Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 12 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 11

 

27 DE MARÇO

O funeral de Desmond Bankole foi realizado sete dias após sua morte. Os dias

nesse intervalo tinham se passado na habitual confusão de trabalho, carro e casa,

entremeada por ocasionais telefonemas urgentes, memorandos redigidos às

pressas e reuniões meramente formais. Ao chegar, Sloane se deparou com uma

verdadeira coluna social em que todos vestiam preto, reconhecíveis embora

ligeiramente fora de contexto. Seus saltos afundaram na grama bem cuidada

quando pegou um atalho para a igreja. Sloane tinha um ódio visceral a enterros.

Aos quinze anos, tivera que comparecer a três no mesmo ano. A avó materna,

seguida dos dois avôs. Ela detestara apertar as mãos de pessoas idosas, o toque

dos lenços amassados nas palmas de pele fina como papel. A sensação de

lágrimas incontroláveis, uma onda de emoção íntima à mostra — e pior:

esperada.

Depois do nascimento de Abigail, ela e Derek fizeram os testamentos, e

Sloane deixou instruções: desejava ser cremada, por favor, e que depois as cinzas

fossem despejadas no quintal enquanto alguém fazia uma oração a Tina Fey. E,

tudo bem, talvez ela tivesse incluído uma sugestão ligeiramente autoritária para

que Derek considerasse se casar com Ardie, alguém que Sloane tinha certeza de

que se preocuparia bastante com a educação de Abigail, se lembraria de preparar

o lanche da garota e, este ponto era um pouco cruel por parte de Sloane, não a

ofuscaria no quesito aparência. Mas, fora isso — as orações a Tina Fey e o

casamento com uma de suas melhores amigas —, Sloane planejava ser uma

esposa e uma mãe morta bem pouco exigente. De verdade.

Sentada no banco da igreja, com as costas doloridas por causa da madeira

dura, ela mantinha o braço entrelaçado ao de Grace e uma pastilha Altoid

grudada no céu da boca.

— É a última música. — Ardie apontou para uma das linhas finais do

programa.

— Aleluia. — Sloane levantou os olhos para o céu.

Grace lhes dirigiu um olhar de reprovação.

— É assim que vocês duas agiriam se eu morresse? — sussurrou ela.

Ela enxugou os olhos com um lenço de papel amassado e fungou alto. A ponta

do nariz tinha adquirido um horrendo tom avermelhado. Sloane acariciou o

ombro da amiga. Grace usava um lindo xale preto de caxemira em volta dos

ombros. Seu cabelo claro estava preso em um elegante coque-banana. Arrumada

à perfeição, como sempre. Mas, por Deus, como andava sensível ultimamente.

— Depende — respondeu Ardie, aos sussurros. — Seria antes ou depois de

você terminar a análise regulatória da aquisição dos planos de assinatura de

caixas? — Ela checou o relógio. — Para ser justa, já estamos aqui há mais de uma

hora.

— Ela está brincando, Grace. Nós ficaríamos arrasadas.

Grace se desvencilhou de Sloane e cruzou os braços. Manteve os olhos atentos

ao pastor, que estava fazendo as considerações finais, e abaixou a cabeça para se

juntar ao restante da congregação em algum tipo de oração.

— Usaríamos preto por um ano — murmurou Sloane. — Prometo.

Para provar, ela colocou a mão em uma das Bíblias no banco. Era bastante

conveniente.

Grace ergueu o queixo.

— Eu não estou sendo ridícula, sabia? Isso pode acontecer. — Ela encarou

Ardie também. — Com qualquer uma de nós.

— Claro — disse Sloane, baixinho, observando a amiga. É natural, disse a si

mesma, confrontar a própria mortalidade depois do nascimento do primeiro

filho. — Mas não vai acontecer.

O órgão ressoou pela capela, e Sloane se levantou junto com a multidão de

enlutados. Seu anel puxou um fio da meia-calça preta que usava por baixo do

vestido. Um rasgo curto e severo correu até o topo do joelho.

— Merda — sussurrou ela, mais alto do que pensara.

