Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 54 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 53

 

3 DE MAIO

Havia muito que tínhamos identificado o grande problema, aquele que originava

todos os outros: ser mulher em ambientes de trabalho era uma desvantagem que

vínhamos tentando compensar apagando nossa feminilidade apenas na medida

certa. Fingíamos concordar que o interesse por maquiagem, romances e Real

Housewives era realmente mais fútil do que uma obsessão por esportes, cerveja

artesanal e videogames. Nós nos cadastrávamos em jogos on-line. Ficávamos

atentas para eliminar de nossas frases a entonação que fazia com que afirmações

soassem como perguntas e evitávamos a palavra “tipo”, de forma a parecermos

mais “profissionais”, quando o que realmente estávamos tentando fazer era soar

mais masculinas. Como o assédio sexual era uma coisa que acontecia com

mulheres, acredite ou não, não gostávamos de admitir que tínhamos sido

assediadas. Isso seria o mesmo que admitir que o fato de sermos mulheres

importava. Portanto, nossa insistência em nos manifestar deveria ter dado pelo

menos uma pista do que estava por vir. Nós começaríamos a importar.

Da mesma forma, o fato de Sloane não estar transtornada também deveria ter

sido uma pista. Era, no mínimo, um maldito milagre. Ela estava esperando que

alguém na sala comentasse: Sloane, você é tão estoica. Como consegue? E, a

propósito, pode me passar o telefone do seu cabeleireiro?

Mas, em vez disso, todos além dela e Grace pareciam estar com o estômago

revirado. Ela considerou oferecer um antiácido, apenas para dar uma de atrevida,

mas, bem, provavelmente era melhor não.

Eles estavam na sala de reunião do vigésimo andar, a Sala Importante — era

como Sloane pensava nela, porque tinha sido lá que ela fizera sua apresentação

sobre responsabilidade legal para Desmond e o conselho. Ela mesma tinha se

tornado uma responsabilidade legal, percebeu. Ela teria feito aquela

apresentação. A vida era engraçada.

Cadeiras de couro macias com rodinhas estavam distribuídas em torno da

elegante mesa oval de mogno à qual Cosette, seus dois capangas (que Sloane batizara de Peggy e Brad, sem nunca ter realmente descoberto seus nomes), um

membro da comissão de análise independente com óculos firmemente fixados

no rosto, Al Runkin, Helen Yeh e Grace estavam sentados. No canto, uma

invejável ficus-lira projetava folhas impressionantemente grandes do tronco,

tendo custado talvez uns quinhentos dólares, fato do qual Sloane tomara

conhecimento da pior maneira possível quando duas delas morreram em sua sala

de estar.

Cosette verificava seu Rolex o tempo todo, com grande afetação, como se

fosse assim que alguém realmente via as horas. Sloane imaginava que o Rolex

provavelmente era como comprar um barco. Depois de pagar por ele, você se via

obrigada a registrar o número de vezes que o usava para justificar o preço.

— Têm notícias da Ardie? — perguntou ela, como se estivessem esperando

que uma de suas amigas chegasse para o almoço. Um drinque seria ótimo.

— Tenho certeza de que ela deve estar chegando.

Sloane tamborilava na mesa enquanto o silêncio, que ameaçava seus impulsos

conversacionais, se prolongava.

Para se ocupar, imaginava coisas sobre Cosette. Coisas bobas, como se ela era

do tipo que nunca deixava pratos sujos na pia (é bem possível). O apartamento

dela em Nova York provavelmente era harmonizado de acordo com os preceitos

do feng shui, um exemplar de A mágica da arrumação, de Marie Kondo, lido pela

metade na mesinha de cabeceira imaculada, como se a razão para sua casa se

manter em uma ordem tão impecável e analmente constipada fosse o fato de ela

ser iluminada e não, digamos, o fato de receber o equivalente a duas mil e

quinhentas horas de honorários advocatícios por ano.

Cosette deu uma batidinha no mostrador do relógio com aro de diamantes.

— Talvez devêssemos adiantar a parte burocrática da reunião de hoje. — Ela

empurrou três conjuntos de documentos. Um para Sloane, um para Grace e

outro para Ardie. — Nós nos adiantamos e preparamos os papéis para o acordo.

Usei marcadores amarelos para indicar onde vocês precisam assinar. Queremos

tornar o processo o mais indolor possível.

Cosette crispou os lábios quando se inclinou por cima da mesa.

— Que gentil da sua parte — disse Grace, em tom gélido.

Cosette assentiu em agradecimento, aparentemente tomando aquilo como

uma porra de um elogio de verdade.

