Rede de Sussurros
Capítulo 4
20 DE MARÇO
Nenhuma de nós tinha tempo. Para nada, aparentemente. Se o tempo era
dinheiro, estávamos todas indo à falência. Às vezes, víamos entrar na lista de
mais vendidos do New York Times um livro com o título promissor de Eu sei
como ela consegue ou Sobrecarregada. Durante algumas semanas, emprestávamos
o livro umas para as outras, tentando usar os conselhos como uma nova dieta da
moda. Mas para todas havia — como dizem os gurus? — obstáculos
institucionais.
Em primeiro lugar, tínhamos menos tempo do que todos os homens da
empresa. Isso era um fato. Trinta minutos para secar o cabelo de manhã. Dez
minutos para alisar e fazer cachos. Quinze minutos para aplicar a maquiagem.
Três minutos para colocar os acessórios. Dezesseis minutos para escolher uma
roupa. Quarenta e cinco minutos de atividade aeróbica no fim da tarde, seguidos
por quinze minutos de abdominais vez ou outra. Se acha que estamos
inventando tudo isso, é só dar uma olhadinha rápida nas fotos de perfil da equipe
no site da empresa para entender o que queremos dizer.
Havia economias de escala também. O tempo era um recurso finito, então
quem deveria ficar com a maior parte dele? Aquelas de nós que éramos mães
tinham o argumento mais convincente: Pense nas crianças! Mas e as outras?
Ficávamos sentadas em nossas salas ouvindo o tique-taque do relógio biológico
enquanto ele contabilizava cada oportunidade perdida de sair com alguém, cada
encontro casual perdido, cada oportunidade perdida de conhecer alguém com
quem poderíamos de fato desejar ter um filho. Então, a propaganda enganosa.
Quando de fato nos tornávamos esposas e mães, o valor de nosso tempo
aumentava na mesma proporção que a quantidade despencava.
Não se tratava de dedução de custos fixos. Talvez tivéssemos decidido
renunciar às fotos de crianças vestidas de xadrez no cartão de Natal e não ter
filhos, mas muitas vezes isso parecia uma escolha pela carreira, e apenas a
carreira. Uma decisão tácita de abrir mão do nosso tempo livre. Alguém deveria oferecer um curso de pós-graduação sobre a complexidade do nosso tempo. Será
que a Shonda Rhimes estaria disponível?
Sloane estava olhando para a tela do computador havia muito tempo. Lá fora,
o sol tinha se posto. O horizonte de Dallas — com seu orbe cintilante e suas
pontes suspensas iluminadas — aos poucos dava lugar à vistosa fachada
luminosa, estendendo-se da calçada ao céu, do hotel Omni.
Ela esfregou os olhos, sem se importar se ia deixar borrões pretos nos cantos.
Recém-formada na faculdade de direito e trabalhando em um escritório de
advocacia, ela sabia dizer com precisão há quanto tempo estava revisando o
formulário 8-K. Escritórios de advocacia forçavam seus advogados a medir o
tempo em intervalos de seis minutos. Mas isso fora dois escritórios e mais de
uma década antes. No entanto, às vezes Sloane ainda se via mantendo
silenciosamente um registro de seu tempo:
6 minutos comendo pho
12 minutos trocando mensagens de texto com Derek e Abigail
6 minutos lendo besteira na internet
4,5 horas revisando comunicados para a imprensa e tabelas de dados
para o registro junto à Comissão de Valores Mobiliários
Seu telefone vibrou no suporte do computador. Era Derek. Ela atendeu no
segundo toque.
— Ela está viva!
Sloane amava a voz do marido. Ela o imaginou, apoiado na ilha da cozinha, o
cabelo ruivo um pouco comprido demais em torno das orelhas, usando uma
camiseta surrada do Nirvana — a mesma do dia em que se conheceram, que ela
ainda gostava de surrupiar pelo menos uma vez por semana para dormir.
Havia quatro chamadas perdidas.
— Desculpa. Eu sou horrível. Já considerou arrumar outra esposa?
Anos antes, Derek tinha estabelecido a regra de que Sloane estava proibida de
se desculpar por fazer seu trabalho. Mas ela achava que podia quebrar essa regra
de vez em quando.
