Rede de Sussurros
Capítulo 58
18 DE MAIO
Grace matou Ames. Será que Ardie ouviu direito? Grace. Grace disse que tinha
matado Ames. Sloane cuspiu vinho para todos os lados, como uma baleia
esguichando, o que Ardie não pôde nem considerar um exagero, porque Grace
Stanton confessou ter matado Ames Garrett. O que não podia ser verdade, claro.
Por acaso Grace conhecia Grace?
— Por que você diria uma coisa dessas? — perguntou Ardie, hesitante.
Os olhos de Grace estavam levemente desfocados, como se o vinho estivesse
fazendo efeito em dobro.
— Porque é verdade. Fui a última pessoa a estar com ele. Eu… — A palavra
escapou como um gemido pequeno e triste. Um animal desistindo da luta.
— Grace, você não está falando coisa com coisa. — O peito de Sloane se
apoiava na mesa enquanto ela tentava ficar o mais perto possível da amiga.
— Estou. Finalmente estou falando a verdade. — Ela baixou a cabeça por um
momento, se recompondo. — Eu estava com tanta raiva por ele ter me feito
acreditar que realmente se importava comigo… Ou talvez tenha sido só o meu
orgulho ferido por ele ter achado que eu poderia ser enganada. Enfim, contei isso
para a Sloane. Mas então… Mas então, naquela manhã, a manhã em que ele
morreu, ele me mandou uma mensagem, algo ridículo, me provocando: Achei
que éramos amigos. Foi o que ele disse. Eu é que deveria dizer isso, sabe? Então
fui até lá. — Ela inclinou a cabeça para trás por um segundo, olhando para as
vigas expostas no teto. — Quando vi que ele não estava na sala, sabia que ele
tinha ido para a sacada fumar. E juro, eu só pensei: vou lá falar com ele. Bem, eu
fui. Ou ia. Comecei a fumar e estava me sentindo muito bem. Quer dizer, eu
estava meio que tremendo, mas me sentia bem. Forte. Vocês sempre foram tão
boas em se defender, e eu só queria…
Ardie soltou uma gargalhada.
— Sério? Depois do que acabei de contar? Você acha mesmo?
Grace parecia sóbria.
— Acho. Tenho certeza. — E em resposta Ardie simplesmente apertou os
lábios e sentiu um aperto incomum no coração, porque elas nunca veriam a si
mesmas da mesma forma que viam umas às outras, e isso era uma dádiva. —
Enfim, eu estava falando, e ele meio que se inclinou para acender o cigarro dele
no meu e, não sei, eu fiquei nervosa. Apavorada. Tive um espasmo estranho e,
não sei como, meu anel cortou a sobrancelha dele. Um dos engastes estava solto.
— Ela examinou a pedra brilhante na mão esquerda, cintilando intensamente
sob a luz. Ardie sentia falta de usar um anel. Tinha vendido seu anel de diamante,
mas se arrependia. — Minha nossa, um fio brilhante de sangue escorreu pelo
rosto dele. — Ela cobriu os olhos, lembrando. — Sério, começou a escorrer. —
Ardie se perguntou: ela viu um corte no olho dele? — Ele limpou com o polegar,
limpou o sangue no parapeito e me chamou… Ele me chamou de vadia.
Ninguém nunca tinha me chamado de vadia. Pelo menos não na minha cara.
Ainda não sei o que deu em mim. Era como se eu fosse uma pessoa diferente.
Ficou tudo preto. Eu disse para ele: “Por que você não se joga daqui e vai pro
inferno?” Quem diz uma coisa dessas? — Grace enxugou as lágrimas. — Fiquei
com medo de que talvez a Katherine tivesse nos visto conversando lá fora, tivesse
me visto bater nele. Então fui embora. Bem, de qualquer maneira, vocês sabem o
resto da história.
Ardie sabia. Mas não era a mesma história que Grace sabia.
