Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 45 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 44

 

27 DE ABRIL

Grace fez um cheque para a babá quando voltou do terceiro dia de depoimentos.

Ela havia encontrado a profissional, Julieta, por intermédio de um abrigo

administrado por voluntários que ajudavam mulheres imigrantes a encontrar

trabalho. A mulher tinha quase a mesma idade que Grace, dois filhos e uma

compreensão moderada da língua inglesa — não que a patroa pudesse julgar, já

que não falava uma palavra de espanhol. Grace sentiu a pontada usual de culpa

quando escreveu a quantia que devia pela semana. Mulheres como Grace

deveriam querer mais tempo para cuidar dos filhos, e mulheres como Julieta

queriam mais dinheiro, também para cuidar dos filhos. A relação deveria ser

mais simbiótica do que era.

Como Julieta já tinha ido embora e Liam ainda não voltara do trabalho, a casa

estava silenciosa. Emma Kate estava deitada de costas, olhando para o ventilador

de teto enquanto mexia as perninhas. A televisão estava desligada porque Grace

tinha se certificado de que Julieta assinasse algo que suas amigas chamavam de

“contrato de babá”. Aparentemente, era uma necessidade absoluta, a menos que

você quisesse que a babá derretesse o cérebro em formação de seu bebê com

ondas televisivas ou enfiasse Oreos em sua boquinha banguela enquanto os pais

estivessem no trabalho. Grace tinha quatro câmeras instaladas na casa — que

custaram 199 dólares cada uma — e uma assinatura mensal que dava a ela

permissão de revisar a gravação do dia para ter certeza de que Julieta não estava

beliscando a filha ou beijando-a na boca. Ela nunca checou. Se servia de consolo,

ela acreditava que Julieta estava cumprindo todos os requisitos acordados entre

elas: colocar música clássica para Emma Kate ouvir por pelo menos quinze

minutos por dia, ler dois livros antes de cada soneca, nunca esquentar o leite no

micro-ondas, falar espanhol, esterilizar as mamadeiras, deixá-la duas horas de

barriga para baixo e mostrar imagens em preto e branco para a bebê.

Grace ainda se sentia uma péssima mãe.

Ela afundou no sofá e ligou a TV. Emma Kate virou a cabeça, os olhos fixos nas imagens piscantes, enquanto Grace citava mentalmente a mensagem no

panfleto do dr. Tanaka: Nada de tela antes dos dois anos!

Se questionada sobre isso, ela mentiria.

E se sentirmos falta da nossa vida de antes?, perguntara Liam quando ela

estava grávida de quatro meses. A doce liberdade de fazer caminhadas pelo

bairro depois de escurecer era uma coisa da qual Grace não sabia que ia sentir

tanta falta. E se eu amar meu trabalho tanto quanto amo minha bebê?, ela deveria

ter perguntado de volta.

Por alguns minutos, Grace ficou sentada com os olhos vidrados em um

episódio de Friends que ela conhecia de cor, lembrando-se de como, em alguns

meses, quando Emma Kate fosse um pouco mais velha, ela deixaria de fazer

aquilo. Grampos de cabelo se enterraram na parte de trás de seu crânio quando

ela relaxou a cabeça nas almofadas do sofá e colocou os pés descalços no pufe de

couro que comprara recentemente na Pottery Barn por mil dólares.

Isso lhe trouxe a lembrança: ela ainda precisava abrir uma poupança para

pagar a faculdade de Emma Kate.

Um comercial começou a passar com o volume bem mais alto que o

programa, tecnicamente uma violação regulamentar que Grace achava que

merecia ser tratada com muito mais rigor do que apenas a Lei Dodd-Frank. Ela

botou a televisão no mudo e se arrastou de joelhos até onde Emma Kate estava,

colocando a língua para fora e babando. Se havia uma coisa que Grace

definitivamente amava na filha, era seu hálito — inexplicavelmente doce. Ela

pressionou o nariz no rosto de Emma Kate, que balançou os pés no ar e sorriu.

Emma Kate se parecia com Liam. Todo mundo dizia isso. Grace tinha lido em

um de seus livros de pré-natal que se tratava de uma adaptação evolucionária,

destinada a assegurar ao pai que a criança era dele, e por isso decidira não levar

para o lado pessoal.

Fibras do tapete já estavam se acumulando no vestido preto de Grace. Se

estivesse de calça, já teria trocado de roupa. Emma Kate parecia estar tendo uma

explosão de energia inesperada, arrastando-se de costas e em seguida cruzando

uma perna sobre a outra. Seu minúsculo rosto estava enrugado em concentração,

a boca contraída no tamanho e no formato de um único Cheerio.

