Rede de Sussurros
Capítulo 29
3 DE ABRIL
Grace voltou para casa cedo naquela noite e largou a bolsa em cima da mesa da
cozinha. Liam já estava em casa, colocando os pratos e os talheres sujos no lava-
louça. O micro-ondas zumbia, o esterilizador girando lá dentro. Mamadeiras —
com gotas d’água no interior — estavam em pé no tapetinho plástico que imitava
grama ao lado da pia. Grace acreditava que a principal razão para Liam ser tão
prestativo em casa era, na verdade, o fato de ele ganhar muito dinheiro. Diante
daquelas profissionais que Grace conhecia reclamando de como elas sustentavam
a família e mesmo assim os maridos não faziam as compras, ela pensava: É
porque elas se sentem ameaçadas! Tinha sido, e ainda era, uma teoria em
construção.
Grace cumprimentou Liam e foi até a sala de estar, onde se ajoelhou ao lado
de Emma Kate. Ela estava brincando, deitada de costas em seu tapetinho de
brincar, olhando para a variedade de elefantes, leões e tucanos que tinham sido
pendurados acima de sua cabeça para distraí-la. Ela segurou o pezinho da filha, e
Emma Kate chutou. Não conseguiu pensar em nada para dizer, então voltou para
a cozinha e pegou um pacote de biscoito na despensa.
Ela se apoiou na bancada de granito, ainda de salto alto.
— Liam, por que você acha que nunca sofri assédio sexual?
Grace se perguntou se a premissa de sua pergunta era mesmo verdadeira.
Homens já tinham assoviado para ela na rua, já haviam pedido que ela desse um
sorriso na fila do almoço, já tinham olhado fixamente para seus seios durante
reuniões. Seu instrutor de tênis do colégio certa vez até sugerira que ela se
sentasse em seu colo durante um passeio de carro lotado (ela recusou,
escolhendo o colo de uma de suas colegas de equipe). Mas não tinha ficado
traumatizada por causa de nada disso.
Liam pendurou o pano de prato no ombro e fechou a porta do lava-louça. Ele
era alto e forte, um ex-jogador de lacrosse da equipe da Universidade Vanderbilt.
— Você também nunca teve catapora.
Emma Kate balbuciou no outro cômodo.
— Acho que não é tão aleatório assim. Quer dizer, eu não sou imune, sou?
Estou correndo o risco de parecer uma grande babaca. — Grace provavelmente
era uma grande babaca. — Você sabe, eu sou bonita. Mais do que algumas das
mulheres que conheço que foram assediadas.
Liam estendeu a mão. Ela lhe entregou um biscoito.
— Você está se sentindo excluída do assédio sexual?
— Claro que não. — Talvez estivesse. — Estou tentando entender.
— Não sei. — O timer do micro-ondas apitou e foi Liam quem pegou o
esterilizador e começou a esvaziá-lo. Grace tirou os sapatos. O piso estava gelado.
— Você está me pedindo para entrar na mente de pessoas com quem não tenho
muito em comum.
Ela torcia para que isso fosse verdade. Acreditava que era. Incomodava-a não
saber se a esposa de Ames, Bobbi, achava o mesmo.
Liam ponderou.
— Mas provavelmente tem algo a ver com instinto animal. Atacam os mais
fracos do rebanho. Os jovens. Os vulneráveis.
Grace bufou. Migalhas de biscoito voaram, e ela tapou a boca.
— Desculpa. A Sloane não é o que eu chamaria de vulnerável.
Na ponta dos pés, ela foi até a porta — uma mãe tão boa, como diria Liam! —
para dar uma olhada em Emma Kate, que agora estava quieta, mordendo o
próprio punho.
— Sim. — Liam ergueu um dedo. — Mas ela ficou vulnerável quando teve o
caso, né? Ele tinha algo que podia usar contra ela.
Grace não sabia as regras a respeito de ter ou não permissão para contar ao
marido sobre o caso de Sloane. Como adulta, acreditava que, se uma amiga lhe
conta um segredo, você pode contar ao seu cônjuge. Mas nunca havia
confirmado isso com nenhuma de suas amigas, para o caso de estar errada, e só
isso provavelmente já significava que estava.
— Então, a culpa é das mulheres? Eu não fui assediada porque não sou
assediável?
— Não é isso. — Liam estremeceu. — É como um crime de oportunidade,
acho. Você não culparia uma vítima de assassinato. O assassino só está tentando
cometer um crime do qual ele consiga se safar.
— Isso é macabro.
— Vamos pedir comida ou você vai cozinhar?
