Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 24 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 23

 

3 DE ABRIL

Ardie havia prometido se concentrar no trabalho naquele dia. Pela manhã, a casa

ainda parecia ter sido atingida por um tornado. Michael tinha dormido na casa

do pai, então ela não podia nem usá-lo como desculpa. Tinha chovido, e os restos

da cidade de papelão estavam se dissolvendo em uma papa de celulose no

quintal. Ela pensara em guardá-los. Ficara tão orgulhosa da festa no sábado de

manhã.

E então acabou. Tony foi embora, levando Michael para que “ela tivesse

tempo de descansar”. Não havia ninguém com quem recapitular o sucesso da

festa ou falar sobre o que Michael tinha feito e dito, quais haviam sido suas partes

favoritas, rir das fotos dele enfiando bolo de “chocolhate” na boca, porque era

assim que ele ainda chamava; era assim que chamava desde bebê. Sábado à noite,

ela se encolheu no colchão king size (venda essa cama, amigas lhe disseram

depois do divórcio; ela nunca havia feito isso) e não se preocupou em colocar

uma roupa até aquela manhã. Era uma segunda-feira monótona de volta ao

trabalho.

Agora havia novos pareceres da Receita Federal para revisar. Havia linguagem

a interpretar. Problemas solucionáveis para analisar. Ardie gostava de ocupar a

mente de forma produtiva.

Um véu cinzento se estendia do lado de fora da janela do escritório, cuspindo

chuva sobre o vidro. Quando o vento soprava, parecia que uma saraivada de

chumbinho crivava a vidraça. O escritório tinha uma energia diferente quando

chovia, e naquele dia parecia subjugado. Aprisionado. Energia silenciosa.

Vibrações faziam o chão estremecer a cada trovão.

Às onze, o telefone fixo tocou, chamada de um número local, e Ardie atendeu.

— Adriana Valdez.

— Sra. Valdez — disse uma voz calorosa do outro lado da linha —, aqui é

Tonya Loughlin, do Distrito Escolar Independente de Highland Park. Estou

ligando para marcar uma entrevista formal com sua cliente, Abigail Glover, a respeito da recente queixa de assédio apresentada por ela.

Fantástico, justamente o tipo de coisa na qual Ardie estava tentando não

pensar. Que timing perfeito. Ardie se recostou na cadeira e apoiou a mão na

dobra do cotovelo enquanto segurava o telefone.

— Veja bem, a política da escola exige que façamos entrevistas formais com

todas as partes envolvidas na suposta conduta imprópria. Como advogada da

família, a senhora, é claro, tem o direito de estar presente. Poderia me informar o

melhor horário para a reunião?

A pergunta ficou no ar enquanto Ardie procurava um bloco de anotações em

cima da mesa. Ela encontrou um e virou a folha. Pontuava seu ressentimento

esmurrando o topo da caneta, a ponta perfurando a página.

— Obrigada, Tonya. Vou falar com a mãe da Abigail e em breve lhe dou uma

resposta sobre o melhor horário. Pode me passar seu contato, por favor?

Tonya obedeceu, e, depois de recolocar o telefone no gancho, Ardie arrancou

a folha do bloco e a dobrou com um vinco afiado.

Durante o fim de semana, Sloane inundara o telefone de Ardie com uma

infinidade de mensagens de texto e de voz, diligentemente ignoradas. Era típico

de Sloane pressioná-la a esquecer o que tinha acontecido, deixar pra lá o caso

platônico que Sloane e Derek aparentemente estavam tendo com seu ex-marido.

Agora, a impaciência de Sloane para esquecer a situação e fazer as pazes tinha

relegado Ardie à posição de rancorosa. Sloane queria conversar sobre o assunto.

Mas, sério, o que esperava que Ardie dissesse? Sim, você me magoou. Elas não

estavam no jardim de infância. Tony era adulto. Derek e Sloane eram adultos.

Podiam ser amigos de quem quisessem.

Mas que merda. Sloane nunca deveria ter saído com Tony, e ela sabia disso.

Sloane tinha que se sentir mal. Péssima, de preferência.

Embora provavelmente já estivesse se sentindo.

— Tome, isso é para você — disparou Ardie quando chegou à sala de Sloane e

entregou a ela a folha de papel na qual tinha anotado cuidadosamente os

contatos de Tonya. — É para o caso da Abigail. Não sou sua secretária, a

propósito. Nem sua advogada de verdade.

Ah, sim, além de Tony, Sloane aparentemente também se sentira no direito de

escrever um memorando legal… No. Nome. De. Ardie.

E nem estava bom.

Tudo bem, talvez estivesse razoável.

Isso era irrelevante. Ardie nem sequer tivera a chance de ler o documento, e

ela não agia de forma leviana. Sloane sabia muito bem disso.

Sloane se levantou e pegou cuidadosamente o papel com os contatos.

— Ah, merda, Ardie. Desculpa, você não precisava…

— Bem, você é a chefe. — Ardie não queria ter dito em voz alta. Era um

comentário cruel. Merda. Não queria soar cruel. Isso fazia com que parecesse

imatura e mesquinha. Por isso que ela nunca dissera nada de ruim a Tony.