— Você consegue! — Grace se viu dizendo.

Ela assistiu enquanto a bebê chutava e se debatia, tentando fazer com que seu

corpo lhe obedecesse. Como devia ser difícil ter tão pouco controle. Grace

agarrava os fios do tapete. Percebeu que estava resistindo a ajudar Emma Kate

não porque não queria, mas porque torcia por aquele momento de minúsculo triunfo para a pequena pessoa a seu lado.

A bebê se contorceu. Seu macacão se franziu. E então, em câmera lenta,

Emma Kate virou de barriga para baixo, e Grace bateu palmas. Sem querer. Ela

aplaudiu a filha, que parecia desproporcionalmente satisfeita consigo mesma, e

então — por que não? — Grace a ergueu e a girou no ar.

— Você conseguiu! Você conseguiu! Você é incrível! — disse ela naquela

vozinha sussurrante infantil que antes acreditava ser apenas levemente menos

insuportável do que quando as mães falavam com seus filhos em tom meloso em

um nível de decibéis projetado especificamente para que as pessoas ao redor

ouvissem: Ah, não, Timmy, objetos de decoração são para ver com os olhos, não

com as mãos!

Grace fez um high-five em miniatura com a filha e — ela não queria agourar

— pensou que as duas provavelmente tinham compartilhado o que algumas

pessoas (não Grace, pelo amor de Deus) chamariam de um “momento mágico”.

Sem se sentir culpada, ela aumentou o volume novamente para ver Friends e

relaxou no sofá, desta vez com a cabecinha de Emma Kate apoiada no ombro.

A campainha tocou. Balançando a bebê, Grace foi descalça até a porta e a

abriu. Do outro lado, os detetives Martin e Diaz, com expressões exaustas

idênticas, como se o cansaço também fosse fornecido pelo departamento.

Se lembrar de alguma coisa, ligue para nós, foi o que a detetive Martin disse.

Bem, Grace havia se lembrado de uma coisa. Ela pensara bastante naquilo.

A detetive Martin piscou. Uma sombra azul cintilante cobria suas pálpebras.

O cabelo castanho se projetava como um algodão-doce da parte de trás da

cabeça.

— A senhora disse que se lembrou de algo que poderia ser relevante, sra.

Stanton?

Transcrição do interrogatório de Grace Stanton

Parte I

 

27 DE ABRIL

 

PRESENTES:

Detetive Malika Martin

Detetive Oscar Diaz

 

AUTOS

DET. MARTIN: Sra. Stanton, a senhora nos ligou porque se lembrou de algo

que pode ser relevante para a investigação da morte de Ames Garrett. Para que conste dos autos, poderia repetir o que nos relatou?

SRA. STANTON: Pouco antes do suicídio, a Katherine foi até a minha sala

e disse que o Ames queria falar com ela.

DET. MARTIN: A senhora sabe o que o sr. Garrett queria com ela? SRA. STANTON: Não exatamente, mas ela deu a entender que era algo

relacionado a uma discussão que os dois haviam tido pouco tempo antes, quando, pelo que entendi, ela rejeitou as tentativas de sedução dele.

DET. MARTIN: A senhora está ciente de que Katherine afirma que essas

tentativas de sedução nunca aconteceram.

SRA. STANTON: Ela está mentindo.

DET. MARTIN: A senhora acredita que ela não está dizendo a verdade, e

que Ames Garrett fez investidas sexuais em relação a ela.

SRA. STANTON: Acredito que ela tenha mentido para alguém. Ou não estava

dizendo a verdade para nós naquela época ou não está dizendo a verdade para vocês agora. O que o senhor acha mais provável? Especialmente considerando que o Ames estava pagando o quarto no qual ela ficou hospedada no Prescott. Ela contou isso a vocês? Não só isso, mas vi uma chave do Prescott na carteira dele. Não tenho certeza se ainda estava lá quando ele… Quando ele morreu. Mas mesmo assim. Estava lá.

DET. MARTIN: Por que não mencionou essa informação em nossa conversa

inicial?

SRA. STANTON: Só me ocorreu mais tarde. Havia muita coisa acontecendo.

Não consegui organizar meus pensamentos. Mas compartilhei essa informação com minha advogada. Recentemente. A parte, pelo menos, sobre o Ames ter pagado a estadia da Katherine.

DET. MARTIN: Então o fato de só estar nos contando isso agora não tem

nada a ver com o fato de que, desde nossa primeira conversa, Katherine se aliou a seu empregador, a Truviv, e prestou depoimento como testemunha contradizendo diretamente suas alegações e as alegações de suas colegas?

SRA. STANTON: Não, claro que não.

DET. MARTIN: Grace, você fuma?