* * *
A mensagem de Sloane chegou um pouco antes das dez, depois que Liam já tinha
ido para a cama. Grace estava esperando para praticar uma técnica chamada
“mamada dos sonhos” e que planejava colocar em prática aproximadamente às
dez e meia. Uma mamada dos sonhos envolvia pegar Emma Kate e, sem acordá-
la completamente, colocá-la no peito e encorajá-la a mamar o equivalente a uma
refeição completa, de modo que dormisse o restante da noite. Esse era o plano.
Em geral, a realidade era que Emma Kate ficava irritada por ter sido despertada,
os pequenos punhos fechados, os olhos apertados com força. Mas Grace não
podia abrir mão da promessa de seis horas de descanso ininterrupto. O fato de
isso ainda não ter acontecido não fazia diferença.
Ela estava na Netflix, dando uma olhada na sua lista de filmes e séries, cada
vez menor com todo o tempo que passava diante da TV desde o nascimento de
Emma Kate, quando seu telefone apitou.
Sloane Glover: Vou entrar com um processo. Público = única maneira de
ter proteção + impedir o Ames de assumir a empresa. Falei com a Katherine. Ela está com medo: o que aconteceu na Frost + me sinto um pouco responsável. Cansada de ignorar tudo! Bjos.
Grace esperou que Ardie, também incluída na conversa, respondesse, mas
como não houve resposta, ela se deu conta de que a amiga já devia ter ido
dormir. Grace resolveu fingir que tinha feito o mesmo. O que exatamente Sloane
queria que elas dissessem?
É isso aí, garota!
Na verdade, Grace estava pensando em como um processo movido por Sloane
prejudicaria o trabalho delas. Alguém estava preocupado com isso?
Vinte minutos depois, ela estava sentada dentro da cratera escavada em seu
sofá de tanto se aninhar ali de pernas cruzadas, a almofada em forma de “U”
equilibrada em torno dos quadris. Emma Kate tinha parado de gritar e estava
mamando quando Grace percebeu que tinha se esquecido de colocar o copo
d’água na mesinha ao lado. Ela era acometida por uma sede desesperadora toda
vez que Emma Kate mamava. Precisava se distrair. A TV estava em um volume
baixo e o controle remoto, centímetros além do seu alcance. Ela pegou o telefone.
A mensagem de Sloane ainda estava na tela, e Grace sentiu a mesma pontada de
irritação que a afligia quando sua mãe mandava mensagens toda hora.
Queria falar com alguém que concordasse com ela. Era tarde, mas ela acessou a lista de contatos e ligou para Emery Bishop, uma de suas amigas mais próximas
na fraternidade. As duas ainda faziam uma viagem só de garotas a
Fredericksburg todos os anos. Emery morava em Houston. Ela não trabalhava
“fora” e fazia parte dos conselhos de uma fundação de combate à aids e de um
teatro local. Atendeu no segundo toque.
— Está tudo bem? — Emery sofria de rouquidão crônica, causada por
nódulos nas cordas vocais, e tinha um leve sotaque sulista.
— Sim, sim — respondeu Grace baixinho, para não acordar Emma Kate. —
Desculpe, você estava dormindo?
— Pelo amor de Deus, não. — Emery sempre fora notívaga. Quando estavam
na faculdade, ela jantava pela segunda vez à meia-noite. — E a Emma Kate?
— Também está bem. Está mamando agora.
A luz azulada da televisão se derramava na cabeça de sua filha.
— Cristo. — Emery fazia a palavra ter mais sílabas que o normal. Grace
imaginou a amiga. Os cabelos descoloridos, uma predileção duradoura por joias
turquesa. — Eu me lembro desses dias. Não tenha quatro filhos, Gracie.
Grace sorriu ao telefone. Havia poucos amigos feitos depois do ensino médio
para quem você poderia ligar só para conversar. Emery era uma das últimas que
restavam.
— Você acha que as mulheres são sensíveis demais? — perguntou ela, após
uma breve pausa.
Emery murmurou. Grace ouviu um farfalhar do outro lado da linha, seguido
pelo barulho da geladeira sendo aberta.
— Depende de quem está dizendo isso. Tipo, se o Clark disser que sou
sensível demais, eu corto o saco dele e dou para o Willie comer.
Grace riu, mas se conteve ao sentir que Emma Kate quase parara de mamar.
— Algumas mulheres no trabalho estão reclamando que sofreram assédio
sexual. Não com essas palavras, mas essa é a essência.
— Ah. — Uma gaveta se abrindo. Talheres. — Não sei. Nem todas as
mulheres são como nós, sabe? Minha mãe sempre diz: nada muda de fato depois
do colégio.