Quanto melhor ela fosse, pior ele se sentiria. — Você sabe que eu amo a Abigail

— acrescentou, pressionando a ponta dos polegares.

Estava sendo sincera. Faria qualquer coisa por Abigail. Como Sloane e Derek

tinham criado uma menina tão encantadoramente estranha, ela não fazia a

menor ideia, mas Abigail era simplesmente maravilhosa, e Ardie esmagaria de

bom grado qualquer garoto, ou garota, que mexesse com ela, da mesma maneira

que Sloane faria.

— Ardie, sinto muito. — Sloane se inclinou na mesa, exalando perfeição com

sua blusa de seda com estampa geométrica que certamente era de grife. —

Confraternizei com o inimigo… — disse ela com um tom solene.

— Eu nunca disse que ele era o inimigo. O problema foi você ter mentido

para mim.

Sloane ergueu um dedo.

— Tecnicamente não menti.

Ardie arqueou as sobrancelhas.

— Não. Você está certa. Não fui honesta. Fiquei tentando achar o momento

certo de contar, mas…

— Mas não contou. — Ardie completou a frase.

— Não contei — concordou Sloane. — Mas também não lavo meu carro há

nove meses, ou seja…

Sloane sempre foi uma ótima negociadora. Tinha aquela capacidade de “atrair

mais abelhas com mel do que com vinagre” que fazia com que as pessoas

quisessem concordar com ela. Grace certa vez perguntara a Ardie se o fato de

Sloane ter sido promovida antes dela a incomodava, mas isso nunca a chateou. O

cargo de Sloane exigia que fosse boa no trato com as pessoas. Ardie, por sua vez,

preferia evitá-las a todo custo e até se perguntou se haveria algo de errado

consigo. Algum diagnóstico. Um transtorno de personalidade. Algo mais

concreto do que apenas “pessoa naturalmente introvertida”. Mas, bem, para

descobrir, teria que conversar com alguém que mal conhecia por um período

considerável, o que estava fora de cogitação.

Sloane espalmou as mãos na mesa, como se fosse expor seus argumentos.

— Bem, saiba que a Braylee é péssima.

— Não é nada — retrucou Ardie, impassível.

A boca de Sloane se contraiu.

— Tem razão, não é. Não no sentido tradicional. Mas de qualquer forma.

De qualquer forma o quê? Ardie queria saber. Era uma maneira tipicamente

irritante de Sloane finalizar um pensamento. Será que Sloane queria continuar a

sair com Braylee, mas de qualquer forma não iria, porque magoaria Ardie? Ou

talvez Sloane achasse que Ardie estava sendo irracional, mas de qualquer forma

respeitaria os sentimentos da amiga? Ou: o marido de Ardie a deixara por outra

mulher, mas de qualquer forma Ardie ainda o amava.

Este último pensamento era de Ardie.

Na noite anterior, ela usara o código para que seu número não fosse

identificado, e ligara para Tony. Ela ficou deitada na cama com o telefone

apertando o ouvido, ouvindo-o dizer “Alô? Alô?”, enquanto ela prendia a

respiração. Desligou e ligou mais uma vez, em seguida adormeceu com o som da

voz do ex-marido ressoando nos ouvidos.

— Tudo bem. — Ardie ergueu os dedos. Bem.

— Não está tudo bem.

Ok, então não estava, mas Ardie não via sentido em discutir tudo aquilo

exaustivamente com Sloane. Ela podia optar por superar ou não aquela história

e, é claro, teria que escolher a primeira opção. Ela e Sloane ficariam bem. Em

algum momento. De modo geral. Embora ainda se lembrasse do tempo em que

pensava o mesmo sobre seu relacionamento com Tony.

Sloane soltou um suspiro.

— Você nunca se arrependeu de nada?

Sim, pensou Ardie imediatamente. Não. Será? Sim. Uma vez.

Em todo caso, não era algo que ela fosse — ou pudesse — compartilhar com

Sloane.

No caminho de volta para a sala, viu pelo vidro Katherine trabalhando, a

cabeça inclinada sobre o teclado. Quase seguiu adiante, mas no último momento

se deteve, lembrando-se de algo e engolindo em seco. Bateu suavemente com os

nós dos dedos na porta aberta, e Katherine sorriu para ela. Um par de óculos de

leitura que Ardie não sabia que ela usava refletia telas gêmeas.

— Olá, Katherine. — Ela tentou passar um ar despreocupado. Não era

exatamente o forte de Ardie. — Queria trocar uma palavrinha com você…

Ardie enfiou as mãos nos bolsos das calças largas. Droga, por que dissera

aquilo a Katherine no sábado? Grace tinha saído para tirar leite e, caramba, Ardie

estava muito zangada com Sloane. Pega de surpresa por Braylee, tinha acabado de ver o e-mail com o memorando que ela supostamente escrevera e só agiu por

impulso.

Hesitou, sem jeito.

— Você se importaria de manter o que discutimos depois da festa de

aniversário do Michael, você sabe, sobre a Sloane, em segredo?

O sorriso de Katherine se desfez.

— É só que… Não era sério, eu só estava desabafando.