— Está tudo bem — disse ele com seu jeito tranquilo. Não que o trabalho dele
não fosse estressante. Derek era professor do ensino fundamental, e pré-
adolescentes eram um pesadelo. Mas era um tipo diferente de estresse, e os
estresses deles nunca precisaram competir. — Só liguei para saber como você
está. Ah, mandei os formulários de autorização para Abigail participar da caminhada na semana que vem e paguei o recital de piano, então pode riscar
esses dois itens da sua lista.
— Você sabe como eu adoro riscar itens — disse ela, analisando uma linha do
formulário que já havia tentado ler três vezes. Tinha se esquecido completamente
do que estava fazendo. — Obrigada.
Houve um breve silêncio, apenas o suficiente para que ambos lembrassem que
tinham discutido na noite anterior. Quanto mais tempo passavam casados, mais
fácil era apertar o botão de pausa em um desentendimento acalorado e retomá-lo
mais tarde — de preferência, antes de irem para a cama. Mas lá estava ele de
novo. Como um pequeno hematoma compartilhado que ela acabara de lembrar
como conseguira.
— Como ela está? — perguntou Sloane no mesmo momento em que Derek
disse:
— Ela parece bem. Estou de olho desde que chegou em casa.
A briga tinha sido por causa de Abigail. Ultimamente, todas as brigas eram
por causa da filha. Ela quase podia ouvir a voz de Derek em sua mente dizendo:
Não foi uma briga, foi um desentendimento. Tudo bem, mas Sloane gostava de
hipérboles e, em se tratando da filha, achava que tinha esse direito.
Tudo começara alguns meses antes. Abigail ficou irritadiça de repente. Parou
de brincar com as bonecas. Sloane tinha pedido, de forma bastante inocente, que
ela fizesse o favor de recolhê-las, e Abigail tinha gritado — e Sloane estava
parafraseando — que talvez todos ficassem mais felizes se ela morresse.
Derek achava que Sloane estava exagerando. Ele dava aulas de inglês para
turmas do sétimo ano, o que, na sua opinião, significava que era um especialista
em desenvolvimento infantil. Mas Sloane era especialista no que dizia respeito à
filha. Ele a levou a um psicólogo, o qual assegurou que aquela coisa de “morte e
morrer” era uma fase perfeitamente normal do desenvolvimento da menina.
“Eu já disse, Sloane. É perfeitamente normal”, Derek tinha repetido no
caminho para casa, como se ele também tivesse um doutorado em psicologia.
Mas alguns dias depois Sloane viu as mensagens chegando no telefone de
Abigail. Vagabunda. Vadia. Puta. Cada uma delas parecia um tiro no peito.
Ninguém tinha dito a ela antes de se tornar mãe que sua imunidade a todas essas
coisas — como xingamentos e competições por popularidade —, desenvolvida
com tanto afinco, desapareceria no segundo que alguém as usasse contra a filha.
Ela sacudiu o telefone de Abigail na cara de Derek e gritou:
“Isso é normal? Por acaso isso é peeeerfeitamente normal, Derek?”
É claro que aquilo não tinha sido justo com Derek, o pai que sabia os nomes de todos os colegas de classe de Abigail e levava donuts para as professoras.
Quando leu aquelas mensagens, ele agiu de forma tão espantosamente paternal
que no fundo ela achou um pouco atraente.
Sloane queria processar a Secretaria de Educação por causa do que tinha
acontecido. Medidas corretivas. Proteção adequada. Consequências legais, se não
a levassem a sério. Mas a Secretaria de Educação também era o empregador de
Derek, o que significava que ele achava melhor que ela “pegasse leve”. Ele tinha
usado exatamente essas palavras.
Os dois se mostraram unidos durante a reunião, e Sloane deixou que Derek
ficasse à frente de tudo, como ele havia pedido. Insistido, na verdade. Não foi
nada bom.
Ao telefone, ela o ouviu coçar o queixo áspero. Sloane continuou digitando
durante a pausa porque não podia se dar ao luxo de parar.
— Sloane, sinto muito, eu…
Ao ouvir uma leve batida na porta, ela girou a cadeira. Ardie estava apoiada
no batente, as calças e o blazer preto mais amassados do que de costume.
— Derek, desculpa, mas tenho que desligar. — Ela ouviu o marido suspirar e
foi tomada por uma onda de remorso. — Amo você.
— Não se mate de trabalhar — disse ele antes de desligar, e Sloane sabia que o
marido tinha mesmo dito aquilo de um jeito altruísta, como quem diz por-favor-
não-tenha-um-colapso-nervoso, da mesma maneira que confiscava seu laptop
depois das onze porque tinha lido em algum lugar que a luz azul prejudicava o
sono.