Sloane não tinha tocado seu vinho desde que Grace começara a falar.
— Você não pode se culpar por isso — disse ela. — Não temos ideia do que
estava passando pela cabeça dele.
— A Sloane tem razão.
— Podem acreditar, eu…
— Você não foi a última pessoa a ver o Ames — afirmou Ardie.
O olhar de Sloane se desviou para ela rapidamente, a pergunta escrita em seu
rosto: o que diabos aconteceu naquela sacada?
Ardie só tinha certeza do que havia acontecido com ela, por causa dela, e do
que poderia ter acontecido sem ela, depois que, por acaso, entrou no elevador
com Katherine e a viu sair no décimo oitavo andar.
Ela sabia que um funcionário responsável pela folha de pagamento
confirmaria que Ardie recebera documentos assinados relativos aos impostos da
folha por volta da uma e meia da tarde, embora o funcionário não tivesse
verificado a hora exata, o que explicava por que, imediatamente após a morte de
Ames, ela havia sido vista no elevador e se livrara de qualquer suspeita de que
tivesse cometido um crime. Ardie, por sua vez, sabia que o funcionário tinha assinado a folha de pagamento mais perto das 13h25, uma diferença de cinco
minutos.
O que aconteceu naqueles minutos antes de Ardie aparecer? Ela imaginava
Ames andando de um lado para outro na sacada, fumando um cigarro, uma
imagem que não era difícil de evocar porque Ardie já vira aquilo antes, muitos
anos atrás. Ela imaginou Ames tentando se justificar para Katherine, tentando
explicar como nunca tinha feito nada que alguém não quisesse que ele fizesse.
Um discurso que ela também já tinha ouvido.
Ardie tinha ficado inquieta no momento que Katherine saiu do elevador, e
estava pensando em Sloane quando tomou a decisão que mudaria sua vida. Ela
pretendia aliviar sua consciência. Apenas verificar. Espiou por trás da porta de
vidro, atraída pelas vozes que se elevavam progressivamente — ou por uma única
voz que se elevava, que, na verdade, era a de Ames.
Ames esfregou o rosto. Katherine tentou passar por ele, mas ele estendeu o
braço, bloqueando sua passagem.
O tapa foi um choque. Elétrico. Polarizador. O queixo de Ardie se encolheu
em sincronia com o de Ames. A mão de Katherine o atingira feito o bote de uma
víbora.
Se Sloane tivesse sido acusada, ou Grace, ou mesmo Katherine, Ardie teria
contado a seguinte versão dos fatos. Ela teria dito que tudo aconteceu muito
rápido. Teria ido à polícia então, não importava que fosse tarde demais. Teria
contado tudo.
Mas isso não aconteceu. Algo mais insidioso havia tomado o lugar daqueles
possíveis acontecimentos. Em vez disso, Grace vinha se culpando em segredo,
surtando, então a pergunta se tornou: o que Ardie deveria fazer agora?
— Você viu o Ames? — perguntou Sloane, e foi como se o restaurante tivesse
deixado de existir. As lágrimas de Grace cessaram. Ela olhava fixamente para
Ardie.
— Não só eu — respondeu Ardie lentamente.
E foi então que a garçonete apareceu para anotar os pedidos. Ardie imaginou
como elas deviam parecer aos olhos daquela pobre mulher com suspensórios
verdes. O mais estranho sobre dar más notícias era como raramente eram
informações novas para o mensageiro. Então Ardie teve que permitir que suas
palavras assumissem um tom de revelação, em nome de Sloane e Grace. Tinha
que escolher o que dizer. Cuidadosamente.
Ela pediu truta arco-íris com soba e brotos de feijão.
Enquanto isso, Sloane e Grace prenderam a respiração até a garçonete ir embora. Ardie queria pedir mais água.
— O que quer dizer com isso? — Os dedos de Grace envolviam firmemente o
crucifixo em seu colar.