Sloane tinha lido em algum lugar que era impossível matar uma pessoa com

mil cortes de papel, apesar do que a antiga expressão americana dizia, mas com

um milhão talvez fosse possível. Ela provavelmente não deveria pensar nesse tipo de coisa depois de tudo o que tinha acontecido.

— A verdade, Cosette — começou Sloane —, é que vocês poderiam ter

simplesmente nos oferecido a chance de abrir mão do processo. Nós talvez

tivéssemos aceitado.

— Eu bem que gostaria, Sloane. — Cosette expôs a ponta da caneta. —

Considerando nosso histórico. Mas a diretoria estava decidida, e eu concordei,

para ser sincera, que precisávamos estabelecer um precedente. Desencorajar

processos judiciais frívolos.

— Entendi. Um precedente. — Grace franziu a testa para Sloane e deu de

ombros. — Faz sentido.

Em outra sala, Grace e Cosette poderiam ter passado por irmãs.

Sloane se perguntou quantos colhões — como detestávamos essa palavra —

uma pessoa precisava ter para não se perguntar por que duas mulheres que

estavam se preparando para desembolsar uma quantia de revirar o estômago,

além de abrir mão de todas as suas opções de compra de ações e dos empregos,

não tinham um cílio fora do lugar.

Foi então que Ardie abriu a porta. Ela a segurou com as costas.

— Desculpem, estamos atrasados.

Cosette olhou de soslaio para a porta, prestando atenção apenas quando

Rosalita e o filho, Salomon, entraram à frente de Ardie.

— Com licença. — Ela bateu na mesa. — Esta é uma reunião privada. Estamos

no meio de um assunto importante aqui. Limpeza depois, por favor. — Cosette

lambeu o dedo e virou uma página nos documentos diante dela.

— Olá, sra. Sharpe. — Rosalita parou diante da mesa de reunião. — Meu

nome é Rosalita Guillen. Meu filho, Salomon, vai esperar no corredor enquanto

conversamos. Salomon, por favor, cadê a educação? Tire o boné.

O menino obedeceu.

— Prazer em conhecê-la — murmurou ele, olhando para o chão, as orelhas

ficando vermelhas enquanto todos na sala se voltavam para ele.

Era como se uma bomba atômica invisível tivesse sido detonada — silenciosa,

agourenta, gigantesca —, avolumando-se até transformar a expressão de todos ao

alcance da radiação. A mecha branca brilhava como um raio no cabelo escuro de

Salomon.

Mesmo que estivesse esperando a explosão, Sloane ficou sem ar.

— Cosette — começou Sloane, enquanto Ardie ajudava a conduzir Salomon

para fora da sala —, a verdade é que nunca teríamos descoberto a história da

nossa amiga se não fosse por você.

Os lábios de Cosette se retraíram, os dentes brancos expostos como os de um

tubarão.

Sloane ficou surpresa ao descobrir que não sentiu a onda de triunfo que estava

esperando. Na verdade, uma espécie de melancolia cansada tomou seus ossos.

Era como declarar que sua guerra favorita era a Primeira Guerra Mundial,

quando o que você queria dizer na verdade era que a Primeira Guerra Mundial

era aquela que você achava mais fascinante. Ninguém tinha de fato uma guerra

favorita. Então, sim, tinha sido daquele jeito com Rosalita. Era uma incapacidade

de tirar os olhos da mulher que ela havia ignorado tantas vezes. (Embora Sloane

tivesse sido simpática com ela no aniversário de Michael. Todos tinham que

reconhecer isso.)

E, claro, aquilo tinha acontecido com Rosalita na sala de Ames, com sua mesa

enorme e poltrona de couro azul-marinho. Quando pensava naquilo por muito

tempo, tinha vontade de matar Ames. Mas, bem…

Rosalita empurrou uma pasta fina de documentos na direção de Cosette, cuja

boca tinha se reduzido à finura de um alfinete.

— Vim aqui hoje porque Ames Garrett me estuprou neste edifício há oito

anos. Ele me disse que sabia o que eu queria. Eu não queria aquilo. Eu nunca

quis.

Sloane imaginou como deveria ser difícil para Rosalita entrar naquela sala e se

dirigir àquelas pessoas — um membro da diretoria, advogados de Nova York, um

funcionário do RH —, e não apenas isso, mas dizer aquelas palavras naquela

ordem. Ames Garrett a estuprara.

Rosalita, porém, não demonstrou qualquer sinal de desconforto. Ela parecia

perfeitamente tranquila. Que mulher corajosa. Mas, pensando bem, Rosalita já

dissera tudo aquilo a Desmond Bankole, o presidente de uma empresa da

Fortune 500, muitos anos antes. Ela tinha prática. Ao contrário do restante delas.