— Está tudo bem? — Ardie se virou para Sloane.

— Estou ótima. — Não havia como salvar a meia-calça. Ela simplesmente

teria que lidar com o problema até conseguir ir ao banheiro para tirá-la e torcer

para ter se lembrado de passar hidratante nas pernas naquela manhã. Desejou

que Derek estivesse lá, a mão apoiada em suas costas. Ele tinha boas mãos. Mãos

de jogador de basquete. — Só quero sair daqui.

 

* * *

Do lado de fora, o dia estava lindo. O gramado exalava um cheiro de grama

recém-aparada. Havia borboletas de verdade voando por entre as variedades de

plantas que decoravam o exterior.

Enquanto a multidão se encaminhava para fora da igreja como gado, Sloane

ouviu saudações amigáveis, viu apertos de mão, presenciou almoços sendo

marcados. Ela também deveria estar socializando. Aproveitando o momento.

Havia mesas de servir no gramado e as pessoas pegavam suco de laranja ou água

em copos de plástico.

— Você quer alguma coisa? — perguntou Ardie, que não resistia a uma boca-

livre, indo em direção à mesa.

— Estou bem, obrigada.

O estômago de Sloane estava inquieto. Grace tinha desaparecido, talvez para

retocar a maquiagem, toda borrada depois da missa. Grace devia ser uma pessoa

melhor do que ela, pensou Sloane, que não tinha chorado até então.

Alguém cutucou seu ombro. Sloane se virou e deu de cara com Elizabeth

Moretti, os braços já estendidos para envolvê-la em um abraço. Elizabeth tinha

um volumoso cabelo castanho e um sorriso que mostrava demais a gengiva. Mas

se vestia muito bem, e naquele dia estava usando um tubinho com detalhes na

barra, de aparência sofisticada, que Sloane imaginava que algumas horas antes

ainda estivesse com a etiqueta.

— Imaginei que fosse encontrá-la por aqui.

Naturalmente, Sloane pensara o mesmo de Elizabeth. Embora fizesse menos

sentido, já que ela não trabalhava na Truviv.

Elizabeth olhou em volta, estalando a língua. Ela era tão barulhenta.

— Trágico. Mas foi uma bela cerimônia. Flores lindas de morrer, me perdoe

pelo trocadilho infeliz. Está vendo aquele cara ali?

Sloane olhou sutilmente para um ponto além de um vaso cheio de amores-

perfeitos roxos e alaranjados e viu dois homens conversando sob a sombra de um

carvalho. Ambos tinham quarenta e poucos anos e eram sortudos porque ainda

exibiam cabelo, mas as entradas reveladoras de pele rosada e reluzente haviam

começado a se alargar, fazendo incursões além da linha do cabelo original.

— O mais baixo — continuou Elizabeth. — Ele veio de outra empresa, então

acho que você não o conheceu. Jacob Shor. Virou sócio do Jaxon Brockwell há

alguns anos. Ele estava na lista. Achei que sabia tudo o que acontecia por lá. Mas

não, bem ao lado do nome dele estava escrito “tentou transar com uma estagiária

na sala”. Quase morri do coração. Desculpa. Meu Deus. — Ela fez o sinal da cruz,

olhando para o campanário. — Dá para acreditar?

Dava? Sloane olhou para o homem, que parecia bastante simpático. Um rosto

amigável. Ela conseguia imaginá-lo como um professor de educação física muito

querido. Um predador sexual? Aí já não era tão fácil assim.

— Então… — Elizabeth pegou um estojinho de pó compacto e verificou seu

reflexo. Nada mais casual. — Ele estava na lista?

Sloane ficou com raiva de si mesma por ter esquecido os óculos escuros. O dia

estava esquentando e ela estava com uma cara de paisagem horrível.

— Quem disse que eu estava procurando o nome de alguém? — Havia

irritação em sua voz.

— Foi um palpite.

Sloane suava sob o sol quente de quase meio-dia.

