Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 36 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 35

 

13 DE ABRIL

Na noite em que Ames morreu, Grace transou com Liam pela primeira vez desde

o nascimento da filha. Ela vestiu um conjunto de calcinha e sutiã de renda pretos

para evitar qualquer confusão a respeito do que havia no menu de

entretenimento para aquela noite. Nada de ver o jornal hoje à noite, querido!

Em nenhum momento Liam estranhou que a esposa estivesse fogosa —

finalmente! — logo no dia em que seu chefe morrera. Pelo contrário, ficou feliz

em aproveitar.

Em circunstâncias normais, Grace teria dito que ela e o marido fizeram um

sexo gostoso. Nunca tinha entendido suas amigas, que, aos vinte anos,

tagarelavam sobre como, em hipótese alguma, jamais se casariam com um

homem com o qual o sexo não fosse ótimo. Grace achava que nunca tinha feito

um sexo ótimo. Ela gostava de sexo. Muito. Mas ótimo? Acreditava que, se você

amava uma pessoa, então certamente era possível desvendar os detalhes da

satisfação mútua nos primeiros dois anos. E também nunca tivera uma transa

ruim. Bom, isso era verdade. Até aquele exato momento. O momento em que

ouviu a respiração ofegante de Liam, e sentiu que alguém estava recheando suas

entranhas como um peru de Natal.

Quer saber como foi meu dia, meu bem?, ela pensou em perguntar a ele

enquanto olhava para seu peito nu.

O sexo doeu. Não havia como ignorar isso. Ela estremeceu em silêncio. Mas,

pensando bem, essa era a ideia. Ela merecia um pouco de sofrimento. Ansiava

por um castigo divino.

Depois, quando suas partes íntimas pareciam ter sido completamente lixadas,

ela saiu da cama e se limpou com um lenço umedecido.

Liam descansava no travesseiro. Tufos de pelos surgiam debaixo de cada

braço.

— Está tudo bem? — perguntou ele, observando-a lavar o rosto na pia.

Ela pegou um pijama J.Crew na gaveta e o vestiu.

— Depois de… tudo?

Honestamente, o que ela deveria achar que ele queria dizer com isso?

— Você parece um pouco, sei lá, estranha. — Ele prendeu o lençol amassado

em torno da cintura.

Sério, Liam, pareço um pouco estranha? Nossa, como você é observador.

Ela estava sendo cruel. Mesmo que apenas mentalmente.

— Estou bem — respondeu. — Você me conhece.

Ele era um bom marido. Vestia-se de forma impecável, comprava joias,

preparava jantares, ligava para casa no caminho de volta do escritório todos os

dias, levava lista de compras para a Target. Lá estava ela, defendendo o próprio

marido para si mesma.

Liam pegou o celular e o apoiou na barriga. Ambos faziam isso: verificavam o

e-mail do trabalho até a hora de dormir.

— Você é incrível, sabia? — disse ele.

Ela deu as costas para o espelho.

— Vou pegar um copo de água. Quer alguma coisa?

Ela parecia a Grace de sempre, então o fato de Liam — seu amado marido —

não a ter pressionado mais foi quase inteiramente culpa dela. Assim como todo o

resto.

Por um momento, antes de sair, ela observou o sulco do músculo do ombro

dele se aprofundar quando Liam se esticou para desligar o abajur na mesa de

cabeceira. E então o quarto deles ficou às escuras.

Ela foi até a sala de estar. A casa à noite ficava artificialmente fria — a conta

de luz era outro luxo em sua vida, prova de que não tinha o direito de reclamar

—, e os pelos de seus braços se arrepiaram. Ela encontrou a bolsa largada ao lado

da porta. Enfiou a mão no compartimento do meio e tirou um maço de

Marlboro e um isqueiro. Em silêncio, abriu a porta e se sentou na varanda. O

papel grudou no interior úmido de seus lábios. Ela acendeu o cigarro e deu uma

tragada.

Enquanto soprava a fumaça, contemplou a noite, as casas dos vizinhos, com

seus belos refletores iluminando os troncos de árvores antigas. Ela se perguntou

o que teria acontecido se ela não tivesse visto a mensagem de Ames na tela do

computador: Achei que éramos amigos.

Outra coisa? A mesma coisa?

Amigos.

Não havia respostas ali fora, na varanda. Ela caminhou até a rua, apagou o

cigarro na caixa de correio de tijolos e atirou a guimba nos arbustos. Em casa, lavou o rosto novamente e bochechou antisséptico bucal. A respiração de Liam

era lenta e tranquila embaixo das cobertas. Ela o sacudiu para acordá-lo.

— Liam. Liam — sussurrou. — Emma Kate está chorando.

Ele se virou, os olhos se ajustando no escuro.

— Hã?

Ela escutou.

— Emma Kate está chorando. — Grace bocejou. — Pode ir lá dar a

mamadeira pra ela?

Liam esfregou os olhos com a palma das mãos e se apoiou nos cotovelos.

— Mamadeira? Sim. Posso dar a mamadeira.

— Obrigada — murmurou ela. — Coloquei os sacos de leite que tirei na

geladeira.

Era mentira. Grace tinha parado de amamentar três dias antes e escondera

uma caixa de fórmula infantil debaixo de uma lona na garagem. O que os olhos

não veem o coração não sente, pensou ela, quase como um lembrete para si

mesma. Aí foi para a cama.

Isso fora dois dias antes e, desde então, ela praticamente não tinha saído de lá.