— Ames Garrett era pai do Salomon — explicou Rosalita.

Ardie interveio:

— Já ouviram falar na síndrome de Waardenburg? É uma síndrome

hereditária. Relativamente inofensiva, embora possa causar descoloração capilar

localizada e perda auditiva. Ames, como tenho certeza de que a maioria de vocês

sabe, tinha a síndrome de Waardenburg.

— E daí? A sra. Guillen pode ter tido uma relação consensual com o sr.

Garrett.

Cosette olhou ao redor, para mostrar a todos na sala como isso era

completamente óbvio. Mas se estava tentando manter a cabeça fora d’água, ninguém ofereceu a ela um colete salva-vidas.

— Uma relação consensual pela qual a Truviv pagava a ela mais do que o

dobro de sua renda anterior? — perguntou Grace. — Uma relação consensual

que fez com que Desmond Bankole autorizasse pessoalmente que um único

membro da equipe de limpeza recebesse um aumento de salário sem

precedentes, logo depois do estupro? Não acredito que presidentes de empresas

costumem se ocupar do pagamento da equipe de limpeza, né?

Sloane ficara triste ao saber sobre Desmond. Esperava mais dele.

— Sem falar que — continuou Ardie —, se analisarmos o histórico da

empresa por volta da época em que ocorreu o aumento da remuneração e em

que — ela abaixou a voz — Salomon foi concebido, veremos que a Truviv estava

prestes a fechar a aquisição da Run Dynamics, um processo que o próprio Ames

Garrett conduzia na época e que, como estimado, resultou em lucros

astronômicos para a Truviv.

Rosalita entrelaçou os dedos e chegou a cadeira para a frente.

— Amo muito meu filho. — Ela perscrutou cada um dos rostos. — É por isso

que não disse nada até agora. Até a Ardie… — Elas trocaram um olhar. — Até a

Ardie conversar comigo e eu decidir, eu decidir que queria contar minha parte

dessa história. Eu as deixo falar em meu nome por causa do meu inglês. Mas

estou aqui porque sei o que é importante. E sei o que é certo. E o que vocês estão

fazendo não está certo, sra. Sharpe.

A garganta de Sloane ficou subitamente estrangulada. Se Ames tentara colocar

Rosalita em seu lugar, tinha falhado.

Cosette parecia estar travando uma batalha interna para decidir se deveria ou

não dizer o que estava se passando em sua mente.

— Você só quer dinheiro — disparou ela, encolerizada.

Até Al Runkin se contorceu.

— Sim, seria bom receber o pagamento. Com certeza. Mas elas estão dizendo

a verdade. Não posso deixá-las perder o emprego, o dinheiro, tudo, porque estão

dizendo uma verdade que também é minha verdade.

Rosalita colocou o punho no peito.

Os olhos de Sloane lacrimejaram, droga. Ela empurrou a pequena pilha de

papéis para o outro lado da mesa.

— Então, embora estejamos gratas pelo tempo extra que gastaram indicando

onde deveríamos assinar, vamos em frente com a ação e não vamos assinar nada.

A imprensa já foi contatada. Caso vocês tenham alguma ideia de, não sei, partir

para a ofensiva novamente.

A mulher que Sloane batizara de Peggy escolheu aquele momento para se

pronunciar.

— Vocês assinaram acordos de confidencialidade com a empresa. — Ela

olhou de soslaio para Cosette em busca de aprovação. — Não podem dizer nada.

Estariam cometendo uma violação grave.

— É isso mesmo! — concordou Cosette, rapidamente. — Vocês não podem.

Rosalita levantou a mão.

— Mas eu posso.

Ela havia telefonado para Cliff Colgate naquela manhã. Era a vez delas de

assumir o controle da narrativa, e aquilo — a história de Rosalita — mudaria

tudo. Além disso, pensou Sloane, seria um ótimo furo para Cliff também. (De

nada.) Ele tinha prometido escrever a matéria com bom gosto e discrição e,

como resultado, elas teriam que acreditar que ele realmente era, como dizia, um

dos caras legais.

— Certo, bem, vamos deixar vocês trabalharem — disse Grace.

Sloane balançou a cabeça solenemente.

— Parece um verdadeiro pesadelo de relações públicas.

Não havia a menor possibilidade de que Cosette não estivesse muito, muito

tensa.

— É claro que vamos aconselhar a Truviv sobre a melhor forma de abordar

essa questão publicamente. Eles estão em boas mãos.

Sloane fez uma pausa.

— Eu quis dizer para seu escritório… e para você. As mulheres da área

jurídica têm que se unir — disse ela. — Obrigada pelo conselho.