Ela poderia ter acrescentado o nome dele. Era anônimo. Um documento

compartilhado flutuando na nuvem nebulosa da internet. Qualquer um poderia

acrescentar ou editar, e ela chegou a começar a escrever. Mas não foi até o fim.

Por quê?

— Tudo bem, tudo bem, não precisa me dizer. Não é da minha conta. — Tudo

era da conta de Elizabeth. Ela fechou o pó compacto. — Mas você deveria

adicioná-lo. Pode ajudar alguém. Pegar o touro pelas bolas. — Ela estendeu a

mão em concha para demonstrar. — Entende o que quero dizer?

Sloane não queria falar sobre o assunto naquele momento, não com ela.

Afinal, Elizabeth não tinha funcionado como uma espécie de lista para ela no

passado?

Cuidado com o Ames Garrett.

— Desculpa, Elizabeth. Estou com um fio puxado na meia-calça. Preciso ir ao

banheiro. Você me daria licença? — disse Sloane, soando muito formal.

O que havia de errado com ela? Tinha se perdido oficialmente de Ardie e

Grace àquela altura. Precisava se recompor, embora de fato detestasse funerais.

Ela abraçou Elizabeth. Sloane não gostava muito de abraçar mulheres que

conhecia profissionalmente, mas ainda lembrava que Elizabeth gostava de

abraços.

— Esmalte transparente — disse Elizabeth quando ela se afastou.

Sloane virou a cabeça para trás.

— O quê?

Elizabeth olhou para ela, avaliando, e colocou as mãos em concha em volta da

boca como um megafone.

— Vai fazer o fio parar de correr.

Sloane acenou em sinal de gratidão.

* * *

 

Do lado de dentro, a igreja estava muito mais vazia do que antes, graças a Deus,

com apenas alguns retardatários andando de um lado para outro e falando em

voz baixa. Seus passos ecoaram pelo corredor enquanto ela seguia as placas

indicando o banheiro, que, segundo lhe informaram, ficava em algum lugar da

ala leste.

Sloane estava virando no corredor quando o viu. Aquela mecha branca

cortando o cabelo castanho-escuro sempre a paralisava. Seu coração começou a

bater mais rápido. Ames estava de cabeça baixa, como se rezasse, mas falava com

Katherine Bell, cujas costas esbeltas estavam apoiadas na parede. O primeiro

instinto de Sloane foi interrompê-los, mas, como acontecia com frequência em

situações relacionadas ao trabalho, sua mente começou imediatamente a repassar

uma série de possibilidades traiçoeiras. Ela recuou para assistir de uma distância

segura enquanto um formigamento de alerta se espalhava pelos braços.

O que ele estava dizendo?

Por outro lado… será que precisava mesmo saber? Talvez bastasse que Sloane

colocasse ela mesma aos vinte e oito anos no lugar de Katherine e arriscasse um

“palpite”. Sloane não fazia ideia de quanto tempo havia que os dois estavam

conversando, mas demorou menos de um minuto para a conversa terminar. Um

fino fio de suor se acumulava em seu sutiã. Ela sentiu as narinas dilatadas

daquele modo repulsivo que nunca conseguia controlar quando era tomada por

um certo tipo de raiva.

Esperou. O rosto de Katherine estava impassível enquanto caminhava em sua

direção pelo corredor, e Sloane se preparou para, assim que ela virasse a esquina,

fingir surpresa.

— Desculpa! — disseram as duas ao mesmo tempo.

Sloane tentou ler os olhos de Katherine. Ames tinha sido babaca? Ou será que

a conversa fora perfeitamente normal e Sloane estava imaginando coisas?

Aquela maldita lista. Ele deveria estar nela. As pessoas tinham que ser

avisadas. Presidente. Meu Deus.

Katherine afastou um fio de cabelo preso nos cílios. Sloane sorriu, dando um

passo para trás a fim de que elas pudessem recuperar algum espaço. Katherine

parecia ser alguém que apreciava o gesto.

Sloane vinha reunindo primeiras impressões a respeito da nova subordinada.

