma mania que tinha ficado adormecida
depois que Derek disse a ela, em seus primeiros anos juntos, que isso a fazia
parecer desequilibrada.
— Isso não será necessário. — A detetive Martin olhou para ela com um ar de
superioridade.
— Hum? — Sloane tinha acabado de encostar a ponta da caneta na página e
olhou para cima. — Ah. — Ela obedientemente deixou a caneta de lado, mas
agora não sabia o que fazer com as mãos.
— Suicídio é uma possibilidade, sim, senhora. — Enquanto falava, a detetive
Martin escreveu no topo do bloco de anotações a data, seguida do nome de
Sloane, que sublinhou. Duas vezes. — Outra é que a morte do sr. Garrett não
tenha sido voluntária.
Os olhos de Sloane dispararam entre os dois detetives na frente dela.
— Mas ele se jogou de um prédio.
— Como disse, esse é um dos cenários prováveis. — A detetive Martin tinha
um sorriso bonito.
Nesse ponto, o detetive Diaz se inclinou para a frente, cotovelos nos joelhos, e
esfregou as mãos.
— Sra. Glover, não encontramos um bilhete, e o sr. Garrett tinha um seguro
de vida surpreendentemente baixo para um homem de sua posição. É nosso
trabalho descartar a hipótese de crime.
Por que diabos a detetive Martin não queria permitir que ela anotasse nada?
— Então, isso indicaria o quê, falta de planejamento?
— Talvez. — A detetive Martin continuou escrevendo. — Acontece.
— Sra. Glover. — O detetive Diaz enfiou a mão no bolso da camisa e retirou
um palito, que enfiou entre os dentes. — Havia um desgaste na parte de trás do
sapato dele, um arranhão recente na mão e um corte acima do olho direito.
Traços de sangue…
— Ainda estamos esperando o resultado da análise do laboratório. — A
detetive Martin não levantou o rosto na direção deles.
— … foram encontrados na sacada, perto do lugar de onde ele deve ter
pulado ou caído. A senhora havia reparado em alguma dessas lesões?
Sloane entrelaçou os dedos.
— Não. Não que eu me lembre, mas eu não… Eu não falava com Ames havia
alguns dias, pelo menos.
O detetive assentiu e respirou fundo, o que agitou vários dos fios grossos de
seu bigode.
Sloane se equilibrou na beirada da cadeira, a boca franzida. E, bem, era
melhor dizer em voz alta de uma vez:
— Está tentando me dizer que acha que o Ames pode ter sido empurrado?
Isso é loucura.
Mas, assim que terminou de falar, ela sentiu uma ponta de dúvida se anunciar
no fundo da mente. Aquele 1% de chance.
— Em geral, isso se resolve em poucos dias, algumas semanas no máximo. É
só que, com essas questões de grande visibilidade…
— Como dissemos — a detetive Martin pousou o lápis no bloco —,
precisamos ser minuciosos. Procedimento padrão.
— É claro. — Sloane colocou as mãos embaixo da mesa e as entrelaçou,
enquanto sua mente repassava rapidamente as perguntas, antecipando-as, como
qualquer bom advogado faria. Qualquer bom advogado, qualquer advogado, na
verdade, tinha o dever de dizer a verdade. Mas não existia nenhuma exigência de que dissesse tudo que sabia. Então, quanto do que sabia ela ia dizer? Quanto ela
sabia de fato?
As lentes já haviam começado a retomar o foco e um novo filtro coloria tudo
o que havia acontecido no dia anterior. As horas que antecederam a morte de
Ames. Se havia uma coisa que Ames Garrett amava, era ele mesmo. O que havia
mudado? Alguma coisa havia mudado?
A detetive Martin concentrou sua atenção nela.
— Então, Sloane — disse ela. — Vamos começar do começo.
The Dallas Morning News — 18 de abril
Opinião: Como três mulheres derrubaram um homem
A caça às bruxas feminista fez sua primeira vítima e, me desculpem, mas onde está a indignação pública? Nessa perseguição aos bichos-papões que estão supostamente assombrando Dallas incólumes, parece que, assim como em Salem, aquelas que lideram o ataque são alérgicas a fatos (provavelmente porque eles não existem ou porque são muito inconvenientes para serem repetidos) e, em vez disso, se concentraram em como os acusados fizeram com que elas se sentissem. Tudo começou com uma lista não verificada, avançou para o campo judicial e agora resultou em um homem despencando para a morte do décimo oitavo andar de um prédio. Estamos surpresos? Este país deveria proteger seus cidadãos de terem sua vida, sua liberdade e sua propriedade tomadas sem o devido processo legal, mas o que aconteceu nesta cidade é um ataque à reputação dos homens e eu, pessoalmente, gostaria de ver a justiça sendo feita contra agressoras disfarçadas de vítimas.