Sloane colocou o telefone do outro lado do teclado.
— Está parada aí há muito tempo?
Ardie entrou e apoiou as mãos no encosto da cadeira diante da mesa de
Sloane.
— Tempo suficiente para ver que você precisa ir para casa. — Ela entregou a
Sloane uma pasta sanfonada marrom. — Eu trouxe a contestação de impostos da
fábrica de Waco. Desculpe, eu sei que é mais uma coisa para você revisar. Mas, se
faz você se sentir melhor, eu ainda nem comecei a revisar os modelos tributários
para aquisição do serviço de assinatura de caixas.
Sloane largou a pasta em cima da mesa. Plaft. Queria falar com Ardie já fazia
algumas semanas, desde que tinha ficado claro que o segredinho que vinha
guardando da amiga — que não era nada de mais — estava se tornando uma
questão duradoura. Mas aquele realmente não era o dia ideal para abrir a caixa
de Pandora. Tudo bem, isso meio que soava como uma desculpa, mas não era. Estava mais para uma estratégia.
— Fiquei sabendo que o departamento de vendas tirou o resto do dia de folga
em luto pela morte de Bankole, dá para acreditar? — disse Sloane, mudando de
assunto.
Ardie arregalou os olhos de forma dramática.
— Veja bem, Sloane, você não devia menosprezar essas coisas. Esses
sentimentos juvenis são válidos. — Ela pressionou as palmas uma na outra como
se meditasse. — Não podemos esperar que eles trabalhem e sintam as coisas ao
mesmo tempo. Lidere com empatia, ok?
Uma das melhores características de Ardie era que ela sabia ser cruel na
medida certa quando Sloane mais precisava. Um dos princípios mais
importantes para Sloane era que mulheres não podiam ser amigas de verdade a
não ser que estivessem dispostas a falar mal dos outros juntas. Era o que ela
conhecia de mais parecido com um pacto de sangue que não envolvesse facas.
— Eu, tipo, peço minhas mais sinceríssimas desculpas. — Sloane colocou a
mão no peito e fez a melhor cara de arrependida, ou pelo menos era o que
esperava. Tinha acabado de começar uma série de aplicações de botox (estava
ligeiramente acima dos quarenta, afinal) e não tinha mais certeza de como seu
rosto ficava em nenhum momento. — Se fossem espertos, eles estariam tentando
descobrir quem vai ser o novo presidente.
— Se fossem espertos, estariam preocupados com o preço das ações.
— Você acha que vão trazer alguém de fora? — perguntou Sloane.
— Eu sei tanto quanto você, mas quer saber o que eu acho? Trazer alguém de
fora demoraria muito. Bem — suspirou ela—, a creche do Michael cobra um
dólar por cada minuto que me atraso para buscá-lo, o que significa que já estou
devendo… — Ela deu uma olhada no relógio. — Um zilhão de dólares.
— Achei que você fosse paga para ser boa em cálculo.
— Ah, mas é isso mesmo. Esse é um valor preciso, garanto…
Elas pararam de repente.
À porta, Katherine carregava o suéter dobrado em um dos braços. Ela olhou
para as duas.
— Sloane, se você estiver de acordo, vou encerrar o expediente.
Ela fez um movimento acanhado para prender uma mecha de cabelo atrás da
orelha. Estranho, pensou Sloane, o cabelo de Katherine é curto demais para
prender em qualquer lugar. Era como tentar tocar um membro fantasma.
Apesar de toda a legítima indignação, Sloane tinha quase se esquecido de
Katherine. Não soubera o que fazer com ela no primeiro dia de trabalho. Katherine era tão bonita que Sloane precisava lembrar a si mesma de gostar da
moça. Quanto mais envelhecia, mais se via odiando mulheres jovens e bonitas.
Era um impulso terrível, que Sloane reprimia com afinco.
Ela abriu um sorriso exausto.
— Ah, sim, por favor, vá para casa, e amanhã venha falar comigo sobre as
casas. Já não consigo lembrar. São bonitas? Têm camas? Travesseiros? É lá que as
pessoas guardam seus pij…? — Ela se interrompeu. Tinha visto algo, uma
sombra no corredor. Sloane se levantou com os pés descalços e se aproximou da
porta na ponta dos pés para espiar atrás da moça. — Tem alguém escondido atrás
de você?