Escolhas de vestuário, pelo menos para o gosto de Sloane, um pouco fora do tom,

o que ela acreditava tê-la ajudado a deduzir algo sobre a mulher. Ela provavelmente não gostava de pedir a opinião dos outros. Na verdade, isso fez

com que Sloane se lembrasse um pouco de Abigail: a inaptidão social complicada

pela beleza. Ninguém esperava que esses dois atributos se combinassem, e isso

criava um problema, porque pessoas bonitas — por exemplo, garotas loiras de

olhos azuis, como a filha — não podiam ser reservadas, a menos que quisessem

ser consideradas esnobes. Pessoas bonitas deveriam, de preferência, agir como

Sloane, que era bonita, mas em grande parte porque já pedira muitas vezes a

opinião dos outros ao longo dos anos e amava mesmo Neiman Marcus.

— O banheiro é por aqui? — perguntou Sloane, apontando.

— É — respondeu Katherine, um rubor visível nas maçãs do rosto.

— Estraguei minha meia-calça — disse, como se lhe devesse explicações. —

Estou parecendo uma prostituta barata.

A boca de Katherine formou um pequeno “o” de surpresa.

— Eu sempre tenho uma meia-calça extra na bolsa, se precisar.

Ela já estava puxando a bolsa para o quadril quando Sloane tocou de leve seu

braço.

— Não precisa. Acho que vou jogar no lixo. Minha filha diz que meia-calça

me faz parecer velha, de qualquer forma.

Katherine estava usando meia-calça preta opaca. Ela não parecia velha com a

meia. Pelo contrário, a peça modelava suas pernas de forma atraente.

— Se mudar de ideia, é só pedir — disse Katherine, passando por ela, a

expressão educadamente vazia e reservada.

— Obrigada. Sim, pode deixar. — Mas ela já estava olhando além de

Katherine, observando Ames sozinho no corredor vazio da ala leste. Foi um

alívio ouvir os passos de Katherine se afastando. Ames passou os dedos pelo

cabelo, se balançando para trás apoiado em um dos calcanhares. Em seguida,

abriu a porta do banheiro masculino.

Insanidade temporária. Sloane poderia estar sofrendo daquele distúrbio raro,

sabendo que era uma defesa com poucas chances de se sustentar no tribunal.

Mas aquilo nunca iria parar em um tribunal.

Ela entrou no banheiro masculino atrás de Ames.

— Olá — chamou, caso houvesse mais alguém lá dentro além dele.

— Tem gente. — Era a voz de Ames.

O único reservado à esquerda estava aberto e a fileira de mictórios estava

vazia, a não ser por Ames, de costas para ela.

Ele se virou, as sobrancelhas se erguendo em surpresa. Os vincos em sua testa

haviam se aprofundado ao longo dos anos. (Ao passo que nós precisávamos de cirurgias plásticas e preenchimento para nos mantermos relevantes, eles

precisavam apenas envelhecer para se tornarem mais dignos. Não pense que não

percebíamos.)

— Sloane? — Ela ouviu o zíper da calça dele se fechando. — O que você está

fazendo aqui?

Boa pergunta. O que ela estava fazendo ali? Agindo por impulso, supunha.

Derek sempre falava de sua tendência a ser impulsiva. Como quando apareceu

em casa com um gatinho abandonado em um caixote do lado de fora da

mercearia, e só mais tarde lembrou que Derek era alérgico. Ou teria sido

responsabilidade maternal? Ou será que ela estava apenas velha demais para lidar

com aquelas baboseiras? Ela estava confrontando o chefe — merda, o chefe — no

banheiro.

— Ouvi dizer que você está sendo cotado para o cargo de presidente — disse

ela, calmamente. — Parabéns. — Aquilo quase soou verdadeiro. Antes que Ames

pudesse responder, ela acrescentou: — A propósito, alguns dias atrás encontrei

Bobbi.

A água gorgolejava pelos canos na parede. Fora isso, o banheiro estava

extremamente silencioso. Sua voz ecoou.

Ames afivelou o cinto. Ela detestou, porque inevitavelmente chamou sua

atenção para a virilha. Talvez fosse exatamente essa a intenção dele.