— O Ames pediu para falar com a Katherine, e ela foi. Quando descobri,
fiquei preocupada, é compreensível.
Certa vez Ardie ouvira algo fascinante: as mulheres tinham um medo
constante da violência; o maior medo dos homens era passar vergonha.
— E você tem certeza de que isso foi depois que eu falei com ele? — A testa de
Grace se franziu. Havia algo novo em seu rosto: esperança.
Na realidade, não aconteceu tão rápido quanto Ardie gostaria. Quando Ames
colocou as mãos ao redor do pescoço de Katherine e começou a gritar com ela,
cuspe voando em seus cílios, algo sendo dito, embora Ardie não conseguisse
lembrar o quê. Os olhos de Katherine se arregalaram como os de um cervo
encurralado, as costas contra o parapeito de cimento da sacada. A explosão de
calor no rosto de Ames se arroxeou.
A porta de vidro se abriu, o som cortante como uma lâmina.
— Ames! — Ardie o agarrou pelo colarinho da camisa, segurou seu cotovelo e
o puxou. O que diabos ele achava que estava fazendo? Ela se lembrava de ter
ficado surpresa, mesmo conhecendo Ames do jeito que conhecia. Tipo: Ah, ele é
capaz disso também. As mãos de Katherine foram direto para o próprio pescoço,
o peito arfante.
No segundo seguinte, Ardie sentiu suas entranhas explodirem. Ela se
perguntou o que ele teria visto naquele último segundo de vida. Raiva cega,
dentes à mostra, curiosidade, uma fria determinação, ou frustração acumulada.
Ela sabia o que tinha visto nos olhos dele — ódio, fúria e como-ela-se-atreve. Ela
sentiu a luta. Sentiu os braços dele nela. Sentiu a força dele e a sua própria, e o
fato de que ambos estavam se segurando um pouco, por algum instinto que os
impelia ao decoro.
Então o pensamento lhe ocorreu: não havia como voltar atrás.
Eles tinham passado daquele ponto no momento em que ela o tirou de cima
de Katherine.
Ela o empurrou de novo, dessa vez enfiando o ombro no peito dele.
Grunhindo de surpresa, ele cambaleou para trás. Uma perna saiu do chão
enquanto ele tentava recuperar o equilíbrio. E aí… o peso dele simplesmente se
desfez.
Foi embora, caindo para trás no ar.
Katherine estava ajoelhada, arfando onde os pés dele estavam segundos antes, e parecia quase impossível, inverossímil demais para acreditar no que ela havia
acabado de ver: Katherine — uma mulher elegante vestindo um terninho preto
— agarrando a perna de apoio de Ames e… empurrando.
Ela estava realmente tentando jogá-lo da sacada. Forçando seu centro de
gravidade para o alto.
E Ardie entendeu que Katherine experimentara a mesma revelação. Não dava
para voltar atrás.
Obrigada, sussurrou Ardie, com as mãos nos joelhos enquanto recuperava o
fôlego. Sua testa estava coberta de suor.
A verdade: Ames poderia ter recuperado o equilíbrio. Ou Ardie, segurando
sua camisa, poderia tê-lo puxado de volta. Não fosse por aquele… último…
empurrão.
Logo depois, as duas desceram de escada.
* * *
— Tenho certeza absoluta — disse Ardie.
Grace abriu a boca para falar, em seguida se conteve.
— Ah. — Era tudo o que Sloane tinha para oferecer.
Uma bomba é detonada e os estilhaços voam em direções imprevisíveis,
causando graus variados de destruição. Danos colaterais.
Se revisasse aquela história o suficiente, ela quase conseguiria se convencer de
que, no fim, ele havia escolhido pular. Sloane se esticou por cima da mesa e
apertou as mãos das amigas. Ardie sentiu um pouco de pena dos homens, porque
eles nunca davam as mãos uns aos outros.