Ames enfiou a cabeça pelo vão e pigarreou.
— Não, não, sou só eu. — Ele acenou para Ardie e assentiu para Sloane. —
Prometi a Katherine que ia levá-la para tomar um drinque, como forma de boas-
vindas, saber mais sobre sua experiência, esse tipo de coisa.
“Prometi.” A palavra ecoou no cérebro de Sloane. Soava tão paternal vindo
dele.
Sloane sabia que deveria dizer algo. Sua mente se movia lentamente. Havia
acontecido tanta coisa naquele dia. Desmond tinha morrido. Menos de doze
horas antes, na verdade. Seu corpo mal tinha esfriado e Ames estava levando a
nova funcionária — Katherine — para tomar uns drinques. Aquilo não podia
estar certo, podia? Mas eles estavam parados lá, olhando para ela, esperando e,
sim, ela havia escutado direito o que Ames dissera. Tinha certeza. Ames ia levar
Katherine para tomar uns drinques. Naquela noite.
A memória emergiu sem que ela pudesse impedir.
Um alerta pontual que Sloane recebera de sua mentora no escritório Jaxon
Brockwell, Elizabeth Moretti, no dia em que anunciou que tinha conseguido um
emprego na Truviv. Nos dois anos que passou no Jaxon, Elizabeth a puxara
apenas duas vezes para um canto com aquela cara, o olhar que dizia nas
entrelinhas: “Sou mais velha que você, tenho mais experiência, já vi muitas
coisas.” Naquele dia, ela olhou para Sloane e disse: Tome cuidado com Ames
Garrett.
Certo. Bem, não fez diferença alguma, já que em seu primeiro dia na Truviv
Sloane apertou a mão de Ames com confiança, e seis meses depois eles estavam
transando.
Agora, Ames olhava para ela. Ardie olhava para ela. E Katherine olhava de um
para outro sem parar, como se ainda estivesse tentando entender o que estava
acontecendo. Sloane encarou a mesa. Telefonemas que precisava retornar. E-mails que precisava mandar. Fechou os olhos com força, um sinal de que estava
prestes a fazer algo de uma estupidez colossal.
— Ótima ideia — disse ela. — Vou pegar minha bolsa.
Ames e Katherine a encararam. Não era como se ela tivesse dito que ia entrar
para o circo, pelo amor de Deus.
Ele parecia achar graça.
— Achei que você estivesse atolada de trabalho.
— O atoleiro vai continuar aqui quando eu voltar.
Ela também podia ter uma amnésia temporária.
Ames balançou a cabeça lentamente.
— Certo — disse ele. — Esperamos você no elevador.
E deu dois tapinhas no batente da porta ao passar, enquanto ele e Katherine
saíam.
Ardie encarou Sloane.
— Tem certeza?
Sloane olhou para o teto, as palmas voltadas para cima.
— Não, é claro que não tenho certeza, Ardie.
— Então por quê…?
— Você sabe exatamente por quê.
Ardie cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, questionadora.
— Não sei — respondeu Sloane, exasperada. Ela apontou para a porta e
abaixou a voz. — Talvez eu esteja querendo evitar o abate do cordeiro sacrificial
da vez. Você deve tê-lo visto por aí. Mais ou menos um metro e sessenta e cinco.
Cabelo curtinho. Rosto de boneca. Feliz? — Ela pegou a bolsa e pendurou no
ombro direito. — Vai ser só um drinque.
Ela ergueu um dedo diante do rosto cético de Ardie.
— Um só — cedeu Ardie. — Você vai para o céu.
Sloane fechou os olhos, exausta. Sentiu os vincos fantasmas querendo se
aprofundar na ponte do nariz. Ela sabia que se pedisse, se fizesse o menor sinal,
Ardie iria com ela, independentemente do horário para buscar o filho na creche.
Sloane tinha muita sorte.
— Vindo de você — disse ela —, isso significa muito.
Ela segurou o pulso da amiga por um segundo, desejando ficar ali. Elas
mantinham uma garrafa de gim pela metade no arquivo, sobra da última vez que
tiveram que salvar uma mulher de Ames Garrett. Só que da última vez a mulher
tinha sido Sloane.
Serviço de Mensagens Instantâneas da Truviv
21/04 — 16:31
Destinatário: Sloane Glover
Remetente: [Bloqueado]
Vagabunda.
Vadia.
Puta.