— Ela me contou. — Havia uma mensagem nas entrelinhas: Sim, minha

esposa e eu conversamos e eu não sou um monstro, obrigado. Ele deu de ombros.

— Muitas coisas precisam ser resolvidas primeiro.

— Mas você acha que tem boas chances. Dá para perceber.

Ela se recusou a deixar que seus olhos se desviassem para o próprio reflexo no

espelho.

Um meio sorriso. Uma única covinha pontuando a bochecha com a barba

recém-aparada.

— Sempre tive sorte.

— O que você está fazendo com a Katherine? — perguntou ela, porque essa

era a questão.

Era o nome dele que faltava naquela lista, para o bem ou para o mal.

— Ah, por favor, Sloane. — Ele revirou os olhos, inclinando a cabeça um

pouco para trás, como se fosse um adolescente e ela estivesse lembrando que ele

tinha que arrumar o quarto. — Eu não estou fazendo nada. O que fez você

pensar que estou?

Sloane se deu conta de que pensara em Ames durante todos aqueles anos como um vulcão adormecido, com poucas chances de entrar em erupção.

— Eu tenho olhos, para começar. E ouvidos. E… experiências relevantes. —

Ela sustentou o olhar. Você sabe o que dizem sobre o passado, pensou.

— Isso de novo, não. — Lá estava. A irritação infantil. O incômodo. —

Quando você vai superar? Já faz anos.

Não fazia. O caso tinha sido anos antes, mas ela estava pagando por ele desde

então, e Ames sabia. Porque toda vez que ela pensava que o problema com Ames

Garrett tinha entrado em hibernação, ele provava que ela estava errada. Como

três anos depois do caso, quando Ames repassou uma transação importante da

qual Sloane era encarregada para David Kelly porque “não podia confiar que ela

não fosse trepar com o advogado da outra parte”. Cinco anos depois do

nascimento de Abigail, Ames lhe disse casualmente que sua bunda ainda ficava

decente em um terninho. Sete anos depois do caso, ele ficou bêbado e sugeriu

que os dois “relembrassem os velhos tempos”. Dezenas de situações como essas

pontuavam sua carreira. E de repente ela via os indícios de um ressurgimento.

Um novo ciclo. Sem Desmond, temia que sua imunidade — que a imunidade

delas — estivesse comprometida.

— Sua esposa perguntou se eu tinha algum conselho para lhe dar a fim de

melhorar suas chances — disse ela, lentamente. — Eu prometi a ela que, se

pensasse em algo, compartilharia com você. — Os olhos dele dançaram de

divertimento, e ela o odiou por isso. — Então, aqui está: se quiser continuar

cotado para o cargo, Ames, aconselho você a manter as mãos, e qualquer outra

parte do corpo que se sinta tentado a usar, limpas. Entendido?

Ele deu uma risadinha e enfiou as mãos nos bolsos.

— Você é inacreditável, Sloane. Sabia?

Ela pensou sobre essa palavra. Inacreditável. Seria possível? Ele tinha

escolhido a palavra certa, mesmo que não tivesse a intenção. O medo que a

atormentava enquanto ela sofria com todas as injustiças, todos os desrespeitos,

todo o direito de ocupar seu espaço e sua mente dos quais ele tirava o máximo

proveito: o medo de que ninguém acreditasse nela. Tudo por causa daquele caso

idiota.

— Minhas condolências, Ames.

Ela se virou para sair. Tinha dito alguma coisa. Tinha feito alguma coisa. Não

era a lista “CILADA”, mas sua própria versão, apenas mais direta.

— Se quiser ouvir meu conselho, Sloane… — O coração de Sloane teve um

sobressalto, e ela hesitou, as mãos espalmadas na porta. — É o seguinte: quando a

maré sobe, todos os barcos sobem junto. Se me oferecessem o cargo, e não estou dizendo que isso vá acontecer, mas, se acontecer, é lógico supor que o cargo de

diretor jurídico ficará disponível, e você tem, como acho que você mesma disse,

experiências relevantes.