— Isso é deprimente.
— Algumas garotas precisam chamar atenção de um jeito ou de outro. Não
estou dizendo que elas fazem isso intencionalmente. Em algum nível, devem
acreditar que isso está acontecendo. Você entende?
Grace não respondeu.
— Sempre me preocupo com a possibilidade de o Clark ser acusado de algo que ele não fez. Ou o Tyler e o Mason, quando ficarem mais velhos. Morro de
medo. O que vou dizer aos meus filhos? Nunca fiquem sozinhos em um cômodo
com uma garota em quem vocês não confiam? Será que isso é suficiente?
Grace prendeu o celular entre o ombro e o ouvido, usou o dedo mindinho
para tirar a boca de Emma Kate do peito, como a consultora de amamentação
ensinara, e a colocou no seio esquerdo.
— Hum, não sei — disse ela, distraída, tentando imaginar Ardie tendo a
mesma conversa a respeito do filho, Michael.
— Quando o Clark estava na Academia da Força Aérea, ele me contou
histórias de cadetes que foram expulsos porque uma mulher alegou conduta
imprópria. Aquelas mulheres tinham o poder de arruinar a vida daqueles jovens,
e optaram por usar isso.
Parecia que Emery estava tomando sorvete, pelo tilintar de uma colher nos
dentes.
Grace ouvia, imaginando a esposa de Ames, Bobbi, dizendo aquilo. O que a
fez pensar: e se alguém a procurasse e dissesse que Liam estava assediando
mulheres? O que faria?
Grace ouviu Emery falar sobre o time de futebol americano de Tyler — ele
tinha onze anos —, sobre o futebol de Mason, o balé de Annabelle e a fisioterapia
de Finley até Emma Kate terminar de mamar. Quando não conseguiu mais
manter os olhos abertos, disse boa noite a Emery, enrolou Emma Kate na manta
e deu tapinhas em suas costas até que ela concordasse em ir de bom grado para o
moisés, que ainda ficava no escritório do primeiro andar, e não no quarto de
bebê no andar de cima, que nunca havia sido usado.
Grace acordou com a filha chorando. Tinha lido em algum lugar que o choro
de um bebê soava fisicamente mais alto para a mãe. Liam continuava dormindo.
A sensação era de que tinha dormido apenas vinte minutos, mas tinham sido três
horas. Um pequeno consolo. Logo estava desperta e já havia amamentado a filha,
embalando-a. Embalando, embalando e embalando, mesmo depois que os olhos
de Emma Kate se fecharam e suas bochechas ficaram flácidas.
Grace pegou o celular, que estava grudado à pele na parte de trás de sua perna.
Desbloqueou a tela e digitou uma mensagem para Sloane.
Transcrição de depoimento
26 DE ABRIL
Sra. Sharpe: Sra. Glover, não estou dizendo necessariamente que a
senhora estava determinada a arruinar a vida de Ames Garrett. Não estou dizendo que essa era sua intenção, seu objetivo principal.
Ré 1: O fato de não se tornar presidente de uma empresa pública, que
está na lista das quinhentas maiores do mundo da revista Fortune, significa que a vida de alguém está arruinada? Espero que não, caso contrário muitos de nós têm uma vida bem de merda.
Sra. Sharpe: Só estou dizendo que eu sei que essas questões são difíceis
de discutir de forma objetiva. Sei que há questões delicadas enterradas nos detalhes obscenos dessa queixa. Não estou tentando minimizar a gravidade das alegações. Sou mulher. Mas também sou advogada e, como advogada, busco fatos. Provas. A Truviv realizou uma investigação independente, e vou lhe dizer o seguinte: nenhuma outra mulher se apresentou para reclamar do comportamento de Ames Garrett.
Ré 1: Além das três que já se apresentaram? Quantas seriam suficientes
para você?
Sra. Sharpe: Sim, temos três mulheres com motivos complicados. Pode me
explicar seu raciocínio no dia em que decidiu tomar medidas legais?
Ré 1: Katherine nos disse que Ames havia se tornado sexualmente
agressivo com ela e que parecia pronto para algum tipo de retaliação profissional depois da rejeição. No mesmo dia, ele disse a Ardie que todas as mulheres eram loucas. Algo finalmente se encaixou. Percebi que não podia mais continuar do jeito que vinha agindo havia tantos anos. Nada ia mudar a maneira como Ames agia, a menos que eu mesma fizesse isso.
Sra. Sharpe: Então você entrou com uma ação e todos sabemos o que
aconteceu em seguida.
Ré 1: Sabemos?
Sra. Sharpe: Uma tragédia.