Seu corpo se enrijeceu. Em parte porque o que Ames tinha acabado de dizer

soava suspeitamente como suborno. Mas também porque ele estava certo.

Sloane havia chegado a uma idade em que a raiva não significava mais bater

portas ou quebrar copos. Em vez disso, sua raiva reverberava nos órgãos. Ela saiu

sem emitir nenhum som, sua mente se demorando no banheiro, repassando

todas as palavras trocadas com Ames.

Por isso não percebeu de imediato Bobbi Garrett parada no corredor, com um

copo de água em cada mão, olhando para ela.

Sloane se assustou ao registrar sua presença. Um estremecimento óbvio.

— Entrei no banheiro errado — disse, erguendo a mão para ajeitar o cabelo.

Claro que Ames tinha levado a esposa. Já se comportava como se fossem a

primeira-família da Truviv, Inc.

A risada de Bobbi soou um pouco mais aguda que o normal, e a água espirrou

dos copos de plástico, pingando nos dedos.

— Eu só estava procurando meu marido.

O marido dela. Não Ames. O marido dela.

O chefe de Sloane.

— Acho que talvez ele esteja lá dentro — disse Sloane. — Tenho certeza de

que, se estiver, já deve estar saindo.

Ela deveria ter disfarçado entrando no banheiro feminino. Sabia disso, mas já

suportara coisas demais naquele dia, e o casamento de Ames não era sua

responsabilidade. Sloane caminhou de volta para o pátio ensolarado da igreja.

Alguns carros já começavam a deixar o estacionamento, os faróis acesos em

plena luz do dia. O rasgo da meia-calça tinha aumentado, parecendo uma

cicatriz.

Sloane detestava funerais e jurou a si mesma que nunca mais compareceria a

um. A menos que… pensou ela. A menos que fosse o enterro de Ames.

Transcrição de depoimento

 

26 DE ABRIL

Sra. Sharpe: Sra. Glover, está ciente de como e quando esses boatos

infundados sobre Ames Garrett começaram?

Ré 1: Eu discordo das palavras “boatos” e “infundados”. Sra. Sharpe: Tudo bem. Você e suas amigas alguma vez falaram a respeito

de Ames Garrett socialmente?

Ré 1: Com certeza.

Sra. Sharpe: Em que contexto?

Ré 1: Ele era nosso chefe. Nós convivíamos com ele diariamente. Tenho

certeza de que o nome dele surgiu em vários contextos diferentes.

Sra. Sharpe: Vocês se queixavam dele?

Ré 1: Havia muitos motivos para nos queixarmos de Ames, então estou

certa de que sim.

Sra. Sharpe: Com que frequência a senhora diria que se queixavam dele? Ré 1: Não sei. Não mantive um registro.

Sra. Sharpe: Mensalmente? Semanalmente? Diariamente? Ré 1: Não sei.

Sra. Sharpe: Durante esta investigação, falamos com dezenas de amigos e

colegas de Ames Garrett que o apoiam categoricamente. Afirmam que ele tem uma excelente reputação, que o conhecem há anos e que é um homem de família, um cara íntegro. Mulheres que ele conheceu na universidade, na faculdade de direito, profissionalmente, dizem que nunca se sentiram desconfortáveis perto dele.

Ré 1: Essa lógica não faz sentido, Cosette. Se alguém é um assassino,

você não aponta para todas as pessoas na vida dele que ainda estão vivas e diz: “Ele não pode ser um assassino, vejam só todas as pessoas que ele não matou!”

Sra. Sharpe: A senhora está comparando Ames Garrett a um assassino? Ré 1: Não.

Sra. Sharpe: Já que tocamos nesse assunto… É verdade que a senhora

recentemente foi interrogada como parte de uma possível investigação de homicídio?

Helen Yeh: Protesto. Peço que a última pergunta da advogada seja

retirada dos autos.

Sra. Sharpe: A ré abordou o assunto.

Ré 1: Como você sabe, todos na empresa foram ouvidos. E ninguém disse

nada sobre matar alguém, disse?